Capítulo 11 – Jev.

O HÓSPEDE

Abri meus olhos, percebendo o quarto pouco iluminado com a única lamparina acesa ao lado de minha cama. Levantei-me, não estava reconhecendo aquele quarto. Aquele não era o meu quarto. As estruturas e os acabamentos eram de uma arquitetura antiga. O quarto inteiro era de uma estrutura do século XIX. Olhei para minhas roupas, um longo vestido de seda branca, estava mais para uma espécie de camisola.

Escutei um barulho na janela, como se fossem pedrinhas que estivessem atacando. Sem poder controlar meu corpo, caminhei até a janela olhando alguém lá embaixo. Senti meu íntimo se contrair, pois de alguma forma eu sabia quem era e ansiava para vê-lo. Abri a janela e pude ver a pessoa lá embaixo, mas como estava escuro não pude ver seu rosto. Mas eu sabia que se tratava de um homem.

Senti meu coração bater desenfreado e uma onda de adrenalina com felicidade me atingiu. Vi a pessoa se movimentar para frente e escalar as paredes, com a ajuda de longos galhos e algum apoio que havia nas paredes. Ele escalava com maestria, com se aquilo fosse brincadeira de criança.

Afastei-me da janela e o homem entrou em meu quarto. Agora mais de perto dele, eu pude o olhar com mais cuidado. Ele estava vestido com uma camisa num branco amarelado de mangas enroladas desajeitadamente até os cotovelos. A calça marrom de camponês havia um suspensório, e as botas pretas e desgastas mostravam que ele era pobre.

O rapaz levantou a cabeça e meu coração dera um salto, pelo susto. Patch estava a minha frente, vestido de camponês. Seus cabelos estavam pouco maiores que o normal, pretos e úmidos. Os olhos negros como de uma raposa, me fitavam com um brilho intenso e desejoso.

Abri minha boca e fechei.

O que estava acontecendo aqui? Por que Patch estava vestido desse jeito? Por que eu estava vestida deste jeito? E que lugar era aquele?

Sentia minha cabeça confusa, não estava entendendo mais nada. A última coisa que eu lembrava, era de estar em meu quarto depois de ter chegado da casa de Vee.

Aquilo estava muito confuso.

– O que você faz aqui? Se meu pai te pega, ele mata nós dois. - assustei-me quando ouvi minha voz sair sem eu ao menos perceber. Parecia que eu não controlava a minha voz, o meu corpo... eu não controlava nada. Parecia que eu estava num corpo que não era meu.

Patch deu um passo para frente, e meu coração disparou, pois eu sentia que eu apreciava aquela aproximação.

– Estou indo embora da vila. - sua voz saía baixa e calma.

– O quê? Não. Você não pode. - sentia o desespero me apossar, como se a partida de Patch fosse à mesma coisa que a morte. - E nós? Você não pode me deixar...

– Vem comigo. - sua voz se sobressaiu a minha, interrompendo-me aquele momento de desespero.

Fiquei o olhando, atônita. Sabia que aquilo tinha me atingido, mas percebi que estava sentindo o mesmo que a pessoa que eu estava apossada. Parecia que eu era um tipo de espirito que estava ocupando o mesmo corpo de alguém.

– Ir com você?

Patch se aproximou de mim em três grandes passos, parando com o corpo próximo ao meu. Aquela proximidade tinha me pegado tanto a mim quanto ela - meu outro eu - de surpresa. Ele levou uma mão em meu rosto e fechei meus olhos automaticamente, apreciando aquele ato de carinho.

– Eu amo você. - murmurei, entorpecida com aquele momento.

Senti os lábios de Patch tocarem os meus, levemente, enquanto sua outra mão pousava em minha cintura aproximando o meu corpo do seu. Ondas elétricas percorreram todo o meu corpo, e agarrei seu pescoço o trazendo timidamente para mim.

Eu não sabia o que eu estava fazendo, tudo o que sabia era que meu corpo reagia descontroladamente diante dos toques firmes de Patch. Senti sua língua passar por meus lábios fechados e lentamente os abri, permitindo a passagem de sua língua que encontrou a minha, totalmente faminta. O beijo se tornara voraz e cheio de luxuria, igual ao beijo na garagem, em baixo do restaurante de meu pai.

Ele agarrou mais a minha cintura, me puxando mais contra seu corpo, como se ele quisesse fundi-los em um só. Sentia uma onda de calor subir em meu corpo, e sabia que se não parasse naquele momento, aquilo poderia ir além de só os beijos.

Nós nos separamos, senti a testa dele encostar-se a minha. Abri meus olhos e eles os encontraram a negritude dos olhos de Patch. Eu estava ofegante meu peito subia e descia diante de minha respiração descompassada. Patch ainda me segurava possesivamente, como se não quisesse me perder. Sentia minhas pernas bambas e agradecia por ele está me segurando.

Ouvi sua voz cortando o silêncio. Ela estava mais baixa que um sussurro arrastado:

– Vem comigo. Vamos embora, para onde ninguém vai se intrometer entre a gente.

Minha cabeça balançou para cima e para baixo, concordando com aquela loucura. Não estava entendendo o que estava havendo ali. Tudo era muito confuso.

Vi o canto de sua boca se elevar minimamente para cima, num pequeno sorriso. Senti seu nariz roçar o meu para depois sentir a sua boca macia e sedenta na minha, em mais um beijo de tirar o folego.

– Amanhã... - ele disse assim que nos separamos. - À noite quando todos estiverem dormindo.

Senti a adrenalina percorrer o meu corpo e o sangue correr mais rápido nas veias. Meu coração batia tão forte que diante daquele silêncio, eu podia escutá-lo, e jurava que Patch pudesse escutar também.

– Aonde? - perguntei num sussurro, sentindo os lábios dele muito perto dos meus, e a sua respiração quente bater em meu rosto. - Aonde nós vamos nos encontrar?

– Eu avisarei.

– Meu pai reforçou a guarda. Ele quer a sua cabeça Jev.

– Ei. - ele levou uma mão em meu queixo, o puxando para cima. - Não confia em mim?

– Eu só tenho medo de alguma coisa de mal acontecer com você.

Aninhei ainda mais em seu peito, ouvindo os batimentos de seu coração, acelerado.

– Nada vai acontecer comigo...

Um barulho pode ser ouvido fora do quarto, onde passos e se aproximavam. Afastei-me dele e olhei assustada para a porta. De alguma forma eu sabia que tinham descoberto que Patch estava no quarto.

Separei-me dele bruscamente olhando para a porta, voltei a olhar para ele que estava se afastando, indo em direção à janela.

– Jev. - o chamei de novo por aquele nome estranho.

Ele olhou para trás com um pé na janela.

– Vou dar um jeito de te avisar aonde nos encontrar...

A porta do quarto fora aberta num rompante, olhei assustada para um homem alto de barba, vestido com aqueles trajes de época, e mais dois homens ao seu lado, deveriam ser a guarda. Olhei novamente para trás, mas Patch não estava mais ali.

Ele havia desaparecido...

Acordei num rompante, ouvindo alguém me chamar, enquanto sacolejava levemente o meu corpo. A primeira coisa que vi foi Patch em pé, envergado em minha direção, com suas mãos em meus ombros. Seus olhos estavam sérios e sua expressão levemente atordoada, que suavizou quando olharam para os meus olhos.

Olhei rapidamente para os lados percebendo que estava em meu quarto. Então eu tinha sonhado. Um sonho quase real, assim como o da semana passada.

– Você está bem, Nora?

A voz de Patch me tirou de meus devaneios internos. Olhei para ele que me fitava desdenhosamente. Seus olhos transmitiam leve preocupação, mas podia ser coisa da minha cabeça.

Confusão era tudo que resumia a minha cabeça. Eu não sabia o que fazer ou como reagir diante daquela situação em que me encontrava. Patch tinha entrado na minha vida e deixando-a uma tremenda confusão.

– O que você está fazendo aqui? – perguntei, me sentando rapidamente na cama. Percebi que eu estava com a mesma roupa que eu vim da rua.

– Eu ouvi seus gemidos lá fora quando estava indo para o meu quarto. - Patch ergueu seu corpo para cima, mas não tirava seus olhos de mim, nem por um segundo. - Vim ver o que estava acontecendo, e vi que você estava se remexendo na cama, totalmente soada. Pesadelos?

Fechei os olhos passando a mão em minha testa soada, e suspirei profundamente. Aquilo não havia sido um pesadelo, e sim um sonho muito estranho, com o cara em que estava em minha frente. Desde quando eu ficava sonhando com Patch? E por que aquilo tinha me afetando tanto?

– Você está bem? - estremeci com a mão de Patch em meu ombro.

As cenas dos beijos que trocamos invadiram minha mente. Havia tanta cumplicidade naquele momento, tanto desejo. Se eu me concentrasse naquela parte, eu podia sentir o gosto de seus lábios sugando os meus totalmente famintos. Senti meu estômago se remexer com esses pensamentos, mas tratei logo de afasta-los de mim. Patch era problema. Minha vida estava uma confusão por causa dele. Eu estava confusa por causa dele. Ele era problema, eu sabia disso, mas mesmo assim alguma coisa dentro de mim insistia em ficar perto dele, e isso estava começando a me assustar de verdade.

Afastei sua mão bruscamente de meu ombro enquanto abria os olhos e fitava minhas pernas pousadas na cama, cobertas pelo jeans. Eu não tinha forças para encará-lo, não tinha algum controle psicológico para sustentar seu olhar firme e negro. Aquilo era uma atitude idiota da minha parte, mas eu estava farta daquilo.

– Sai daqui. - murmurei, ainda sem olhar, mas sentia seu olhar em mim, queimando a minha pele. Eu sentia que ele tinha muito poder contra mim.

Eu era vulnerável a ele.

– Mas você está bem...

– Sim. - o interrompi com a voz aumentada um décimo, mas do que eu pretendia. - Sai, quero ficar sozinha.

Patch ainda ficara ali, em pé, imóvel me olhando. Permiti-me dar uma olhada de solaio, e me arrependi por isso. Ele me olhava tão intensamente, igual ao sonho. Naquele momento eu lembrei-me de alguma coisa. No sonho, o meu eu tinha o chamado de outro nome. Eu tinha que lembrar. Sabia que não era um nome comum, mas mesmo assim era simples. Tinha consciência que Patch era apelido que ele usava, e ele nunca falara o seu verdadeiro nome. Será que aquele era seu verdadeiro nome?

Patch virou-se de costas para mim, e caminhou até a porta entre aberta, levando a mão na maçaneta e a abrindo ainda mais. Sabia que tinha sido grossa com ele, pois ele estava querendo só ajudar. Mas não estava com cabeça para raciocinar direito.

Num rompante de memória lembrei-me do nome. Jev. Era esse o nome que o outro eu, que não era eu o chamava. Será que esse era seu nome?

Se for ou não, eu tinha que saber. Iria testar para ver qual seria sua reação.

Patch estava com o corpo completamente quase todo fora de meu quarto quando a minha voz sou baixa, porém audível:

– Jev.

E como se fosse uma espécie de mágica, ele parou. Ainda estava de costas para mim, mas eu vi os músculos de suas costas se tencionarem. E aquilo me deixou atordoada, pois agora estava certa que tinha acertado em cheio.

Patch virou sua cabeça, depois o resto de seu corpo de frente de mim. Sua boca estava numa linha reta, e seus olhos mais negros do que o normal.

– Do que me chamou? - sua voz saíra totalmente baixa e arrastada.

– Esse é o seu nome? Jev?

Não sabia aonde tinha surgido toda aquela coragem, mas iria aproveitar antes que eu a perca. Iria tirar aquela história a limpo.

Patch não me respondeu, ele ainda se mantinha parado, como uma estátua. Parecia perdido em pensamento enquanto me olhava, mas sabia que ele não estava com a visão focada realmente em mim, mas sim perdido em pensamentos.

– Responde. Esse é seu nome? - insisti com a pergunta, e Patch desta vez acordou se seus devaneios.

– Há muito tempo que ninguém me chama por esse nome.

– Então é verdade. - murmurei sentindo o meu coração bater mais forte quando soube que o sonho não era um simples sonho.

– Como descobriu?

O olhei, ele mantinha a cara séria, e atenção em qualquer movimento que eu desejasse ou pensasse fazer. Ele estava captando tudo.

– Eu chutei.

O canto de sua boca ergueu-se para cima, num sorriso sarcástico.

– Você mente muito mal, Anjo. Mas tudo bem, meu nome não é segredo para ninguém. Só não costumo ser chamado assim.

Eu não falei nada. Ainda processava o que Patch havia falado. Ele não ficara zangado ou muito menos se incomodou por eu ter descoberto seu nome de batismo. Mordi o canto da minha boca, reavendo toda aquela sensação que estava sentindo ali.

– Mais alguma coisa? - ele perguntou e apenas neguei com a cabeça. - Então boa noite, Anjo.

Não respondi, e o vi sair e fechar a porta atrás de si.

Soltei o ar que prendia, sentindo o alivio nos meus pulmões.

Meu corpo estava todo trêmulo, minhas mãos encharcadas de suor. O sonho, o nome de Patch. O sonho completamente não era só um simples sonho, pois havia muito mais coisas, e sabia que Patch escondia algo. Eu não sabia como, mas eu sentia que o meu sonho tinha alguma coisa a ver com isso. Patch era um mistério, e eu iria descobrir o que ele tanto esconde.

E isso era uma promessa, para a minha própria segurança e de meu pai também.