Capítulo Onze: A Escuridão
-
-
No salão de beleza, Sakura tentava relaxar um pouco. Depois de, mais ou menos, dois meses trabalhando dia após dia como uma escrava, ela finalmente podia aproveitar a sua folga com uma tarde inteira cuidando de si mesma, para variar um pouco.
Ela permitiu que a manicura pegasse seus dedos, começando por lixar as unhas, descuidadas e roídas. Com a mão livre, virou a página da revista que lia, distraidamente.
Ino, que estava sentada na cadeira sendo atendida pela cabeleireira, observava seu próprio reflexo no espelho.
"Eu preciso comprar alguns cremes." Comentou, tocando o rosto com o indicador. E Sakura ergueu os olhos para ouvi-la falar. "Tenten me disse que óleo de peroba ajuda evitar as estrias na barriga, quando ela se estende muito por causa do bebê." Explicou, fazendo a outra então recordar-se da sua gravidez.
"Talvez." Sakura ergueu os ombros, com descaso. "Você já foi fazer seu pré-natal?"
"Ainda não. Gaara está insistindo para que eu vá logo à Suna com ele. Ele prefere que seus médicos cuidem do nosso bebê." Disse a loira, franzindo levemente as sobrancelhas para mostrar sua insatisfação. "Ele voltou essa manhã para lá. Insinuou que mandaria alguém para me vigiar, para que eu não faça besteiras..." e Ino suspirou, fazendo um movimento brusco com a mão. "Eu quebro a cara dele se perceber que há alguém me seguindo."
Sakura riu e logo soltou um gemido ao sentir o alicate cortar dolorosamente sua cutícula.
"Cuidado com isso." Reclamou para a manicura, aborrecida antes de se voltar mais uma vez para a loira. "Você não vai antes do meu casamento, não é?" perguntou ela, ansiosa.
"Óbvio que não, testuda. E talvez, nem depois." Disse.
"Com esse bebê, vocês não estão pensando em se casar?" indagou Sakura, baixando os olhos momentaneamente ao vislumbrar uma manchete interessante na revista que lia.
"Talvez mais tarde. Você sabe como o Gaara é importante, como Kage e essas coisas. Eu receio que haverá alguma pressão por cima dos conselheiros da vila da areia pelo fato dele estar envolvido comigo." Explicou Ino. Havia uma ruga de insatisfação em sua testa. "Os Kages de lá não tem tanta liberdade como os daqui, imagino."
Por um momento, Sakura sentiu o desconforto de Ino.
Ela poderia ter uma idéia de como se passavam as coisas naquela vila de pessoas tão frias. Os conselheiros do Kazekage eram pessoas cruéis e, muitas vezes, injustas em suas escolhas. Deveria ser extremamente difícil para que Gaara sobrepusesse sua vontade acima da daqueles velhos ordinários.
Como numa era tirânica, Sakura não duvidaria que eles quisessem escolher a esposa perfeita para seu Kage, com todas aquelas pompas cerimoniais, toda a importância que seria digna da mulher do homem mais poderoso, mais incrível de sua vila. Ela receava que, apesar de tudo, Ino talvez não fosse bem aceita como mãe do filho do Kazekage.
E, de certo modo, entendia a idéia de Gaara em mandar alguém para vigiá-la. Ele devia ser capaz de saber o que os conselheiros fariam ou não para impedir que aquela criança nascesse, se eles a considerassem um estorvo.
"Eu nunca imaginei que a vida de Gaara pudesse ser assim. Quando estive na Suna, jamais participei ativamente da rotina dele como Kage." Comentou ela. "Eu estou com um pouco de medo, sabe? Ele pediu que eu não contasse para ninguém do nosso bebê, mas eu disse a ele que era tarde demais. Eu não sei o que vem por aí, mas algo me diz que será cruel."
Sakura tentou achar palavras de consolo, mas não conseguiu.
"Tenten está numa missão, não é?" indagou a loira, numa tentativa um pouco frustrada de desanuviar o ambiente. E deu um de seus sorrisos que beiravam a falsidade com tanta animação. "Hinata me visitou essa manhã. Ela estava um pouco nervosa, disse que estava tentando despistar alguém, quando bateu lá na porta de casa."
Então, desgostosa, Sakura recordou-se daquela conversa constrangedora que tivera com Naruto, dois dias antes. Ela não tornara a vê-lo e, intimamente, dava graças por isso.
Seu casamento seria em menos de uma semana e, enquanto tentara desesperadamente conciliar sua vida pessoal com o trabalho e os preparativos para a cerimônia, deu-se conta de que talvez Naruto não quisesse participar daquele momento, da sua busca afoita pelos detalhes perfeitos.
Os encontros com a decoradora, a florista e até mesmo com Madame Michiko, que confeccionara seu quimono, eram borrões em sua mente. Ela sabia que as havia encontrado, mas não recordava mais a temática de suas conversas.
Há três dias, Sasuke estava internado no hospital. A cicatrização do seu corte ia bem, até que ele subitamente decidisse estar na hora de fazer algo por si mesmo e sair se exercitando pelo quarto. Alguns pontos estourados e lá se ia mais algum tempo tratando deles, para o desgosto do Uchiha, que já não agüentava mais permanecer preso àquele lugar.
"Tenten e Neji resolveram sair em missão logo agora." Comentou Sakura, insatisfeita. "Pelo que Tsunade me disse, eles provavelmente não estarão de volta para a cerimônia. E ambos eram padrinhos!"
"E não tem... hmm, nenhum substituto?" indagou Ino. "Quem sabe a Hinata? O Naruto...?"
"Ohh, não, não, definitivamente não!" Ela afirmou com tanto afinco que chegou a surpreender a loira, e logo tratou de se recompor, dando um sorriso sem graça. "Quem sabe você, Ino? Sei que você disse que não queria, mas vá lá, estou realmente precisando... Quem sabe você e Gaara...?" Indagou, inquieta.
Surpreendentemente, a outra caiu na maior gargalhada, atrapalhando o serviço da cabeleireira que tentava secar seus cabelos, o secador em riste.
"Você realmente acha que Gaara aceitaria participar de um casamento? Oh, por favor, testuda. Ele não vai, eu vou."
Insatisfeita com as palavras dela, Sakura afundou-se na poltrona.
"Então quem?" perguntou, já em desânimo.
"Que tal Shikamaru?" reiterou Ino. "Você me pegou de surpresa com essa notícia, mas sei que você está precisando de mim, então não te deixarei na mão. Acho que estaria tudo bem se fosse eu e Shikamaru." Sugeriu, dando um sorriso ao expor sua idéia. "Nem você, nem Sasuke tem tanta intimidade com ele, mas..."
"Seria um bom par para você?" e Sakura riu.
Elas se observaram carinhosamente, intimamente satisfeitas por estarem partilhando aquele momento.
"Pois bem, eu falarei com ele." murmurou a noiva para si mesma, pensando onde poderia encontrar o Nara, uma vez que ela tinha consciência de que ele raramente estava em casa.
Está tudo em cima da hora, pensou ela.
-
-
O suor escorria pela sua testa, enquanto ofegava.
Tenten limpou-o com a palma de uma das mãos, antes de deixar-se cair suavemente sobre o chão fofo da floresta, agachada como uma felina, vendo Watanabe afastar-se pela trilha, sem notar sua presença.
Ele já estava longe quando ela resolveu olhar em volta, para ver se reconhecia o local.
Em pouquíssimas paradas, o médico caminhara até onde estavam então, descansando em um saco de dormir quando caía a noite e parando algumas vezes, em pequenas aldeias pelo caminho, para que comprasse suprimentos e fazer suas refeições. Daquele tempo inteiro sem descanso, ela sentia-se exausta.
Achou que talvez estivessem perto de alguma nova vila. Resquícios de fumaça podiam ser vistos ao longe, apenas porque parte da trilha era desmatada.
A noite caía, sem nuvens e com seu céu estrelado. O ar frio começava a esbravejar por entre as árvores, os últimos raios de sol morrendo com tal rapidez que, em poucos minutos, não havia mais aquele fulgor vermelho-dourado que todo final de tarde apresentava.
Ela franziu as sobrancelhas, secando as mãos úmidas na calça e então ouviu um latido.
Quando se virou, o enorme cachorro branco já estava sobre ela, lambendo seu rosto, impedindo que escapasse. Caída sobre a grama, Tenten conteve o impulso de soltar um grito.
"Sai de cima de mim!" Sibilou, tentando empurrá-lo para longe.
"Akamaru!" Ouviu-se e o cão saiu de cima dela, obediente.
Quando ela sentou-se, tirando gravetos do seu cabelo, os coques praticamente desfeitos, vislumbrou o rosto moreno de Kiba, que se aproximava correndo, e logo Neji e Shino apareceram por entre as árvores, atraídos pelos latidos do Akamaru.
Rapidamente, ela pôs-se de pé ao enxergar o Hyuuga e, cansada, suja e faminta, tentou enfiar todas as centelhas de orgulho que havia em seu corpo no rosto, apenas para não lhe dar o gostinho de vê-la exausta.
Seus olhos passaram pelo trio e pelo cachorro do Inuzuka, uma ruga de incredulidade surgindo em sua testa ao imaginar que, talvez, a Hokage tivesse passado a todos eles a mesma missão. Mas descartou essa possibilidade rapidamente, pois Watanabe não precisaria ser secretamente escoltado por quatro ninjas.
"O que você está fazendo aqui?" Perguntou Kiba, os olhos estreitos na sua direção.
"Faço a mesma pergunta." Reiterou Tenten, tentando parecer mais ameaçadora do que cansada.
"Tenten." Neji chegou perto deles o suficiente para tocar seu ombro, mostrando a Kiba que ele não devia se intrometer, então o outro baixou a guarda, de má vontade. "Por que está aqui?" Perguntou, um tanto autoritário em suas palavras.
Ela encarou-o, cética.
Fechando os punhos a fim de conter aquela súbita raiva que a atingira, Tenten despejou-a em cima do Hyuuga à sua frente por meio de um olhar tão mortal e tão mordaz que ele ficou surpreso, mesmo que não tivesse demonstrado isso nem à ela ou aos seus companheiros.
Quando entreabriu os lábios, a morena precisou conter o suspiro exaurido que quis passar por eles, e logo sua boca era apenas uma linha retorcida de ódio em seu rosto.
"Por que você acha que eu te devo satisfações, Neji?" Perguntou e ele soltou-a.
"Você está em missão?" Shino se aproximou mais, a ponto dela poder ver o pequenino inseto que corria para se esconder entre seus cabelos, os óculos escuros cobrindo seus olhos.
"Sim." Respondeu Tenten, desgostosa. "Estou seguindo aquele cara." E apontou com o dedão para a trilha atrás de si.
"Nos dê detalhes." Mandou Kiba, acariciando o topo da cabeça de Akamaru.
"É um desertor de Konoha. O cara que diagnosticou a situação do Chidou. A Hokage mandou que eu grudasse na cola dele, até descobrir onde ele vai parar." Explicou ela, de má vontade. Virando-se para Shino, que, por mais nojento que fosse com seus insetos a percorrerem-lhe o corpo, era o mais tolerável. "Ela acredita que o Watanabe possa trazer problemas, pois é incompetente como médico e o conselho de Konoha não quis tirar-lhe a licença."
Eles ficaram em silêncio por um segundo, avaliando as palavras dela.
Tenten, contendo a vontade de socar aquelas três caras desconfiadas apenas para descontar um pouquinho da raiva que sentia, olhou em volta, percebendo que aos poucos a silhueta silenciosa e distraída de Watanabe ia sumindo da sua vista pela trilha, que ia se encobrindo de galhos de árvore e escuridão.
Limpou o suor que escorria pela sua testa, secando a mão no tecido da calça. Quem sabe seria ali que o sacana ergueria acampamento, pensou, e então ela se livraria da desagradável tarefa de segui-lo feito sua sombra.
"Para lá fica a Vila da Nuvem." Explicou Neji, vendo que a morena estava olhando na direção da trilha. Ela voltou-se para ele, surpresa. "Daqui a um quilômetro já é possível avistar os portões da vila. Se ele estiver procurando algum lugar para ficar, acredito que será esse." Mas ela não entendeu o porquê da certeza dele naquelas palavras.
"Hm."
"Você deve continuar a segui-lo." Disse Shino, estendendo o dedo para que uma mariposa pousasse sobre ele.
"Eu vou com você." Disse o Hyuuga, quando ela fez menção de se afastar, sem dar mais satisfações ou se despedir. Segurando o braço dela, fê-la parar. "Eu estou em busca de algumas coisas naquela vila, talvez esse médico possa me dar respostas pelas quais eu tenho procurado." Falou, seriamente.
Tenten sentiu a raiva subir à cabeça, livrando seu braço de maneira brusca.
"Não preciso de vigia, Neji." Esbravejou, dando-lhe as costas.
Num segundo, a morena descabelada já não estava mais sobre a vista deles, desaparecendo tão rápido por entre as árvores e as brumas da noite que, segundos depois, Akamaru latiu numa despedida, mesmo sem vê-la.
Ela sumiu na escuridão e não viu mais nada.
-
-
"Sasuke-teme."
O Uchiha sentou-se na cama ao ver Naruto adentrar no quarto, sério e sem suas tão habituais gritarias. Ele trazia um jornal embaixo do braço, as mãos nos bolsos da calça preta.
Ele tentou recordar quanto tempo fizera desde a última vez que havia se encontrado com o loiro, mas devia supor que fora há algum bom tempo, o suficiente para que aqueles desagradáveis pontos em seu abdome e o tédio tomassem conta do seu cérebro, impossibilitando-o na hora de distinguir as coisas – um pouco dramático, concordava.
E, mesmo sem convite, Naruto sentou-se na cadeira de visitas, silencioso.
"Trouxe isso para você." Atirou o jornal sobre as pernas de Sasuke, cobertas pelo tecido fino do lençol. Ele encarou-o, arqueando os ombros. "Supus que devia andar bem entediado, já que normalmente hospitais são um saco." Explicou, notando a pergunta nos olhos negros do outro.
"Hn." Sasuke pegou o jornal, abrindo-o na primeira página.
Ambos ficaram em silêncio, enquanto o Uchiha passava rapidamente os olhos sobre as principais notícias, sem realmente achar algo que interessasse entre tantas futilidades.
Ele pensou antes de entreabrir os lábios, mas agradeceu. "Obrigado."
"Não tem porquê." Reiterou Naruto e passou a mão pelo cabelo, distraidamente. "A Sakura não deve estar te falando nada do que está acontecendo, né?" Havia um pouco de rancor ao falar o nome da moça. "Aquele médico, o que diagnosticou errado a doença do Chidou, saiu de Konoha e Tenten foi mandada atrás dele."
Só então, Sasuke percebeu que estava ávido por notícias. Fazia quatro ou cinco dias que havia chegado ao hospital da vila e, desde que fora transferido para aquele quarto, se alienara das coisas que aconteciam lá fora.
Pousando o jornal novamente sobre suas pernas, voltou-se para o loiro.
"Sem Tenten e sem Neji, que eram os padrinhos do casamento, vocês ficaram desfalcados." Continuou ele, não demonstrando perceber o olhar inquisidor de Sasuke em relação à missão. "Shikamaru me falou hoje que Sakura o convidou para padrinho, junto de Ino."
"Por que não você?" Perguntou Sasuke, sério.
"Pergunte à sua noiva." Reiterou Naruto, aparentemente irritado por ter sido ignorado por Sakura. "E eu também gostaria de falar que talvez não vá a essa cerimônia, Sasuke."
O silêncio do outro era óbvio, mas o loiro sabia que era pela espera de uma resposta.
"Seria muita falsidade da minha parte." Disse ele, passando novamente a mão pelo cabelo, num gesto sistemático e nervoso. "Além do mais, não fará diferença." Finalizou. "Faz algum tempo que eu estou de molho, sem missão alguma. Isso está começando a me deixar irritado!" gritou Naruto, apertando os punhos.
"Pelo menos você não está preso aqui." E sinalizou o cômodo com um gesto de mão.
Naruto bufou.
"Que seja." Resmungou, sem mostrar interesse. "Contanto que eu receba logo algo de útil, está bom para mim."
Silêncio.
"Não devia ser uma missão secreta?" Indagou Sasuke, subitamente. "A de Tenten." Explicou, dando a entender que o loiro não chegaria àquela conclusão sem sua ajuda.
"Devia. Alguém deu com a língua nos dentes. A vovó Tsunade está furiosa. Ela acha que pode haver alguém infiltrado entre nós." Naruto espreguiçou-se, os braços estendidos acima da cabeça, soltando um bocejo. "Não acho impossível, mas, se me perguntassem, eu diria que pelo menos entre os ninjas não há ninguém. Se for, há de ser algum médico."
O Uchiha conteve o sorriso irônico e ateve-se a arquear as sobrancelhas, apenas.
"Um médico?" Indagou, desdenhoso.
"Por que não? Não são os médicos que mantém mais contato com os pacientes? Eles também devem manter mais contato entre eles mesmos. E médicos são mais perigosos do que ninjas, Sasuke-teme." Rezingou Naruto.
Sasuke se manteve em silêncio, para evitar as possíveis explosões do loiro diante dos seus pensamentos óbvios sobre aquela hipótese estapafúrdia dele. Pegou o jornal e abriu-o de frente ao seu rosto mais uma vez, parando na seção onde dizia que um novo espetáculo de música estaria em cartaz no teatro.
Erguendo-se da cadeira, o outro caminhou até a janela, escorando-se no peitoril.
"Esse cara que a Tenten está seguindo, o Watanabe, pelo que eu ouvi, pode nos trazer problemas. É o que eu acho." Sussurrou Naruto, observando o balançar dos galhos da árvore que ficavam de fronte à janela.
Novamente, Sasuke não respondeu, mas ele se sentia um pouco ansioso para se inteirar naquele assunto.
"Bom, eu já vou, Sasuke-teme. Aproveite o jornal e não se preocupe em devolver, é de ontem mesmo."
O loiro não deu margem a despedidas. Num estalo, não havia mais Uzumaki nenhum naquele quarto de hospital. E Sasuke encarou a beirada da janela, onde o outro estivera segundos antes, pensativo.
-
-
As luzes da vila aos poucos diminuíam com a chegada da madrugada.
Haviam bêbados e prostitutas em vielas; os botecos, os únicos estabelecimentos abertos, pois todos os demais fechavam antes das dez da noite.
Sentado sobre a bancada de um bar, Watanabe virava mais uma vez o conteúdo da garrafa de saquê dentro do seu copo, com os olhos injetados e falando enrolado, conversando com um homem ao seu lado, ambos rindo de uma ridícula piada sobre médicos e pacientes.
Os olhos de Neji não apenas perscrutavam o homem, como desesperadamente seguiam por todos os lugares onde Tenten poderia estar à espreita, vigiando-o.
Porém, nas últimas quatro horas e meia, desde que a morena saíra fugida da floresta, ele não a encontrara onde devia estar: na cola do médico. E, estreitando os orbes perolados, pensou consigo que finalmente precisava admitir que alguma coisa havia acontecido a ela.
Quando ele abandonou Watanabe no bar e retornou ao seu esconderijo, Shino estava rodeado de vaga-lumes à sua volta, sentado sobre uma pedra perto da caverna onde se abrigavam, e não ergueu os olhos até que Neji tocou seu ombro.
"Precisamos conversar." Disse.
Kiba e Akamaru cochilavam, o Inuzuka escorado na parede, de mau jeito, enquanto o cão mantinha sua cabeça apoiada sobre os coturnos embarrados do dono.
Cutucando-o com o pé, Neji acordou Kiba, que resmungou.
"Estamos com um problema." Avisou, sentando-se. Ele enfiou o rosto entre as mãos por um momento, impedindo a si mesmo de soltar um suspiro. E quando ergueu novamente os orbes, percebeu que era encarado pelos seus três companheiros."É a Tenten." Explicou ele, rapidamente. "Ela desapareceu."
"Hmm." Kiba esfregou a face, tentando espantar sua sonolência. "Ela não devia estar seguindo aquele merda? Aquele médico... Hm." Ele murmurou, bocejando. "Não devíamos supor que ela estivesse... escondida?"
"Eu conheço os métodos de camuflagem dela. Eu saberia onde ela está escondida, se ela estivesse escondida em algum lugar, Kiba. Não subestime a minha inteligência" Avisou Neji, frio.
O Inuzuka soltou um novo resmungo, revirando os olhos.
"Isso não está incluído em nossa missão." Disse Shino.
"Olha, o que você quer que eu faça? Ela desapareceu. Não podemos simplesmente ignorar isso. Mesmo que saiamos do previsto, mesmo que não seja nossa tarefa, não podemos repassar a responsabilidade a outros ninjas que demorarão, no mínimo, dois dias para chegarem aqui e investigarem o caso." Reiterou o Hyuuga, muito aborrecido diante das palavras do outro. "Dois dias é tempo demais e vocês sabem disso."
Akamaru lambia os dedos de Kiba, quando este ergueu a cabeça, parando de brincar com o cachorro, suas sobrancelhas franzidas faziam com que seus olhos parecessem menores.
"Você está levando isso para o lado pessoal." Falou ele.
"Nós a procuraremos." Preveniu Shino, tentando evitar discórdias desnecessárias. "Mas eu concordo com o Kiba, Neji. Você está emocionalmente envolvido e está nos colocando em uma posição delicada, que ameaçará a prioridade da nossa missão." E voltou-se para Kiba. "Mande uma mensagem a Hokage reportando o ocorrido." Pediu.
Quando o Inuzuka abandonou a caverna em busca de um pássaro mensageiro com Akamaru aos seus calcanhares, Neji percebeu que o olhar de Shino recaia sobre ele, duramente.
"Não perca a cabeça." Avisou.
Mas Tenten era um assunto delicado demais para que simplesmente se mantivesse "frio", como esbravejaria Kiba horas mais tarde. E ele percebeu que sentia medo de que alguma coisa pudesse acontecer à morena e ele não estivesse lá para impedir.
-
-
A manhã se fez e já eram nove horas da manhã, sem Sakura.
Sasuke ergueu a ridícula roupa hospitalar para verificar o estado dos seus pontos no abdome. Ele chegou à conclusão de que estavam suficientemente bons quando a enfermeira que lhe trouxera café da manhã disse que logo poderia tirá-los.
Levantando-se da cama, caminhou até a porta do quarto, abrindo-a para que pudesse observar o movimento do corredor, que estava um tanto quanto silencioso, a quietude quebrada momentaneamente quando uma criança começou a chorar de modo tão desesperado que ele poderia imaginar que alguém estava tentando matá-la a pauladas.
Para sua sorte, um médico dobrou o corredor, carregando uma prancheta e verificando as horas no relógio, enquanto mordiscava o lábio e passava a mão pelo cabelo, tudo com um mínimo intervalo de tempo.
"Ei." Chamou Sasuke, parando-o. "Venha aqui." Pediu.
"Sim, Uchiha-sama?"
Yamada, o médico em questão, aproximou-se dele e assim Sasuke tornou a entrar no cômodo, sentando-se na cama.
"Dê uma olhada nisso." Suas palavras eram mais uma ordem do que um pedido, quando ergueu a camiseta o suficiente para que o outro pudesse vislumbrar o ferimento costurado. "Acho que já está bom." Disse, impaciente.
Postando a prancheta que segurava delicadamente sobre a mesa que ficava ao lado da cama do Uchiha, Yamada abaixou-se um pouco para observar mais de perto o corte dele e seus dedos gelados tocavam a pele de Sasuke, num gesto automático, sem declarar imediatamente sua conclusão.
O moreno já estava inquieto com aquela demora e então o médico afastou-se dele.
"É. Você tem uma boa capacidade de cicatrização." Comentou Yamada, distraidamente. "Pelo visto, já pode se mover com precisão e... é, e não precisa mais do analgésico." Ele consultou sua ficha ao pé da cama.
"Você pode me dar alta?" indagou Sasuke.
"A médica encarregada por você é a doutora Haruno." Avisou ele, de sobrolho apertado.
"Pode ou não?"
Em silêncio, Yamada pareceu indeciso diante daquela pergunta.
Ele sabia que a doutora Haruno ficaria furiosa com a idéia de ter liberado o Uchiha sem o seu consentimento. Embora Yamada soubesse que devia ter ficado com aquele caso, pois ela não conseguira dar ao paciente o atendimento necessário, gentilmente havia cedido seus direitos, porque ela era a noiva do sujeito.
Pigarreando, procurou chamar a atenção de Sasuke, mas não era necessário, pois este já estava com os olhos negros fixados em sua face, a espera de uma resposta.
"Eu irei fazê-lo. Mas sugiro que você espere a doutora Haruno chegar, pois ela detestará o que eu estou fazendo." Comunicou Yamada, puxando a caneta do bolso e pegando a ficha do Uchiha. "Também te deixarei uma receita com os medicamentos que você deve usar no seu ferimento e sobre os cuidados necessários. Daqui a quatro dias, acho que os pontos estarão caindo, então você poderá vir tirá-los..."
Mas Sasuke já não escutava o que o médico falava.
Pulando da cama, seguiu até o pequeno (e único) armário do quarto a procura das suas coisas e trocou-se com rapidez, a fim de deixar logo o hospital e ir sanar suas dúvidas e curiosidades no único local em que poderia fazê-lo: na sala da Hokage.
Quando Yamada entregou-lhe as receitas, Sasuke enfiou desajeitadamente no bolso e jogou-se da janela, afastando-se rapidamente.
Franzindo mais uma vez as sobrancelhas, o médico pensou que aquele era realmente um paciente difícil.
-
-
N/A: Boom, esse capítulo já tá pronto há uns dois dias, mas eu tive que mandar para a Ika Maria, que por sinal é a minha beta. Qualquer reclamação, envie para ela ;D huasuhhuas to brincando, Ika xD E aviso aos navegantes: esse foi o penúltimo capítulo. Deixei coisas no ar? Sim, deixei. Serão explicadas no próximo capítulo? Ah, meu bem, só Deus sabe xD
Deixem seus comentários. E gostei de ver, hein? O especial Ino e Gaara foi muito bem recebido! É porque eles são gostosos demais, néam? Continuem acompanhando, deixem reviews e até o último capítulo \o
