Confinados

Por Mukuroo

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Obs 1 : Saint Seiya não me pertence! Os personagens podem sofrer algumas alterações em suas personalidades originais.

Obs 2: Já algum tempo eu estava com a idéia de escrever um fanfic nesse estilo. O assunto sempre me encantou e depois de muito pensar, finalmente consegui materializá-la.

Obs 3: o nome Carlo foi dado ao personagem Máscara da Morte pela escritora Pipe. Portanto, todos os créditos à ela.

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XI

Shura's POV

Meu nome é Shura. Shura Capricorn. Eu costumava ser um psicólogo renomado, tinha uma porção de pacientes, uma boa vida por assim dizer, já que minha profissão me dava um bom lucro. Na verdade, eu não tinha muito o que reclamar de minha vida. Os problemas maiores começaram quando eu matei um homem. O amor de minha vida: Aiolos Sagitálius. Eu nunca quis matá-lo, mas o ciúmes me deixou cego e perdi o controle de meus sentimentos, de meu corpo, de minhas ações.

Ah, como me arrependo de meu crime. Meu coração derrama lágrimas de sangue quando aquela imagem vem a minha mente, algo que nunca poderei esquecer. Aquele acontecimento me marcou para sempre, deixou uma ferida que talvez nunca mais se feche dentro de mim. Uma amargura sem fim, uma sensação de angústia infinita e desespero que não quer passar. Talvez eu mereça passar o resto de meus dias sofrendo dez vezes mais por toda a dor que causei, ou talvez eu deva apenas morrer da forma mais lenta e dolorosa que exista.

Eu fui trancafiado em um presídio de segurança máxima, junto com um homem que eu pensei que fosse um assassino frio e cruel, conhecido como Máscara da Morte, o terrível colecionador de cabeças. Ele era como... Uma lenda viva, uma lenda medonha. Todos no presídio tinham medo dele, tanto que ninguém nunca durava muito tempo na mesma cela que ele. O motivo eu não sei, mas corria um boato no presídio que todos os companheiros do Máscara da Morte acabavam de alguma forma... Mortos!

Os dias que eu passei ali foram indescritíveis. Posso dizer que tive receio no início, tive medo. Muitas vezes tentei analisá-lo, ajudá-lo, mas parece que todo meu "dom" havia ido embora. Era como se eu não conseguisse mais, como se eu não tivesse mais a mente forte de antes, aquele homem equilibrado que ficava horas sentado em sua poltrona, apenas ouvindo as mais absurdas histórias de seus pacientes malucos.

Não, eu não era mais esse homem. A morte de Aiolos me tornou em algo, diferente. Eu mudei, me tornei seco por dentro, sem vida. Aos poucos eu acabei aceitando que aquela era minha sina. Não que eu acreditasse no destino. Na verdade, eu sempre pensei que nós mesmos é que fizéssemos o nosso destino. Mas depois de tudo o que aconteceu, meus pensamentos tornaram-se desordenados e fiquei a um passo da insanidade.

No fundo, eu sabia que eu estava caminhando por uma fina corda bamba, e que não poderia deixar-me levar pela escuridão que havia lá embaixo, pela loucura. Mas era como se minha mente estivesse tomada por outra pessoa, que nasceu, no dia em que meu amado Aiolos morreu. Alguém que não poderia nunca mais ter uma vida normal, ou ser feliz novamente.

Por isso eu não me importei... Não me importei mais de ficar ali com ele, com aquele homem que às vezes me deixava com um arrepio nas costas. Não que ele tenha me feito alguma coisa, mas, por tudo o que as pessoas falavam, era inevitável olhá-lo de outra forma. Mas eu não me importei mais em ser seu companheiro, em correr o risco de ser apenas mais um na coleção do Máscara... DaMorte. Mas aquele homem tinha um nome: Carlo Cancerini.

Carlo tinha atitudes que, certamente se eu estivesse em meu estado mental normal, eu teria notado que eram inegavelmente questionáveis. Naquela noite infernal... Aquele noite em que Ares apareceu para mim, eu pensei que morreria ali mesmo, e que se não morresse, certamente meu companheiro de cela psicopata terminaria com o serviço. Mas Carlo fora estranhamente gentil comigo, até mesmo me ajudou.

Mas mesmo assim eu não pude ver a verdade por trás de todas as coisas. Eu não pude perceber que Máscara da Morte e Carlo não eram a mesma pessoa. E é por esse motivo que eu tenho certeza que não sou mais o Shura, o psicólogo renomado, que sempre fui. Porque um verdadeiro profissional saberia identificar em pouco tempo que, de alguma forma, Carlo havia criado para si dentro daquele presídio, uma imagem tão convincente, que nunca desconfiariam da verdade.

O fato é que agora eu sou um fugitivo, provavelmente serei caçado pelo resto de meus dias, isso se não me pegarem antes. Acreditem, eu ainda não consigo entender como tudo aconteceu. Foi tão rápido, e eu não sou do tipo que age por impulso desse jeito. Está certo, eu não sou mais o meu antigo eu, agora sou uma outra pessoa. Eu não me conheço mais.

Vocês devem imaginar que sou louco de estar agora em um pequeno barco, no meio do nada com o famoso Máscara da Morte, ou era para ser assim. Ao menos eu pensava que ele era um assassino perigoso, um criminoso que matava sem dó nem piedade. Eu nunca imaginaria que aquele Carlo, aquele que eu via como um monstro quando cheguei naquela prisão, estivesse protegendo seu irmão menor: Ikki.

Talvez seja ainda pior do que eu pensei. Uma criança, Ikki é apenas um garoto, afinal. Às vezes é difícil imaginar como um simples garoto que para muitos se passa por inocente, pode ter pensamentos tão frios e cruéis. Mas, eu sei que é possível. Eu já estudei algumas crianças que nasceram sociopatas, crianças que não conseguiam sentir remorso, que não tinham sentimento algum. É triste, mas é a dura realidade.

Eu juro que senti um nó na garganta enquanto ouvia Carlo narrar sua história para mim. Eu fechei os olhos e deixei aquelas palavras entrarem em minha mente, e me lembrei de quando eu ainda podia ter chances de ser feliz, de quando eu era apenas um psicólogo normal e apaixonado pela vida e por meu adorado Aiolos.

Não soube se sentia pena de Carlo, se sentia raiva de Ikki ou se deveria apenas tentar agir como o profissional que era e dar-lhe alguns conselhos. Talvez, eu devesse perguntar à ele qual dessas opções seria a melhor, mas eu imaginei que talvez ele se sentisse ofendido. Era difícil dizer qual seria a reação de Carlo, afinal, agora eu estava ainda mais confusodo que antes, já que todos os meus conceitos sobre aquele italiano haviam mudado naquele momento.

Eu tinha dúvidas, muitas dúvidas sobre o motivo dele estar me contando tudo aquilo. Mas eu não conseguiria ficar com a mente tranqüila. Eu precisava perguntar...

* * *

- Só não entendi uma coisa, Carlo... – o espanhol tinha um tanto de receio de perguntar, mas não conseguiria dormir em paz se não ouvisse a resposta para suas dúvidas. – Por que está me contando tudo isso?

- Porque você não vai ficar vivo para passar a história adiante...

Aquela voz... Era de Ikki. Shura virou-se para o garoto que entrara no cômodo naquele momento e sentiu um frio na espinha, aquela frase martelando como um mantra em sua cabeça 200 vezes por segundo. Por todos os deuses, estava definitivamente morto.

* * *

Foi como se os segundos demorassem uma eternidade para passar, após ouvir aquilo. Como assim eu ao iria ficar vivo para passar a história adiante? Aquilo significava que eu morreria? Que ele iria me matar e colocar minha cabeça em um dos espetos de sua coleção? Céus, onde eu fui me amarrar meu cabrito?

Eu senti meu corpo todo gelar, não imaginei que algo como aquilo aconteceria. Senti aquele olhar penetrante sobre mim, como se estivesse cortando minha alma em retalhos e engoli em seco. Por um momento, toda a minha vida passou-se em minha mente como se fosse um filme.

Ou talvez, eu devesse apenas aceitar a dura realidade. Talvez fosse um castigo divino pela morte de Aiolos, ou talvez fosse apenas o destino. Olha eu novamente, o psicólogo que acredita em destino e essas baboseiras. Como seu patético! Alguém que perdeu a própria identidade e está a beira da loucura. Sou um homem que teve alucinações com seu namorado morto e que depois foi abusado por alguém que se dizia ser um "vingador". Até quando irá tudo isso?

Então por um momento, passou-se por minha mente a idéia de que seria melhor apenas me entregar e deixar-me morrer nas mãos daquele garoto, que talvez fosse melhor não resistir. Acabar com o sofrimento, todo ele... Olha eu novamente falando como se fosse um de meus pacientes, desistindo da vida, de tudo... Sou realmente patético. Fechei os olhos e apenas esperei.

* * *

- Vá em frente! – Shura falou, com voz suave e tranqüila. Talvez aquilo lhe desse a paz eterna, já que a felicidade nunca estaria ao seu alcance. Sentia-se um tolo, um... Covarde por desistir de tudo assim, mas sua vida morrera junto com Aiolos. Era assim que pensava, e não podia lutar contra aqueles pensamentos que o atormentavam. Não podia ser o psicólogo de si mesmo.

Ikki apenas sorriu de canto com a passividade alheia e tirou de seu bolso um canivete, abrindo-o de forma lenta, mas foi parado por duas mãos fortes que o impediram de continuar os movimentos. Ergueu os olhos, encontrando os intensos olhos avermelhados de seu irmão mais velho.

- Carlo...? – o olhou de forma curiosa.

- Eu não vou deixar que você mate um homem na minha frente, Ikki! – o italiano o fitou, de forma séria, uma dura expressão no rosto, de reprovação.

- Tudo bem... Apenas vá para o quarto e você não verá nada! – o garoto falou de forma fria. – Prometo que quando sair não vai encontrar mais nem um sinal dele por aqui!

- Não! – disse sério, chacoalhando o garoto. – Você não me entendeu Ikki. Eu não vou permitir que mate o Shura!

* * *

Fiquei esperando por um golpe, qualquer um. Certamente seria uma faca. Imaginei como ele faria primeiro. Será que furaria meu peito e depois cortaria minha cabeça ou já cortaria meu pescoço logo? Talvez ele usasse uma arma para enfeitar minha cabeça com buracos e balas. Não, a cabeça era como se fosse uma lembrancinha da pessoa que um psicopata mata.

Todo e qualquer assassino em série gosta de guardar um tipo de lembrancinhas. Essa era sua característica mais marcante. Alguns guardavam jóias, outros guardam roupas. Faziam isso para ficar relembrando sempre e sempre do momento em que estavam matando as vítimas. A maioria deles sentia prazer naqueles atos inescrupulosos. Ele Ikki... Ikki guardava cabeças. Certamente estimava-as e não gostaria de deixar marcas nelas. Por isso a idéia de "decoração" pareceu tão ridícula.

Ouvi Carlo e Ikki começarem a discutir algo e franzi o cenho, abrindo os olhos lentamente, ouvindo toda aquela conversa e arregalei os olhos ao finalmente perceber o que estava acontecendo. Carlo... Carlo estava me defendendo? Mas... Por quê? Está certo que éramos companheiros de cela, talvez até... Pudéssemos nos chamar de amigos, mas... Não tínhamos uma relação tão forte assim. O italiano não tinha motivo algum para impedir que Ikki me matasse.

Então... Por que ele estava fazendo aquilo? Eu estava com minha mente mergulhada em dúvidas. Está certo que ainda não conhecia o verdadeiro Carlo, mas... Será que ele seria assim tão nobre? Mordeu os lábios, um tanto apreensivo com tudo. Não era bom que Carlo brigasse com o irmão. Sendo um psicopata, o garoto certamente não hesitaria em matar o italiano também e isso Shura não suportaria. Não suportaria ver outra pessoa morta a seus pés e Carlo foi o máximo de contato que tivera depois da morte de Aiolos.

* * *

Ikki olhou o irmão, os olhos estreitos, as mãos segurando o canivete de forma firme.

- Por que o está protegendo? – a pergunta do garoto foi seca, direta.

Carlo o fitou de forma angustiada, vendo o jeito do mais novo. Ah céus, havia sacrificado tudo por ele, mas nunca cobrara nada. Nunca reclamara daquilo para ele. Apenas fazia por amá-lo demais.

- Porque Shura é... – o italiano hesitou em dizer aquilo por alguns instantes. - ... Meu amigo!

* * *

Espantei-me com o que eu havia acabado de ouvir. Amigo? Amigo... Carlo me considera um amigo. Isso é... Tão... Inesperado e... Bom. Não pude deixar de sorrir com aquilo, sentindo algo quente em meu peito. Eu estava feliz em saber que eu tinha um amigo e que ele estava me defendendo, impedindo que eu me tornasse em picadinhos.

Mas fiquei imaginando que talvez Ikki é quem não gostasse muito dessa história. Ah, sim, ele era uma criança psicopata. E pelo que Carlo havia me contado, não era difícil chegar a conclusão de que aquele garoto mataria qualquer um apenas por puro prazer, inclusive o melhor amigo do irmão, ou até mesmo o próprio irmão.

Por um momento comecei a tremer. Não sou um covarde e nunca fui, mas me vi em uma situação deveras delicada. Não que eu não pudesse me defender, mas eu tinha medo... De pegar em um objeto cortante novamente perto de... Pessoas e... Eu não queria que o que aconteceu com Aiolos se repetisse. Eu tinha medo de mim mesmo...

Voltei os olhos para Ikki e engoli em seco ao notar a expressão indecifrável no rosto jovem. Aquele olhar intenso sobre mim, o sorriso perverso. Senti meu estômago dar voltas. Eu sabia que ele estava me analisando, que ele estava me testando e fiquei sem saber o que fazer. Certamente ele estava ouvindo as batidas por demais agitadas em meu peito, fortes e que não se calariam tão rapidamente.

* * *

- Amigo? – Ikki ergueu uma sobrancelha, e então riu alto. – Oras, Carlo. Você nunca teve nenhum amigo...

- Exatamente! – o italiano mordeu os lábios – Por que agora eu não posso ter um? – fitou Ikki nos olhos, de forma séria.

O garoto aproximou-se mais de Shura ainda com o canivete nas mãos e então olhou Carlo desafiadoramente.

- Você teria coragem de morrer pelo seu amigo, irmão? – a voz de Ikki era provocativa, quase um sussurro.

- Sim! – Carlo respondeu num impulso, nem ele mesmo acreditando em sua resposta. Viu Ikki sair de perto de Shura e vir caminhando em sua direção. Não conseguiu se mexer. Seu corpo estava travado.

Continua...

Bem, mais um capítulo pronto. Pequeno como sempre, mas é melhor um cap. pequeno do que nada, não é? Espero que tenham gostado. Estou com muitas dúvidas nesse fic, mas não é por isso que vou parar de escrevê-la. Ao menos não é minha intenção hihihi.

Agradecimentos à: Dea, Naya Yukida, Lhu Chan, Virgo no Áries, P-Shurete e agradecimentos especiais à Akane M.A.S.T. E não se esqueçam. Dedinhos Felizes Digitam Mais Rápido \o/