Como eu Vejo

Capítulo Onze – Ginny e o Culpado Traidor

And if they get me and the sun comes down into the ground

And if they get me take this spike and put the spike in my heart

Se não fosse clichê, eu sairia dizendo mundo afora que, naquela manhã, a luz do sol entrou de uma maneira diferente no quarto de Ginny Weasley quando esta despertou. Muito bem, talvez isso se devesse ao fato de não ser o mesmo quarto das outras noites, e naquela manhã eu não estava surpresa em estar sozinha – já que antes eu sempre adormecia com a tola esperança de acordar e ter alguém ainda dormindo do meu lado -, mas eu estava me sentindo mais leve também, de dentro para fora. Foi o final mais surreal por que eu já passei na vida. Nem eu sei o que me deu... Mas eu cheguei na Mansão Black ontem, cansada e confusa, querendo apenas um pouco de paz... Quando Harry acordou no meio da noite, eu tomei um susto, me preocupei com ele como nos velhos tempos.

Mas logo em seguida ele começou a esbravejar e a querer tirar todo mundo do caminho, porque ele tinha sonhado, porque ele tinha o fardo... Depois de tanto tempo eu já tinha percebido essas coisinhas irritantes que toda a garota percebe no seu namorado, e no Harry é isso: nem todo mundo tem a disposição dele para atender aos seus pesadelos.

Tão logo ele e Luna saíram, eu tomei uma decisão, uma decisão meio doida e meio disparatada, mas eu estava cansada daquela existência esmagada, presa à Ordem e a um namorado conturbado e cheio de crises consigo mesmo, sempre me perguntando, mesmo enquanto dormia, se ele conseguiria, se ele tinha força o suficiente. Era... Era tristeza demais pra mim, Harry sempre exigiu um apoio que, por um bom tempo, eu fiquei feliz em dar, mas logo as coisas não foram tão alegres e românticas para nós dois.

Terminei mesmo! Quando vi a reação que ele teve, quase me arrependi. Na verdade, eu não tenho tanta certeza se ele me ama... Embora ele tenha dito, com todas as letras. Eu quis chorar quando ele falou. Eu quis gritar e pedir que não, que ele não me amasse. Eu quis confessar que eu não poderia carregá-lo. Eu não era feita para aquilo... Não mesmo.

Não que tenhamos perdido tempo durante todos esses anos em que eu tentei. O que seria de mim sem ele? Não consigo enxergar uma adolescência na qual não houvesse existido Harry Potter. Mas... Eu não era mais a mesma. Pra confessar, estava me sentindo como se ele tivesse servido para que eu amadurecesse, já que às vezes a gente chega mesmo a pensar essas coisas de relacionamentos passados.

Mas tudo isso eu só digo agora, porque na manhã que se seguiu o fim, eu me sentia muito bem. Não seria simpático deixar todos saberem disso, porque seria cruel com Harry. Mas bastava que eu soubesse que tinha feito a coisa certa.

Já era mais do que hora de acordar, mas eu queria aproveitar cada momento. Não estava com a menor pressa... O que eu tinha para fazer aquele dia? Estava difícil de lembrar. Tudo que eu conseguia lembrar era daquela imagem confusa de Draco correndo de mim, sem aviso algum. Será que ele tinha percebido alguma coisa? Ora, mas a coisa óbvia a fazer nesse caso seria me levar para um lugar onde ninguém o visse me matando. E bem, de acordo com todas as pistas, ele se tornou um Comensal de certa importância. Não cometeria um erro daqueles...

Ele passava muito tempo me tratando como uma lady... Ficava difícil mencionar Voldemort sem parecer suspeita, pensando bem. Não sei. O rosto dele ficou diferente de uma hora para a outra...

Talvez ele não me agüentasse mais. Talvez eu tivesse sido bobinha e fútil demais... E esse poderia não ser o jeito dele. Mas eu não podia ser como eu mesma, ou ele acabaria percebendo...

No começo, eu ficava terrivelmente desconfortável perto dele. Não conseguia falar nada, não conseguia me aproximar... E quando ele fazia menção de me beijar ou qualquer outra coisa, não sei como me controlava para não sair correndo. Agora ele de repente tinha se tornado parte da minha rotina. Mas estava na hora de pendurar a máscara de Diana Higgs, ou as coisas começariam a ficar perigosas.

Não estava dando certo aquilo, sabem. Nós nos encontramos em pleno Beco Diagonal, nos beijamos e andamos juntos, como se fôssemos estudantes... Como se não estivéssemos em guerra! Como se ele não me quisesse morta, e tivesse o desejo retribuído.

Mas havia pequenos momentos em que algo, um sorriso presunçoso, um grunhido, o que fosse, parecia denunciar algo além da faceta assassina.

Pensando nisso, não pude segurar um riso. O que diabos eu estava fazendo, perguntei pra mim mesma. Procurando traços de bondade em Draco Malfoy? Querendo dizer para mim mesma que, no fundo, ele queria estar lutando com a Ordem da Fênix? De qualquer maneira, ele teve a sua chance para escolher.

Eu era muito boa em me enganar. Afinal, por quatro anos ou mais consegui dizer para mim mesma que Harry me via, quando isso não era verdade. Então não é de espantar que esse meu espírito romântico fique me dizendo que ele queria...

Ei, um momento. Eu disse 'romântico'? O que estou querendo, transformá-lo num garoto bonzinho? Eu estou... Estou misturando tudo!

De repente, a manhã não parecia tão iluminada. Eu estava pensando em Malfoy como se quisesse trazê-lo para o meu lado. Estava parecendo uma garotinha de treze anos querendo convencer um desses garotos galinhas a ficar apenas com ela... Mas é que às vezes, às vezes... Eu tinha a impressão de que o desejo dele era esse!

Eu direi a vocês, conheci vários Comensais durante esse tempo de guerra. E eles são completamente insanos! Tomem aquela Bellatrix Lestrange como exemplo. Ela jura serviço a Voldemort, fala dele com uma paixão cega... O que, afinal, eles esperam obter de Voldemort? Draco mencionou algo com tranqüilidade. Lutar para livrar o mundo da prisão a que os trouxas insistem em nos submeter. Mas vejam bem, não é justamente esse o nosso propósito? Nós não lutamos por tranqüilidade? Por uma existência pacífica?

A coisa só podia estar entre Harry e Voldemort, no final das contas. Um não pode existir enquanto o outro sobreviver! Nenhum deles é tranqüilo enquanto o outro vive. E ambos lutam por isso? Eu sempre imaginei que Voldemort luta por ambição, mas uma vez que Harry esteja morto ele não terá mais ninguém que se erga contra ele. Todos pensarão: "Se Harry Potter não conseguiu, quem sou eu para tentar?", e dessa forma todas as resistências no mundo todo cairiam. Como uma daquelas antigas batalhas de reis.

Não, repliquei, sacudindo a cabeça. Os objetivos de Harry e Voldemort definitivamente não são os mesmos.

Mas os objetivos de ambos os seguidores são.

Draco queria paz. Queria sossego, queria não ter que se preocupar com a guerra, ao menos eu acho. Mas mesmo assim ele se envolve... Porque não tem escolha. Se bem que seria de admirar que alguém criado por Lucius Malfoy não amasse a guerra e o sangue... Eu queria que ele fosse diferente de seu pai.

Eu fico procurando indícios para vê-lo separadamente do pai.

Mas no fundo... Eles eram iguais. Já houve quem dissesse isso. Draco Malfoy não passava de um cãozinho bem treinado de Lucius. Criado para agir e pensar como ele. Eu o odeio por isso!

Eu o odeio, por não ser quem eu queria que ele fosse.

And if the sun comes up will it tear the skin right off our bones

And then as razor sharp white teeth rip out our necks I saw you there

Someone get me to the doctor, someone get me to a church

Where they can pump this venom gaping hole

Aquele dia não me favoreceu de maneira alguma, se querem saber. Apenas discuti com Kingsley à tarde, porque queria participar de uma missão com ele na noite do dia seguinte.

-Será uma batalha arriscada demais! – ele esbravejou, andando a largas passadas pelo quarto de Ron, onde estávamos os três. – Eu sei que você já tem experiência com coisas desse tipo, Ginny, mas mesmo assim...

-Ouça bem, Kingsley! – exclamei, resoluta a não perder aquela discussão. – Eu não sou mais o bibelô de Harry Potter, portanto o mundo não acaba se eu morrer!

Houve silêncio depois da minha fala.

-O que você quer dizer? – retorquiu Ron, virando-se bruscamente para mim.

Baixei a cabeça, momentaneamente esquecida de não ter dito a ninguém ainda sobre aquilo.

-Erm... Harry e eu não estamos mais juntos.

Kingsley trocou a perna de apoio, mas não disse nada. Ron aparentemente precisava de uma explicação mais detalhada.

-Você quis dizer que ele... Que você... MAS COMO?

Imediatamente eu me coloquei diante da porta; se conhecia meu irmão, ele deveria estar pensando que Harry deveria ter feito um grande mal a mim, para termos chegado a um extremo como aquele.

-Ron, não seja ridículo! – esbravejei, mas as orelhas dele estavam a cada segundo mais vermelhas e, bem, se ele resolvesse passar por mim, não havia muito que eu pudesse fazer. – NÓS terminamos. Não foi ele, e nem eu.

O que não era bem verdade, mas meu irmão não estava com o temperamento adequado naquele momento para ouvir qualquer verdade.

-Como assim? – ele continuou repetindo, parecendo furioso. – Vocês estão juntos há séculos! Sempre foi ele que não te tratou como merecia... Ah, eu vou matar aquele cara!

-Ron, acorda! Você está falando do seu melhor amigo! – rebati, tentando não rir, porque apesar de tensa a situação, era engraçado ver como um Weasley era capaz de ficar se visse qualquer necessidade de proteger a "honra da família".

-Se fosse Merlin, daria no mesmo!

-Certo, pare com isso, Ron, não tem mais graça. – baixei os braços e apenas fiquei parada diante da porta. Kingsley continuava assistindo à cena, com uma tranqüilidade perturbadora. Respirei fundo e apontei para Ron. – Estou farta de tudo isso, Ron. Agora é sério. Se não parar de agir como se eu fosse uma bolha de sabão, nós teremos que cortar algumas coisas, como relações fraternais...

Ele ficou parado, ainda olhando para mim com raiva, mas bufou e jogou-se sentado mais uma vez.

-Sua vez, Kingsley – ele murmurou. – Convença-a, e eu te pago cerveja amanteigada por um mês inteiro.

Mas o Auror sacudiu a cabeça.

-Ao menos sabemos uma coisa – ele murmurou, em tom baixo, mas mesmo assim ecoando pelo cômodo. – Se fizerem Ginny de refém, não precisaremos salvá-la, com uma teimosia dessa.

Olhei para ele amuada, mas não agüentei e tive que rir.

-Eu vou então, não é?

-Você vai precisar de um namorado que consiga contradizer você, Ginny – ele comentou, rindo enquanto saía do quarto. – Vocês sabem de Lupin? – perguntou, já no corredor.

-No porão, com Neville e McGonagall – Ron gritou de volta.

Fiquei ali, encostada ao batente, pensando em nada.

-Isso vai ser esquisito – ele grunhiu, depois de alguns segundos.

-O quê?

-Ver você e Harry separados – ele disse, erguendo a cabeça e fixando os olhos azuis em mim. – Eu estava achando que seria pra sempre... Assim como Hermione e eu. – acrescentou, ficando vermelho de novo.

-Nenhum casal poderia ser mais eterno do que você e Hermione, Roniekins. – repliquei, saindo do quarto.

Aquilo era um avanço, sem dúvida. Meu irmão e eu não tínhamos terminado a cena brigando? Uau, isso só costumava acontecer quando ele me defendia de algo de fora da família. E pensando bem...

Apenas de saber que Harry e eu não somos mais namorados, ele quase saiu à caça da cabeça dele. Imaginem o que ele faria se eu dissesse que Draco e eu...

Por um momento, fiquei imaginando como seria um relacionamento com Draco. Sem o pai dele, sem os meus irmãos, sem a guerra. Não, fica impossível demais como ele poderia ser, se não fosse a guerra. Afinal, Voldemort e os "ensinamentos" dele estão tão intrincados dentro dele que se torna difícil saber quem é Draco, quem é Voldemort.

Se bem que... Não foi Voldemort quem saiu correndo de mim ontem, no Beco Diagonal. Era Draco...

Ora, no mínimo Voldemort tinha refreado o espírito de um maratonista dentro daquele Comensal da Morte!

And you must keep your soul like a secret in your throat

And if they come and get me

You put the spike in my heart

Era noite, e mesmo o ar da Mansão Black parecia meio morto. Pelo que eu sabia, Harry estava discutindo com Kingsley, Lupin, Ron e Hermione sobre a missão do dia seguinte. Tonks estava na rua ainda, em missão, e Luna... Boa pergunta, onde será que estava ela? Faria bem conversar com alguém confiável, especialmente quando esse alguém não fica nos dizendo o que fazer... Ao menos, não diretamente. O que eu fiz então foi apenas tomar o rumo do quarto dela, onde começaria minha procura.

Mas antes mesmo que eu batesse à porta, ou abrisse, ou chutasse, ou pusesse fogo (para que se possa entender que eu não pude fazer absolutamente nada contra isso), um vulto magro e de cabelos castanhos saltou da porta ao lado.

-Hermione! – exclamei, olhando para o rosto corado dela. – O que aconteceu?

-Hogwarts, uma História! – ela exclamou, sobrando as mechas da frente dos olhos. – Você viu por aqui?

-Uh... – pensei um minuto, com um olhar breve para a maçaneta da porta de Luna. – Não. Você chegou a trazer da Toca?

-Eu sabia! – disse ela exaltada, apertando as mãos com tanta intensidade que seus dedos pareciam a ponto de se quebrar em três ou quatro partes. – Ginny, veja só, eu de repente me esqueci de alguns fatos sobre Rowena Ravenclaw... É realmente importante!

Eu pisquei.

-Ora, então por que você não dá um pulinho lá e...?

-Exatamente! – ela de súbito me abraçou e eu não enxerguei mais nada. - Eu sabia que você iria comigo! Talvez haja mais livros que eu não trouxe quando nós... Você precisa se trocar?

-Ir até a Toca? – repeti, ainda meio surpresa com a rapidez das decisões de Hermione. – É... Faz muito tempo que eu não vou até lá.

-Perfeito! – ela disse, e bateu palmas. – Você vai trocar de roupa, vou pegar uma capa e nós nos encontramos lá embaixo em alguns minutos, certo?

-Aham... – murmurei, virando-lhe as costas, ainda meio hesitante. – Hermione?

-Diga! – ela replicou da porta de seu quarto, com um tom de voz bem mais agudo do que o normal.

-Você precisa mesmo da minha ajuda para pegar um livro na minha antiga casa?

Ela pôs a cabeça para fora, e me olhou como se eu estivesse sendo muito inocente.

-Claro que não, Ginny. Você tem que me explicar direito essa história de não namorar mais Harry!

Suspirei.

-Foi o que pensei – e voltei para o meu quarto.

Hermione às vezes tem uns acessos como esse. Toda a garota tem, por mais racional e calculista que seja. E afinal, não é como se nós fôssemos desconhecidas. Crescemos juntas! Eu confiei muita coisa a ela que não teria dito a ninguém nem nos meus dias mais otimistas. E bem, ela namora meu irmão. Eu namorei o melhor amigo dela, até ontem. É inevitável que nós sejamos muito ligadas e dividamos esses momentos loucos, nos quais uma mulher só quer falar de homens.

Enquanto punha uma capa, a imagem de Draco correndo veio até mim mais uma vez. E depois dela, bem, uma imagem menos recomendável para qualquer horário do dia. Ele tinha um beijo profundamente diferente do de Harry... Eu fico vermelha só de pensar em dizer isso, mas ele é mais... Experiente. Parece saber com exatidão o quê fazer e o momento em que deve fazer. Oh, quanta bobagem! Hermione e sua curiosidade devem estar me esperando lá embaixo.

Ela estava olhando para o relógio e batendo o pé quando eu cheguei. E, bem... Harry estava na sala, aparentemente analisando os avanços de Ron e Hermione nos Escritos Negros. Eu não sei dizer como ele parecia, porque passei muito depressa. Ele tinha parado para falar com Hermione, aliás.

-À Toca? – disse ele. – Mas por quê?

-Eu preciso fazer uma pequena pesquisa em uns livros que deixei lá – ela falou, depressa e ansiosamente. – Pronta, Ginny? Ótimo. Segure o meu braço.

Eu não sou muito boa em aparatar, para confessar. Hermione já tentou me ensinar, e Harry também. Quando pedi ajuda a Ron, ele apenas resmungou algo sobre ser um "idiota que nem mesmo conseguiu passar de primeira no teste", de maneira que até hoje não tem licença para aparatar... Pobre maninho. Ele está muito ocupado ajudando o amigo a salvar o mundo para prestar uma certa prova... Mas Hermione fica dizendo que ele está é se aproveitando do período de guerra, no qual o Ministério não está preocupado com coisas tão insignificantes como aparatações ilegais vindas da Ordem da Fênix. Quando eles se importam mais do que o normal, Kingsley ou Moody sempre estão lá para dar uma abafada e agilizar o nosso trabalho.

Bem, voltando ao assunto, a lua estava quase cheia no céu aberto quando Hermione e eu aparecemos diante da Toca. Puxa! Fazia tempo que eu não aparecia ali.

Não na prática, disse a mim mesma, já que Harry pensa que eu estive aqui naquela noite que eu na verdade passei todinha com Draco... Quando será que ele me convidaria de novo?

Talvez a pergunta mais adequada seja outra: será que ele vai me convidar de novo?

Minha mãe estava na cozinha, acenando com a varinha para um livro de receitas, cujas páginas se viravam preguiçosamente; tão logo entramos, o meu ponteiro no relógio da família se mexeu com um estrondo, e ela ergueu a cabeça, com um sorriso alegre que eu não via há muito tempo.

-Ginny! – ela exclamou, e no instante seguinte ela estava me abraçando. E foi reconfortante demais! Abraço de mãe tem dessas coisas, faz parecer que o mundo lá fora não é tão ruim. Até porque, quando se é abraçado por Molly Weasley, você fica em tal estado de asfixia que os problemas do mundo certamente ficam menores. – Você não aparece faz tanto tempo! Você fez isso, minha querida? Sua mãe quase morreu de preocupação... Hermione!

Ela abraçou também Hermione logo em seguida e eu fui deixada para respirar.

Demorou algum tempo até que Hermione convencesse a minha mãe a nos deixar subir até o meu antigo quarto, onde ela costumava dormir comigo. "Algumas coisinhas que ficaram aqui com toda aquela bagunça...", Hermione dissera, fazendo um aceno com a mão como se tivéssemos apenas saído de férias.

A porta se fechou com um tique e ela se encostou à superfície de madeira. Parou por um momento e me olhou como se eu fosse uma criminosa.

-Comece a falar, Ginny.

Fiz a cara mais inocente do mundo.

-Do quê você está falando? – repliquei, com o toque sutil de erguer uma sobrancelha.

-Oh, meu Merlin, você nem mesmo disfarça – disse ela, com um sorrisinho afetado. Depois seus olhos brilharam com a alegria que só nós mulheres temos, e suspirou. – Certo, eu estou tentando não soar como uma menininha de treze anos, então facilite as coisas. O que foi isso com o Harry?

Sentei-me na minha cama, e nem tive tempo de sentir saudade daquele colchão cheio de marcas e costuras, porque Hermione saltou para um lado e abriu meu armário sem a menor cerimônia.

-Muito bem, vamos fingir que eu estou aqui revirando e procurando meus livros enquanto você fala. Agora você pode começar?

-Mas Hermione! – exclamei, sem saber por que estava sorrindo. – Você sabe tudo que há para se saber! Nós não estamos mais juntos, e... É isso! Você às vezes não sente como se só estivesse com Ron porque, bem, se acostumou com ele?

Ela se virou subitamente, e o cabelo fofo deu um salto para mostrar a expressão vaga dela.

-Uh, claro que não. – respondeu ela, como se fosse óbvio.

-Você NUNCA pensou em como seria bom estar sozinha? – insisti, sem acreditar.

-Não, claro que não! – ela se ergueu, como se eu tivesse acabado de falar a maior barbaridade do mundo. – Ginny, eu saí com outra pessoa, além do Ron...

-Apenas um cara! – retorqui. – Krum, e eu sei que apesar de ele ser muito legal e tudo o mais, foi apenas um..

-Houve McLaggen também! – ela replicou, enrubescendo.

Lancei a ela um olhar parado.

-Ao menos eu tentei. – ela confessou, voltando à caixa empoeirada. – Além do mais, não sei do que você está falando. Você apenas saiu com aquele Corner e com o Dean, logo em seguida.

-Mas foram casos longos...

-Ah, será que nós podemos voltar ao presente? – ela me cortou, tossindo duas vezes e erguendo finalmente uma cópia amarelada de Hogwarts, uma História. – Você estava prestes a me dar os motivos de não estar mais com Harry.

Suspirei de novo. Bom, ganhei dois segundos. Mas eu aceitei vir até aqui, não? E além do mais, é Hermione aqui na minha frente. Se eu não for confiar nela... Em quem?

-Eu estou cansada – murmurei. – E... Eu não sei se gosto mais dele... Como antes.

Foi aí que eu tivesse a maior reação da noite. Os olhos dela se arregalaram tanto que eu pude ver perfeitamente cada traço castanho dentro deles. A isto seguiu-se meia hora, na qual eu tratei de explicar tudo que andava sentindo sobre Harry... Mencionei mesmo o meu estado de confusão de ontem à noite, sem dar os motivos. Neste processo todo, eu não falei de Draco, mas era uma das melhores bruxas da atualidade que eu tinha diante de mim. Ela saberia que tinha algo faltando...

-Sabe... – ela murmurou, quando eu não consegui pensar em mais nenhuma justificativa. – Eu não vejo você fazendo isso. Simplesmente não vejo.

-Por quê? – perguntei, indignada. Eu gasto toda essa saliva tentando inventar MIL maneiras para não querer mais estar com Harry Potter, e tudo que ela tem a me dizer é "não acredito"?

-Você não faz o tipo que termina um relacionamento apenas porque não está tendo atenção suficiente, Ginny. E também não, bem, está acostumada a... A ficar analisando seus sentimentos todos os dias, e...

-Espere aí! – eu me levantei e pus teatralmente as mãos na cintura. – Você está dizendo que eu não penso sobre os meus relacionamentos?

-Não, não, não! – ela se corrigiu, deu um tapa na testa e tomou fôlego. – Eu só digo que, bem... Você fica confortável com uma vida amorosa tranqüila, e... Vamos ao ponto! – ela ficou vermelha, e eu tirei as mãos da cintura, mesmo que eu não tenha me sentado de novo.

-O que eu quis dizer – ela recomeçou. – É que há outra pessoa.

Neste ponto eu quero parar para que nós relembremos alguns fatos: Hermione é bruxa, mas eu também sou, mesmo que tenha passado um ano em Hogwarts a menos do que ela. Hermione chutou Adivinhação quando ainda estava no terceiro ano, e eu agüentei até o quarto.

Então por que diabos ela lê minha mente e eu não leio a dela?

-Essa sua missão no Ministério... – ela estreitou os olhos, vendo que tinha me abalado. – Você andou saindo com Draco Malfoy sob outro nome, não é?

Eu não posso ver a minha própria cara quando quero, mas naquele momento, minha expressão deveria ter tanta derrota quando a do técnico dos Chudley Cannons. Minhas sobrancelhas se ergueram, meu queixo caiu, e até as minhas sardas perderam um pouco da cor.

Já a expressão dela mudou rapidamente do triunfo para a preocupação.

-Por favor, Ginny, me diga que você não se apaixonou por Draco Malfoy...

Silêncio.

-É claro que não! – falei afinal, me recuperando do choque. – Ele é um Comensal da Morte! E eu estou arrancando informações dele! Ele é asqueroso, absurdo e irreal... Além de tudo...

-Ginny, exatamente quanta informação você tirou dele até agora? – ela perguntou asperamente, e sem a menor piedade.

-Hum...

Eu sabia que era pouco, mas não queria assumir. Eu passara o tempo todo dizendo a mim mesma que conforme ele confiasse mais em mim – ou nas possibilidades infinitas da herança de Diana Higgs a serviço de Voldemort -, mas essa confiança vinha devagar, e só algumas poucas mortes tinham sido evitadas até essa precisa noite.

-Às vezes ele parece tão diferente! – deixei escapar, antes que me controlasse.

-Diferente como?

-Eu sei que ele é um Comensal da Morte, um assassino, um idiota, um filhinho do papai e tudo o mais, mas... Hermione, às vezes eu sinto que tem algo por trás de tudo isso!

-O quê, mais especificamente?

Lembrei-me então daquela esperança contraditória dele. Não... Eu não teria coragem de falar daquilo com ninguém... Nem mesmo com Hermione!

-Ele... Ele não queria matar Dumbledore... – acabei balbuciando, e me arrependi imediatamente. Era a pior lembrança que eu podia invocar.

-Ah, eu sabia que você diria isso! – Hermione exclamou, mas depois baixou o tom e me olhou seriamente. – Ginny, aquilo foi um lapso. Nós já falamos sobre isso... O Harry acha que ele estava com medo. Ficou até com pena dele. No mínimo ele percebeu tarde demais a responsabilidade que implicava assassinar alguém como o Professor Dumbledore... Parece um pensamento iluminado para um bruxo das Trevas, não? Matar o maior bruxo de todos os tempos... E com certeza esse não era um fardo que ele poderia suportar...

-Nem Snape poderia – cortei eu, amarga com o pensamento.

-Eu sei, mas nós estamos cogitando sobre os restos da alma de Malfoy, não de Snape. – ela concluiu, com um aceno triunfante de cabeça.

Por mais que ela estivesse certa, eu achava terrível demais ver aquele olhar professoral dela.

-Certo, argumento morto. – falei com ironia.

-Ginny, isso não é uma competição. – ela me disse, embora não fosse convincente. – Não é bom pra você ficar imaginando um lado bom em Malfoy. Nós o perdemos... Se é que um dia ele teve chance de não seguir os passos do pai. Sabe, Ginny? Vamos falar com o Lupin quando chegarmos na sede da Ordem, essa missão sua está meio que...

-Dando totalmente errado. – completei para ela.

Ela sorriu, triste.

-Amanhã você pode ir até o Ministério da Magia e dizer a ele que tem que fazer uma viagem. E nunca mais terá que fingir ser Diana Higgs de novo.

Ficamos quietas. Meu olhar ficou parado sobre minha manta, fria depois de tantas noites que eu não a usava.

-Você tem certeza do que fez, Ginny? – ela me perguntou, levantando-se. – Digo, sobre Harry. Você vai deixar de ver um outro lado em Malfoy e vai continuar convivendo com o lado ruim e o bom de Harry.

Sacudi a cabeça.

-Acho que tenho certeza... – murmurei, sabendo que não podia soar mais contrastante.

-Sabe – ela comentou, me estendendo a mão e me puxando em pé. – Ele queria se casar com você, quando a guerra terminasse.

Desviei o olhar.

-Vamos voltar. – repliquei, apenas.

And if they get me and the sun goes down

And if they get me take this spike and

Não foi uma noite feliz, aquela. Eu estava me sentindo como se estivesse acordando de um sonho. Como se eu tivesse levado adiante um daqueles pensamentos que nos passam pela cabeça quando estamos prestes a dormir, e que parecem tão certos que chegamos a nos prometer que iremos realizá-los no dia seguinte...

Você sempre pode contar com Hermione para colocar os seus pés no chão. Agora eu estava meio pra baixo, mas dali a algum tempo eu fatalmente agradeceria a ela. O que eu tinha na cabeça? Eu terminei com Harry porque tinha esperança sobre a alma de Draco... Sem nem mesmo saber se ele ainda tem uma!

Quando me fechei em meu quarto, fiquei pensando se eu deveria voltar ao Harry e pedir perdão. Mas puxa, se fosse assim, eu teria apenas brincado com os sentimentos dele... Dado um susto, depois voltado atrás, fazendo parecer que ele estava ao meu dispor... Não era o que eu queria! E também, aquela sensação de liberdade, em dizer que eu não tinha namorado, me trazia uma alegria e uma vontade de sair voando que eu sempre costumei trocar pela impressão segura de ter quem me abraçasse, quando eu quisesse, da maneira que eu quisesse, com o acréscimo de ouvir umas palavras bonitas, de vez em quando. Mas, naquele momento específico, eu não trocaria essa vontade de voar por nada.

A não ser, talvez, pela alma de Draco.

Eu entendi o que está acontecendo agora. Eu conheci o verdadeiro Draco Malfoy, vi o quanto ele é ruim e mesquinho, aprendi também sobre suas artes de sedução, e preenchi as lacunas com a minha imaginação. Coloquei um olhar perdido aqui, uma palavra ambígua ali, e pronto, construí outra pessoa totalmente diferente... E como eu disse, agora odeio o verdadeiro Malfoy por um motivo a mais: ele é a matriz do homem perfeito para eu amar.

De qualquer maneira, as coisas ficaram perfeitamente claras, se uma vez por todas. Tanto que, no dia seguinte, acordei mais resoluta ainda. Encontrei Tonks bocejando no corredor, no meio da manhã.

-Bom dia, Tonks...

-Ah, olá Ginny - ela cumprimentou, distorcendo meu nome com outro bocejo. - Beleza?

-É, acho que sim - pisquei. - Eu estava me perguntando se você podia fazer aquela transformação em Diana Higgs pra mim...

-Oh, você vai encontrar os Comensais da Morte hoje? - ela abriu bem os olhos. - Puxa, você tem uma energia que eu invejo... Eles sempre me deixam doente quando os vejo muito frequentemente. São piores que dementadores! Mas bem... - ela parou e olhou para mim. - Você parece desanimada o suficiente para quem vai fazer isso. Só me deixe acordar direito, que eu faço o serviço...

Sorri de leve.

Sim, pensei enquanto me vestia, eu estava desanimada o suficiente. Afinal, Diana Higgs estava indo embora da Inglaterra, da mesma forma que chegou, e ia se despedir de seu amante... E era melhor mesmo que eu estivesse num humor tão vago, porque precisaria imprimir tristeza. E confusão, afinal nem Ginny nem Diana sabem o que diabos deu nele para sair correndo naquela tarde.

Os olhos azuis e o cabelo negro estavam de volta. Eu estava mexendo em uma mecha preta enquanto esperava que o elevador terminasse de subir, quando meu pai entrou. Olhei para ele surpresa, e pensei por um momento no quê deveria fazer. E quanto tempo fazia que eu não o via! Minha mãe costumava ir mais até a sede, porque ele passava dias e noites no Ministério ultimamente. Fiquei com pena dele, porque os olhos pareceram mais fundos, além de ele estar envelhecendo depressa demais. Resolvi não falar nada. Se ele soubesse da minha missão – se Lupin ou Harry tivessem decidido contar a ele – ele me reconheceria.

O andar onde ficava o escritório de Draco pareceu mais longo e mais deserto naquela manhã, e os meus passos, cada vez mais lentos. Quando finalmente cheguei até a porta, bati duas vezes e respirei fundo.

Passaram-se lentos segundos até que ela se abrisse. Para que eu desse de cara com Blaise Zabini.

Ele me encarou por um momento com os olhos bem negros, sem dizer nada, para depois sorrir polidamente.

-Srta. Higgs, eu imagino?

Assenti, surpresa demais para falar qualquer coisa.

-Procurando por Malfoy?

-Hum... É. – murmurei, quando consegui abrir a boca.

-Ah, é uma pena. – ele suspirou teatralmente. – Achei que ele estivesse com você, para falar a verdade. Sabe como é, hoje completam-se dois dias que não há notícia dele. Não apareceu ontem para trabalhar... Nem hoje... – ele ergueu uma sobrancelha. – Espero que me entenda. Pensei que tivessem feito uma viagem, ou algo do tipo.

-Não, absolutamente! – exclamei, recuperando a cor. – Absurdo! Além do mais, por que ele faria uma viagem e deixaria o trabalho dessa maneira, em tempos tão... turbulentos?

Zabini deu um sorriso malicioso e aproximou-se.

-Ah, mas nós temos neste Ministério quem faça pior... Eu mesmo já saí por uma semaninha, porque a oportunidade era simplesmente boa demais... Não me tome por preguiçoso, senhorita, mas há chances que um bruxo deve agarrar, não concorda?

Na prática, ele tinha desaparecido. Sem deixar o menor traço! Enquanto voltava pra casa, eu mal conseguia pensar no que poderia ter acontecido para que ele tivesse surtado daquele jeito. Será que ele tinha fugido? Será que ele tinha fugido de Voldemort?

Certo, eu sei que a princípio ele fugiu de mim, mas a longo prazo o objetivo poderia ter sido outro, não?

Eu sabia de uma coisa: um Comensal da Morte não foge, a não ser que seja mesmo a única alternativa para sobreviver. Alguns ficam ao lado de Voldemort mesmo que isso signifique a morte... Como aquela maldita Bellatrix Lestrange.

Quando cheguei em casa, tudo estava muito agitado; a missão da noite estava sendo preparada, e felizmente eu estaria nela. Outra noite pra pensar e lamentar sobre a minha imaginação não me faria bem, definitivamente.

Foi quando eu encontrei Harry, tão logo entrei na sala de reuniões. Ele não parecia feliz, mas parecia bem mais disposto do que eu. Não me cumprimentou muito bem, apenas acenou com a cabeça para demonstrar que me vira entrando.

Estavam ali Kingsley, Lupin, Tonks, McGonagall e aquele bruxo cleptomaníaco, Mundungus Fletcher. Todos eles estavam mais agitados do que o normal, mesmo a professora, que costumava ser séria mesmo que você lhe mostrasse a melhor das piadas de Fred e George.

Eu não costumava participar da construção das estratégias, de modo que apenas deveria compreender bem a minha tarefa. Havia um casarão tomado por Comensais da Morte em um lugar remoto, perto demais de uma cidade trouxa. As mortes estavam se tornando numerosas demais; os membros da Ordem na região tinham pedido reforços urgentes, porque eles também tinha sido descobertos.

-Mas de quem era essa casa? – acabei perguntando.

-De... Marvolo Gaunt – Harry falou, sem olhar para mim. – O avô de Voldemort.

Não pude deixar de abrir bem os olhos.

-Por que eles ocupariam aquela casa?

-Dumbledore destruiu uma Horcrux que ficava protegida naquela região – lembrou Lupin. – Nós temos duas hipóteses: ou eles ouviram sobre a movimentação de Dumbledore por lá e acham que há algum tesouro de seu mestre, ou Voldemort, que ainda não sabe que o anel foi destruído, teria os designado para tornar o esconderijo mais seguro.

-Nós temos que dividir o grupo em dois – falou McGonagall, juntando as mãos. – Eles estarão esperando que nós ataquemos, com todo o barulho que andaram fazendo. Uma parte entra na casa pelos fundos, quando eles saírem para suas festinhas noturnas, e nós os pegaremos pela frente.

Aparentemente Kingsley não gostou de ouvir McGonagall se colocando na linha de frente.

-Tem certeza que quer ficar no grupo de ataque, professora? – ele falou, com cautela.

Ela se empertigou.

-Pois decerto que sim, Shacklebolt! – ela disse. – Não está achando que estou velha demais para isso, não é?

-Absolutamente – ele discordou, sacudindo a cabeça. – Mas as chaves de Hogwarts são suas por direito, professora. Não temos alguém capacitado o suficiente para a substituir, se a perdemos. Já se esquece que, acabada a guerra, Hogwarts terá mais trabalho do que em todos esses mil anos de funcionamento?

A bruxa se ajeitou na cadeira, parecendo contrariada.

-Albus não teria se preocupado com isso.

-Albus tinha a senhora, professora. – cortou Lupin. – E colocá-la no grupo que invadirá a casa não é tirá-la do perigo, porque nós não sabemos que tipo de maldições eles escondem lá dentro.

Can you take this spike?

Will it fill our hearts with thoughts of endless

Night time sky

Can you take this spike?

Will it wash away this jet black feeling?

Eu não fiquei muito surpresa em ser designada para a retaguarda... E, pela primeira vez, não discuti, porque depois de termos discutido todas as possibilidades de maldições que eles teriam, eu teria me sentido protegida caso me colocassem contra um bando de bruxos vestidos de preto, que eu já tinha derrotado várias outras vezes.

McGonagall lideraria o grupo, porque ela sabia rastrear maldições quase tão bem quanto Dumbledore. Ron, Hermione e Harry estariam na frente, junto com Tonks e Lupin; Luna e Neville iriam conosco. Enquanto eu me preparava no meu quarto, podia ouvir Hermione falando com Harry sobre colocar os dois últimos na missão, porque tinham muito pouca experiência para um caso tão perigoso. Apenas quando Harry deixou bem claro que aquela parte estava a cargo de McGonagall e que ela se responsabilizara pelos dois pessoalmente é que ela se deixou derrotar. Eu mesma tinha lá minhas dúvidas com a participação daqueles dois, mas Hermione simplesmente exagerava... Neville um dia teria que participar daquilo, afinal fazia séculos que ele estava na Ordem e tudo que ele fazia era cuidar das poções e mudas de plantas, ajudado pela própria Hermione. E Luna... Bem, ninguém conhece Luna completamente, não é? Ela sempre foi como um ponto de interrogação.

Foi na sala da estar que nos encontramos, logo depois de comermos um pouco (pouco mesmo). Eu estava um pouco nervosa, mas me sentia animada em ter um pouco de ação novamente. A mesma coisa parecia passar pela cabeça do meu irmão, mas Mione, do lado dele, parecia prestes a desmaiar. McGonagall, rígida como sempre, tinha os lábios contraídos. Eu mesma não sei como parecia, mas estava ansiosa.

A viagem pela Chave de Portal foi mais demorada que o normal; quando aterrissamos no chão, precisei de uns segundos para me restabelecer... Apertei a minha varinha na mão e estreitei a vista.

A noite estava particularmente escura; Lupin acendeu sua varinha e apontou-a para o próprio rosto. À nossa frente havia a porta dos fundos de uma casa grande, senhorial, com todas as luzes apagadas. E havia gritos selvagens vindo de bem longe, como um bando de bêbados cantando de madrugada.

-Nós temos fontes seguras dizendo que eles podem ter reféns no porão – Lupin reportou, depressa. Tentem chegar até lá e nos alcancem. Vamos dar a volta agora...

Antes que eu acendesse minha varinha, Kingsley parou do meu lado e me puxou pelo ombro. Voltei-me para ele e ele cochichou:

-Salve os reféns, Ginny, e você terá sua chance na escola de Aurores.

Depois ele se juntou a Lupin e Harry; ergui a vista e vi Luna sorrindo de forma simpática pra mim. Ela parecia tão tranqüila que de repente a coisa toda pareceu muito fácil.

Nosso grupo consistia em mais ou menos vinte bruxos, porque tínhamos encontrado muitos outros no momento da chegada. A maioria, entretanto, fora com Harry para a frente do embate.

McGonagall caminhou em volta de nós, contando-nos, depois parou e ergueu a varinha acesa na altura da cabeça.

-A qualquer barulho suspeito, eu quero que não corram. Fiquem todos juntos e com as varinhas acesas. Qualquer ataque de objetos hostis, um Finite Incantatem deve resolver. Se não... Vamos esperar que não seja hostil demais.

Ela respirou fundo e todos ficamos em silêncio, com exceção de Luna, que caiu subitamente na gargalhada. Aparentemente, a idéia de ser atacada por um "objeto hostil" não a atrapalhava, fosse uma colher ou uma espada medieval...

Começamos a segui-la até a porta dos fundos, onde ela parou e ficou tateando por alguns instantes. Um dos bruxos, atrás de mim, parecia excepcionalmente nervoso, porque respirava muito ruidosamente e mudava o pé de apoio o tempo todo; dava pra saber disso sem olhar para ele, porque era realmente barulhento. Mas eu – e todos ao meu lado – estava ocupada demais tentando ver McGonagall destravando os feitiços. Em certo momento, ela soltou um grito contido de dor, e os da frente se adiantaram; ela ergueu a mão para afastá-los, depois ergueu a varinha. E a porta se abriu.

Eu estava pronta para dar um passo à frente quando me virei para chamar Luna; mas ela estava fitando chocada o bruxo atrás de mim. Tão chocada, que não se mexia.

-Luna!

Eu mal tive tempo de ver que ela fora petrificada; o bruxo atrás de mim repentinamente me segurou pela cintura, e eu me esforcei para me virar e ver quem era... E congelei, porque encontrei ali uma máscara de Comensal da Morte.

As varinhas já estavam se virando para nós dois também, mas ele ergueu a varinha e nós desaparatamos.

And now the nightclub set the stage for this they come in pairs, she said

We'll shoot back holy water like cheap whiskey they're always there

Someone get me to the doctor, and someone call the nurse

Fui jogada no chão de um apartamento cinzento. Os cabelos caíram sobre o meu rosto e eu tentei desesperadamente agarrar minha varinha, mas o Comensal cravou o pé nas minhas costas e o chute me jogou contra a parede. Ele girou e tirou a capa, para depois erguer a própria varinha e acender três tochas naquele quarto. Vi depressa uma cama desarrumada e uma mesa de madeira gasta com três cadeiras e um prato sujo com um garfo torto; o assoalho cheio de buracos sustentava os pés em sapatos caros do Comensal.

-Quem é você? – perguntei arfante, olhando a intervalos para a máscara e para minha varinha, logo à minha frente.

O Comensal pareceu mais furioso ainda e chutou uma cadeira, que se quebrou e caiu logo do meu lado. Depois jogou a máscara a um canto e me encarou com todo o ódio desse mundo.

-Quem você acha, Diana Higgs? – ele atirou.

Uma sensação fria, gelada, imobilizante, se alojou no meu estômago, e os meus olhos se arregalaram. Malfoy sabia!

Ele tinha os olhos abertos, parecia louco; seus cabelos estavam desarrumados e caíam sobre o rosto suado, enquanto as vestes outrora elegantes estavam amassadas e longe do estado de limpeza. Poucas vezes senti medo como naquele momento.

-Chocada? Bem, talvez eu saiba quem você é há mais tempo do que imagina! – ele gritou, andando a largas passadas pelo quarto à minha volta.

Eu não consegui dizer nada. Levei uma mão ao rosto, porque ele parecia prestes a me bater como se fôssemos duas velhas lavadeiras.

-Talvez eu tenha me aproveitado de um membro da Ordem querendo se aproximar dos Comensais da Morte tão inocentemente! Sempre tolos vocês, inimigos do Lord das Trevas!

Ergui a cabeça.

-E você me trouxe aqui apenas para dizer isso? Porque se quer me matar, está demorando muito.

Os olhos dele se estreitaram; o meu próprio tom de voz tinha um desprezo que eu não pretendera.

-Tudo ao seu tempo, Weasley. – ele cuspiu no chão perto de mim. – Acredito que lhe interessa saber que aquela tia trouxa do Potter morreu por sua causa, não?

Não falei nada. A idéia me pareceu tão impossível...

-É patético ver como vocês insistem em brincar de espiões. – ele disse, e eu também o odiei, enquanto caminhava daquele jeito arrogante como se eu fosse uma criança mal comportada. – Você acha que dormiu comigo... Acha que não me disse nada... É impressionante o que umas alterações na memória não fazem, não é?

De novo, sensações geladas. Ele parou e nós nos encaramos furiosamente por um segundo. O que eu tinha a perder?

-Impedimenta! – de um salto e um feitiço o duelo tinha começado.

Ele se protegeu e deu um pulo para trás; atirou uma maldição da qual eu me esquivei, depois seguiram-se minutos rápidos de feitiços.

-Estupefaça!

-Protego! Petrificus Totalus!

Poucos minutos depois meu pescoço já estava cheio de cabelo grudado e eu já não sabia se venceria. Quando consegui ficar de pé, ele me desarmou.

-Expelliarmus!

Mas não satisfeito com o som triste de minha varinha batendo na parede, ele teve que jogar a mim também. Com um tranco doloroso, bati de costas contra um armário contíguo à parede que eu não notara antes.

Muito bem, pensei, nós temos que morrer um dia...

Malfoy manteve a varinha apontada para mim e começou a caminhar na minha direção. Seus olhos já não tinham aquele ódio cego; pareciam, na verdade, tão desanimados quanto dois olhos poderiam ficar. Eu prendi a respiração, e esperei que ele parasse a alguns passos de mim.

-Eu quis – ele falou, baixando a varinha. – que você fosse real.

Meu queixo caiu, e de repente minha mente se encheu de coisas a dizer e de perguntas a fazer, mas antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, ele me deu as costas.

-Estou fugindo essa noite. Estou traindo essa noite.

And someone buy me roses, and someone burned the church

We're hanging out with corpses, we're driving in this hearse

Someone save my soul tonight, please save my soul

N/A: A música ao longo do capítulo é "Vampires Will Never Hurt You", do My Chemical Romance. Sim, eu ainda estou viva! Puxa, eu demorei muito dessa vez, sei disso. Queria pedir desculpas a todos vocês. Mas é que eu estive em semana de provas... Agora elas finalmente terminaram e minha única tarefa prevista nas férias de julho será ler livros de vestibular. Ah, e vale avisar, o próximo capítulo está uma loucura, haha.

Scila: Então, Scila, eu assumi que terminaria até certo ponto a proteção... Mas mesmo assim, a ligação do sangue teria a sua importância. Já que o Dumbledore uma vez disse que enquanto ele ainda tivesse alguém que ele pudesse chamar de família, teria certa proteção... E sim, matar os Dursley não é tão fácil quanto parece... Foi uma cena de muito desespero, e pra confessar, amei escrever. Obrigada por continuar lendo!

Matt McGregor: Seus comentários não são xoxos, menino, pára com isso! E puxa, a Luna é sempre uma coisa nova, né? Nem eu sei se eu a entendo direito... E como eu adoro MCR também, coloquei mais essa música, porque sempre me fez pensar em DG, desde o começo. Pergunta pra Melissa! Hahah. Obrigada!

Melissa: Você vai ao céu com HL, é? Então espera só pra ver o capítulo 12, menina! Eu sofri, mas finalmente terminei. Foi um dos partos mais difíceis da minha vida... E eu adoro analisar personagens... Haha... E eu e essa coisa de personagens esféricos! E foi muito complicado escrever o fim deles, acho que você imagina... Muita tensão, né? Ainda mais com a Luna se sentindo culpada por desejar o namorado alheio... E eu também não entendo o que você sente por HG. Paciência... Obrigada Mel!

Cristina Melx: Ah, valeu! Que bom que eu fiz você gostar pelo menos um pouco de HL. Espero que tenha gostado desse capítulo DG também!

Vivis Draco: Obrigada também!

Licca: Quanto tempo você não comentava, hein? Vamos combinar! Haha, sua doida. Imagina a tia Jô lendo isso? Eu seria presa... Se bem que tem outros autores que merecem cadeira elétrica pelo que fazem com certos personagens dela, mas isso é outro assunto. Obrigada!

Framboesa: Ah, você já deve ter percebido o quanto eu adoro a Luna. Muito obrigada por comentar! Uma das coisas que eu gosto nela também é esse jeito avoado. Sem falar das verdades que ela solta vez e outra... Valeu mesmo!

Lara: Hah, sim, fui eu quem escreveu "Água e Vinho". Eu sinto muita falta daquela fic às vezes... Significou um tempo confuso e ao mesmo tempo bom pra mim. Não tem problema, não, pode ser amalucada comigo o quanto quiser! E obrigada por todos os elogios...

Samhain Girl: Minha nossa! Eu não acredito que você comentou uma fic minha! Você nem imagina o quanto significa pra mim receber uma review sua... Eu era uma daquelas fãs doidas de CI. Eu nem consigo pensar em palavras tão bonitas pra responder a tudo que você escreveu... Mas eu fiquei imensamente feliz. É por essas e outras que eu amo essa fic! Muito obrigada, viu?