Severus sentiu -se profundamente impotente ao ouvir o choro de Hermione durante a noite. Finalmente ela quebrara ao fim de tanto tempo e ele não podia ajudá -la , deitado no quarto de hóspedes.
Antes de abandonar o quarto, ela deixara a porta entreaberta para o caso de haver algum problema, o que permitia a Severus ouvir os soluços abafados da rapariga na sala. Ele sempre tivera bom ouvido, mesmo quando estava cansado.
E Severus Snape estava cansado. A chamada de Voldmort e a luta contra a mesma drenara toda a sua energia. Ele mal conseguia levantar a cabeça da almofada.
Após certa altura o choro pareceu acalmar e depois Severus só conseguiu ouvir murmúrios esporádicos.
Imaginando que Hermione finalmente conseguira adormecer, Severus deixou -se dormir também, plenamente consciente que gostaria de fazer bem mais do que estava a fazer pela pobre rapariga.
O hábito fê -lo acordar primeiro de manhã. Sentindo -se um pouco mais recuperado, Severus ergueu -se devagar da cama e caminhou apoiado na parede até à porta do quarto.
Hermione ainda estava adormecida no sofá, com uma cara que denunciava perfeitamente o seu esgotamento da noite anterior.
Severus seria o primeiro a admitir que nunca dera crédito à rapariga durante os anos de escola. Não o crédito que ela merecia, pelo menos. O que lhe deu uma nova resolução. Ela já o ajudara tanto nos últimos dias. Era altura de ele retribuir.
Severus voltou atrás, serviu -se da casa de banho de banho e vestiu -se com ajuda da sua varinha. Sabia que era perigoso mas naquele dia teria de fazer algumas excepções. Já com roupa lavada, Severus transformou um chapéu de chuva que estava a um canto numa bengala e apoiado nesta dirigiu -se à cozinha o mais silenciosamente que conseguiu para não acordar Hermione.
Alguns minutos depois os armários antes vazios estavam agora minimamente fornecidos e havia uma chaleira ao lume para fazer chá.
A necessidade de ser útil de alguma forma sobrepôs -se ao medo de ser descoberto pelos Devoradores de Morte. Quando o chá ficou pronto, Severus preparou uma chávena para Hermione e só então se dirigiu ao sofá.
Sentou -se cuidadosamente na borda deste e abanou ligeiramente Hermione do seu sono.
Ela acordou devagar ao inicio mas quando caiu em si levantou -se com um salto.
"Professor? O que faz de pé? Precisa de alguma coisa? Deixei -me dormir?"
Dessa vez Severus não conseguiu evitar soltar algo semelhante a uma gargalhada, o que deixou Hermione profundamente perplexa.
Sem dizer uma palavra, Severus entregou -lhe a chávena que tinha na mão.
Hermione ficou -se a olhar para a chávena como se acreditasse ainda estar a sonhar. Levou -a aos lábios e olhou com olhos muito expressivos o seu antigo professor.
"Está… Exatamente como eu gosto. Como é que…"
"Eu observo." Limitou -se ele a dizer, com um sorriso nos lábios.
Hermione não sabia o que a surpreendia mais. Se o chá, se o comportamento de Snape. Onde estava o sacana e sarcástico morcego das masmorras?
"Sente -se bem?"
"Deixa -me ser eu a perguntar: Como te sentes?" A voz dele arrastava -se bastante, o que denotava a dificuldade que ele ainda tinha em falar.
Hermione olhou para ele por mais uns minutos antes de suspirar e relaxar.
"Cansada. Exausta. Preocupada. Cheia de medo." Confessou ela.
"Com fome?" Tentou ele. Isso ganhou -lhe um sorriso tímido da parte dela.
"Também."
"Então vamos comer, minha pequena."
"Há comida?"
"Sim, na mesa. Vamos?" Confirmou ele, levantando -se com a ajuda da bengala e esticando uma mão para ela.
Hermione levantou -se também e ajeitou a roupa antes de o seguir para a cozinha.
Ao olhar dela não escapou a bengala na qual ele agora se apoiava. Sabendo que não existia nenhuma na casa, Hermione sabia que ele tivera de transformar alguma coisa. Um arrepio percorreu -a de alto a baixo ao pensar que se ele continuasse a usar magia àquele ritmo poderia fazer com que fossem descobertos rapidamente. No entanto ela sabia muito bem que Severus Snape nunca faria nada de que não estivesse certo e seguro. Ela tinha de confiar nele.
Hermione ajudou -o a fazer torradas e quando finalmente se sentaram à mesa a comer, fizeram -no com satisfação.
No final, Severus preparou -se para se erguer mas Hermione impediu -o pousando a mão numa das dele.
"Deixe -se ficar sentado. Eu cuido da louça."
Severus olhou -a por um momento antes de acenar positivamente.
Hermione demorou cinco minutos a arrumar tudo nos lugares, aproveitando entretanto para dar uma vista de olhos às suas novas provisões.
Snape ainda estava sentado à mesa, observando -a e parecia estar à espera dela. Ele afastou a cadeira onde antes ela estivera e fez sinal para ela voltar para lá.
"Senta -te Hermione. Por favor. Preciso de ... Falar contigo." - Pediu ele.
Hermione sentou -se virada para ele.
"Sobre o que quer conversar?"
"Futuro. O nosso."
Ouvi -lo pronunciar a palavra "nosso" foi muito estranho mas ela percebeu o que ele queria dizer.
" Se me permite, eu penso que poderíamos ficar aqui enquanto fosse seguro para lhe dar tempo para recuperar. Depois teremos de fugir do país de alguma forma. De preferência Muggle."
Snape ficou por alguns momento mergulhado nos seus próprios pensamentos, calculando as diferentes hipóteses.
"Concordo." -Disse por fim. "Alguém aqui se lembra de ti?"
"Talvez. Não sei. Não venho aqui à muitos anos. Mas penso que se modificar o meu aspecto talvez não consigam ligar -me à neta da dona desta passar como tendo arrendado a casa para férias. Ou por qualquer outro motivo."
"Como pensas mudar o teu aspecto?"
"Ainda não sei. Se me der algum tempo talvez eu consiga pensar em algo. E aceito sugestões, se tiver alguma."
"Nesse caso, pensaremos os dois. Agora vai tomar um banho. Vai fazer -te bem." Aconselhou ele.
Hermione assentiu e levantou -se. Quando estava quase a chegar à casa de banho voltou atrás, encontrando Snape a arrumar a cadeira na mesa.
"Professor?" - Chamou ela hesitante. Severus levantou o olhar para ela surpreendido. "Obrigada. Por ser simpático comigo." Agradeceu Hermione, baixando o olhar e corando violentamente.
Voltou a sair antes de Severus ter tempo de articular uma resposta.
"Não tens de quê, Hermione. Eu é que agradeço." Respondeu Severus na mesma, mais para si mesmo do que para ela.
