Nome do autor: Kaline Bogard
Título: Perdas Necessárias
Sinopse: Agora havia um novo motivo para vencer a guerra. Mesmo que depois só restasse o silêncio. Tarefa de Casa do Fórum 6V
Ship: Harry x Draco
Gênero: - Drama
Classificação: - K
Status: completa
Formato: Drabble Collection
Observação: Pós Hogwarts (spoiler 5)
I
A busca pelas Horcuxes acabou levando os três amigos para um dos locais secretos de Voldemort. A pista era boa, o resultado não foi o esperado. Assim que entraram no galpão perceberam rostos conhecidos de Comensais da Morte procurados pelo Ministério.
Os três sacaram as varinhas prontos para se defenderem. Nenhum dos bruxos das trevas sequer se moveu. Nem ao menos pareceram notar a presença deles.
– Devem estar sob Imperium... – Hermione sussurrou sem baixar a varinha.
– Aposto que são perigosos. – Ron resmungou.
Harry não prestou atenção. Reconhecera uma das pessoas que estava ali dentro, encolhido num dos cantos. Aqueles cabelos platinados eram inconfundíveis.
– Malfoy. – falou. Seu sangue ferveu de raiva. Nunca imaginaria encontrar o ex-colega ali depois de quase um ano. A última vez que o vira estavam na Torre da Astronomia, na noite da morte de Dumbledore.
– O que? – Ron e Hermione perguntaram juntos.
Ao invés de responder Potter atravessou o galpão um tanto sombrio e aproximou-se do Slytherin, sempre de varinha erguida. Não seria pego desprevenido. Mas Draco não olhou para ele, sequer pareceu notá-lo.
– Ei, Malfoy. Não adianta fingir que não me viu! – só então o loiro virou o rosto fitando Harry. Nenhum sinal se mostrou na expressão apática. – Aposto que vai achar Azkaban tão ruim quanto esse lugar.
Aproximou-se o bastante para pegá-lo pelo braço e obrigá-lo a ficar de pé. O ato fez o rosto de Draco se contorcer numa careta de dor, apesar de nenhum gemido escapar-lhe dos lábios. Meio surpreendido, Harry percebeu que o outro mal conseguia ficar em pé, tendo que buscar apoio na parede. Não parecia fingimento.
– Está morto! – a voz aguda de Hermione atraiu a atenção de Harry. Ela examinava um dos Comensais sentado no chão escorando-se na parede.
– Este também. – Ron constatou com voz estranha.
Potter olhou de Hermione para Ron, e finalmente para Malfoy. O loiro mantinha os olhos fixos no chão, e respirava ofegante, como se o simples fato de permanecer em pé o exaurisse.
De sobrancelhas franzidas Harry compreendeu. Aquele galpão não abrigava os servos fieis de Lorde Voldemort. E alguma coisa bem ruim estava acontecendo ali.
II
– Chamamos de Feitiços de Simbiose. – Remus observou o pergaminho que pegara das mãos de Madame Pomfrey antes que a bruxa voltasse para a Ala de Perigo Imediato. Podia ser uma escola, mas Harry confiava muito mais em Hogwarts do que no St. Mungus.
– Feitiço de Simbiose? – Harry perguntou baixinho.
– É um feitiço de ligação. – Hermione explicou – No começo foi criado pra ser de proveito mútuo, entre dois ou mais bruxos. Mas existe uma versão que usa magia das trevas e distorce essa idéia. Então a pessoa que lança fica com todas as vantagens, como um parasita se alimentando da magia de outras pessoas.
– Exato. – Lupin concordou. Olhou ao redor e encontrou uma cadeira onde foi se sentar. Estavam na sala de espera da Ala Hospitalar, tinham acabado de receber o veredicto de Madame Pomfrey – O galpão que vocês encontraram... todos que estavam lá foram vitimas de um Simbiose.
– Todos? – Hermione perguntou – Até o Malfoy?
– Sim. Não sabemos bem porque, mas parece que Voldemort está se alimentando da magia de todos eles. Se alimentando sem medir limites, por isso vários deles foram exauridos até a morte.
– Que horror! – a garota exclamou.
– São apenas Comensais, Mione. Não se perde grande coisa.
– Ron!
– E Malfoy? – Harry perguntou – Ele vai ficar bem?
O ex-professor e membro secreto da Ordem da Fênix observou o pergaminho em suas mãos:
– Madame Pomfrey acha que os danos estão nos níveis iniciais, mas já atingiram os sentidos. É provável que Draco tenha perdido a fala e esteja começando a perder o olfato.
Os três jovens Gryffindors se entreolharam:
– Ele vai perder todos os sentidos? – Harry indagou surpreso.
– É assim que funciona, não é professor? – Hermione franziu as sobrancelhas – E quando termina com os cinco sentidos o feitiço destrói a magia e o bruxo morre.
– O que podemos fazer pra ajudar? – o Garoto Que Viveu pareceu preocupado.
Ron deu de ombros:
– Não é nada que ele não mereça. Desencana, Harry. Você não tem culpa disso, se concentra na nossa missão. – ele se referia as Horcruxes.
– Provavelmente não há nada que possa fazer, Harry. – Lupin concordou – O feitiço só termina se o próprio bruxo que a lançou cancelá-lo. Ou se um deles morrer, Voldemort ou... Draco.
Os quatro sabiam que seria difícil Voldemort encerrar o feitiço. Logo só restava uma opção...
De repente Harry Potter sentia uma vontade enorme de derrotar Você Sabe Quem.
III
Ele já se acostumara, apesar de não ser o que imaginara para si. Sempre que pensava no futuro via uma família grande, barulhenta, muita festa com as crianças. O tipo de coisa que vivenciava diariamente com os Weasley.
Com ele era totalmente diferente.
Não havia barulho. Não havia bagunça. Não havia crianças.
Harry Potter derrotara Voldemort. E o derrotara por um único motivo, que levara tempo para admitir: fora por Draco Malfoy. Para salvar o loiro antes que ele sofresse mais danos permanentes. Porque o rapaz não queria ser um seguidor de Voldemort, mas a tentativa de fuga frustrada o levara direto para um dos porões com os prisioneiros do Dark Lord, onde sofriam um feitiço de simbiose e tinham a magia sugada para alimentar o tirano das trevas.
Conseguira derrotá-lo a tempo de evitar que algo pior acontecesse. Algo pior do que perder a voz. Pois isso que acontecera: Draco não podia mais falar, nem emitir qualquer som. Até o mais profundo suspiro era silencioso.
Nunca mais se ouviria a voz esnobe, de timbre arrastado, com tom arrogante e prepotente. O loiro estava mudo para sempre.
Não era uma relação fácil. As discussões eram a pior parte. Demoraram tanto para se acertar. E, ainda assim, brigavam de vez em quando. Ou melhor, Harry falava, bradava e discursava. Draco escutava, muitas vezes segurando as lágrimas por não poder se defender, defender seu ponto de vista, expor seus argumentos.
Potter sabia que às vezes Draco chorava escondido, talvez levado pela frustração em não poder fazer algo que antes fazia tão bem. Algo importante para si. Não poder escutar a própria voz. Porém respeitava esse isolamento que o loiro se impunha em tempos difíceis.
Entre eles reinava o silencio.
Mas imperava também a comunicação. Mesmo que Malfoy não pudesse falar, ele se expressava. Podia dizer muito com um olhar, um erguer de sobrancelhas e as inesgotáveis caretas. Caretas que às vezes vinham em momentos inoportunos... Harry tinha que contar até dez sempre que se lembrava do vexame no casamento de Longbottom...
Uma única expressão e Harry sabia se seu namorado estava com raiva, ansioso, feliz, intrigado.
Sentia falta dos diálogos, sim. Mas tê-lo ao seu lado era uma maravilha nova todos os dias. O amor era forte o bastante, profundo o bastante. O amor era a base para o que estavam construindo.
O amor falava por eles.
