Capítulo 12. Às cegas

Eu olhava pela janela do carro verde-água de Esme – rodeada de caixas coloridas cheias de roupas, sapatos e chapéus – observando as árvores muito verdes que margeavam a estrada. Estava tão feliz por estar ali! Mais ainda porque ficar perto dos Cullens era tão natural que eu me sentia como se sempre tivesse vivido em Forks.

Em certo momento, Esme decidiu baixar a capota do carro. Rose reclamou que seu cabelo ficaria um horror, mas eu achei ótimo sentir o vento forte contra meu rosto. Tanto, que tirei meu chapéu e os scarpins novos e sentei sobre o encosto do banco, olhando os raios de sol vazarem por entre as copas das árvores, que faziam um túnel sobre a estrada.

Havíamos passado a tarde em Seattle, em lojas de móveis e ateliers de moda. Eu me divertira tanto com elas! Por um instante, pensei que Rose e Esme eram como a irmã e a mãe de quem eu não era capaz de me lembrar. O pensamento me fez sentir aquecida e amada enquanto elas falavam e riam comigo tão intimamente.

Mais do que isso, eu me sentia completa por Jazz estar comigo. É certo que ele andava um pouco quieto demais ultimamente e apenas sorria levemente quando conversávamos, mas isso logo passaria, certo? Ou não. De repente, comecei a pensar que talvez a culpa do comportamento dele fosse minha. Realmente, eu não dera muita atenção a ele desde que chegáramos a Forks. Ora, mas ele era o real motivo de estarmos ali! Como eu pudera ser tão negligente?

No mesmo instante, tive raiva de mim mesma e desejei não estar mais naquele carro com Esme e Rose, mas feliz e aconchegada dentro do abraço de Jasper. E era exatamente isso o que eu faria assim que chegássemos em casa!

- Já estamos chegando, meninas – Esme cantarolou.

- Duvido que Edward concorde em mudar de quarto – Rose deu uma risadinha, enquanto prendia o cabelo dourado em um coque elegante.

- Bem, Alice e Jasper são nossos convidados e podem escolher o que quiserem – Esme deu de ombros – Mas Edward é um bom rapaz, tenho certeza de que cederá.

Eu ouvia vagamente a conversa delas. Estava muito feliz com minha resolução e ansiosa por ver Jazz. Fechei meus olhos e procurei pelas visões da surpresa que eu faria a ele hoje. Estávamos em nosso quarto, cada um em um canto do cômodo, à meia luz das centenas de velas que eu colocara sobre cada estante e criado-mudo. A camisola longa e perolada que eu comprara hoje caía com leveza sobre meu corpo, farfalhando enquanto eu andava até ele. Jasper me encarava com o olhar em chamas, o rosto iluminado por um sorriso muito largo.

Entretanto, logo que terminei de cruzar o quarto, ele me lançou um olhar duro, o que me desencorajou um pouco. Ainda assim, me coloquei na ponta dos pés e cruzei as mãos em sua nuca, beijando-o. Ele me correspondeu por milésimos de segundo, até que eu senti dor em meus pulsos e ele me afastou de si, o olhar feroz e violento.

- Jazz...

- Escute com muita atenção – ele aproximou seu rosto do meu e apertou mais ainda meus pulsos, falando baixo e cortante – Quero você fora daqui. Agora!

Em seguida, ele soltou meus braços, me empurrando. Eu não conseguia entender o que estava acontecendo. Então, do nada, não era mais Jasper quem estava diante de mim. Era a mulher da minha visão, toda suja de sangue, que me olhava com raiva e crueldade. Ela ergueu seu braço contra mim e rasgou meu rosto com as unhas afiadas, rindo alto. Eu olhava para Jasper, também coberto de sangue e ódio, gritando para que ele me ajudasse, mas ele apenas assistia de braços cruzados.

- Jasper... – eu comecei a mergulhar no breu. Eu não via ninguém, nada. Eu era nada.

Não sei por quanto tempo fiquei vagando na escuridão, gritando de tanto chorar. Eu percorria minhas mãos por meus braços, tentando rasgar minhas roupas e minha pele. Ele não fizera nada. Nada! Eu estava ali, pedindo por ele, mas nada! Ajoelhei sobre mim mesma, tentando tatear para saber onde estava, mas não encontrava nada em que pudesse me apoiar. De repente, algo gelado e pastoso começou a escorrer por meus braços. Sangue. Havia sangue por todo lado. Em meu corpo. Meu cabelo. Minha roupa. Eu estava sangrando!

Parei de lutar. Parei de tatear às cegas. Parei de chamar por Jasper. Apenas larguei meu corpo sobre o chão e chorei, sem que nenhuma lágrima caísse. De repente, mãos suaves começaram a me tocar e várias vozes murmuravam ao redor de mim. Uma voz feminina se destacava, me chamando de muito longe.

- Mãe? – eu consegui murmurar.

- Estou aqui, meu bem – a voz era baixa e suave, como se me ninasse – Estou aqui.

- Mãe, não consigo ver você! – havia um nó na minha garganta, me impedindo de falar com clareza.

- Mas estamos aqui, Alice – estava mais próxima agora – Não vamos deixar você.

- Mãe, ele me deixou! – tateie até minhas mãos esbarrarem em ombros e recomecei a chorar – Ele não fez nada!

- Calma, querida – havia braços ao meu redor também. Eles me levantaram do chão e eu me senti sendo carregada por alguns minutos. Depois, havia uma superfície macia e mãos que acariciavam meus dedos.

- Alice, está me ouvindo? – uma voz masculina se aproximou – Precisamos que você volte, querida.

- Pai, não consigo!

- Consegue, Alice! – ele apertou minha mão – Somente você pode fazer isso. Concentre-se e volte para nós.

- Vão continuar comigo? – eu contive um soluço.

- Sim, até quando você precisar – a voz de minha irmã se apressou em dizer.

Fechei meus olhos, mesmo que não visse nada com eles abertos. Respirei fundo e me esforcei para tirar a imagem daquela mulher da minha mente. E me esforcei mais ainda para afastar o olhar mortal de Jasper. Não era real. Nada daquilo tinha acontecido. Nada podia me fazer mal. Eu estava bem, rodeada da minha família, amada por eles. E Jasper também me amava, mais do que tudo.

Comecei a sentir o lençol sob meu corpo e o cheiro de minha irmã à minha direita. Senti a luminosidade do sol diminuir e o vento fresco do começo da noite entrar. Senti cheiro de grama e madressilvas. Senti minha mãe levantar minha mão e apertá-la contra seu rosto. Então me atrevi a abrir os olhos. E minha família estava lá, todos sentados ao meu redor.

- Oh, você voltou, querida! – Esme me puxou para ela e me abraçou. Eu me permiti enterrar a cabeça em seu pescoço e voltei a chorar.

- Estamos orgulhosos, Alice! – Carlisle afagou minhas costas.

- Esme, me desculpe... – eu soluçava muito alto, aliviada por ter voltado, mas também envergonhada por tê-los confundido com minha família esquecida – Eu chamei você de mãe!

- Mas é o que eu sou, meu bem... – ela passava os dedos suavemente por meu cabelo – Sou sua mãe! E de Rose, Emmett, Edward e Jasper também!

- Jasper... – ao som do nome dele, eu me descontrolei e me agarrei a Esme novamente – Jasper... Jasper!

- Mas que diabos aconteceu?? – ouvi Emmett se pronunciar, impaciente.

- Emmett! – Rose ficou brava.

- Não, Rose, precisamos saber – Carlisle interveio – Alice, o que houve?

Eu me soltei de Esme e olhei para todos eles. Será que achariam que eu estava ficando louca? Encarei minhas mãos. Não havia mais sangue, mas ainda doía. Suspirei e comecei a falar.

- Eu tive uma visão. Eu estava com Jasper e nós estávamos bem! – tentei engolir o nó em minha garganta – Até que ela apareceu e começou a me machucar... e ele... ele não fez nada! Ele me deixou! E depois, eu fiquei presa na escuridão, não conseguia voltar para a realidade. E havia sangue escorrendo por meu corpo e tanta dor!

- Mas você está aqui agora – Esme passou as mãos por meus braços – Ela não vai fazer nada a você, querida.

- Ela? – Carlisle perguntou.

- Sim, uma vampira – eu deixei que Esme trouxesse minha cabeça para seu ombro novamente – É a segunda visão que eu tenho com ela.

- Então isso já aconteceu antes! – Emmett exclamou.

- Aconteceu – eu assenti – Antes que eu e Jasper viéssemos para cá. Mas agora foi pior!

- Mas Jasper não faria isso! – todos olhamos para Esme – Faria?

A resposta entrou como um furacão no quarto. Fechei meus olhos para não ter que vê-lo, mas não aguentei por muito tempo. Jasper estava parado no meio do quarto, imóvel, olhando fixamente para mim. Eu achei que teria medo quando o visse de novo, mas não tive. Não era o mesmo vampiro de olhar mortal, coberto de sangue. Era apenas Jasper, o que me amava, com os olhos transbordando de preocupação.

Imediatamente, Carlisle, Emmett, Esme e Rosalie se posicionaram em frente à cama, me impedindo de vê-lo. Apenas um segundo depois percebi que eles estavam impedindo Jasper de se aproximar de mim.

- O que estão fazendo?! – Edward praticamente gritou.

- Alice teve uma visão ruim com o camarada – Emmett indicou Jasper com o queixo – Não vamos deixar que chegue perto dela.

- Isso é um absurdo! – Edward rosnou, indignado – Como podem julgá-lo dessa maneira? Carlisle, seja razoável!

- Edward, confiamos nas visões de Alice...

- E confiam em mim também! – Edward o cortou – Não sabem o que está acontecendo! Eu sei que Jasper nunca faria mal a Alice! Eu posso entrar na mente dele, lembram?!

Eu assistia à cena com medo, sendo assaltada pelos possíveis finais daquela situação. Um era pior do que o outro. No meio dos gritos e acusações, Jasper apenas me olhava.

- Não podem impedi-lo de falar com ela, Carlisle! – Edward ergueu mais a voz.

- Sim, podemos! – Rosalie ergueu o rosto, desafiadora – Alice é da família agora!

- Jasper também é! – Edward rebateu – Nós também o aceitamos! Mas essa é a vida deles! Não podem intervir dessa maneira!

- Não seja burro, Edward! Se Alice teve uma visão, é porque pode acontecer! – Rosalie rosnou.

Eu parei de ouvir. Parei de tremer. Eu só via Jasper me olhar, suplicante.

- Alice... – ele sussurrou – Não era eu... por favor...

Então a luminosidade do quarto mudou e eu pude vê-lo melhor. Havia um rasgo no lado direito do rosto de Jasper! Ele estava machucado! Eu não pensei em mais nada, apenas me coloquei de pé na cama, ignorando os gritos de Edward e Rosalie, e corri para ele. Jasper envolveu minha cintura com os braços e eu peguei seu rosto em minhas mãos.

- O que aconteceu com você?!

- Você está bem?!

- Quem machucou você?!

- Edward disse que você estava em perigo!

- Está doendo?!

- Como ficou presa de novo?!

Falávamos um por cima da voz do outro, freneticamente. Mas as respostas não importavam naquele momento. Importava que estávamos nos braços um do outro. Eu sentia o cheiro de Jasper invadir minhas narinas, sua pele me acalmar, suas mãos me apertarem contra si. Ele me abraçou por muito tempo, me balançando de um lado para o outro.

- Não era eu, Alie... não era eu... – ele sussurrava em meu ouvido, o rosto escondido sob meu cabelo.

- Não era você... não podia ser você.. – eu me permiti ser abraçada, apertada, suspensa e beijada, dentro dos braços do homem que me amava.


Nota da autora: Sério, essa fic é minha válvula de escape!! Sempre corro pra ela quando meu mundo tá desabando. Calma, desabando mesmo não tá, mas tô com uma infinidade de coisas pra fazer, além de um novo emprego (eba!). Além disso, tô tentando adiantar um pouco os capítulos, pra revisar e publicar com calma. Portanto, me perdoem pela demora!

O que acharam do capítulo? Ele tem muito de autobiográfico pra mim, é um dos meus preferidos. Eu também sonho às vezes que tô presa e ouço as vozes da minha família. Na verdade, não sei até que ponto isso é bom ou não.

De qualquer forma, comentem, POR FAVOR! Preciso saber o que vocês acham!

Beijos para as meninas que deixaram reviews: Lady ; Mah soares; MahRathbone e Allie Salvatore.