NARUTO NÃO ME PERTENCE, NEM A HISTÓRIA! ONZE
A recepção tranqüila dos gêmeos à volta do pai e da mãe à ilha provou mais do que qualquer palavra o quanto eles haviam ficado bem em sua ausência, sob os cuidados de Anna, pensou Hinata, enquanto trocava as roupas de viagem. Gaara fora direto para o escritório checar seus e-mails.
Mas Hinata não estava no quarto apenas para se trocar. Ela abriu a bolsa e pegou o teste de gravidez que comprara em Atenas. Suas mãos tremiam levemente quando ela abriu o pacote e seus olhos se encheram de lágrimas enquanto lia as instruções. Seis anos atrás, quando fizera a mesma coisa, estava tão assustada, com tanto medo do possível resultado...
Também estava ansiosa agora, mas por razões diferentes.
As coisas haviam mudado desde que desconfiara de que poderia estar grávida novamente, Hinata tentou se tranquilizar. Quando Anna havia se referido ao seu amor por Gaara, em princípio quis negar. Mas logo a verdade ficou clara. Era óbvio que amava Gaara.
Talvez, se ela passasse por cima do próprio orgulho e dissesse a ele como se sentia, o bebê conseguisse construir uma ponte entre eles. Se já implorara para que Gaara lhe entregasse seu corpo, seria assim tão difícil implorar para que aceitasse seu amor? Para que essa criança nascesse como fruto da felicidade e do amor do pai e da mãe.
Hinata disse a si mesma que deveria ter fé que o amor que vira Gaara dedicar aos gêmeos não seria restrito só a eles. E entrou no banheiro.
Dez minutos mais tarde ela ainda estava parada no banheiro, o olhar fixo na linha colorida. Já havia percebido, é claro, era impossível não perceber os sinais. Mas ainda assim a confirmação visível era um choque. Concebera um filho de Gaara contra o desejo explícito de que aquilo não deveria acontecer. Hinata pôs a mão sobre a barriga ainda lisa e respirou fundo. Precisava contar a ele. E quanto mais rápido, melhor.
O súbito grito de raiva de criança que ouviu do lado de fora do quarto fez com que deixasse o teste cair sobre a pia de mármore, enquanto saía correndo pelas portas do quarto, em uma reação automática. No pátio, do lado de fora, encontrou os gêmeos brigando por causa de um brinquedo, como esperava. Aiko tentava arrancar o brinquedo que Haru segurava, enquanto Haru chorava em protesto. Anna, que assim como Hinata também fora alertada pelo barulho, vinha logo atrás e os dois rapidamente pararam com a confusão.
Quando tudo já estava resolvido, Anna disse sem rodeios:
— Você vai ficar bem ocupada se estiver esperando gêmeos novamente.
Hinata apenas assentiu com a cabeça. Não estava surpresa por Anna ter percebido. Os biscoitos de gengibre que subitamente começaram a aparecer ao lado do seu chá matinal já haviam lhe dado uma pista de que a governanta compartilhava de suas suspeitas.
Gaara afastou a cadeira. Eles haviam voltado para a ilha há uma hora e ele já estava ansioso para procurar Hinata, sentia falta de sua companhia... e não apenas na cama. Esses sentimentos o fizeram se sentir vulnerável, e apesar de se ressentir disso automaticamente, abriu a porta do escritório e se encaminhou para o quarto deles.
Hinata devia estar do lado de fora, com os gêmeos. Não seria nada demais se ele se trocasse e fosse se juntar aos filhos. E assim acabaria ficando perto de Hinata também, sem trair seus sentimentos. Afinal, uma vida inteira temendo ser traído emocionalmente não era deixada para trás em apenas poucas semanas. Gaara ainda precisava de mais provas de que podia confiar em Hinata.
Ele viu a bolsa dela aberta sobre a cama deles enquanto passava na direção do banheiro, mas foi só depois de ter tomado banho e mudado de roupa que notou o teste de gravidez descartado.
A primeira coisa que Hinata viu quando voltou para o quarto foi o paletó de Gaara sobre a cama. Seu coração disparou no peito, com uma mistura de culpa e medo. Ela começou a caminhar até o banheiro e parou subitamente quando viu Gaara parado ao lado da pia, segurando o teste de gravidez revelador.
Ele olhava confuso para o teste, como se não conseguisse acreditar no que estava vendo. Mas Hinata logo viu a raiva tomar o lugar da confusão.
— Você está grávida.
Ela percebeu, triste, que aquilo era uma acusação, não uma pergunta.
— Sim — admitiu. — Desconfiei que estivesse, mas queria me certificar primeiro, antes de lhe contar. Sei o que você disse quando nos casamos, sobre eu precisar tomar a pílula porque não queria outra criança. E foi isso o que eu fiz — ela falou sinceramente. Quando Gaara não disse nada, apenas continuou a encará-la, Hinata entrou em pânico e implorou, emocionada. — Por favor, não me olhe assim. Você ama os gêmeos e esse bebê, seu bebê, também merece ser amado.
— Meu filho? Se você diz que estava tomando a pílula, este filho não pode ser meu. Ambos sabemos disso. Você realmente acha que sou tão tolo a ponto de assumir um bastardo concebido com um dos muitos homens a quem sem dúvida vinha entregando seu corpo antes que eu a descobrisse? Se é isso o que pensa, então a tola é você. Mas não, Hinata, você é apenas uma mulher mentirosa, mercenária e amoral!
As palavras explodiram no quarto como um tiro de canhão, com a intenção de destruir tudo o que estivesse no caminho. Apesar de estar se sentindo anestesiada demais naquele momento, Hinata sabia que havia sido mortalmente atingida.
— Você obviamente sabia que estava carregando esse filho quando exigiu que eu me casasse com você — acusou-a Gaara, brutal.
Ele havia dito que não era tolo, mas sabia que não era a verdade. Afinal, permitira que Hinata o arrancasse da segurança de um modo de pensar que cultivara a vida toda e que o levasse a acreditar que talvez estivesse errado sobre ela. Mas obviamente não estava errado.
—Achei que você estava se casando comigo pelo ganho financeiro que imaginava poder ter, mas agora vejo que a verdade era outra.
Hinata não podia mais aguentar.
— Eu me casei pelo bem dos nossos filhos — ela disse com firmeza. — E a criança que estou carregando é sua. Sim, eu tomei a pílula, mas você deve se lembrar que eu não estava passando bem enquanto estávamos em Londres. Acho que foi assim que concebi. Em algumas circunstâncias, um mal-estar do estômago pode comprometer a eficiência da pílula.
— Uma desculpa muito conveniente — desdenhou Gaara. — Você realmente espera que eu acredite nisso, conhecendo-a como eu conheço? Você não se casou comigo pelo bem dos gêmeos, Hinata. Casou-se pelo meu dinheiro.
— Isso não é verdade — negou Hinata. Como ele podia pensar tão mal dela? A raiva se juntou ao sofrimento. Gaara chamara a si mesmo de tolo, mas a tola ali era ela. Por amá-lo e por acreditar que podia alcançá-lo com seu amor.
— Eu conheço você — ele repetiu, e ao ouvir essas palavras Hinata sentiu seu autocontrole se romper de vez.
— Não, você não me conhece, Gaara. Tudo o que conhece é seu próprio preconceito cego. Quando esse bebê nascer vou fazer o teste de DNA e lhe prometo que então ficará provado que ele, ou ela, é sim seu filho, irmão dos gêmeos. No entanto, aí já será tarde demais para que você o reconheça e o ame como seu filho, ou sua filha, Gaara, porque não há como eu permitir que meus filhos cresçam com um pai que pensa e fala do modo como você faz. Posso ver que ama os gêmeos, mas o modo como trata a mim, mãe deles, suas suspeitas a meu respeito, tudo isso pode contaminar a atitude deles em relação às mulheres quando forem adultos. Não vou permitir que meus filhos cresçam como você, incapazes de reconhecer, de valorizar, até mesmo de ver o amor que está diante dos seus olhos.
— Sabe qual foi o meu pior pecado? Aquilo de que mais me arrependo? De amá-lo, Gaara. Porque ao me apaixonar por você não estou sendo uma boa mãe para os meus filhos. Você joga na minha cara o tempo todo o comportamento que tive na noite em que nos conhecemos, me acusa de ter sido como uma vagabunda qualquer correndo atrás de você. A verdade era que eu era uma virgem de 17 anos, oh, sim, pode me olhar assim, mas é verdade, uma menina tola e inocente que acabara de perder os pais e estava tão desesperada para ser amada que convenceu a si mesma de que o homem que vira do outro lado de um bar lotado era seu salvador, seu herói, alguém especial que a salvaria da infelicidade e da perda e a manteria segura em seus braços. E esse foi o meu crime, Gaara, idolatrá-lo e transformá-lo em algo que você jamais poderia ser.
— E quanto a todos esses homens que você gosta tanto de me acusar de ter tido, eles nunca existiram. Nem um único deles. Acha mesmo que eu seria tão estúpida a ponto de confiar em outro homem depois do modo como me tratou? Sim, acho que mereci o que aconteceu, por ter sido tão tola.
— Há uma única razão para que eu tenha pedido para que se casasse comigo, Gaara: porque achei que isso faria com que você recuasse e fosse embora. Mas então, quando percebi que você queria mesmo os gêmeos, resolvi, como lhe disse na época, que seria bom para os meninos crescer dentro da segurança de uma família, com pai e mãe que tivessem a intenção de criá-los juntos.
— Mas as acusações que você acaba de fazer mudam tudo. Não quero que envenene a mente dos meus filhos com essa sua horrível maneira de pensar. Esse bebê será um irmão de verdade deles, mas duvido que mesmo a evidência do DNA vá convencê-lo disso. Simplesmente porque não é nisso que quer acreditar, Gaara. E sinto muito por você. Meu dever como mãe é proteger todos os meus filhos. Os gêmeos são meninos muito inteligentes e logo irão perceber que você não aceita o irmão, ou irmã deles, e podem até vir a copiar seu comportamento. Não vou permitir que isso aconteça.
A princípio Gaara estava determinado a negar que pudesse haver alguma verdade no que estava sendo dito durante aquela explosão de raiva de Hinata. Mas por trás do complexo sistema de defesa criado por suas próprias mágoas, começaram a surgir algumas dúvidas. Muito pequenas no início. Mas quando tentou afastá-las, descobriu que essas dúvidas tinham raízes mais profundas do que imaginara. Quando havia surgido aquela ânsia de arrebentar com as correntes protetoras que o prendiam? Como aquela parte nova dele poderia estar realmente desejando tomar Hinata nos braços? Gaara lutava contra essas forças opostas dentro dele e tentava seguir em frente.
Hinata teve de admitir que aquilo tudo era muito pior do que ela havia imaginado. Temera que Gaara pudesse ficar zangado, mas jamais lhe ocorrera que ele iria se recusar a aceitar que a criança que ela esperava fosse dele. Devia odiá-lo por isso. Queria conseguir odiá-lo.
Ela deixaria a ilha, é claro. Mas não iria a lugar algum sem os gêmeos. Eles sentiriam uma falta terrível de Gaara, mas não podia arriscar que passassem a pensar e sentir como ele. Não podia deixar que os filhos fossem infectados por tanta amargura.
Ela se virou para olhar pelas portas do quarto, ainda abertas para o pátio, tentando esconder as lágrimas que estava determinada a não permitir que ele visse.
— Não vejo motivos para continuarmos com essa discussão — falou Hinata. — Já que é óbvio que você prefere pensar o pior de mim.
Ela nem esperou para ver se ele responderia alguma coisa, saiu para o pátio, ansiosa para colocar a maior distância possível entre eles antes que suas emoções a dominassem e ela se derramasse em lágrimas.
Do quarto, Gaara a observou sair, seus pensamentos ainda em guerra. Ela agora estava parada no topo do lance de escadas que descia para a parte mais baixa do jardim.
Hinata piscou para conter as lágrimas e deu um passo à frente. Mas acabou pisando em falso e caiu.
Gaara viu quando ela rolou os degraus de mármore. Ele saiu em disparada, descendo os degraus dois de cada vez até chegar à base, onde o corpo dela estava caído, dobrado sobre si mesmo.
Hinata ainda estava consciente. E as duas palavras que deixou escapar, em desespero, quando ele se ajoelhou ao lado dela, foram:
— Meu bebê...
