Os três se olhavam. A compreensão atravessada em seus corações e entalada pesava em sua garganta.
-Preferia quando éramos ignorantes. Dói demais esse peso do saber.-Murmurou Aang.
-Dói mais não saber e sofrer na ignorância. Agora, nós podemos salvar a nós mesmos.-Retrucou Yue, mais fria e mordaz do que nunca.-Mas, se prefere continuar burro, é só avisar que a gente faz você esquecer rapidinho.
Um silêncio constrangido se seguiu à conversa.
-Bom, obrigado Shui, mas temos que ralar. Tem uma porrada de gente que precisamos salvar, sabe?-Disse Chang, tentando aliviar o clima. Shui sorriu, pomposa, Yue olhou com frieza e Aang deu um sorriso constrangido. Yue e Chang jogaram Soka e Katara por sobre o ombro e os três se encaminharam para a saída, com um suspiro, a imagem de Shui se transformou em água.
-Vocês também acharam, perdidos no fundo das suas mentes, umas lembranças que não são nossas nem de nossas antigas encarnações? Lembranças dela.-Indagou Yue, carregando de desprezo o "dela".
-Sim.- Aang disse, tímido, com medo de que Yue o atacasse novamente.
Chang assentiu com a cabeça e acrescentou:
-Relacionadas à minha vida. Coisas horrendas. A minha mãe fez um trato com a Srta. Geladinha, algo relacionado a dar a própria vida em troca da minha.
-Minha irmã gêmea nasceu morta. Mas...Shui fez um trato em que sua alma ocuparia o corpo dela desde que ela (minha mãe) me fizesse odiá-la...-O ódio era tamanho que Yue não conseguiu deixar indiferente sua voz.
-Ela corrompeu a alma de um dos monges, fazendo-o ficar bêbado numa taverna e contar qual era o momento propício para invadirem o templo...-Adicionou Aang. O gelo entorno de Yue começou a derreter e ela esmurrou uma parede de gelo próxima com toda a força, deixando um filete de água escorrer de lá pelo derretimento.
-AQUELA VACA!
-Creio que ela tenha tido um bom motivo, Yue, não se irrite...-Disse Aang, tentando acalmá-la.
-Nenhum "bom motivo" justifica a interferência que ela fez em nossas vidas.-Disse Chang, entre dentes.
-Lembram do que ela disse? Da maldição. Eu e você, Chang, jamais poderíamos nascer na mesma época, ela precisava fazer isso, para que nos encontrássemos. E você Chang, não disse que foi um parto difícil o seu? Então, provavelmente você morreria no parto e então, jamais poderíamos salvar o mundo. Yue, ela aplacou a ira da sua mãe, arranjou um jeito de estar sempre por perto, te protegendo e ainda fez com que você sofresse menos com a separação das duas. Se você amasse sua mãe, sofreria muito e não conseguiria trilhar o caminho.-Disse Aang, tentando acalmar os nervos de ambos e se convencer das intenções de Shui.
-Sabia que, além de um grande sábio, você também é um pé no saco?!-Gritou Yue. Chang soltou o ar de forma cansada.
-Temos de ter fé nas intenções dela, ele tem razão.-Disse Chang.
-Você ficou maluco?!-Yue virou-se com raiva para os dois.
-Hey, hey, você não me deixou terminar, temos de ter fé nas intenções dela, por enquanto. Quando toda essa loucura terminar, nós paramos para refletir sobre as razões dela. Não me olhe assim, Yue. Eu também não gosto da Srta. Pompa.-Concluiu Chang. Yue sorriu, nervosa e mudou Katara de ombro.
-Desculpem. Fui uma tola. Me deixei levar. Vocês têm toda a razão. Acabamos com a raça dela depois.
-É assim que se fala. E, não se culpe por ter explodido. Se não o fizesse no sentido figurado logo, logo o faria no literal.-Disse Chang, maroto.
Saíram do túnel de gelo e logo chegaram na margem do Iceberg plano. Espantosamente, os navios da Nação do Fogo estavam silenciosos, como se a maldição da "Bela Adormecida" tivesse se abatido sobre eles.
-Yue, Chang, vamos combinar nossas dobras e criar uma ponte de gelo estável.
-O.K.-responderam os dois em uníssono.
De forma lenta, porém eficaz, eles chegaram do outro lado do lago de sal que os separava do bloco de gelo principal.
-Agora é só uma "curta" caminhada de alguns quilômetros até a aldeia...-Murmurou Yue, sarcástica.
-Tenho uma idéia melhor...-Disse Chang, olhando de uma forma assustadora para uns shikigamis com aparência de lobo que os observavam.
-Descobri uma coisa que eu odeio mais do que navios!-Gritava Yue a bordo do trenó de gelo que eles haviam criado e os shikigamis puxavam. Aang e Chang riram.
-Acho que vou vomitar...-Disse ela, verde.
-ECA!-gritaram os dois ao mesmo tempo quando ela se içou para fora do trenó para "pôr para fora". Começaram a rir quando ela apareceu, pálida, de novo dentro do trenó. Soka acordou e Katara deu sinais de que estava voltando à tona também.
-Eles estão acordando!-Gritou Aang, animado.
-Legal Aang!-respondeu Chang, animado.
-É, "hip-hip, hurra".-resmungou Yue enjoada.
-Eca... Ela tá pior do que nunca...-Sussurrou Chang no ouvido de Aang para não invocar "a fúria do monstro". Aang assentiu com a cabeça.
-Ãhn? Onde eu estou?-Murmurou Soka.
-Que lugar é esse?-Resmungou Katara.
-Estamos a bordo de um trenó de gelo eterno puxado por shikigamis na forma de lobos.-Respondeu Chang com um sorriso gentil.
-Ah tá, vou voltar a dormir.-Retrucou Soka, semi-acordado.
-Oi Aang, achei que eu tivesse morrido.-Disse Katara com um sorriso gentil. Sendo arremedada por Yue só com os lábios. Chang e Soka deram risinhos.
-Eu também, ainda bem que você ainda está aqui, Katara.-respondeu tímido, Aang.
-Oh...Ainda bem que estamos todos aqui! Vamos saltar pelos campos e jogar flores ao vento com túnicas brancas soltas!-resmungou Yue, enjoadíssima.-Vamos, amigos abraço em grupo! Hahahahaha!
-Sabe...ela dá medo...-Disse Soka para Chang.
- "Cão que ladra não morde".-retrucou Chang sabiamente.
-Sabe, Yue, você poderia ser menos intragável e parar de descontar suas frustrações nos outros.-Disse Katara, irritada.
-Sabe, Katara, você poderia ser menos tosca e parar de descontar o fato de ser medíocre em mim.-Retrucou Yue, com igual fúria. O clima a bordo do trenó ficou mais frio do que o ar que castigava suas bochechas. Chegando na aldeia um clima estranho pairava no ar.
-Vovó!-gritaram Katara e Soka correndo em direção à avó que os esperava com um ar sério. Quando todos saíram, o trenó se desfez e os shikigamis sumiram.
-O que houve, vovó?-Indagou Katara.
-Há um rapaz na aldeia. Ele diz ter vindo de longe para ver o Avatar.-Respondeu Kanna.
-Um...rapaz?-Indagou Aang.
-É. Acompanhado de um senhor de idade muito simpático...Usa o cabelo curtinho e tem uma cicatriz enorme no olho esquerdo.-Disse uma outra senhora.
-Zuko.-Disse Soka entre dentes.-Ele é...
-...um velho conhecido nosso.-Yue terminou a frase por ele. Soka, Katara e Aang a olharam, curiosos, pois não sabiam do passado de Yue.-Precisamos vê-lo, leve-nos até ele.-Chang olhou para os outros e fez sinal para que eles se mantivessem calados e confiassem nela. Kanna foi à frente do grupo, levando-os até uma tenda em particular. Lá dentro estavam sentados Zuko e Iroh sentados, o último tomava chá.
-Olá, Zuko.-disse Soka.
Aang observava, tranqüilo. Katara, nervosa, mordiscava o lábio inferior. Chang, de braços cruzados, numa posição defensiva, olhava com ódio para ele. Toph, para descontrair, assobiava. Yue olhava diretamente nos olhos do primo sem nenhuma sombra da costumeira timidez que acometia a ela toda vez que se encontravam.
-Avatar. Quero propor um acordo.-disse Zuko, formal.
