Capítulo 12: A lista dos suspeitos engrossa

Sobrou pra ele uma sala minúscula, abafada e poeirenta, que já servira de almoxarifado e no momento, não tinha nenhuma serventia aparente. Tony Benson, o produtor, surgiu à porta:

- Queria falar comigo?

- Tony Benson, o produtor desse espetáculo? – Perguntou Warrick, lendo suas anotações.

- Sim, em que posso lhe ser útil, senhor...

- Warrick Brown. – Olhou em volta procurando uma cadeira, para o outro poder se sentar.

Benson conhecedor do teatro há muito tempo, desvirou uma cadeira, num canto do quartinho para Warrick pegou outra para si próprio e sentou-se.

- Bem...

- Bem Sr. Benson, aqui diz que conhecia a vítima há longo tempo. Como era seu relacionamento com Letitia?

O sujeito grisalho, cabelo cortado bem rente, era muito nervoso o que se percebia, pela fala rápida e o terrível hábito de acender um cigarro no outro e um tique no olho direito. .

- Ela era temperamental, como toda estrela! Onde você acha que eu arranjei esses cabelos brancos?

- Vocês brigavam muito?

- Depende do que é muito pra você – disse Benson, que no entender de Warrick, estava mais agitado agora soltando baforadas cada vez mais curtas.- Discutíamos bastante, sim. Por causa dela há uns quatro meses fui parar no hospital.

Warrick começou a se sentir sufocado e escancarou a pequena janela, em busca de ar. Benson que parecia nem sentir a fumaça continuou a contar:

- Puxa, eu pensei que estava tendo um enfarte, como o Martin. Mas o doutor falou que eu estava com estresse, taquicardia e pressão alta.

- Toma algum remédio para o coração?

- Sim. Fui no mesmo cardiovascular que cuidou do Martin.

- Que coincidência! – Warrick se distraía com o produtor jogando cinza no chão. Na falta de cinzeiro, o chão servia para essa finalidade.

- Na verdade, não foi: quando deixei o hospital pedi o endereço do médico que estava atendendo Martin. Fiz alguns exames o médico me deu uma dieta, recomendou exercício físico, que eu parasse ou pelo menos diminuísse o fumo e me receitou dois remédios: para pressão e para o coração.

- Como é o nome dos remédios?

- Isso, eu já não sei. Tenho uma péssima cabeça pra remédios. Mas, tenho aqui – e pegou duas caixinhas no bolso, mostrando-as ao CSI.

Warrick anotou os nomes numa ficha, ao lado de anotações pessoais sobre o produtor. Depois com jeito de sonso, tratou de saber mais um pouco.

- Li na Variety, que Letitia foi sondada pra mudar de companhia. Esta notícia procede?

- Francamente, você não tem cara de ler a Variety – surpreendeu-se o produtor.

- E não leio. É que andei fazendo umas pesquisas...

- Fascinante o mundo do "show-bizz" não?

- Ossos do ofício! – Respondeu Warrick indiferente.- Mas, não respondeu a minha pergunta, Sr. Benson.

- Toda artista sempre tem muitos convites, e com Letitia não era diferente.

- Entendo, mais um problema pra você!

- Nessa profissão a gente tem que se acostumar com isso – retrucou o produtor, dando um ligeiro sorriso.

- E quanto a envolvimento, tinha algo com Letitia que não fosse profissional?

Tony Benson acendeu outro cigarro no anterior, e ficou quieto alguns segundos. Warrick achou que ele não ia responder ou ia dizer ao CSI, que não era da sua conta. Mas de repente, Benson começou a falar, num tom mais baixo de quem faz confidências.

- Foi há muito tempo. Estávamos contratando bailarinos para levar "D. Quixote". Letitia compareceu aos testes e conseguiu me impressionar. Era muito jovem, bonita e mostrava muita determinação e ambição, naqueles olhinhos claros. Nunca fui, nem agora nem antes, nenhum Brad Pitt. Não entendia por que cargas d'água, aquela mocinha ia querer dormir comigo. Muitos produtores fazem isso; eu não.

- Mas dormiu, assim mesmo, não?

Um sorriso indefinido apareceu nos lábios de Benson e Warrick não saberia se era de ironia, de sacanagem ou de tristeza.

- Ora, somos homens, não, Sr. Brown? Nunca recusamos uma moça como Letitia, embora talvez devêssemos... De qualquer forma, falei a ela, que estava contratada. Ela era verdadeiramente talentosa, como veio a demonstrar mais tarde, tornando-se a 1ª bailarina da companhia. E, conseguiu isso por mérito próprio, não por dormir com quem quer que fosse. Ela fez da minha vida, um Paraíso para mais tarde transformá-la num verdadeiro Inferno.

- Ela acabou com você porque se interessou por outro?

- Não, esse não era o estilo dela. Ela nunca chegou a dizer claramente, que terminara. Foi diminuindo as vezes que ficávamos juntos; não respondia meus recados e raramente, atendia meus telefonemas, Um belo dia me disse que ia casar, com um membro da orquestra.

- Isso deve tê-lo transtornado, não?

- A ponto de querer vingança? Pensar em matá-la?

Warrick balançou afirmativamente a cabeça. Benson prosseguiu:

- Não. Como já disse tenho espelho, em casa, Sr. Brown! Sabia que não ia conseguir impressionar uma mulher jovem e fogosa, como Letitia. E depois, viu por quem ela me trocou um perfeito banana, um mosca morta! Creia-me, nunca lhe invejei a sorte. Sabia que esse casamento não ia durar, como não durou. Letitia não foi feita para o casamento!

Quando ele saiu só conseguiu deixar Warrick mais confuso procurando uma janela, para respirar e com a porta aberta, pra ver se conseguia se livrar daquela fumaceira danada.

Sara já havia tomado seu café e observava uns porta-retratos sobre uma estante. Uma foto lhe chamou a atenção. Nela, via-se toda a família sorridente, num parque de diversões. Sara perguntou, só pra puxar assunto:

- Então tem outro filho, Sra. Tremoyne?

Julia levantou-se do sofá foi até onde a CSI estava, tirou a foto de suas mãos, olhou para o retrato e sorriu.

- Sim, Justin, o mais velho. Hoje está com 10 anos. Era menor, quando esta foto foi tirada.

- E quanto a Letitia Shawn?

- O que tem ela? Não é a bailarina que morreu?

- Sim, o que pode me dizer a respeito?

- Ela se consultava com meu marido.

- Já estive no consultório de seu marido. Não é isso que quero saber.

- O que quer saber, exatamente, Srta. Sidle? – Perguntou Julia, voltando a sentar no sofá, servindo-se de mais café