Não era sempre que Sirius ficava irritado com sua família e amigos. Já fazia tanto tempo que estava acostumado a trabalhar com um monte de gente em torno dele, que tinha se habituado a não deixar que isso afetasse sua concentração. Mas, aquela noite, o falatório sem fim deles o irritou tanto, que teve que se esforçar para não dar uns tapas em Percy, um dos filhos de Molly e Arthur Weasley, o mais barulhento de todos.

Felizmente, Andromeda sempre percebia quando as coisas estavam ficando muito difíceis de aguentar para seu primo e, com algumas palavras firmes, tirou todos da sala. Depois, abaixou o volume do rádio, serviu outra xícara de chá e empurrou-a através da mesa.

- Beba enquanto está quente - disse. - Vai lhe fazer bem.

Sirius sorriu cansado e obedeceu.

- Teve um dia duro?

- Já tive outros piores. James está lutando com valor. O páreo vai ser duro.

- Ainda acho que você vai vencer.

- Palavras de prima. - A campainha tocou e ele gemeu. - Não quero ver ninguém, esta noite. Atenda e arrume uma desculpa qualquer, por favor.

Docilmente, Andromeda concordou, mas quando voltou para a sala, não estava sozinha e Sirius deu um pulo, quando viu quem a acompanhava.

- O que está fazendo aqui? - perguntou com grosseria.

- Sirius! - Andromeda falou antes que Marlene pudesse fazê-lo. - Que maneira de falar com uma visita! - Virou-se para a garota. - Não ligue para ele. Está cansado.

- Não fique arrumando desculpas para o meu mau humor, Andromeda - Sirius falou, com azedume. - Tenho certeza que Marlene não espera que eu seja educado.

Andromeda saiu, fechando a porta atrás dela, e Sirius indicou uma cadeira para Marlene.

- Minha prima está certa - ele disse hesitante. - Fico com um humor horrível, quando estou cansado. Desculpe.

- Não foi nada. Na verdade, quem deve lhe pedir desculpas sou eu. Foi por isso que eu vim.

- Pedir desculpas? Por quê?

- Por eu ter esbofeteado você naquele dia.

Por alguns instantes, Sirius deu a impressão de estar embaraçado, depois sorriu.

- Acho que eu mereci.

- Sei que mereceu - ela disse com frieza. - Mas uma má ação não justifica outra.

- Você não disse que veio até aqui para me pedir desculpas? - Sirius perguntou com ironia.

- Disse, mas você sempre me irrita, e eu acabo perdendo a paciência.

- Pelo menos, isso mostra que você é humana. - Puxou uma cadeira e se sentou à cavaleiro, de frente para ela. - Até você me bater, naquele dia, sempre a achei calma e fria como uma esfinge.

- E é errado ser calma?

- Só quando a pessoa começa a se tornar fria demais.

Marlene prendeu a respiração.

- Você não tem papas na língua, não?

- É o meu problema. Sempre falo antes de pensar.

- É um hábito que devia perder. Isso pode afetar sua carreira política.

- Você está coberta de razão - ele caçoou. - Talvez eu esteja precisando de uma esposa, para me curar dos meus maus hábitos e me transformar num cavalheiro. Não quer se candidatar ao emprego?

- Mesmo que quisesse, não teria sucesso. É preciso ter muita capacidade e vontade de trabalhar numa tarefa tão árdua.

- Você também não tem papas na língua - comentou, balançando a cadeira para frente e para trás. - Esse golpe foi bem baixo.

- Acho que nenhum de nós está preocupado com o lugar que nossos golpes atingem. Nossas conversas sempre acabam em verdadeiras lutas livres.

- A culpa é tanto minha quanto sua - Sirius respondeu com generosidade. - Fique mais um pouco e tome uma xícara de chá. Só para provar que podemos conversar, sem brigar.

- Não posso. Papai está me esperando para jantar.

Sirius levantou as sobrancelhas, já zangado.

- Já pensou em desobedecê-lo? Ou tem medo?

- Medo do quê?

- De ser independente.

- Se eu quisesse ser independente, poderia ser. Mas acontece que prefiro fazer o que meu pai quer.

- Por quê?

- Porque eu lhe devo isso.

- Você lhe deve isso? Como assim? - Ele estava perplexo.

- Eu lhe devo obediência e... - hesitou. - Obediência e amor. Sou tudo o que papai tem. Se ele tivesse outros filhos... se ele tivesse um filho...

- Meu Deus! Parece que você está precisando de um psicólogo. - O tom de Sirius era o de quem não estava acreditando no que ouvia. - Não me diga que tem complexo de culpa, por não ter nascido homem?

- É tão difícil assim, para você, entender? Não consegue imaginar como papai se sentiu, quando descobriu que minha mãe não poderia mais ter filhos, depois que eu nasci? Ele queria desesperadamente ter um filho... para herdar seu título.

- O título não vai desaparecer – Sirius disse, ainda espantado. - Não posso entender esse seu sentimento. É tão fora da nossa época.

- É porque você foi educado de modo diferente do que eu fui. Para mim, é natural sentir isso. É lógico.

- Não é lógico - ele corrigiu. - É um jeito emocional de sentir.

- Pelo menos você admite que sou capaz de sentir emoções.

Os olhos de Sirius pousaram em sua boca e ela soube, na mesma hora, que ele estava se lembrando do modo como tinha reagido aos beijos dele. Marlene o examinou rapidamente, vendo o quanto estava exausto e como seu rosto estava pálido e marcado por linhas de cansaço. Será que seu cabelo sempre tinha sido tão rebelde? Que vontade de correr os dedos por entre eles...

De repente, Marlene parou de pensar, arrependida de ter seguido o impulso de vir até ali. Lily é que era a culpada. Lily é que estava tentando fazer com que ela se apaixonasse por outra pessoa, e deixasse James. No entanto, Marlene nunca tinha amado James. Ele nunca foi capaz de excitá-la como Sirius fazia. Seu coração começou a bater com força, e Marlene sentiu medo que Sirius visse a artéria que pulsava em seu pescoço.

- Preciso ir - sussurrou.

Em silêncio, ele a acompanhou até seu carro.

- Nunca teve vontade de lutar por alguma coisa em que acreditasse? - ele perguntou, quando ela se sentou atrás da direção.

- Até hoje, não. Mas agora resolvi lutar por uma coisa.

- Posso saber pelo quê?

- Minha liberdade - Marlene respondeu vagarosamente. - O direito de fazer exatamente o que quero.

Havia tanta tristeza em seus olhos, que Sirius sentiu uma vontade enorme de tirá-la do carro e abraçá-la. Estava fazendo tanto esforço para se controlar, que quando falou sua voz saiu rouca e áspera.

- Se quer mesmo sua liberdade, deve lutar por ela.

- Sem ligar para quem eu possa ferir? Você fala por experiência própria, não é?

- Não se pode fazer uma omelete sem quebrar os ovos.

- Detesto omeletes - disse com raiva e, pisando com força no acelerador, saiu dali.

Com uma sensação de inutilidade, o que raramente acontecia com ele, Sirius foi para seu quarto, o único lugar onde podia ficar, sem ser perturbado. Ver Marlene estava se tornando um tormento cada vez maior e ele lamentava o dia em que a beijara pela primeira vez. Até agora, ainda não tinha descoberto por que fizera aquilo. Só sabia que, quando Marlene caminhou na direção dele, lá nos bosques, esbelta e indiferente, sentira-se tão excitado quanto um adolescente. Ela ficaria surpresa, se descobrisse que, desde que era menino, ele já estava perdido de amor por ela.

- Mas agora, não - Sirius murmurou. - Tenho coisas melhores para fazer do que desperdiçar a minha vida querendo uma mulher que tem medo até de admitir que simpatiza comigo.

Endireitando os ombros num gesto de briga que seu cabo eleitoral adoraria ter visto, Sirius foi para seu escritório. Tinha muitas coisas para fazer, e talvez no trabalho encontrasse um pouco de paz.


Na manhã seguinte, Lily estava a caminho da cidade, quando viu Sirius saindo do correio. Eles não se encontravam desde a noite em que tinha ido à casa dele, dizer-lhe que sua identidade fora descoberta. Estava imaginando se devia evitá-lo, quando ele a viu e caminhou para ela. De perto, Sirius parecia bem cansado: seu rosto estava cheio de rugas de preocupação e as mãos mexiam inquietas com um monte de folhetos.

- Faz tempo que não a vejo - disse.

- Tenho estado muito ocupada.

- Garantindo a vitória de James? - Ela corou e ele colocou a mão em seu braço. - Desculpe, Lily. Falei sem pensar. Vamos tomar um café?

- Acha que não tem importância nós sermos vistos juntos?

- E se tivesse? Você me é mais importante como amiga do que a carreira política.

Lily o acompanhou até um bar ali perto, onde já tinham estado uma vez. Depois que o líquido claro que os ingleses chamavam de café foi colocado na frente deles, começou a examinar o rosto dele.

- Você não está com uma boa aparência. Sirius. É por causa de Marlene?

- O que ela tem a ver com isso?

- Você está apaixonado por ela. Eu...

- Pelo amor de Deus! - ele explodiu. - Quer parar com esse martírio?

- Você e Marlene é que estão se martirizando.

- Não me diga que falou nessa tolice para ela. - Sirius estava furioso. - Droga, Lily. Precisa parar de interferir na vida dos outros.

- Está bem. - Lily o olhou de frente, sem piscar. - Continue fingindo. Você e Marlene. A vida é tão curta e sem significado, que não tem importância se passarem por ela representando.

- Não. - A voz dele soou angustiada. - Você sabe que eu não acredito nisso. Mas... - Ele sacudiu a cabeça. De que adiantava continuar lutando contra seus sentimentos? É claro que amava Marlene. E a amaria por toda sua vida. - Você tem razão. Mas de que me adianta isso? Eu e Marlene nunca poderemos ser felizes juntos.

Os lindos olhos de Lily se encheram de lágrimas.

- Precisa tentar. Marlene o ama também. Nunca admitiu isso para mim, mas eu sei.

- Está enganada, ela é uma digna filha de Lord McKinnon. Mesmo que gostasse de mim...

- Ela o ama.

- Mas ama mais ainda o pai dela.

- Talvez o ame tanto quanto a você - Lily concedeu -, mas não mais. É por isso que você precisa mostrar a ela o caminho.

- Mostrar a ela o caminho?

- Dizer-lhe como se sente.

- Mesmo assim, ela nunca faria uma coisa que pudesse aborrecer o pai.

- Já lhe pediu para se casar com você?

- Está louca?

- Então, como quer que Marlene deixe o pai? Está esperando que ela o peça em casamento?

- Está querendo que eu faça papel de tolo? E sabe tão bem quanto eu que a menos que Marlene resolvesse enfrentar Lord Mckinnon, nunca teríamos uma chance de sermos felizes.

- Precisa lhe dar uma razão para enfrentar o pai.

- Não tenho intenção de fazer o primeiro movimento.

Lily levantou as mãos para o céu

- Você é teimoso como uma mula! Você precisa fazer o primeiro movimento... ela precisa fazer o primeiro movimento... Nunca ouvi falar tanto em movimento, com todo mundo parado. - Inclinou-se para ele. - Se encorajar um pouco Marlene... o suficiente para ela saber que está em seus pensamentos, tenho certeza que ela vai achar coragem para enfrentar o pai.

- Não posso falar com Marlene. Ela riria na minha cara.

- Pobre garotinho! – Lily caçoou, mostrando-se cruel pela primeira vez, desde que o conhecia. - Não tinha percebido o quanto você é covarde.

O rosto de Sirius ficou tão vermelho quanto o cabelo de Lily.

- Vamos deixar esse assunto de lado - disse, tenso.

Lily concordou.

- Não vou mais tomar o café. Está muito fraco.

- Eu também não. - Deixou algumas moedas sobre a mesa saiu com ela do café.

- Continuamos amigos? - Lily perguntou, com voz abafada.

Sem hesitar, ele segurou seus ombros.

- Sempre, Lily, sempre.


Olá gente! Que saudade (: Lily sabe ser cruel quando quer, mas Sirius precisava cair na realidade e quanto a Marlene... bom Marlene vai finalmente enfrentar o pai? Obrigada LaahB, Joana Patricia, ClauMS e dafny pelas reviews. Beijinhos :*