Capítulo 12 - Brinde

- Não pensei que encontraria você aqui.

- Também não pensei que o encontraria aqui.

- Bem - Draco sorriu - Você encontrou.

Malfoy observou-a enquanto ela colocava sua bolsa de livros sobre o chão de pedra da sacada do Corujal, encostada contra o prédio, voltada para os jardins de Hogwarts. Malfoy estava parado do lado oposto, as mãos nos bolsos, trêmulo contra o leve frio do final da tarde.

Ele havia chego de Hogsmead fazia poucos minutos.

- Você pode aquecer-se perto do fogo - Blaise o disse, obviamente ainda acreditando em sua falsa doença - Pansy vai lhe fazer companhia.

Draco recusara a oferta, mas quando Zabini o pressionou, Malfoy percebera que tinha agüentado o bastante. Murmurando um fraco grunhido, ele passou pelos colegas sonserinos no Hall de Entrada, a mão contra o lado direito do peito.

- Acho que vou até a Ala Hospitalar - ele os disse.

Quando eles viraram-se para seguirem-no, Draco esticou uma mão e os deu um olhar frio.

- Eu não preciso de ajuda - o grupo parou - Encontro vocês depois.

Segurando a vontade de sair em disparada, Malfoy dobrou uma esquina e entrou em uma passagem estreita, longe de seus colegas.

Quando a conversa deles finalmente tornou-se inaudível, a expressão falsa de dor de Malfoy mudou para uma estranhamente pensativa, seus ombros curvados voltaram à posição perfeitamente reta.

Mas ele não soltou as mãos, elas ainda estavam grudadas ao seu lado. As garrafas de Cerveja Amanteigada batiam-se enquanto ele as segurava no bolso de dentro de sua capa.

Não esperou muito antes de Hermione subir os degraus do Corujal.

Ele a lançou um olhar. Ela olhou, quase paralizada, para o sol desaparecendo no horizonte atrás dele. Draco não conseguia dizer se estava enojado com aquele olhar ou envolvido por ele.

Lentamente, como se a escuridão trouxesse a vida de volta a ela, Hermione respirou fundo. Malfoy observou seus ombros relaxarem e seus braços saírem de sua posição cruzada.

Ela olhou para ele, então, pela primeira vez desde que subira as escadas. Ela olhou para ele com o mesmo olhar de quem vê um amigo depois de um tempo terrivelmente longo. Draco ficou tenso.

- Obrigado - ela disse, simplesmente, como se as palavras fossem fáceis. Draco sabia que não eram - Por ter sido gentil hoje.

Ele pensou sobre aquilo por um momento, o comentário dela criando um redemoinho de confusão em pânico em seu estômago.

Malfoy desviou o olhar, correndo uma mão pelo cabelo louro platinado. Lentamente, ele virou seu olhar para ela.

Ela ainda o olhava, aquele brilho quase maníaco sempre presente nos suaves olhos castanhos dela.

- De...nada - soava como outra língua para ele.

Hermione deixou um pequeno sorriso passar pelos seus lábios.

Draco olhou para longe, como se o olhar dela o queimasse.

Hermione suspirou para si mesma, mudando de posição na parede. Enrolando uma mecha do cabelo ondulado em seu dedo, ela olhou para o espaço.

Por um instante, Malfoy sentiu-se estranhamente quente enquanto pensava nos eventos ocorridos no Três Vassouras; no olhar de perdão que Granger o havia dado. Mas enquanto ele apagava aquelas lembranças, a sensação sumiu, deixando-o frio e amargo.

Como se algum movimento fosse o aquecer, Draco tirou as duas garrafas de Cerveja Amanteigada de sua capa, colocando-as no grosso parapeito de pedra. Ele ouviu Hermione afastar-se da parede e andar até ele.

- Onde você conseguiu elas? - ela perguntou, quase desaprovadoramente, mas com um quê de sarcasmo em sua voz.

- Eu trouxe - ele disse, simplesmente.

- Para que?

Era quase retórico.

- Gesto de boa fé.

Hermione deu uma risada de descrédito.

- Agora, Granger, eu achava que você pensaria melhor de mim se eu as trouxesse para dividir com você - ele pegou uma das garrafas e apertou em sua mão, seu anel com o símbolo da Sonserina escorregou para boca da garrafa.

Com um rápido virar de seu pulso, a tampa voou e o som de gás escapou da garrafa recém aberta. Draco sorriu. Soava como se a jóia em formato de cobra de seu anel tivesse dado um pequeno sibilo.

Ele ofereceu a garrafa para Hermione, que aceitou, quase estranhamente, enquanto Malfoy abria a segunda garrafa.

Ele observou enquanto Hermione encostou-se no parapeito de pedra, olhando primeiro para a garrafa, então para Draco. O que ela estava pensando?

Malfoy riu amargamente.

- Eu não envenenei.

- Eu nunca disse que você o fez.

- Você estava pensando - seu sorriso cresceu - E eu aqui pensando que seria um bom gesto entre amigos.

- Você disse que nós não éramos amigos. Você disse que estava me usando.

- E se eu estava e isto é só outra mentira? Outra armação?

- Então eu iria embora. Eu não preciso da sua bebida nem da sua companhia.

- Então porque ainda está aqui? - a voz de Malfoy embargou em seu peito, quase feroz. Seus ombros curvaram-se para frente enquanto ele inclinava-se na pequena distância que havia entre ele e Hermione.

- Porque eu sei que você quer amizade - a voz de Hermione era tão perigosa quanto a dele - Você deseja o que eu tenho com Harry e Rony - ela apontou um dedo para ele - Eu sei.

- Você não sabe nada sobre mim.

- Eu conheço você, Malfoy.

- Você sabe... - ele disse em uma voz doente, com um tom que se aproximava de alguém prestes a cometer um homicídio - o que eu quero que você saiba. O que o mundo acha que conhece. Você não sabe nada sobre quem eu sou.

- Então acho que esta é minha chance de aprender - Hermione cruzou os braços sobre o peito, a garrafa pendurada em sua mão. Ela inclinou-se para trás em seus sapatos de salto.

Draco estava maravilhado com ela.

Ela não estava errada.

Ele não sabia se queria xingá-la ou abraçá-la. Qualquer um dos dois detonaria seu já bastante curto pavio.

- Eu... - Malfoy procurou por palavras. O olhar de Hermione quebrou por uma fração de tempo, seus olhos virando-se para encontrar os dele. O olhar de Draco era afiado, afiado e incrivelmente brilhante contra a luz fraca. Com um movimento lento, sentindo como se estivesse reagindo sem realmente pensar, Malfoy concordou.

- Um brinde então - Hermione continuou ao notar a expressão de quase alívio e resignação no rosto de Malfoy - Por uma recém descoberta amizade.

Ela descruzou os braços e esticou a garrafa, torcendo levemente em sua mão.

Draco olhou para a garrafa. O jeito com que a luz brilhava através do vidro e manchava a mão de Hermione era envolvente. Criava um foco de luz, fazendo a pele bronzeada dela ficar laranja, fazendo a dele contrastar em seu tom branco. Lentamente, ele esticou a mão, as duas garrafas quase se tocando.

Com um rápido olhar, desviou seus olhos, pausando sua ação, enquanto medo tomava conta dele.

As duas garrafas estavam a meros centímetros uma da outra.

Ele olhou de volta para Hermione, seus olhos, brilhando, afundaram-se nos dela.

Em um gesto desafiador, Hermione esticou sua mão até a mão livre de Draco, que descansava no parapeito de pedra. Ela mal encostou em sua manga, seus dedos criando pequenas linhas no tecido.

Ela não tocou a pele dele.

- Você sabe o que está fazendo, Draco? - perguntou suavemente, os olhos voltados para o chão, sua mão ainda sobre a dele, mas não ousando tocá-lo.

Sabia?

Draco olhou para o lago.

Ele sabia que, ao fazer aquilo, ele estava se tornando um traidor do sangue? Pisando no seu pai, no seu orgulho, no seu nome? Pegando tudo o que ele havia pregado e jogando no lixo?

Ele sabia era impossível? Inimaginável? Ele e a nascida trouxa, tornando-se amigos.

Ele sabia que, se fosse pego, seria deserdado? Desgraçado? Ou pior?

Ele sabia?

- Sim - Malfoy inclinou seu queixo, olhando de volta para as garrafas de cerveja amanteigada, desafiador. Hermione segurou a respiração.

Com um pequeno, quase inocente, sorriso, ele acabou com a distância e bateu as duas garrafas, levando-a aos seus lábios em seguida.

Hermione observou-o quando ele jogou sua cabeça para o lado, os cabelos saindo de seus olhos. Draco inclinou seu queixo e bebeu, os olhos bem fechados. Seu pescoço era uma coluna branca contra a escuridão.

Hermione também bebeu, nunca tirando os olhos de Malfoy.

Gotas do líquido doce manchavam seus lábios.

Quando Draco lentamente abriu os olhos e fixou-os em Hermione, eles olharam um para o outro pela primeira vez, como amigos.

Ambos sorriram.