Elisa acordou naquele mesmo quarto com temas natalinos, tinha uma vontade imensa de ir ao banheiro e a barriga roncava tanto que achava que todos na oficina poderiam ouvir. Percebeu uma porta adjacente no quarto e suspirou aliviada ao perceber que era um banheiro. Enquanto o usava ainda ria internamente com a idéia de que estava na oficina do papai Noel, ou como preferia ser chamado, do norte. Olhou pro chuveiro sentindo sua pele grudenta e achou que poderia fazer um bom uso de um banho, mas qual roupa vestiria depois? Talvez procurasse a fada do dente, ou melhor, Dente para ver se ela poderia ajudar nessa questão. Não pôde deixar de rir de si mesma, cada frase que pensava parecia mais absurda que a outra, mas quem poderia culpá-la?. Apressou-se pra sair do quarto quando sua barriga roncou alto mais uma vez. Enquanto estava no corredor esbarrou com dente.
-oi, Elisa. Dormiu bem? Precisa de alguma coisa – a mulher-pássaro perguntou com um sorriso simpático no rosto, antes que Elisa pudesse responder alguma coisa sua barriga fez um barulho alto e constrangedor, fazendo com que um forte rubor tomasse o rosto da garota substituindo o pálido habitual. Dente não pôde evitar uma leve risada. –ok, entendi. Me siga.
Elisa seguiu a mulher-pássaro sem fazer qualquer pergunta, alguma coisa no seu sorriso gentil fazia com que Elisa confiasse nela. Não muito tempo depois chegaram a uma cozinha de tamanho médio, dente fez sinal para que Elisa tomasse um dos lugares a mesa, abriu o forno e depositou uma travessa de biscoitos na mesa, foi até uma maquina de café e alguns instantes depois depositou duas xícaras de chocolate quente na mesa também, tomou o lugar a frente de Elisa e a incentivou a comer. Elisa não demorou a obedecer, estava faminta e o cheiro estava ótimo. Ao provar a comida não pôde evitar o som de satisfação que escapou da sua garganta.
-então, Dente... Por quantas horas eu dormi?
-na verdade você dormiu por cinco dias... – Dente respondeu casualmente. Elisa quase cuspiu o chocolate quente.
-cinco dias? – perguntou surpresa. Logo se permitiu relaxar, uma duvida a estava perturbando, talvez a mulher a sua frente pudesse ajudá-la. – dente, eu não sei bem como perguntar isso, não sei bem quais palavras usar... Eu não entendo. Se eu estou... – teve que tomar uma boa respiração para continuar – morta, como posso dormir por tanto tempo? Como sequer posso sentir sono, cansaço, vontade de ir ao banheiro, fome... Pessoas mortas não sentem essas coisas, sentem?
Dente soltou um longo suspiro, ia ser difícil explicar a situação a garota
-Elisa, veja bem... Você não está bem, morta. Quer dizer, a sua matéria foi morta, mas você também não é um fantasma. Os guardiões estão em algum lugar entre humanos e espíritos. Nós não morremos de fome, não caímos de cansaço, mas podemos fazer isso se quisermos. Podemos comer ou dormir apenas por prazer, higiene é necessária pra qualquer um também – ela falou com um leve riso. - quanto à vontade de ir ao banheiro, querendo ou não ainda temos matéria, mesmo que nós tenhamos uma matéria própria. E seu cansaço exagerado, isso é apenas seu novo corpo se acostumando. Quando ele estiver adaptado você poderá sentir fome, mas nada exagerado nem vai poder morrer por isso, poderá sentir sono, mas também nada que te impeça de permanecer acordada.
Elisa se preparou para falar, mas antes que pudesse foi interrompida pela entrada pela entrada do garoto de cabelos brancos e olhos azuis e falou a si mesma internamente que a sensação de aquecimento no estômago foi por causa do chocolate quente que acabara de beber, e apenas por isso. O garoto se sentou ao lado de Dente, pegando alguns biscoitos e tomando um bom gole da xícara dela. Dente lhe lançou um olhar que ficava entre o indignado e o divertido, tomando a xícara de volta.
-a maquina está bem ali, levante-se e prepare uma xícara pra você!
-e fazer todo o trabalho pesado? Não, obrigada – ele respondeu com um sorriso brincalhão. Elisa notou que eles tinham uma boa dinâmica entre si, algo dentro de suas entranhas se remexeu e ela evitou que a tristeza tomasse conta de si, exceto pela sua avó ela nunca teve alguém com quem se dar bem como os dois a sua frente. O olhar de Jack se direcionou a ela. "É o chocolate quente" pensou novamente. – sobre o que estavam falando.
Elisa tentou responder, mas por alguns instantes se esqueceu como se falava e mesmo que não tivesse perdido a capacidade não sabia como resumir o assunto.
-ela estava tirando algumas duvidas sobre a adaptação. – dente respondeu por ela. Elisa não pode deixar de reparar um raio rápido de tristeza que se passou pelos olhos do rapaz, mas tão rápido quanto chegou, foi embora.
-você tem sorte El... – ele começou, mas logo se corrigiu – Elisa. Eu passei pela minha praticamente sozinha, exceto quando o homem na lua tentava me ajudar, mas aquilo era tão novo e assustador que eu realmente ficava com medo quando ele tentava falar comigo – Jack falou com um sorrisinho levemente triste, que sumiu assim que eu percebi. Dente estava de costas preparando mais uma rodada de chocolates quente.
-deve ter sido difícil pra você – Elisa falou sem tirar os olhos do dele
-e foi. Não tinha contato com os outros guardiões ainda então não tinha com quem conversar, minha vida era um tédio até encontrar... – ele então parou – até encontrar a Elsa – "até encontrar você" ele falou internamente. – nós compartilhamos uma ligação...
-uma ligação? Que tipo de ligação? – Elisa perguntou quase sem fôlego. Antes que pudesse receber qualquer resposta Dente a interrompeu.
-Elisa, você deve estar louca por um banho. Como você chegou cansada não deu pra dizer onde você poderia encontrar roupas e toalhas limpas. Uma das minhas fadinhas vai guiá-la. – assim que terminou a frase uma miniatura de Dente entrou no cômodo, pegando em um dos dedos de Elisa. Ela não pode deixar de olhar a criaturinha totalmente encantada. Olhou para Jack como se fosse falar algo mais, mas desistiu e seguiu a fadinha. Quando Jack viu a porta fechar e soube que era seguro que Elisa não ouviria olhou irritado para Dente
-por que você me interrompeu? Por que não me deixou falar pra ela?
-ela ainda está se acostumando a essa nova realidade, você não pode jogar outra suposta vida da garota em suas costas!
-não é suposta – Jack falou estreitando os olhos – ela é a Elsa. Eu sinto a ligação! – Jack então saiu da cozinha batendo a porta com força atrás de si. Não notou em sua raiva que havia feito o cômodo baixar uns bons graus
Dente continuou sentada com a xícara em mãos, o liquido completamente gelado, tentando convencer a si mesma que a única razão pela qual o havia interrompido o rapaz era a preocupação pelo bem estar de Elisa.
