Capítulo 12:

Os outros dias de detenções foram iguais ao primeiro. Severo continuava a não me encarar e vice-versa. Por fim, no último dia de detenção, acabei parando de copiar no capítulo 6 enquanto Maria chegara apenas no quarto.

- Mas o que é que ela queria? – disse ela irritada. – Eu fui nessas detenções por uma injustiça, é claro que eu não ia copiar nada!

O fim de outubro estava chegando e com ele a animação da festa do Dia das Bruxas e o primeiro jogo de quadribol da temporada no início de novembro.

As chuvas foram substituídas por uma leve geada, que deixava a grama ao redor do castelo branca e pálida. O frio estava cada fez maior e estava muito desconfortável ir à aula de poções nas masmorras, onde o frio era ainda pior mesmo com as fumaças dos caldeirões.

Na noite do dia anterior ao Dia das Bruxas, porém, tive que fazer a patrulha habitual nos corredores. Eu já havia passado pelo sexto e sétimo andar e pra mim parecia tudo calmo (exceto por Pirraça querendo colocar fogo em um retrato de um bruxo de peruca laranja).

Já estava perto da meia-noite quando decidi voltar para o dormitório, mas acabei topando com ninguém menos que Severo, perambulando pelo corredor do quinto andar.

Quando me viu sua expressão não era surpresa. Parecia que esperava encontrar por mim.

- O que está fazendo aqui? – perguntei.

- Eu queria falar com você. – ele disse com a voz trêmula.

- Eu não tenho nada pra falar com você.

- Mas eu tenho. – insistiu ele. Ele respirou fundo antes de falar. – Lílian, eu sinto muito, sinto muito por tudo o que eu falei, eu realmente não queria...

- É sempre assim, Severo. – interrompi. – Você sempre não quer, mas acaba só fazendo as coisas erradas.

- Eu sei! – ele disse, apertando as mãos. – Eu peço desculpas a você, porque você sabe que eu sou assim quando vejo você com Potter e seus amiguinhos idiotas.

- Suponhamos que eu te desculpe por esse lado. E o fato de você lançar um feitiço daqueles? Poderia ter o matado!

- Agora está se preocupando com ele?

Meus olhos se estreitaram.

- Eu me preocuparia com qualquer um, Severo! Você teria coragem de matar alguém? Teria?

- Não, claro que não! – ele disse depressa.

- Então da onde você arranjou aquele feitiço?

Ele ficou indeciso se respondia ou não, mas enfim cedeu.

- Eu inventei. – ele respondeu, baixando a cabeça.

- Você inventou? – respondi, incrédula. – Mas aquilo é Arte das Trevas!

Ele não respondeu. Ele continuava com a cabeça baixa.

- Você não é o mesmo Severo que eu conheci anos atrás. – falei, tristemente.

- Sou sim!

- E o que você me diz de seus amigos? Desse seu feitiço?

- Isso não muda nada.

- Ao contrário! Muda tudo, Severo!

- Olha, eu não quero falar sobre isso. – ele disse, finalmente olhando pra mim. Sua expressão era neutra. – Por que você saiu com Potter?

- Porque eu quis. Simplesmente porque eu quis.

- Mas não é você que sempre dizia calúnias sobre ele e agora anda com ele pra lá e pra cá? – ele disse, com o tom acusatório.

- Eu não ando pra lá e pra cá com ele! – eu disse, cansando da conversa. – E respondendo sua pergunta, é porque ele mudou, e pra melhor. Ao contrário de você.

Ele se calou.

- Vou dormir. – eu disse me dirigindo às escadas. – Você deveria fazer o mesmo.

- Você me perdoa? – ele perguntou com a voz suplicante. Era sempre assim que acontecia em todas as nossas brigas.

- Não sei, Severo. – respondi. – Sinceramente eu não sei.

E dizendo isso segui o caminho para a Torre da Grifinória.


- Eu não acredito que aquele Ranhoso teve coragem de falar com você! – exclamou Maria, na sala comunal no dia seguinte.

- Não use esse apelido! – reclamei.

- Depois de ele falar tudo aquilo ainda pede desculpas. – ela bufou. – E também não é a toa que ele inventou aquele feitiço, é a cara dele.

Eu já ia retrucar, mas Dougie chegou e a abraçou pela cintura. Nos últimos dias estava meio desagradável ficar perto dos dois, que geralmente estavam se abraçando ou se beijando, e sinceramente eu não queria ficar segurando vela.

- O que estão falando? – ele perguntou.

- Você acredita que o Ranhoso teve a coragem de pedir desculpas pra Lílian? – falou Maria.

- O quê? – exclamou uma voz às minhas costas. Pelo visto Potter ouvira a última parte da conversa. – O Ranhoso fez isso?

- Fez. – disse Maria.

- E o que você respondeu? – Potter perguntou, me fitando.

- Nada.

- Nada? – ele indagou, desconfiado.

- Ok, eu não quero falar sobre isso. – eu disse suspirando.

Potter não respondeu. Ele continuou a me encarar ao mesmo tempo em que Maria e Dougie começaram a se beijar.

- Acho que vou terminar meu dever de Herbologia. – eu disse, dando uma desculpa pra me afastar.

- Eu te ajudo. – disse Potter depressa, entendendo meu plano.

Eu sentei numa mesa do outro lado da sala e Potter me acompanhou.

- Está difícil, hein? – ele comentou, rindo.

- Pois é. – eu disse. – E eles estão fazendo isso a qualquer momento, até na aula de Transfiguração. McGonagall ficou uma fera...

Ele riu.

- Se quiser você pode fazer companhia pra nós, porque vai ser difícil voce ficar perto deles agora.

- Obrigada. – eu falei, dando um sorriso, que ele retribuiu.

- Mas, voltando ao assunto do Ranhoso... – ele começou.

- Eu já não disse que não quero falar sobre isso?

- Mas eu quero saber, Lílian. – insistiu ele.

Eu suspirei.

- Ele me pediu desculpas por ter falado tudo aquilo e eu disse que não sabia se ia desculpar ou não.

- E você vai?

- Não sei.

- Se você desculpar eu... – ele começou, ameaçadoramente.

- Vai o quê? – estreitei os olhos.

Ele não respondeu de imediato. Foi sua vez de suspirar.

- Nada.

O dia passou depressa. Eu e Maria (na hora que ela não estava agarrada ao Dougie) ficamos adiantando os milhares de deveres.

Finalmente a noite caiu, refletindo as luzes do castelo no lago escuro.

Todos os alunos já estavam se dirigindo ao Salão Principal para o jantar do Dia das Bruxas. Maria rapidamente foi se juntar a Dougie e então decidi ir na frente.

O Salão estava esplêndido com sua decoração de sempre: morcegos e abóboras por toda parte. O professor Dumbledore já estava na mesa dos professores trajando vestes púrpuras.

Eu estava andando pra me sentar quando uma mão me puxou e vi que Potter havia guardado um lugar pra mim.

- Olá Lílian! – cumprimentou entusiasmado Sirius Black, assim que em me sentei.

- Eu já disse que é...

- Evans, eu sei. – ele disse revirando os olhos. – Mas eu vou te chamar de Lílian até você parar de me chamar de Black.

- Nunca. – eu disse, rindo.

- Então vai se acostumando, Lílian.

Os outros riram.

Instantaneamente os pratos se encheram de comidas variadas, entre elas minhas preferidas.

- Vê se não come demais, Rabicho, ou vai passar mal de novo. – comentou Lupin.

- Vai ser difícil resistir a tanta coisa. – Rabicho respondeu, olhando desejoso para um frango assado.

- Onde vai passar o natal, Lílian? – perguntou Potter, enquanto Black entrava na discussão de Rabicho e Aluado.

- Em casa. Por quê?

- Só curiosidade.

Eu olhei pra ele desconfiada.

A sobremesa chegara. Agora eu tinha que concordar com Rabicho que estava difícil escolher o que comer. Tinha enormes variedades de sorvetes, doces, pudins e bolos.

Eu tinha que reconhecer que Potter e seus amigos eram companhias agradáveis, descontraídas e divertidas. Eles começaram a falar do próximo jogo de quadribol e mesmo eu não entendendo tanta coisa assim consegui entrar na conversa.

Depois de uma refeição excelente e satisfatória as longas mesas começaram a se esvaziar.

Maria logo me alcançou entre a multidão. Dougie com certeza estava ajudando os alunos a não se perderem, já que hoje era o dia da patrulha dele.

- Fico feliz de você estar tão próxima do Tiago. – ela comentou enquanto quase tropeçávamos em um degrau solto de uma das escadas.

- É, ele é legal.

- Você deveria seguir o mesmo conselho que deu ao Dougie. – ela disse, sorrindo.

- Ele te contou? – perguntei, sem graça.

- Aham.

- E o que você quer dizer com seguir o conselho que eu dei pra ele?

- Você deveria dar uma chance ao Tiago antes que outras garotas façam isso por você.

Eu corei levemente.

- A gente só é amigo.

- Eu e Dougie também éramos. – ela disse, refletindo. – Quero dizer, ainda somos.

- Mas é diferente. O lance de vocês tinha tudo pra dar certo.

- O de vocês também.

- Não! – eu disse, o calor subindo pelo meu pescoço. – Eu sempre odiei ele e só agora paramos de brigar.

- Por isso mesmo! – ela disse, como se conseguisse explicar a alguém um exercício complicado de Feitiços. – Você tem que aproveitar essa oportunidade!

Eu não respondi. Às vezes é ruim ter amigos que estão apaixonados: ficam enchendo de caraminholas a nossa cabeça.


Obrigada pelos reviews! *-*