- Papai, o senhor não deveria olhá-la daquele jeito! Por que o rei de Alabasta se presta a isso? Olha a vergonha que me fez passar, como filha! - reclamou Vivi, enquanto pai e filha estavam em uma parte do salão onde ninguém poderia vê-los.
- O que insinua, Vivi? - retrucou Cobra, meio enfurecido. - Trate de colocar mais respeito em suas palavras! Apenas assisti a dança daquela jovem normalmente, não invente historinhas!
- Seus olhos, papai... não mentiram. Pelo menos, não para mim! Deveria então me deixar fora dessa festa! - disse a garota de cabelos azuis, cruzando os braços.
Igaram se aproximava dos dois. Cobra ordenou que Vivi parasse com aquela conversa com o gesto clássico de silêncio.
- Vossa Majestade, os convidados reclamam por sua presença!
- Já estou indo, Igaram! - e o rei se virou para a filha. - Se quiser, pode ir para a cama, se a festa está lhe chateando.
- Com licença! - disse a garota, saindo furiosa.
Igaram bateu no ombro do rei de forma ímtima e amistosa, rindo daquela reação da Vivi.
- A memória da falecida mãe a faz ciumenta em relação ao pai. Não se irrite com a pequena!
- Entendo, mas eu não estava olhando Talia com nenhum tipo de desrespeito, como estavam fazendo os convidados. Até mesmo Crocodile estava olhando dessa forma, isso deixou meus pensamentos preocupados!
- Majestade teme que ele possa... é...
- Mais ou menos isso. Mas Crocodile sempre foi um homem de confiança, e se algo de ruim tivesse acontecido com ela, eu mesmo já perceberia! Mas...aquele olhar... Talia é uma moça pura, não quero que nada de ruim aconteça com ela, só porque ele está com o poder sobre ela...
Igaram ouviu tudo calado, como se estivesse analisando alguma coisa.
…...
Crocodile estava conversando com alguns convidados, tentando fazer uma boa impressão. Ele detestava longas conversas, muita socialização... mas para uma pessoa que precisava de conquistar confiança e status, tinha que tolerar aquela situação. Talia estava com as outras dançarinas, Alina até protegia a bela morena de alguns convidados mais ousados que tentavam assediá-la discretamente. Talia não se sentia bem com aquilo, e nem com uma mulher que quase se comportava como uma "babá" só por causa de reis e príncipes atrevidos. Mas ela nunca demostrava esse desconforto, e sim era simpática com todos, esquivando-se gentilmente dos galanteios e deixando Alina ajudá-la a se safar disso.
A festa ainda estava em seu auge, quando Talia avisou para Alina que queria ficar um pouco a sós em seu antigo quarto no palácio. Alina respeitou a vontade dela, mas alertou que breve ela teria que retornar, pois o rei queria vê-la ali entre os convidados. Então, Talia seguiu seu caminho até o quarto, mas no meio do caminho, num corredor que dava vista para o grande pátio no palácio, uma pessoa estava encostada numa coluna, de frente para ela. Só a presença dessa pessoa fez Talia parar seu caminho até o quarto.
- Sua beleza é ainda mais fascinante que a própria dança... - disse o tal príncipe de cabelos cor de cobre que a fitou o tempo todo, enquanto ela dançava.
Talia sentiu-se perturbada com aquela visão. Ele novamente... aqueles mesmos olhos dourados encarando-a de forma levemente luxuriosa. Com um belo e enigmático sorriso estampado no rosto, o jovem príncipe se desencostou da coluna e andou até ela, parando em frente aquela criatura de beleza fascinante, até mesmo que a própria dança.
- Er... se não for muito incômodo, gostaria de ir descansar um pouco, e depois retornar a dar atenção aos convidados. - disse Talia, gentilmente.
O príncipe forasteiro derreteu-se com aquela doce e firme voz feminina.
- Essa terna voz me faz recusar sua atenção numa outra hora.
Talia sentiu-se assustada, temendo que ele tivesse más intenções. Ele percebeu a desconfiança dela quando esta deu dois passos para trás.
- Não se preocupe, não sou um homem tão desonrado para lhe fazer algum tipo de mal. E também deverei ir embora breve... por isso que eu estou aqui, diante de você, para poder ter um pouco de sua atenção e conhecer uma verdadeira dançarina!
- E... mas por que não veio até a mim enquanto estava no salão?
- Eu até quis... mas você estava muito ocupada em atender pessoas mais importantes que eu. Por isso segui-a quando se retirou daquele meio, para poder falar melhor com sua pessoa a sós! - ele pegou a mão dela gentilmente e apenas encostou a testa na mão, em vez de beijar, como tipicamente os homens fazem.
Aquele gesto era comum no povo daquele príncipe forasteiro; indicava que um homem sentia-se humilde e inferior diante de uma pessoa o qual julgava superior ou muito importante. Talia percebeu que aquele gesto não tinha traços de assédio ou algo similar. Ela não disse nada, mantinha-se calada diante da gentileza morna do príncipe.
- Eu me chamo Hissan, que significa "primeira luz do dia" em minha terra. Sou príncipe e futuro herdeiro do trono de Namasis, um reinado pouco distante de Alabasta. Meu pai e Vossa Majestade, o Rei Cobra, são amigos e excepcionalmente hoje, vim sem meu pai, apenas estou representando ele.
Talia não conseguiu evitar um olhar admirado para o príncipe Hissan, que tinha uma bela voz grave, de tom suave e tranquilo de falar. Tinha um semblante agradável. Era alto e robusto, porém não tinha traços grosseiros e rústicos em seu corpo. A mão grossa e quente do príncipe agradava-lhe ao sustentar sua mão fina e delicada. Mas o príncipe não segurou aquela mãozinha por muito tempo e soltou-a, porém continuou a dirigir mais palavras.
- Jamais em minha vida vi uma dançarina que reúne talento e paixão nos movimentos, assim como você! E não poderia ir embora sem parabenizá-la pelo seu único talento. Com isso, deixo-a livre para descansar, até um dia... e, qual é seu nome, mesmo?
- ...Talia. E o seu? -
- Hissan, já tinha mencionado antes!
Ambos trocaram risos discretos diante daquela pequena distração de Talia. Hissan se retirou da presença dela, após despedir-se normalmente. Talia acompanhou com o olhar o caminhar do príncipe até desaparecer de sua vista. E então, virou-se para continuar seu caminho até o quarto, só não esperava que alguém estivesse ali, um pouco longe dela, observando-a seriamente.
- Estava te procurando, vamos ter que ir embora agora! - disse Crocodile.
- Claro! - ela foi até o seu encontro, perto do chafariz do pátio.
- ...Talia, o que estava falando com esse homem que conversava a sós contigo?
- Ele... só veio me parabenizar pela dança, e que não fez no salão porque o excesso de gente que queria fazer o mesmo o impedia. Ele foi muito bom comigo, não houve desrespeito algum!
- Ótimo. Depois conversaremos mais sobre esses convidados. Preciso alertá-la em algumas coisas! - disse, se levantando do chafariz onde estava sentado.
Depois de se despedirem de Cobra, Crocodile e Talia foram para a casa. Como estava cansada, contou para Crocodile que queria descansar em seu quarto antigo no palácio, mas aquele príncipe tomou o tempo que tinha para descansar antes de ir embora. Com isso, o shichibukai dispensou-a dos afazeres domésticos por um dia, isso também incluía se quisesse uma noite de prazer com ela. Nesse um dia de descanso dela, ambos tiveram um tempo para refletir em suas incertezas, inseguranças e preocupações.
…...
Ao caminho de sua casa, em um dos dromedários cedidos pelo Cobra, Hissan admirava o magnífico céu do deserto de Alabasta. Negro como os cabelos de Talia, estrelas que lembravam o brilho daquela dançarina e fresco como o hálito dela. O belo príncipe de cabelos ruivos acobreados acariciava sua barbicha da mesma cor, admirando a noite e Talia em seus pensamentos. Mesmo depois da recente briga que teve com o pai – que sempre o incomodava, cobrando do filho a atenção para o casamento e a descendência da Família Real de Namasis – Hissan estava tão tranquilo e relaxado que poderia novamente ouvir os conselhos incômodos do pai naquela mesma hora e não se aborrecer.
Seu pai queria que ele casasse logo, com uma princesa que tivesse as mesmas condições (ou maiores) deles e que continuasse a descendência e o reinado da Família Real de Namasis. Hissan, no auge dos seus trinta anos apenas, jamais havia pensado em se casar. Ainda aproveitava das farras secretas que tinha com algumas poucas mulheres – como príncipe, jamais poderia levar esse tipo de vida de um típico jovem homem da plebe, por isso fazia tudo em segredo, apenas compartilhando suas aventuras com um velho amigo seu.
Ao chegar no reino, de madrugada, foi diretamente para seu palácio, sem acordar o velho pai. De manhã, contaria como foi a festa no palácio do rei Cobra. Curiosamente, Hissan não queria ter ido para essa festa, mas agora, ria ao pensar nisso. Se não tivesse isso, jamais poderia ter conhecido Talia. Pensava nisso em sua grande suíte, enquanto tirava seu turbante, soltando os cabelos que tinham comprimento até quase o meio de suas costas largas. Agora, apenas pensava em como rever Talia, pelo menos revê-la. Sabia que ela, como uma dançarina do rei, devia ser de origem plebeia. Mas tinha o porte e o perfil de uma. Comparava as formas da moça com das mulheres de Alabasta em geral. As mulheres de Alabasta eram tão sofredoras, trabalhadoras, tez morena e feições rusticamente árabes. Talia, em comparação a estas, era uma deusa grega, a tez clara fazia um belo contraste com seus cabelos negros, os olhos verdes pareciam hipnotizadores... ela era de uma formosura notável. Tinha jeito de ser virgem, mesmo depois dela ter sido deflorada por Crocodile. Mas isso, Hissan desconhecia totalmente, sequer passava que isso já tenha acontecido com ela. O homem ruivo foi até sua cama, e se jogou de costas para ela, de braços abertos.
- Preciso vê-la novamente... - disse Hissam, antes de cair profundamente em um sono agradável, embalado pelo vinho e pela lembrança da dançarina.
