Capítulo 12

A TEMPESTADE

Por mais que eu tentasse esboçar alguma reação ou falar alguma coisa, era simplesmente impossível. E quando senti que estava prestes a voltar a mim, ela simplesmente me deu as costas e saiu porta afora.

Tenho certeza que fiquei apenas um segundo encarando a porta fechada, mas quando eu corri para detê-la, Bella já não mais estava em lugar nenhum. Não havia mais sinal da sua moto na estrada ou o barulho do veículo se afastando ao longe. Tudo que eu podia ouvir agora eram os sons dos trovões que anunciavam mais uma tempestade.

Naquele instante a minha primeira atitude foi dirigir até a sua casa e exigir uma explicação para aquilo e eu cheguei a pegar a chave que estava no bolso da minha calça, mas a responsabilidade falou mais alto. Eu não poderia sair daquele jeito e deixar Emma sozinha. Pensei em levá-la comigo, mas logo descartei essa possibilidade. Não acho que a conversa que eu teria com Bella seria algo que minha irmã gostasse de presenciar.

Tentei falar com Alice no número que ela havia me ligado na noite anterior, mas caiu na caixa postal. Em seguida liguei para Jacob. Depois do que acontecera ontem na estrada, eu tinha certeza que ele sabia algo sobre Bella.

Mas antes que alguém atendesse na casa dos Black, eu desliguei. Não queria obter respostas da boca de Alice, muito menos da de Jacob. Só havia uma pessoa que eu queria que respondesse minhas perguntas. Daria um jeito de falar com Bella ainda hoje, não importava a chuva torrencial que caía lá fora. Eu apenas esperaria minha mãe chegar e iria até a casa dos Cullen.

E esperei impacientemente andando de um lado para o outro na sala. Estava tão distraído com meus próprios pensamentos que não reparei em Emma sentada ao pé da escada, seu rosto pequeno apoiado nos braços em cima dos joelhos dobrados.

- Vai abrir um buraco no chão.

- Me deixa, Emma – resmunguei, fingindo não ter me assustado com ela.

- Cadê a sua namorada?

- Ela não é minha namorada.

- Ah, tá. – mas quem disse que minha expressão séria a fez desistir e me deixar em paz? – O que foi que você fez?

- Como assim o que eu fiz? – continuei andando de um lado para o outro, mas agora a encarava, vendo acusação na sua expressão.

- Para ela ter saído daquele jeito, alguma coisa você deve ter aprontado.

- Do que você está falando?

- Nada. Esquece. – Emma levantou e virou-se para subir as escadas novamente, mas eu me apressei a detê-la, segurando seu braço fino.

- Estava espiando, Emma? – acusei – Sabe que não deve fazer isso.

- Ah, deixa de ser chato, Edward – ela reclamou puxando seu braço com força – Eu não estava espiando. Ouvi a porta da entrada bater e pensei que mamãe tinha chegado, mas não vi o carro dela quando olhei pela janela. Só vi você aparecendo um pouco depois.

- Você não viu Bella saindo?

- Não. Você deve ter feito algo muito feio, maninho. A garota saiu voando.

- Muito engraçada.

Deixei Emma subir e foi a minha vez de sentar nos degraus. Comecei a pensar naquilo tudo, principalmente no que minha irmã falara. Não que eu achasse que Bella tinha saído voando, mas depois de juntar as peças de tudo que eu já tinha visto, de uma coisa eu tinha certeza: Isabella Swan não era humana.

Quase não ouvi o barulho do carro da minha mãe quando ela entrou na garagem coberta, tamanha era a força chuva.

Esperei apenas ela entrar pela porta de conexão para avisar que estava de saída.

- Sair nessa chuva? Nem pensar, mocinho.

- Mãe, se eu for esperar um tempo bom aqui em Forks, vou acabar preso em casa para sempre.

- Já viu a tempestade que está lá fora, Edward? – ela perguntou enquanto colocava as sacolas em uma mesa de canto e me encarava de braços cruzados – Vi dois raios caindo no caminho de volta.

- Ficarei mais seguro dos raios dentro do carro do que aqui em casa – retruquei já vestindo o casaco e pegando as chaves.

- Aonde você vai?

- Resolver uma coisa – acho que pelo meu tom ela deve ter percebido que aquilo era tudo que eu falaria e não insistiu.

- Leve o celular e não demore.

- Pode deixar.

Mesmo querendo correr o máximo possível para chegar logo à casa de Bella, me obriguei a dirigir numa velocidade baixa, por conta da chuva que de tão forte me impedia de ver mais do que alguns poucos metros à minha frente.

Esperava acertar a entrada da casa dos Cullen, já que só tinha ido lá uma vez e quando estava com Alice ao meu lado. Lembrava vagamente onde era e que a entrada era bem escondida.

Minha atenção estava triplicada. Estava tudo tão escuro à minha volta que parecia ser noite. O breu era apenas interrompido pelos faróis do meu carro, pelos relâmpagos freqüentes e por ocasionais raios que caiam ao longe. Por vezes eu fui obrigado a reduzir até quase parar nas curvas mais acentuadas e para desviar de galhos caídos por todo caminho. Aquela tempestade definitivamente era a pior que eu já tinha visto em toda a minha vida. Ninguém mais tinha se atrevido a sair nesse tempo e a estrada estava deserta, completando o cenário assustador.

Começava a me arrepender de ter saído de casa.

Mas foi só lembrar o motivo que me fez enfrentar aquela chuva para que eu continuasse dirigindo determinado.

Depois de mais alguns minutos, passei por uma placa de sinalização e tive certeza que estava perto. Mais uns dois quilômetros e chegaria a entrada da casa dela.

Seus olhos vermelhos de repente apareceram na minha mente, me distraindo momentaneamente e eu precisei sacudir a cabeça para voltar a mim. E foi nesse exato momento que um raio caiu perto demais, apenas alguns metros à minha frente do lado direito da pista. O clarão foi tão forte que eu não enxerguei nada por alguns segundos.

Freei o carro bruscamente e continuei parado ali no meio da pista até minha visão voltar ao normal. Esfreguei os olhos com força e quando voltei a abri-los vi que uma árvore pegava fogo no exato local onde o raio caíra. Achei melhor sair logo dali antes que as coisas piorassem.

Estava começando a colocar o carro em movimento novamente quando o celular tocou no meu bolso. Até pensei em não atender, mas se fosse a minha mãe ela provavelmente surtaria se não conseguisse falar comigo.

Me surpreendi ao ver que quem me ligava era ninguém menos que Alice.

- Oi, Alic...

- Pára o carro, Edward – ela pediu com urgência na voz.

- Quê?

- Pára o carro agora!

No mesmo instante que ela gritou eu ouvi o som de madeira se partindo e tive tempo apenas de olhar para o lado para ver a mesma árvore que estava em chamas caindo na minha direção.

- Merda!

Acelerei o máximo possível, esquecendo completamente do meu celular que caíra em algum ponto do chão do carro, tentando apenas me livrar da morte. O problema era que, com tanta água na pista, o carro mais patinou do que saiu do lugar e quando finalmente consegui estabilizar o veículo, os galhos menores já começavam a cair em cima de mim.

Consegui me livrar do tronco principal, mas um galho um tanto maior que os outros acertou em cheio meu pára-brisas lançando pedaços de vidro pro todo lado.

- Porcaria!

Alguns pedaços de vidro caíram em cima de mim, cortando minhas mãos, mas nada muito sério. Apesar do sangue, eram apenas cortes superficiais que eu resolvi ignorar.

Mesmo sem conseguir ver nada à minha frente, eu continuei acelerando na tentativa de me livrar daqueles pedaços de madeira, muitos em chamas, que continuavam a atingir meu carro amado, porém nesse momento eu estava pouco me lixando para a lataria.

Mas depois de muito tentar, forçando ao máximo o motor do carro, eu percebi que dali não sairia. Havia tantos galhos a minha volta que eu não conseguiria ir para lugar nenhum dirigindo. O único jeito era continuar meu caminho a pé. Esperava apenas que a chuva apagasse as chamas dos galhos antes que chegassem onde meu carro estava.

Me inclinei para o porta luvas com a intenção de pegar os documentos do carro quando vi meu celular no chão em frente ao banco do motorista, com uma outra chamada de Alice.

Peguei o aparelho, novamente me cortando com os cacos de vidro espalhados ali.

- Alice, o que é qu...

- Não saia do carro, Edward. – ela pediu na mesma voz urgente de antes.

- Mas Alice...

- Só me obedece, Edward. Ao menos dessa vez.

- Está cheio de galhos. Tem fogo em todo lugar. – eu expliquei um tanto alterado – Você quer que eu fique aqui? De verdade?

- Sim. Vou mandar ajuda. Só não saia do carro.

- Se esse carro pegar fogo...

- Não vai.

- Como você sabe? – perguntei desconfiado, me recostando a contragosto no encosto do meu banco enquanto olhava ao redor para os galhos que me mantinham preso ali.

Não sei se ela iria responder, mas o ruído que se seguiu me impossibilitou de ouvir qualquer coisa. Outro raio caiu ainda mais perto de onde eu estava, exatamente no meio da estrada cheia de água.

Depois que o clarão sumiu e o susto passou, foi que a ficha caiu. Se eu tivesse saído do carro, agora haveria apenas Edward torrado para contar história.

- Alice? – chamei num tom baixo e surpreso, na dúvida se ela ainda continuava na linha.

- Está tudo bem?

- Você, por acaso, sabia que esse raio ia cair?

- Que pergunta idiota, Edward. – ela zombou, mas eu percebi que seu tom sempre tão suave estava um tanto estrangulado. Ela estava mentindo.

- Será que é mesmo? – ia insistir no assunto, mas outro raio, o terceiro no espaço de minutos, caiu no mesmo lugar que o anterior, fazendo o chão tremer a minha volta com o impacto – Merda!

- Edward...

- Quem foi que disse que dois raios não caem no mesmo lugar? – perguntei e até eu reconheci que estava ficando um tanto histérico. Mas quem não ficaria se estivesse preso no meio do nada com uma tempestade de raios a sua volta?

- Acho que o celular está atraindo os raios para esse... Bella, me solta!

- Bella? – perguntei dando um pulo no assento – Bella está aí?

- Nem pensar, Bella! Carlisle pediu para você manter distância. Ele já está chegando e vai...

E vai o quê? Como ela fica calada numa hora dessas?

- Alice?

- Bella, não! Bella, volta aqui! – Alice gritou do outro lado – Merda! Edward, sai do carro!

- Quê?

- Sai do carro, agora! – sua voz tinha voltado para aquele tom urgente e isso começou a me preocupar. E irritar também.

- Quer fazer o favor de se decidir?

- Edward, saia dessa porcaria de carro AGORA!

Resolvi obedecer, devido ao seu tom alarmante, mas mal tive tempo de me mexer quando a ligação foi interrompida, não sei se pela chuva ou se Alice tinha desligado, e no instante seguinte tudo que senti foi um impacto de algo muito pesado atingindo a lateral do carro no lado no passageiro, lançando o veículo para fora da estrada. Me segurei firme ao volante e senti o carro tombar devagar, capotando uma vez na pista.

O que eu não tinha reparado, devido a intensidade da chuva, era que a lateral da oposta da estrada não era necessariamente plana e eu pude ver, antes mesmo de acontecer, a descida de terra que me fez capotar mais duas vezes antes de me chocar contra algo duro.

Senti uma dor lancinante na cabeça e no segundo seguinte tudo ao meu redor ficou escuro.