Na quinta-feira que se seguiu, conforme o combinado com Dona Eda, Regina fez um jantar especial para o casal de amigos. Logo após as vinte horas ouviram a campainha do portão tocar. Era Dona Eda. Estava sozinha.

- Cadê o Seu Arno? – quis saber Juliana, curiosa.
- Foi jogar bolão. Outro dia ele vem. – respondeu a velha senhora.

Regina baixou os olhos, não conseguindo disfarçar o ar de tristeza. Sabia perfeitamente o motivo da ausência do amigo. Dona Eda percebendo a decepção nos olhos deRegina disse-lhe baixinho ao passar por ela:

- Ele só precisa de tempo...

Regina assentiu com a cabeça sorrindo tristemente. Juliana praticamente arrastou Dona Eda para dentro de casa na ânsia de mostrar-lhe seu quarto, e a casa toda. Dona Eda ficou encantada. Após a decepção inicial Regina logo se animou frente a alegre agitação de Juliana, sendo que o jantar transcorreu animadamente. Por volta das onze e meia Dona Eda disse que iria para casa. Emma fez questão de leva-la, mesmo sendo perto. Juliana foi com ela. Ao deixarem a amiga em frente à sua casa. Emma notou um semblante espiando por uma fresta da janela, delatado pela luz projetada por um abajur aceso. Era o Seu Arno, que por certo havia ficado em casa, mas não resistiu à saudade e decidiu dar uma espiadinha para ver se avistava Juliana. "Paciência", pensou Emma, "como disse a dona Eda, vamos dar tempo ao tempo"...

Naquele domingo foram novamente para Santarém, na casa do vovô Salim, sendo que combinaram de visitá-lo em, no máximo, dez dias. Pegaram dias bastante quentes e ensolarados. Após a primeira semana Juliana já estava com a pele bem bronzeada. Emma também estava com um bronzeado em tom dourado. Regina é quem mais estava morena. No dia três de fevereiro novamente levantaram acampamento, desta vez em direção ao estado de São Paulo, para conhecer o tão famoso vovô Salim.

Emma havia telefonado para o avô, dizendo que chegariam no finalzinho da tarde ou início da noite. Saíram de Santarém ainda de estava visivelmente ansiosa e Emma tentava fazer com que relaxasse:

- Já te falei que o velho Salim não morde...
- Eu sei, mas mesmo assim estou nervosa. – respondeu Regina.
- Eu tô louca pra conhecer o vovô e a vovó! – disse Juliana.
- Quanta intimidade! – brincou Regina.
- Tá certa a garota! – disse Emma – Ju, você vai adorar aquela dupla, eles são divertidos.

Eram pouco mais de dezoito horas e ainda havia sol alto na entrada da porteira da fazenda, por causa do horário de verão, quando elas chegaram e Fernanda acenou para um peão que corria para abrir o enorme portão de madeira. O carro enveredou por uma estrada de chão batido, ladeada por vegetação nativa cerrada, impedindo quem estivesse na rua de ver o interior da propriedade. Após cerca de cinqüenta metros o caminho se alargava e o cenário se abria para um campo verdejante que subia encosta acima, tendo como destino uma imensa casa de madeira rústica e tijolos à vista, com sacadas em todo o redor e telhas de barro esmaltadas que davam um toque de requinte àquela construção.
Na escadaria da frente uma figura masculina aguardava a chegada das visitantes, talvez com a mesma ansiedade de Regina. Emma caminhou na direção do avô, abraçando-o afetuosamente:

- Meu querido, que saudades!
- Eu é que estou saudoso, minha neta! – respondeu o velho abraçado à Emma.

Juliana e Regina esperavam no sopé da escada que Emma e o avô lhes dessem atenção. Percebendo a aproximação das duas o velho afastou-se de Emma que lhe deu passagem para que andasse na direção delas. Vovô Salim parou observando-as com seriedade. Ajeitou seus óculos na ponta do nariz como que a perscrutar as novas integrantes da família. Regina sorriu timidamente enquanto Juliana abriu um sorriso de orelha a orelha e acenou para ele. O velho, esboçando um sorriso e abrindo os braços para Juliana perguntou:

- Será que eu não mereço um abraço da minha bisneta?

Juliana correu até ele e abraçou-o pelo pescoço, enquanto o mesmo se curvava para pegá-la no colo. Regina sorriu aliviada, também se aproximando para cumprimenta-lo. Salim colocou Juliana no chão e abraçou Regina.

- Bem vinda, minha filha. Bem vinda a esta casa e a esta família. – disse o velho.
- Muito obrigada, e muito prazer. – respondeu Regina.
- Ester! Ester! – gritou Salim, para em seguida dirigir-se à Emma– Não adianta, não adianta... vovó está cada dia mais surda. Acredita que não ouviu vocês chegando?
- Deixa de ser implicante, vovô! Vai ver ela está distraída. – retrucou Emma.

Neste momento um senhora extremamente simpática veio ao encontro delas. Era baixinha e magra, porte delicado e cabelos grisalhos. Rosto fino e expressivo, com belos olhos verdes azulados, como os de Emma. Já o vovô Salim era um homem mais alto, quase da altura de Emma, magro e com olhos escuros. Os poucos cabelos que ainda tinha circundando a cabeça eram brancos como o algodão. Mas o que mais chamava a atenção no rosto do vovô era o nariz. Seu nariz era enorme e encurvado, sendo que costumava usar seu óculos para perto bem na ponta da gigantesca saliência olfativa.

A vovó Ester também cumprimentou as três de forma efusiva, convidando-as para entrar.

- Vocês devem estar famintas! – disse a avó.
- Eu tô! – respondeu Juliana com espontaneidade.
- Que bom, pois eu fiz uma janta especial para vocês! – disse a velha senhora.
- Vovó, nós precisamos de um banho antes. – disse Emma.
- Eu preparei o quarto de hóspedes para vocês. – disse a avó.

Emma sorriu lembrando-se que o quarto de hóspedes tinha uma enorme cama de casal enquanto que o seu, que ficava ao lado, era muito aconchegante, mas só tinha uma cama de solteiro.

- E Juliana pode ficar no teu quarto. – emendou a avó.

Novamente Emma riu para si mesma e assentiu com um movimento de cabeça. Parece que o avô se encarregara de preparar a avó para recebe-las. Salim sempre tivera essa qualidade: era franco e direto, não costumava fazer rodeios. Um dos empregados da fazenda descarregou as malas, colocando-as nos quartos.

Após um reconfortante banho, prepararam-se para jantar.

- E então? Fizeram boa viagem? – questionou Salim.
- Ótima viagem! – respondeu Emma – pela estrada e pela companhia! – emendou sorrindo.
- Bom, bom... – disse o avô. – E você, Regina, o que achou aqui da fazenda?
- Eu estou achando tudo ótimo – respondeu timidamente – o local e a companhia.
- Obrigado pela parte que me toca. – riu-se o velho.
- Eu tô adorando esses bolinhos de carne! E o macarrão também! – elogiou Juliana, para deleite da vovó Ester que havia preparado a janta especialmente para elas.
- Realmente a comida está maravilhosa – falou Regina.
- Que bom que vocês gostaram, eu fiz com muito carinho.
- Vovó... muito obrigada. – disse Emma.
- Eu não tenho mais me dedicado à cozinha como antes, agora costumo deixar por conta das minhas ajudantes. Não tenho mais a disposição de tempos atrás – riu-se a velha – Mas hoje é um dia especial e coloquei a mão na massa, literalmente.
- E a tua mãe Emma, tem falado com ela? – quis saber o avô.
- Olha vovô, faz uns quinze dias que a gente não se fala. Não tive quase tempo de telefonar para ninguém nas últimas semanas. E você, tem falado com ela?
- Tenho, ela está bem. O teu pai continua o mesmo, teimoso e mandão.

Emma teve que rir. O avô e o pai sempre acabavam discutindo quando se encontravam, os dois eram vinho da mesma pipa, e se fossem pai e filho ao invés de sogro e genro, não seriam tão parecidos. Cada qual queria fazer valer a sua opinião logo, era discussão na certa. Mas no fundo se gostavam. Salim admirava a capacidade de negociar do genro, que trabalhava com revenda de automóveis há mais de três décadas. Tanto que havia concordado em lhe dar a mão da única filha em casamento.

Logo após o jantar Emma pediu licença para se recolher, estava exausta da viagem. Regina e Juliana também a acompanharam. Salim convidou Juliana para uma pescaria no dia seguinte, ao que a menina respondeu com entusiasmo:

- Eu vou adorar! E eu não tenho nojo de minhoca! A Re tem.
- Juliana... – resmungou Regina.

Todos tiveram que rir.

Mal se deitaram e adormeceram profundamente. Emma nem viu quando a Regina terminou de pentear o cabelo, passou um creme no rosto e deitou a seu lado. Ela deu um beijinho na face de Emma e aconchegou-se a seu lado, pegando no sono quase que instantaneamente.

Na manhã seguinte, à mesa do café, vó Ester, Juliana e vovô Salim conversavam animadamente quando Emma e Regina entraram na cozinha.

- Muito bonito, ein? Onde estão as boas maneiras? Quer dizer que não se espera mais ninguém para tomar café nessa casa? – brincou Emma.
- A gente só tá conversando, mãe. – disse Juliana – agora que vamos começar a comer, né vovó?
- É sim, minha querida, deixa essa faladeira pra lá.

Juliana olhou para as duas com uma cara debochada. O avô sorriu frente à expressão levada da menina. Aquela garota o fazia lembrar-se de Emma na infância.

- Juliana, você quer uma fatia de pão com geléia de morangos? – perguntou a avó partindo uma fatia de um enorme pão caseiro que ela mesma havia feito.
- Só meia fatia – respondeu Juliana – que é pra não colocar pão fora se eu não conseguir comer tudo.
- Isto, isto... menina esperta, tem futuro. Economizar para ter. – riu-se o avô.
- Ponto à favor da Juliana! – gargalhou Emma – Viu só vovô? O senhor arrumou uma bisneta à altura da filosofia dos Abdala, ein?

Desta vez foi o velho Salim quem gargalhou.

- Pois é... alguém nessa família tinha que ser parecido comigo...

Depois do café Julianae o avô foram pescar. A propriedade tinha um lago enorme, alimentado pela água de uma nascente incrustada num barranco pedregoso, com imensa quantidade de peixes. Na margem direita havia um píer onde ficava atracada uma canoa de madeira movida a remos. Salim e Juliana colocaram coletes salva-vidas apesar do lago não ser muito profundo. O velho, porém, era precavido, principalmente em se tratando de uma criança. Após ele remou até o meio do lago, onde lançaram as linhas na água, seguras por caniços finos de bambu. Uma pescaria bem rústica.

Enquanto Regina ajudava vó Ester na cozinha, Emma observava o avô e Juliana no meio do lago. Suas lembranças retrocederam à sua infância, nas ocasiões em que também pescava com o avô, naquele mesmo barco. Lembrou-se de como achava imensa aquela extensão de água, quase um oceano, e hoje era capaz de atravessa-la à nado de ponta a ponta num piscar de olhos. Lembrou-se das histórias que o avô contava e que agora Juliana deveria estar ouvindo, e o quanto se sentia feliz naquele pequeno espaço do mundo. Sorriu para si mesma e sentiu-se feliz e grata ao destino pelo momento que vivia junto de sua mulher, de sua filha e dos avós.

O dia transcorreu rapidamente e à noite Juliana estava bastante cansada. Regina pediu licença e após a janta foi colocar Juliana na cama. Vó Ester também se recolheu. Emma e o avô sentaram-se em cadeiras de vime com almofadas estofadas na área em frente à porta de entrada. Emma serviu dois cálices de licor e alcançou um para o avô, que acendeu um cigarro com um isqueiro prateado.

- Salim, Salim... o médico não proibiu o cigarro? – disse Emma.

O velho deu uma longa e profunda tragada, soltando a fumaça vagarosamente e observando seu bailado em direção às nuvens. Sorriu para Emma e respondeu:

- Proibiu. E eu de fato não tenho fumado, só de vez em quando. Deixa eu aproveitar que a tua avó não está vendo – emendou com ar maroto.
- Tá certo... – riu-se Emma, tomando um golezinho de seu licor, saboreando a ardência adocicada que lhe escorria garganta adentro.

O avô observou Emma atentamente e comentou:

- Essa moça está te fazendo muito bem...

Emmaa somente sorriu e assentiu com um maneio de cabeça.

- Eu não pensei que um dia você fosse assumir uma criança, Emma.
- Nem eu vovô, acredite, nem eu. Conhecer a Regina e a Juliana foi a melhor coisa que me aconteceu na vida.
- Imagino... Emma, nós nunca conversamos diretamente sobre sua vida pessoal...
- Por que nunca havíamos tido oportunidade. – respondeu Emma.
- Eu diria, necessidade. – emendou o avô.
- É... – sorriu Emma.
- Eu sempre percebi que você era uma adolescente diferente... e eu falo no bom sentido, você sabe... mesmo quando você saiu de casa para morar com aquele bicho-grilo metido a intelectual eu não cheguei a me preocupar, pois eu tinha certeza que você sabia se cuidar, e que aquela história não ia longe, como de fato não foi. Depois você andava com amiguinhas pra cima e pra baixo, mas nunca chegou a permitir que ninguém entrasse de fato, de forma efetiva, na tua vida.

Fez-se um breve silêncio e o velho continuou:

- Quando você me telefonou avisando que iria para a casa da praia com uma amiga eu pensei: minha menina foi fisgada. Como um peixe, sem nenhuma chance de escapar da linha que o prende... Eu senti pelo teu tom de voz que algo havia mudado dentro de ti, Emma. E agora, hoje, eu entendo o porquê.

Emma continuava calada, com os olhos fixos em um ponto qualquer do manto escuro da noite, em alguma estrela longínqua que projetava sua luz à milhões de anos até que chegasse a ser vista pelos olhos dos habitantes do planeta terra...

- E eu quero te dizer, minha filha, que eu vejo a felicidade nos teus olhos, na tua alma, e fico muito feliz com isso. Você foi, é, e sempre será a neta da qual eu mais me orgulho. E eu consegui entender perfeitamente o motivo dessa tua mudança ao conhecer a Regina e a Juliana. Você soube escolher a pessoa certa, minha neta...

Emma olhou para o avô amorosamente e duas lágrimas rolaram de seus olhos, como se fossem duas gotículas de água naquele oceano azulado que refletia a luz do luar em quarto crescente.

- Vovô... eu sempre o admirei, e você sabe disso. E a cada dia que passa eu te admiro mais. E eu também tenho orgulho de ti... E eu tenho certeza que a minha filha também terá... porque você é especial... – disse Emma levantando-se e sentando-se ao lado do avô, abraçando-o e colocando a cabeça em seu colo, enquanto o velho afagava seus cabelos.
- Você lembra quando andávamos de canoa no lago? – perguntou Salim.
- Claro que lembro! Lembro quando você me contava a respeito do peixe gigante que vivia nas profundezas e se alimentava de crianças desobedientes!... – riu-se Emma.
- Pois é. A Juliana está determinada a pescá-lo! – gargalhou Salim – Disse que só precisa achar uma minhoca gigante para fazermos a maior fritada de peixe da história!...
- Como é que eu nunca pensei nisso antes! – gargalhou Emma.

Os dois ficaram conversando até quase duas horas da madrugada. Quando por fim se recolheram todos os demais já dormiam a sono solto.

A semana que passaram na fazenda dos avós foi suficiente para Juliana conquistar mais dois admiradores, e Regina também. No dia em que retornaram para casa o avô praticamente obrigou Emma a prometer que viriam visitá-los com mais freqüência. Salim pediu que ao menos mandassem Juliana, caso o trabalho das duas não permitisse que se afastassem da terra Amazonica.

- Eu mando busca-la de avião. – argumentou o avô.
- Tudo bem, vovô, a gente manda a Juliana mais seguidamente, pode deixar.

Despediram-se dos velhos e na sexta-feira, dia 11 de fevereiro, rumaram para casa.

Regina deveria retornar ao trabalho naquela sexta-feira, porém tinha direito a quatro folgas por horas a mais trabalhadas. Desta forma somente retornaria ao trabalho no hospital na terça-feira.

No sábado aproveitaram para descansar da viagem e à tardinha Emma foi até a casa de Antônia para conversar com ela sobre a possibilidade de trabalhar em sua casa. Conforme o esperado por Emma ela aceitou o convite de bom grado, contente pela oportunidade de aumento salarial, e também pela confiança que Emma estava depositando nela. Antônia sabia o quanto Emma era exigente em se tratando de seus contratados. Combinaram que Antônia começaria a trabalhar com elas naquela segunda-feira, aproveitando o dia livre de Regina que lhe passaria as rotinas da casa.

No domingo ficaram em casa o dia todo, preparando-se para entrar no ritmo normal de trabalho, que recomeçaria na manhã seguinte. Juliana brincou bastante tempo no quintal de casa. Deu especial atenção para Pipoca que havia ficado aos cuidados de Dona Eda enquanto viajaram. Regina dormiu praticamente a manhã toda e Emma parte da tarde, deitada numa rede entre duas árvores no pátio dos fundos. À noite recolheram-se cedo e namoraram até quase meia noite, "para dar sorte durante a semana", como disse Emma divertidamente.

Na segunda-feira Emma acordou cedo e retomou sua rotina de caminhadas. Não foi para a academia por que uma das primeiras coisas que fez na casa nova foi arrumar um quarto com aparelhos que costumava usar na academia, também presentes de seu avô. Desta forma podia tratar de manter a forma em casa mesmo e ficava mais tempo com Juliana que também costumava acordar cedo. Antes das oito horas da manhã já haviam tomado café e quando Antônia chegou Regina recém havia foi para loja e Regina ficou passando a rotina da casa para Antônia, que assimilava tudo com rapidez e praticidade.

No dia seguinte foi Regina quem retomou seu trabalho. Aos poucos tudo foi se organizando no dia a dia daquela família. Antônia integrou-se muito bem no novo emprego e demonstrou ser uma pessoa confiável e bastante responsável, com a qual tanto Regina quanto Emma tinham a tranqüilidade de deixar Juliana. Além do quê primava pela discrição. Mesmo ciente da relação afetiva entre Emma e Regina, que não faziam segredos e não tinham nenhum tipo de restrição de comportamentos ou diálogos dentro de casa, não costumava tecer nenhum tipo de comentário a respeito delas fora de seu local de trabalho, nem em seu círculo de amizades. Respeitava as patroas pelo que eram: pessoas dignas e corretas, simplesmente com uma forma de amar diferente do que se costumava considerar aceitável dentro dos parâmetros sociais e afetivos pré-estabelecidos. Mais que isso, não só as respeitava como admirava o modo de vida que levavam. De fato Antônia conhecia poucos casais que se davam tão bem, e poucos também que sabiam como educar seus filhos com limites e com extrema afetividade, como era o caso delas. Antônia sentia-se feliz por trabalhar ali e passou a ser tratada, com o decorrer do tempo, quase que como alguém da família.

Regina providenciou seu pedido de reingresso na faculdade e no início de março ela retomou seu penúltimo semestre de odontologia. Juliana também voltou às aulas e reencontrou seus colegas de pré-escola desta vez na primeira série. Costumava ir para a casa de Dona Eda e Seu Arno pelo menos duas vezes por semana após as aulas e passava algumas horas com eles. Dona Eda tinha o hábito de revisar os cadernos de Juliana e ajuda-la nas lições de casa. Emma também assumiu essa função em casa, e era ela quem acabava indo às reuniões de pais e mestres, em virtude de seu horário ser flexível, ao contrário de Regina que não tinha como faltar ao serviço no hospital. Já Regina cuidava dos detalhes das roupas da menina, do uniforme, supervisionava a alimentação para que Juliana não se entupisse de porcarias, para as quais Emma sempre fazia vistas grossas. Enfim, conseguiam dividir as tarefas de forma harmônica, cada qual com suas peculiaridades, e davam à Juliana o suporte emocional e material que qualquer criança necessita para desenvolver-se e tornar-se uma pessoa íntegra, com valores éticos e capaz de respeitar o próximo e a natureza.

O mês de março passou rapidamente e abril chegou trazendo as boas novas dos preparativos da festa de aniversário de Juliana, que completaria seis anos no dia dezoito. A data cairia numa terça-feira, sendo que combinaram comemorar no sábado seguinte. Fariam um churrasco ao meio dia e uma mesa de doces à tarde. Emma telefonou para seus pais convidando-os, uma vez que eles ainda não conheciam Juliana nem Regina, nem tão pouco a casa nova delas. Eles ficaram de ir. Os avós de Emmaa também prometeram à Juliana não faltar.

Uma das coisas que entristecia Regina era o fato de Seu Arno ainda não haver ido na casa delas. Sabia das dificuldades do amigo em lidar com o relacionamento delas, e que precisaria de tempo para conseguir aceita-las e voltar a conviver com elas como antes. Mas não conseguia deixar de sentir-se magoada com aquela situação. Não que ele a tratasse mal, mas estava distante e parecia não conseguir transpor a barreira que ele mesmo havia erguido. "Paciência...", pensava Regina.

Exatamente uma semana antes da festa de aniversário de Juliana, num sábado, Regina estava de folga em casa. Era início da tarde e Emma estava na loja, recebendo mercadorias e encaminhando pedidos de outras tantas, quando a campainha do portão da casa delas soou uma única e rápida vez, como se a pessoa que estivesse chegando não quisesse perturbar o sossego dos moradores da casa. Juliana estava jogando um game no computador do escritório e nem percebeu o toque da campainha, tamanha sua distração. Antonia havia saído para comprar pão no mini-mercado da esquina e Regina deixou seu livro de lado, marcando a página com uma tira de cartolina colorida, presente de Juliana, para posteriormente retomar a leitura do ponto onde havia parado. Ao abrir a porta da frente mal conseguiu disfarçar a surpresa. Esperando por trás das grades do portão estava o Seu Arno, sozinho, ostentando um sorriso meio sem graça. Ao avistar Regina acenou para ela, que acelerou o passo e abriu o portão. Ela abraçou o velho afetuosamente e aos poucos, timidamente, ele foi retribuindo o abraço, para alegria de ambos.

- Que grata surpresa, Seu Arno! – disse Regina – Vamos entrando!
- Desculpe eu vir sem avisar... eu não quero incomodar...
- Não é incômodo nenhum, vamos. – respondeu Regina dando o lado para que o amigo passasse e fechando o portão atrás dele.

Conduziu-o até a sala e fez com que sentasse numa confortável poltrona ao lado da janela cujo parapeito ostentava vários vasos de violetas, muitos deles dados pelo próprio amigo. Seu Arno estava desconcertado e não sabia bem o que falar. Foi Regina quem começou:

- Que bom que o senhor finalmente teve um tempinho de vir conhecer a nossa casa, nem imagina o quanto ficamos felizes com isso.

O velho esboçou um sorriso baixando os olhos:

- Não foi bem tempo que faltou, Regina... digamos que foi... você sabe... coisas de um velho cabeça-dura.

Regina sorriu e respondeu:

- Mas o importante é que o senhor está aqui! A Emma vai ficar muito feliz quando souber, e a Juliana então, quando se der conta de que o senhor está aqui vai vibrar! Ela está jogando no computador, nunca vi gostar tanto. Nem percebeu a sua chegada.
- Pois é justamente por isso que eu vim. Eu não conseguiria faltar ao aniversário da pequena. Ela me convidou e me disse que vai ter um churrasco. E eu acho que vocês vão precisar de um assador. Você eu sei que não sabe assar uma carne decentemente, e a Emma eu acho que também não sabe, então...

Regina foi obrigada a rir, percebendo o rodeio que o amigo estava fazendo para justificar sua aproximação.

- Com toda a certeza, Seu Arno, eu não conheço melhor assador que o senhor! – concordou Regina – A Regina é uma negação na cozinha, e eu... bem, o senhor já sabe como fica o meu churrasco – riu-se lembrando de uma vez em que a carne havia ficado tão dura que até mesmo Pipoca teve dificuldades em devora-la. – O senhor acaba de cair do céu e resolver um problema que estava nos tirando o sono! – completou Regina.

O velho sorriu feliz.

- Venha cá, deixe eu lhe mostrar a casa, e vamos surpreender Juliana

Regina mostrou a casa para o amigo e deixou o escritório por ultimo. Quando juliana se deu conta da presença do amigo ficou radiante. Ela o convidava insistentemente para visitá-las e ele sempre lhe dava uma desculpa. Porém, água mole em pedra dura...

Seu Arno acabou ficando por um bom tempo, tomou o café da tarde com Juliana e por volta das dezessete horas chegou em casa. Ao ver o velho amigo sorriu feliz. "É... as coisas estão de fato entrando nos eixos... E isso é bom", pensou Emma..

- Bem vindo, meu amigo! – disse Emma com entusiasmo.
- Obrigado – respondeu o velho.
- Escuta, o senhor não acha que está na hora de retomarmos as nossas noites de jogatina e bebedeiras? – brincou Emma.
- Mais do que na hora! – disse Seu Arno – A Eda não me deixa beber uma cervejinha em casa.
- Então vamos reativar o nosso cassino, aí fica tudo liberado! – disse Emma. – Mas por enquanto quem sabe uma cervejinha?...
- Eu te acompanho! – respondeu Seu Arno com satisfação.

Emma foi até a cozinha e trouxe uma cerveja estupidamente gelada para eles. O velho bebeu com gosto e ao sorver o último gole pediu:

- Não contem pra Eda, senão ela me perturba o resto do ano!

Todos riram.

- Então vamos nos encontrar para um joguinho na semana que vem! – disse Emma.
- Combinado, então! Bom, agora eu tenho que ir. Já passei a tarde toda com a pequenina. Ela tentou me ensinar uns jogos no tal de computador, e eu até que me saí bem.

Juliana riu e respondeu:

- Mas tem que treinar muito mais!
- Então só me resta vir aqui mais seguido.
- Ôôôbaaa! – gritou Juliana abraçando o amigo que se despediu e retornou para sua casa.

Quem muito se alegrou com a ida do velho até a casa delas foi Dona Eda, que em verdade era a grande responsável por aquela reaproximação, aliada à Juliana

Após o jantar, quando Juliana estava distraída fazendo seu dever de casa,Emma comentou:

- Quer dizer que conseguimos domar a fera?
- Pois é... eu fiquei realmente muito feliz. Eu gosto muito dele, ele é uma boa pessoa.
- Eu sei, com certeza eu sei. Ele é cabeça-dura, mas um grande amigo. Acho que agora as coisas vão ficar como antes.
- Que os deuses queiram. – respondeu Regina – e vão querer!

Na semana seguinte grande parte do tempo foi destinada aos preparativos da festa de aniversário de Juliana. Esse era o tema constante nas horas das refeições em família.

- E então, Juliana já decidiu qual a decoração da festa? – quis saber Regina – Eu preciso comprar os enfeites.
Juliana fez uma cara de "ainda estou pensando"... Regina insistiu:

- Quem sabe os ursinhos carinhosos, ou a coleção Moranguinhos, ou a turma do Mickey e da Minnie...

Juliana e Emma se entreolharam e desataram a rir ao mesmo tempo.

- O que foi, ein? – quis saber Regina – Eu disse alguma bobagem?
- Imagine... – debochou Emma - ...ursinhos carinhosos, ui, ui, ui... – e cutucou Juliana no braço, que continuou rindo.
- O que é que vocês duas querem afinal? – perguntou Regina com uma ponta de irritação.
- Olha só, mãe... a gente... eu e a Emma estivemos pensando em algo mais... assim, diferente!

Novamente as duas caíram na gargalhada. Antes porém que Regina realmente se zangasse Juliana continuou:

- Eu queria uma coisa assim como... Egito Antigo!
- O QUÊ? – surpreendeu-se Regina – Emma, isso é coisa da tua cabeça!
- Não é não! – defendeu-se Emma – Essas viagens são da tua filha!
- É que eu vi num livro! Eu queria um bolo em forma de pirâmide, e uma vela de múmia!
- VELA DE MÚMIA?!... E tu concorda com isso, Emma?
- Eu não tenho nada contra... Além do quê o painel de fundo da decoração poderia ser com o sarcófago do Tutankamom...
- Quer saber do que mais? Vão se catar as duas! Querem decoração? Pois façam vocês mesmas! Eu tô fora dessa palhaçada!
- Huuuumm... que brabinha... – disse Emma.

Regina fez menção de se levantar da mesa, mas Emma a segurou pela mão.

- Amor... por que essa zanga toda?
- É que a festa já está aí e precisamos nos organizar... E vocês ficam brincando.
- Mas não é brincadeira, mãe! Eu quero um bolo de pirâmide.

Regina respirou fundo, olhou para as caras deslavadas à sua frente e foi obrigada a sorrir pensando nas caras dos convidados deparando-se com uma vela em forma de múmia.

- Juliana.. – disse Regina pausadamente – Múmias são nojentas, múmias fedem, múmias não são decoração adequada para um bolo de seis anos de idade. Ainda se fosse para o bolo de noventa anos de certas pessoas – disse dirigindo um olhar para Emma– tudo bem, mas no de seis anos se costuma colocar algo menos... antigo.
Emma mal conseguia conter o riso.

- Então eu quero uma decoração espacial! Um bolo em forma de nave, e uma vela em forma de ET. – disse Juliana.

Novamente Regina respirou fundo, esboçou um sorriso amarelo e disse:

- Estamos evoluindo...
- Re- disse Emma brandamente – Olha só, o aniversário é dela, deixa a menina escolher. Afinal pouco importa se no bolo vai ter uma vela de múmia, de ET, de ursinho, de Mickey, de Torre Eifel ou do Colosso tanto faz... O importante são as pessoas que virão para abraçar a nossa filha no aniversário dela. As pessoas que amamos e que são importantes para nós virão na NOSSA casa, para abraçar a NOSSA filha, e é isso que importa, mais nada.

Regina sorriu e baixou os olhos:

- Eu sou uma estressada mesmo... – disse tranqüilamente.
- Mais ou menos... mas eu te amo. – respondeu Emma.
- Eu também te amo, mãe! – disse Juliana.
- Mas múmia, não! – emendou Regina.
- Tá bom... – concordou Juliana – Então decoração espacial!
- Tá certo. Decoração espacial! Para uma festa de menina! Eu mereço...
- Re... se tem alguém que não pode ter qualquer tipo de preconceito somos nós... – lembrou Emma.
- É verdade...
- Uêêêbaa! – vibrou Juliana – Vou ter uma espaçonave na minha festa!