Descobertas

Tiago foi o primeiro a acordar na manhã seguinte. O relógio marcava pouco mais de sete horas. Sentou-se na cama, observando o quarto, levemente embaçado. Procurou os óculos, mas não os encontrou. Só então lembrou-se de que não estava em seu quarto, e Lílian dormia ainda, ao seu lado.

- Líli... - falou mansinho, acordando-a. - Já está na hora de levantar.

Lílian acordou, e ficou olhando para Tiago.

- Que horas são?

- Sete e dez...

A garota continuou deitada, olhando para o teto.

- Está tudo bem, Lílian?

- Você nem imagina o quanto, - falou a garota, rindo. Ela sentou-se na cama, e olhou para Tiago. O rapaz parecia extremamente encabulado.

- Relaxa, Tiago.

- Só estou pensando no que a sua mãe pediu para a minha...garantir que iríamos ficar em quartos separados...

- Sua mãe e a minha não vão ficar sabendo, se nós não contarmos.

- Então vou voltar para o meu quarto...daqui a pouco minha mãe se levanta, vai me acordar...

Tiago levantou-se e colocou o pijama novamente.

- Espera uns cinco minutos, e aí você se levanta também...

- Pode deixar

- Te amo, - sussurrou para Lílian.

O rapaz saiu cautelosamente do quarto da namorada, e fechou a porta. Virou-se para o corredor e...

- Tiago? O que você...- Remo estava saindo do quarto em frente, já vestido.

Tiago empurrou Remo de volta para o quarto, e fechou a porta.

- Fica quieto, não comenta nada enquanto não estivermos de volta a Hogwarts.

Um sorriso malicioso surgiu no rosto de Remo, mas não falou nada. Deixou o amigo voltar para o quarto, e desceu para tomar café da manhã.


A volta às aulas não foi tão prazerosa quanto Lílian imaginava. Logo que chegaram, ela e Tiago foram chamados pela Profª McGonnagal, para se explicarem o "pequeno incidente" durante o Natal.

- Estou decepcionada, Potter e Evans, com o comportamento dos dois. Não se deve usar a magia para intimidar trouxas, estou cansada de repetir isso para os meus alunos.

- Foi um incidente, professora. E nós já recebemos a carta de advertência do Ministério. - Tiago falou, irritado.

- Eu apenas os estou alertando, Potter. Vocês se formam daqui seis meses, já deveriam saber que não podem fazer mágicas fora de Hogwarts.

Os dois ficaram em silêncio.

- Podem voltar para a sala comunal. Não vou dar detenção para vocês.

As aulas recomeçaram no dia seguinte, em ritmo acelerado. Os deveres aumentavam a cada dia, e quase não tinham tempo para treinar quadribol. A Profº McGonnagal finalmente começou com as aulas de Transformação Humana.

- Seres humanos se tranformando em animais ou objetos - dessa forma a professora iniciou a aula - esta é a última etapa do aprendizado em Transformação. Hoje vamos abordar os primeiros tópicos da matéria, e tirar as eventuais dúvidas que tiverem a respeito da transformação humana.

A professora fez extensas anotações no quadro-negro, que todos copiaram com atenção. No final da aula, começou a tirar as dúvidas dos alunos.

- Qual é a diferença entre a simples transformação e se tornar um animago, professora? - Lílian perguntou, curiosa.

- Ao se tornar um animago, você adquire a capacidade de se transformar sempre no mesmo animal, automaticamente, sem o uso de varinhas.

- E é muito difícil virar um animago? - Sirius perguntou, inocentemente, arrancando risos de Remo, Pedro e Tiago. Ninguém ali sequer sonhava que os três haviam conseguido tornar-se animagos, clandestinamente, passando por cima de pelo menos cinquenta regras de conduta.

- Muito, Sr Black. Leva pelo menos seis meses para se obter a autorização do Ministério, e mais uns dois anos para concluir o processo. Foi esse o tempo que eu gastei para me transformar.

O sinal tocou, e a turma se preparou para sair da sala.

- Não se esqueçam de responder o questionário da página 150 do livro de vocês, para a próxima aula.

Remo e Sirius sairam juntos, o mais rápido possível da sala de aula, e explodiram em risadas. Tiago e Pedro logo juntaram-se aos dois, e os quatro rapazes correram para a sala comunal.

- "Demora muito para se tornar um animago, professora"!!! - Tiago imitou Sirius, em voz de falsete, o que provocou mais risadas.

- Essa vai ficar gravada para sempre...Sirius Black, a criança inocente - disse Pedro, sacudindo-se de tanto rir.

- Isso prova que nós somos muito mais inteligentes que a maioria dos alunos - comentou Sirius, forçando um ar de superioridade.

Tiago tirou uma tabela lunar de dentro do bolso, e começou a estudá-la com atenção.

- A próxima lua cheia será daqui duas semanas, num sábado - avisou aos amigos, como se dissesse algo totalmente banal, como se o fato de Remo ser um lobisomen fosse absolutamente normal.

- É o dia do nosso próximo jogo, contra Lufa-Lufa.

- Ótimo! Vocês ganham o jogo, e nós sairemos para comemorar a vitória ao nosso modo. - Remo emendou, o brilho de excitação nos olhos.


O professor Kerrigan continuou sua aula prática sobre dementadores no final daquela semana. Iria mostrar como afastá-los.

Os alunos caminharam, mais uma vez, em direção aos portões de entrada, ao encontro daquelas horrendas criaturas. Lílian não esquecia a péssima sensação que eles provocavam, mas parecia um pouco mais segura de si mesma.

A pior parte das aulas de Defesa Contra as Artes das Trevas era ter de aturar os alunos da Sonserina. Enquanto caminhavam, Lílian, Isabella e Denise não puderam deixar de ouvir a conversa entre Narcissa e suas amigas.

- Vamos marcar o casamento para o começo do ano que vem.- Exibiu o anel de noivado para as garotas, fascinadas - Lúcio me disse que mereço todas as jóias do mundo.

- Se eu fosse noiva de um traste feito o Malfoy - Lílian comentou, em voz alta - teria vergonha de andar me exibindo pela escola inteira.

Isabella cutucou Lílian. Narcissa parou no meio do caminho, e encarou as garotas da Grifinória.

- Algum problema, Evans?

- Infelizmente, sou obrigada a assistir essa aula em sua companhia. De resto, tudo bem.

- Soube que você e o Potter também ficaram noivos - disse, com desdém, olhando para a aliança que Lílian exibia. - Só gostaria de entender o que ele viu em uma sangue ruim como você.

- Provavelmente muito mais do que o Malfoy viu em você, Narcissa. Será que ele é tão burro a ponto de não perceber que você só está atrás de um marido rico?

A garota ficou vermelha. Era sabido e comentado, que a família Stevens estava falida, e que Narcissa só aceitou namorar Lúcio Malfoy pelo status que o nome e o dinheiro da família dele trazia.

Finalmente, chegaram a saída da escola, e pararam no mesmo local da última aula. O Profª Kerrigan mandou os alunos formarem um círculo, e ficou no centro, visível a todos.

- A fórmula desse feitiço é bastante simples. O complicado é conjurar o Patrono, uma espécie de força, que afastará o dementador. Repitam comigo: EXPECTO PATRONUM!

Os alunos repetiram, concentrados . Da ponta das varinhas, começou a sair uma fumaça prateada.

- Muito bem. Agora, prestem atenção: para o feitiço dar certo, e vocês conjurarem um patrono com perfeição, deverão ter em mente um momento muito feliz, e pensarem nele com total intensidade. Daí, apontem a varinha, e falem expecto patronum, sempre mantendo um pensamento extremamente feliz e agradável. Podemos começar?

Dessa vez, o professor os mandou de um em um, enfrentar os dementadores. Nem todos os alunos conseguiram um resultado. Boa parte voltou decepcionada, não conseguindo conjurar um patrono forte o suficiente para afastar os dementadores. O primeiro a conseguir foi Snape, que voltou completamente satisfeito,pelos dez pontos que ganhara para a Sonserina e, principalmente porque Sirius, o próximo a enfrentar, fracassou. Esboçou um sorriso de escárnio, ao vê-lo voltar, irritado. Logo após Sirius, foi a vez de Lílian. Não precisou de esforço para concentrar-se. Somente lembrou-se da noite que passara com Tiago e ...

- EXPECTO PATRONUM!,!EXPECTO PATRONUM!!

Uma forma difusa, prateada, saiu de sua varinha e investiu contra os dementadores. Parecia-se com homem, mas Lílian não conseguiu decifrar a forma que tinha.

Voltou-se para a turma, e foi aplaudida pelo professor.

- Muito bem, Srta Evans. Foi um bom patrono. Dez pontos para a Grifinória.

Voltou satisfeita consigo mesma, para a sala comunal naquela noite. Estava sentindo-se extremamente feliz. Os dementadores não a fizeram lembrar-se do dia da morte de seu pai; estava completamente apaixonada por Tiago e tinha amigos, com os quais podia contar em qualquer momento. Não precisava, naquele instante, de mais nada para sentir-se bem.


O jogo contra a Lufa-Lufa começou às onze horas da manhã, debaixo de um clima de grande excitação. Se a Grifinória vecesse, iria para a final do campeonato, disputando a taça com a Sonserina.

A Lufa-Lufa era o adversário mais fraco, mas também o que mais jogava limpo. Não houve violência excessiva, nem golpes sujos. Tiago e Sirius deram um show de habilidade com seus bastões, sabendo exatamente o momento certo de arremessar os balaços nos artilheiros e apanhador adversários. Crouch, por sua vez, desviava dos balaços adversários, mergulhava com habilidade, distraía a atenção do outro apanhador. Lílian defendia com perfeição, evitando que Lufa-Lufa marcasse pontos.

Crouch então mergulhou mais uma vez, e, a pouco mais de dois metros do chão, localizou o pomo, brilhando. Abriu a mão, e agarrou a minúscula bola, sentindo-a vibrar entre seus dedos. Instantes depois, o time todo estava embolado, comemorando a vitória.

- Temos uma vantagem de cento e cinquenta pontos sobre a Sonserina - informou Tiago, já na sala comunal, durante a comemoração. Portanto, quanto mais pontos marcarmos, melhor.

- Sonserina já é nossa freguesa há um bom tempo, Tiago. Não precisamos temê-los - disse Jennifer, a artilheira do quinto ano.

- Mas eles jogam sujo, Jen - Lílian comentou, preocupada - Nossos jogos sempre acabam em pancadaria.

- Sem exagerar, Líli. São eles que provocam, nós apenas revidamos.

- Não vamos esquentar a cabeça, temos meses ainda para o próximo jogo. Vamos aproveitar mais essa vitória. - Tiago pegou sacas de doces da Dedosdemel, e distribuiu entre os colegas, surpresos.


Eram cerca de uma hora da manhã quando Sirius, Tiago e Pedro finalmente desceram para a sala comunal. Precisaram esperar muito tempo, devido ao prolongamento da festa. Tiago carregava a capa da invisibilidade dobrada nos braços .

Lílian saiu do quarto, para encher a jarra de água, e surpreendeu os três cochichando, enquanto se aproximavam do buraco do retrato.

- O que vocês estão fazendo?

Os três viraram-se surpresos, encarando Lílian, parada no meio da sala, com a jarra vazia na mão.

- Nada, não Lílian...

- Como nada? Vocês estão sem pijamas, estão aprontando alguma?

- E você, o que está fazendo aqui?

- Eu vim buscar água, Tiago. Então? Vão me esconder o que pretendem fazer?

- Vem com a gente, nós explicaremos pelo caminho...

- Tiago...você ficou louco?

- Já está na hora da Lílian saber...

- Saber o que, Tiago? - Lílian perguntou, irritada e curiosa ao mesmo tempo.

- A gente te explica no caminho.

Tiago abriu a capa, e cobriu a garota.

- É uma capa da Invisibilidade, nós a usamos para andar a noite pelo castelo.

- Eu não acredito...

Os quatro saíram silenciosamente da sala comunal, e desceram em direção as escadarias, que davam acesso ao hall de entrada. Deixaram o castelo, e caminharam lentamente através dos jardins, até chegarem próximos ao Salgueiro Lutador.

- Pedro, Sirius, vocês descem, e façam com que o Remo fique aí dentro hoje. Eu vou com a Lílian até os arredores de Hogsmeade, explico tudo para ela, e nós nos encontramos na saída do vilarejo. Tudo bem ?

- Tá certo. Vai, Pedro, e anda logo.

Lílian olhou assombrada: no lugar onde Pedro estava, surgiu um rato, que correu por debaixo da capa, passou por debaixo dos galhos violentos da árvore, e apertou o nó do tronco. Em seguida, foi a vez de Sirius. Transformou-se em um enorme cão negro, quase do tamanho de um urso, e segui o rato. Os dois desapareceram por debaixo das raízes, entrando no túnel.

- Tiago...eles...são animagos?

O rapaz concordou com a cabeça.

- Vem, - sussurrou para Lílian - eu te explico com calma.

Caminharam cerca de dez minutos, até entrarem em Hogsmeade. Seguiram pela rua Principal, e entraram em um beco. Lílian, por debaixo da capa, encarou Tiago, esperando maiores explicações.

- Tudo bem...o que eu vou te contar é segredo absoluto. Ninguém pode saber.

Respirou fundo, e começou a contar.

- Nós nos tornamos animagos há quase dois anos.

- Nós...quem?

- Eu, o Sirius e o Pedro, como você acabou de ver.

- Sem registro?

- Lógico, nós somos menores de idade.

- Tiago, eu não acredito!!! Para que se arriscarem desse jeito?

- Por causa do Remo. Quando nós descobrimos...bem, que ele é um lobisomem. Para podermos fazer companhia a ele, durante a lua cheia.

- E vocês me esconderam isso todo esse tempo?

Tiago ficou em silêncio, não havia como responder. Na verdade, nunca ocorrera contar a Lílian, era um segredo apenas deles, dos garotos. Mas não sabia como dizer isso à garota, sem magoá-la. Lílian não fez mais perguntas.

- Esta capa eu ganhei do meu pai. - Tiago comentou, como se pedisse desculpas.

Foi quando ouviram um grito, horrível, tomar conta da noite.

- O que foi isso, Tiago?

Logo em seguida, outro grito, seguido de gargalhadas, horríveis, frias. Era a voz de uma mulher, desesperada, gritando de dor.

Sirius e Pedro entraram no beco, correndo, quase derrapando. Tiago abriu uma brecha na capa, e os dois se esconderam. Imediatamente, voltaram a sua forma humana.

- Comensais da Morte, Tiago. Cinco deles, torturando uma garota.


Não precisou de muito tempo para Lílian e Tiago horrorizarem-se com a afirmação de Sirius. Os berros da garota eram mais audíveis, a medida em que ela era arrastada pela rua. Os Comensais da Morte jogaram a garota no chão, e deram novas gargalhadas. Estavam quase em frente ao ponto em que os quatro estavam escondidos.

- Sua sangue-ruim, é por causa de gente da sua laia que o mundo está podre. O Lord das Trevas surgiu para limpar os trouxas da face da Terra. Agora, implore piedade!!!

- NUNCA!!!

O Comensal da Morte deu nova gargalhada, e apontou a varinha para a garota:

- Crucio!!

A garota gritou novamente.

Tiago e Sirius segurarm Lílian com toda força, para que a garota não fizesse nenhuma besteira. Estava vermelha de raiva.

Poucos instantes depois, cerca de vinte bruxos, altos e fortes, vestindo vestes branco e prata, aparataram, causando confusão e pânico entre os Comensais da Morte. Eram Aurors .O que ainda torturava a garota, desaparatou imediatamente, deixando os seus companheiros sozinhos.

- Impedimenta!

O Auror mais velho lançou o feitiço sobre os quatro Comensais restantes, evitando que eles fugissem.

- Mais quatro para Azkaban, esta noite. Pensaram que iriam fugir de Alastor Moody? Hein?

Deu um chute no Comensal mais próximo, já amarrado.

- Nojentos.

Um rapaz jovem, alto e loiro, aproximou-se da garota, acuada.

- Tudo bem com você?

A garota assentiu com a cabeça.

- Você mora em Hogsmeade?

-Mo..moro. Por favor, quero ir embora.

- Nós já vamos levá-la. Sr Moody?

O Auror mais velho aproximou-se do jovem.

- Pois não, Longbottom?

- Precisamos levá-la para casa.

- Crouch vai querer interrogá-la.

- Ela não está em condições, Sr Moody.

- Tudo bem, leve-a para casa.- Moddy virou-se para a garota - Mas amanhã vamos voltar, e levá-la pra depor, tudo bem? - O Auror tocou os cabelos da garota, carinhosamente. Em seguida, deu ordens para levar os Comensais da Morte capturados.

A rua estava deserta novamente. Não ouviram mais ruído algum, exceto os que vinham dos animais da Floresta Proibida.

Lílian estava vermelha, queimando de raiva. Tiago e Sirius a encararam, preocupados.

- Meu amor, se acalma, por favor. - Tiago a segurou pelos ombros.

- Vamos embora daqui, por favor. Estou quase vomitando.

Cobriram-se novamente, e voltaram para Hogwarts.

Capítulo 12...

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