O trem balançava e crianças irritantes gritavam à sua frente. Mais um motivo para não querer filhos. Ergueu os olhos de seu livro para lançar-lhes um olhar zangado e teve uma sensação de déjà vu.

Eram dois meninos jogando damas e o menorzinho exclamava que tinha sido trapaceado. O mais velho apenas o olhava, triunfante – era o mesmo olhar de Mycroft. Poucos segundos depois, uma mulher série e jovem irrompeu no vagão, ralhando com ambos em francês. Lembrou-se de sua mãe, sofrida e triste, tentando lutar para sobreviver. Sempre a culpara por ter se casado de novo.

Seu padrasto era um homem devotado a ela e a ela somente. Talvez não conseguisse manter um elo mais estreito com os meninos, uma vez que Mycroft o odiava e Sherlock imitava o irmão. Mas fora graças a ele que ambos puderam fazer uma faculdade. Sherlock nunca contestara quando Mycroft dizia que mamãe casara-se só por dinheiro, mas, agora, percebia que – mesmo o irmão mais velho sendo logicamente mais bem-dotado do que si – ele, Sherlock, entendia melhor a natureza humana. E entendia que mamãe não se casara por dinheiro. Casara-se por eles dois.

Voltou a olhar para o banco, mas a pequena família já fora embora, deixando-o só com seus pensamentos.

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Elisabeth tinha acabado de tomar seu café-da-manhã. Decidira sentar-se à mesa, pois se lembrava que magoava Mary ao ficar trancada no quarto. Lembrava-se da cunhada dizendo-lhe isto, apenas não sabia quando fora.

A cada dia que acordava, fiapos mais consistentes de memória voltavam-lhe à mente. Quando Pearl, a filhinha da criada, entrou no quarto e Mary apresentou-as, lembrou-se que já a conhecia e não a esqueceu mais.

Lembrou-se de quando Dolly, a criada, trouxe-lhe sua camisola e esta não lhe pareceu mais estranha. Mas, principalmente, lembrou-se de Mary.

Por isso tomara café na sala. Com efeito, Mary estava bem mais feliz, mostrou-lhe a casa e falava sobre o mundo lá fora e sobre como julho estava quente naquele ano.

"John nunca fica em casa?" Elisabeth tinha poucas lembranças do irmão naquela casa e não entendia o porquê.

Mary crispou os lábios e depositou seu tricô na toalha onde se sentaram no jardim.

"Não. Ele não gosta mais de ficar perto de mim. Eu juro que não sei por que, Lizzie." E baixou a cabeça, olhando para as mãos.

Elisabeth desceu do balanço onde estava e sentou-se ao lado dela, abraçando-a.

"Sinto muito." Murmurou.

"Não tem por que. Já estava assim antes de você chegar."

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Não era loucura o que estava fazendo, repetia para si mesmo como um mantra. Revirar a França atrás dela não era loucura.

Só conseguia pensar no hospital e, cada vez que se lembrava de que era culpa sua, a raiva subia em ondas intensas.

Lembrava do rosto destruído de Elisabeth. A língua cortada, o rosto cheio de pequenos cortes. Lembrava do braço e das costelas quebradas, das marcas azuis e roxas no pescoço. Lembrava dos cortes a perder de vista nos braços, nas mãos e no tórax.

E lembrar o enfurecia. Tanto esforço para tratá-la, tanto esforço para cuidar dela, reparar os danos... Para nada?

Não. Marie-Louise não escaparia ilesa dessa vez.

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"O Sargento Williams veio vê-la, Miss Watson." Elisabeth viu o olhar ansioso de Mary, de uma gana ímpar pela oportunidade de juntar aqueles dois.

"Faça-o entrar e mande-o esperar na saleta de chá, Dolly. Eu e Lizzie já o encontraremos." A criada fez uma pequena mesura de cabeça e se retirou. A discrição educada de Dolly, que não tivera nenhuma educação formal uma vez que sua família toda fora de escravos arrebatados de suas terras, era quase chocante.

Quando ela se retirou, Mary virou-se para a cunhada e inspecionou suas roupas rapidamente. Limpou uma mancha de suor e terra com o lenço e tentou pentear um pouco os cabelos finos dela que escaparam do coque com as mãos.

"Melhor não demorar muito se arrumando ou parecerá deliberado..." Murmurou, beliscando suas bochechas com vigor.

"Ai!" Gemeu Elisabeth, tentando escapar.

"Fique quieta!" Ralhou a mais velha. "Estou tentando dar-lhe um aspecto mais saudável, Lizzie!" Quando se deu por satisfeita com o resultado, afastou-se um pouco e a olhou, séria. "Tente não estragar tudo, Elisabeth."

Elisabeth não sabia o que esperar e não conseguia imaginar como era o rosto de seu salvador. Decepcionou-se.

Não tinha nem a beleza escocesa de sua família nem a céltica de Holmes. Beleza céltica de Holmes? Onde andava com a cabeça? Ele não era belo, era horrível. Com aquele nariz enorme; era velho, com as entradas nas têmporas; aquelas mãos enormes, manchadas; que não tinha tempo para vê-la... Elisabeth o odiava por inteiro!

Era um rapaz inglês comum. Comum, aliás, era quase a palavra perfeita para descrevê-lo. Não fosse o cabelo cor de cenoura, ele desapareceria no meio de qualquer grupo. Tinha um nariz relativamente comprido, nada excepcional, ósseo. Olhos castanhos sem brilho que denotasse elevada inteligência ou bondade. Queixo fraco. Seu rosto era quase efeminado.

E as mãos! Que mãos feias! Calosas, ele roia as unhas...

"Boa tarde. Miss Watson, Mistress Watson. Como vão as senhoras?" Ele tirou o quepe policial e fez um pequeno aceno com a cabeça. Ao menos seu timbre de voz era bonito, profundo.

"Vamos bem, sargento. Irá juntar-se a nós para o chá?" Mary sentou-se em sua poltrona e acenou para Pearl, que se escondia atrás do portal para o vestíbulo. "Chame sua mãe." Ordenou suavemente.

Elisabeth admirava o modo como Mary regia aquela casa, sempre firme, sempre nos moldes dela, mas nunca de forma agressiva. Teria uma casa para si? Teria uma casa com aquele homem de pé em frente a elas, como sua cunhada previra?

"Não, obrigado, senhora." Mary parou com seus movimentos fluídos, surpresa.

"… Não é uma visita social?" Murmurou, como que sem entender.

"Não, senhora." Ele, que encarava Elisabeth sem conseguir disfarçar muito bem até então, desviou o olhar. Depois, fitou Mary com firmeza. "Eu estou aqui para requerer o depoimento de Miss Watson."

Foi a vez de Elisabeth não entender nada. Mary pareceu abalada.

"Meu depoimento sobre o quê?" Perguntou, sustentando o olhar do policial.

"A senhorita é suspeita de assassinar Jaroslav Chvatik, Miss Watson." Lizzie precisou sentar-se.

"Eu…" Começou a falar.

"O senhor tem um mandato?" Interrompeu-lhe Mary.

Ele gaguejou um pouco, hesitando.

"N-não, mas ela terá de responder a perguntas cedo ou tarde." O que um homem fraco como ele fazia na Scotland Yard?, perguntou-se a dona da casa.

"Bem, Sargento, minha cunhada só as responderá frente ao juiz e com seu advogado ao lado. Traga o mandato e iremos com todo o prazer. Eu, ela e meu marido." Decretou, erguendo-se, firme e imponente. Nesse momento, Elisabeth entendeu completamente porque John casara-se com ela e porque Holmes gostava da comadre.

"Mistress Watson, não precisa ser assim. Podemos resolver isto tranquilamente e..."

"Se o senhor e o Inspetor responsável por este caso acharam que seria fácil arrancar o que quisessem de Lizzie e distorcer depois se viesse de mãos abanando, na hora do chá, quando meu marido não estivesse em casa e com essa sua cara de cão perdido, o senhor se enganou. Eu já enfrentei perigos muito maiores do que o senhor, Sargento, e a Lei está do meu lado. Saia da minha casa. Agora." Mary virou-se na direção da cozinha. "Dolly!" A criada surgiu na sala em um piscar de olhos. "Conduza o cavalheiro para a porta da rua."

"Mistress Watson...!"

"Saia ou eu reportarei seu comportamento à Corregedoria como má-fé. Não se esqueça de qual família Elisabeth faz parte, senhor." Sibilou e o oficial saiu com uma ponta de mágoa no olhar.

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Mary não tocou no assunto o dia inteiro e encontrava-se estranha. Quando Elisabeth lhe indagou o que aconteceria com ela, respondeu simplesmente que dariam um jeito.

John chegou eram seis e meia e Mary pediu que ela e Pearl fossem dar uma pequena volta pela vizinhança.

Elisabeth olhou para a menininha ao seu lado. Tinha a pele escura típica dos nativos das colônias africanas, sem mestiçagem em seu sangue. Pearl era quase tão calada e submissa quanto a mãe, porém gostava de cantar baixinho quando achava que ninguém a ouvia.

"Pearl querida, você conhece bem Londres, não é?" Perguntou Elisabeth, quando as duas sentaram-se em um banco no parque.

"Sim, Miss Watson." A moça acariciou uma das duas trancinhas apertadas que prendiam o cabelo crespo da menina.

"E sabe guardar segredos?" Como a menininha hesitou um pouco antes de responder, Elisabeth tentou o suborno. "Se eu te der uma fita, você guarda um segredo para mim?"

"Não precisa, Miss Watson. Mamãe ensinou-me a ser leal, muito leal à sua família. Não é nada que vá prejudicar seu irmão, é, Miss Watson?" Murmurou a menina, encarando-a fixamente.

"Não, querida. Eu nunca pediria nada que fosse prejudicar John. Eu só queria saber... você sabe como chegar a Paddington?"