Disclamer: Os personagens de Saint Seiya pertencem a Masami Kurumada e a ele todos os direitos são reservados. Mas os sobrenomes dados aos cavaleiros nesta fanfic são de minha autoria. A Música incidental é "Faces e Fases", de Karyme Hass.

Capítulo XI – Faces and Phases

Você me quer santa
E sou meretriz
Você me quer pura
Mas eu sou atriz

– Quanto tempo, Débie!

– Fica a vontade, flor.

– Sinto tanto sua falta. Não tem mais ninguém plantando bananeira na sala às seis horas da manhã.

– Ah, tá. Aham. Com dois braços fortes e bem bronzeados ao seu lado na cama, você sente falta de uma louca te pedindo pra fazer o café.

– E como é que você faz agora, toma chai de manhã?

– O Chris faz café quase todo dia, quando chega do trampo.

– Uau. Às vezes acho que o meu marido tem razão, quando diz que você fez algum voodoo.

Débora não consegue segurar o riso, mas dá um tapa no ombro da amiga, assim que encosta a porta da entrada. Fazia tempo que não via a Iara e realmente sentia falta dela.

– Falando em marido, finalmente lembrou de trazer as fotos do casamento, pelo amor de Deus? Eu acho que eu sou a única madrinha que está esperando há quase um ano pra ver o album.

– Você que anda sumida, não tenho culpa! Tá aqui na minha bolsa.

– Passa pra cá agora!

Iara entrou na sala, acomodando-se no sofá e olhando ao redor, enquanto tirava o álbum da bolsa, e Débora se ajeitava sentanda no chão ao lado dela e esticava os braços para pegar o objeto.

– Esse lugar está igualzinho me lembro, Debie. Você não trouxe nada seu, além das roupas?

– Não fala assim, está cheio de plantas por aí e eu também trouxe minha estátua do Shiva e meus livros estão ali do lado dos CDs.

– Ainda assim, parece que ele mora sozinho.

– Caras solteiros não tem almofadas no sofá, Iara!

– Ah, é…

– Os copos e xícaras agora têm até conjuntos.

As duas riem da observação e a ruiva fica um minuto em silêncio, pensativa.

– Gosta mesmo tanto assim do jeito que está?

– Claro. Eu amo o Chris. Esse lugar é um retrato dele, me traz boas lembranças. Aliás, obrigada por não implicar que os dois saíssem sozinhos hoje.

– Que isso. O Miro está quase me convencendo que tomou jeito na vida, então tudo bem. Eu é que fiquei preocupada, porque sei que é o único dia que vocês conseguem passar mais tempo juntos.

– Eu praticamente tive que obrigar ele a sair. Mas o Chris precisa fazer alguma coisa por ele mesmo pra variar, sabe. Está sempre em função das contas ou preocupado comigo. Nunca mais fez nada pra ele mesmo, isso me irrita.

– Te irrita, ou te magoa?

Débora finge não ouvir a última pergunta, entretida com as fotos que tinha em mãos.

– Meu Deus, o Isaac tava muito bêbado nessa foto!

– Nem me fala! Agora minha amiga da faculdade vive perguntando dele e eu não sei nem o que falar.

– Preciso passar lá na cafeteria dar uns puxões de orelha naquele traste, ele não era assim.

– Você já tentou conversar com o Miro sobre o que acabou de me falar?

– E o Chris como sempre, só sai fazendo careta ou muito sério. Conseguiram pegar alguma dele sorrindo?

– Tem uma dele com o Deba que estão quase se matando de rir, na hora da gravata. Mas tem uma que pegaram vocês dois dançando, tá ótima também.

– Aquela hora eu fiquei com medo do Chris cuspir os pulmões, com os tapas que o Deba tava dando nele.

– Debie…

A amiga suspira, revirando os olhos. Não estava muito a vontade com o assunto, mas pelo visto não teria escapatória.

– Já tentei falar sim e ele sempre fica irritado, acaba em discussão ou mudança de assunto. Se eu falo do piano então, fica louco. Eu não sei mais o que fazer. Se eu não soubesse que ele acharia que é o fim do namoro, eu me mudaria, pra ver se ele acorda.

– Não faça isso, sabe como ele é inseguro. Ia piorar tudo mesmo.

– Olha a cara de apaixonado do Deba! Amei essa foto? Que linda, ainda por cima preto e branca!

– Eu gosto dessa também.

– Iara, me faz um favor?

– Claro.

– Faz o Deba arrastar o Chris mais vezes pra tomar uma cerveja, ver um jogo de futebol, sei lá… Coisas de homem.

– Pode deixar, o Aldebaran vai falar com o cabeça-dura.

– Valeu.

– Olha a foto que falei aí. Tenho certeza que ele tava te falando alguma coisa proibida pra menores, pelo sorriso sacana.

– Na verdade eu que tinha falado, mas abafa!

Você me quer rara
Mas sou comum
Você tem desejos
Eu não tenho nenhum

– Então, o que a gente vai fazer hoje?

– Ah, a gente pode ver algum filme em que os rapazes dormiriam e chorar as pitangas de uma história de amor fictícia enquanto se afunda numa panela de brigadeiro ou de pipoca. Depois a gente pode bater uma amarula e rir a toa, lembrando nossos podres.

– Pra mim tá ótimo. Débora, você tá bem mesmo?

– E a gente consegue, quando eles não estão?

– Sei que no fim, vai dar tudo certo.

– Ele podia achar um trampo que gostasse, pelo menos um pouco. Tudo bem que emprego dos sonhos e salário razoável é difícil pra todo mundo. Mas o Chris passa o dia inteiro irritado, detesta tudo que faz.

– O Miro trabalha muito duro, desde que o conheço.

– Não estou dizendo que ele não seja esforçado. Mas é muito difícil viver assim, a gente passa a maior parte do dia o trabalho, alguma coisa tem que ser suportável.

– Entendo o que quer dizer.

– Eu não quero ser só uma muleta, entende? Ele precisa ter alguma coisa dele, que não dependa de mim. Ele volta e meia diz que eu sou tudo que ele tem e nem imagina o quanto me machuca. Não tá certo, Iara. As coisas não podem ser assim.

– Eu prometo que converso com o Deba, mas acho que ele já sabe o que está rolando e que vai fazer o possível pra te ajudar. Ele sempre te considerou como uma irmã mais nova.

– Ei, quando é que vocês vão me dar um sobrinho?

– Pelo amor de Deus! Você ficou maluca? Acabei de me casar, lembra?

– Ah, mas ia ser tão legal! O Deba ia ser um pai tão babão! Vocês vão ter um né? Pra eu apertar e paparicar muito, já que eu nunca vou ter o meu!

– Por que nunca?

– Ah, Iara, acorda. Eu namoro o Chris, lembra?

– Eu nem sabia que você tinha vontade. O Miro sabe disso?

– Não, nem pensar. Eu acho que é só porque eu nunca tive uma família. Não sei se eu quero mesmo, ou se é só vontade de preencher um buraco da infância.

– Mesmo assim, o cabeça-oca devia saber.

– Vamos mudar de assunto?

– Não deveríamos, mas tudo bem. Quer falar do que?

– De como vai sua vida de casada. Já tá deixando ele maluco, com seu jeito mandão e controlador?

– Ei! Eu não sou controladora!

– O Chris sempre me zoa que quando eu derrubo alguma coisa, me preocupo em devolver no mesmo lugar, no mesmo ângulo ou direção solar que ele nem lembrava que estava. Mas ele não entende, que isso é tudo culpa sua. Nunca morou no mesmo teto que você.

– Vai a merda, Debie.

– É sério! O Deba não liga?

– Ah, a gente briga às vezes, mas nada fora do normal. Ele nem é muito bagunceiro.

– Ele parece ser super romântico e protetor.

– É sim. Mas o Miro tem se saído bem nesse quesito, pelo que o Deba conta.

– Ele tá perdendo o jeito pra disfarçar.

Você me quer doce Mas sou puro fel Você me quer nua Me cubro com véu

– Que filme a gente vai ver?

– Tem um que o Chris adora, que é do Johnny Cash, chama Johnny e June.

– Então não vale, tem que ser um que ele deteste.

– Já viu "Comer, Rezar, Amar"?

– O Deba diz que é um porre.

– O Chris fez o favor de dormir logo no começo. Mas eu tava gostando, embora o livro seja dez vezes melhor.

– Eu li sobre um que chama "Ensinando a Viver", parece bem dramático.

– É novo?

– Não, de 2007. É com o John Cusack.

– Então a gente pega da internet.

– Debie, eu sempre quis perguntar, mas nunca tive coragem. O Miro ia me zoar até a morte, mas você talvez resolva minha curiosidade. Tem uns CD's que ele coloca bem alto da estante, como se fosse pra ninguém mexer. Sempre tem algum largado no rádio, mas o único de quem já ouvi falar é o Little Richard. Tem alguma coisa de especial neles ou é loucura minha?

– Vamos descobrir, Sherlock Holmes. Me mostra quais são.

– Ali, olha. Tem um monte deles. Jim Cox, Tommy Johnson, Count Basie, Oscar Peterson, Silvan Zingg... Albert Ammons, Pete Johnson, Memphis Slim e... Meade Lux Lewis. Em cima do rádio tem mais um do tal de Albert.

– Esse canto é quase um altar, o Chris é louco por esses caras. São todos artistas de Blues que tocam ou tocavam boogie-woogie. Se lembrar da batida que o Jerry Lee Lewis usava, vai reconhecer. Tem a ver com usar a mão esquerda do piano num determinado tempo, no que eles chamam de ritmo sincopado.

– E esse conhecimento vem do trampo no Sebo, meu caro Watson... ou das aulas de piano do grego fajuto?

– Você já tá falando que nem o Deba. – riu da própria piada. – Ah, um pouco dos dois. Antes eu sabia que eram artistas de Blues.

– Esse estilo é o que o Miro gosta de tocar?

– E ainda faz parecer fácil. Eu não tinha chance nenhuma de resistir, na época.

– Eu não sei você, mas eu preciso muito de um chocolate.

– Um brigadeiro bem forte, saindo!

Você me quer Vênus
Mas sou Plutão
Você me quer virgem
Mais eu sou leão

Miro destranca a porta do apartamento em uma conversa descontraída com o amigo.

– A gente precisa voltar a fazer isso mais vezes, Barão.

– Certeza. É só voltar a dar sinal de vida.

Miro aponta para a sala com um aceno. As duas garotas estavam adormecidas no sofá segurando copos vazios, a televisão ainda ligada em um canal qualquer.

– Parece que não foi só a gente que tomou umas a mais…

Aldebaran se aproxima da esposa ainda rindo, passando a mão sobre o ombro dela, para tentar acordá-la.

– Amor, vamos pra casa?

Iara desperta meio perdida, demorando algum tempo até se localizar e acenar em afirmativo para o marido.

Miro acaricia o rosto de Débora, também tentando chamar-lhe atenção.

– Gata… A Iara e o Aldebaran tão se despedindo.

Débora respira fundo, ajeitando os próprios cabelos e esfregando os olhos com as mãos.

– Eu levo eles até a porta, pode deixar.

– Tem certeza? - Miro brinca com a expressão de sono da namorada.

– Tenho sim, vai lá. Sei que deve estar louco por um banho.

Miro a ajuda a se levantar e a beija de leve nos lábios antes de seguir para o quarto, despedindo-se do casal.

As duas amigas se abraçam demoradamente, entreolhando-se por um instante em uma comunicacão que só elas entendiam. Em seguida, Débora também abraça Aldebaran com o carinho de uma irmã.

– Tchau, Deba. Vigiou ele das interesseiras pra mim?

– Opa, claro.

– Valeu. Ah, lembrei de uma coisa. Ia deixar com a Iara, mas esqueci.

Débora tira algumas notas do bolso da calça e entrega a ele.

– Acho que isso deve dar pra resolver aquele problema com a bateria. Ainda falta muito pra aquilo deixar de ser sucata?

– Ainda tem uns acertos de motor, escapamento e quase toda a parte elétrica. Mas uma hora a gente chega lá.

– Verdade. Bom… Boa semana pra vocês. Obrigada por virem.

– Se cuida, pequena.

– Pode deixar.

Querem minhas fases e eu sou como a lua
Cheia ou minguante, faço sombras na rua
Cresço quando eu quero, se eu quero nova posso ficar

Miro saíra do chuveiro e ambos estavam sentados no chão da sala abraçados, lutando contra o próprio sono, fingindo ver tv para aproveitar uns minutos juntos. Mas o silêncio já estava incomodando Miro há muito tempo e, com medo de dormir ali mesmo, resolver puxar assunto. Mal sabia ele, que se arrependeria muito daquela escolha.

– Sabe, você anda estranha. Me convenceu a sair com o Barão no meu único dia livre pra ficarmos juntos.

– Só acho que precisa de um tempo pra si mesmo, às vezes.

– Eu não preciso.

– Todo mundo precisa, Chris.

– Eu não sou todo mundo.

– Nem é uma máquina de trabalhar.

– Tenho pouco tempo livre, é meio óbvio que eu queira ficar com você sempre que posso.

– Mas eu não sou a única parte existente do seu mundo.

– A única que importa.

– Não é verdade.

– Eu sempre achei que as garotas gostassem de ouvir que são importantes e únicas.

– Eu não sou qualquer garota.

– Viu? Agora você entendeu. E onde ficou a Débora que veio morar comigo pra que a gente se visse mais? Agora a fórmula mudou por quê?

– Não quero ter uma responsabilidade tão grande de ser tudo o que você tem, nem de ser uma dose de tequila que você usa pra esquecer seus problemas.

– Você num pode beber, sabia? Sua tolerância alcóolica é muito baixa e depois fica assim, sem falar coisa com coisa.

– Não foi eu quem começou essa conversa.

Aquilo estava ficando sério demais e já se arrependera amargamente da sua boca grande. Não tinha mais como voltar atrás. Afastou-se um pouco, para poder encará-la.

– O que você quer realmente de mim?

– Você. Só isso, Chris. Desculpe se estou exigindo demais.

– Tá. E quem você acha que está aqui com cara de paspalho, tentando entender o que está acontecendo?

– Uma parte cansada e de saco cheio de tudo, que não consegue se encontrar em lugar nenhum.

– Você não vai começar com aquela história do piano, vai?

– Não.

– Então o que?

– Me diz você.

– Débora eu sempre tentei acreditar no que você fala sobre melhorar as coisas, mas...

– Não consegue. Eu sei. Tudo bem, então não acredite.

– Dá pra parar de me confundir? Eu faço o possível pra ser o que você espera que eu seja. Mas acontece que não sei mais o que você quer!

– Quero que seja você mesmo.

– O que te faz pensar que eu não sou?

– Você é infeliz com o que tem. Isso me machuca, porque não é algo em que eu possa ajudar.

Detestava quando ela dizia coisas desse peso sem se quer olhá-lo, fingindo que comentava sobre algo trivial como o tempo. Segurou-a pelo queixo, forçando-a a olhar pra ele.

– O que te faz pensar que eu realmente vá encontrar alguma coisa? E se for só isso? E se não tiver nada faltando e esse cara sem graça sentado na sua frente seja só o que eu sou? E por que é realmente um problema que eu não tenha nada de especial para gostar, além de você?

– Porque eu posso não estar aqui pra sempre.

– O que está dizendo, que está querendo sair fora, é isso?

– O mundo não está contra você, Miro Christakis. É você que está contra o mundo e eu estou cansada de ficar no meio da sua guerra particular.

– Então não fique! Eu nunca te pedi pra ficar.

– Pode deixar. Mas não espere que vai resolver, sem sair do lugar.

Débora se levanta muito séria, ajeitando as almofadas do sofá. Sabia que ele estava fora de si e não adiantava insistir quando o escorpião disparava seu veneno ao se sentir ameaçado. Seguiu na direção do quarto, antes que ele a alcançasse ou dissesse mais alguma coisa.

– Boa noite, Chris. Ah, passei no teste de história, vou começar a facul daqui uns três meses.

Encostou a porta do quarto de leve. Miro passa a mão nervosamente pelo rosto, tentando não explodir de raiva. Pegou a própria chave e decidiu sair novamente, pra caminhar ou qualquer coisa assim. Precisava de ar fresco.

Coro minha face, mas imponho a vontade
Eu me mostro inteira, nunca sou a metade
Cresço quando eu quero, se eu quero nova posso ficar.

Miro estava no quarto. Parecia estar concentrado ao piano em alguma composição que ela não reconheceu de imediato. Resolveu não se aproximar nem interromper. Mesmo que fosse por raiva ou para evitá-la, ainda achava bom sinal que ele estivesse voltando a tocar.

Desde aquela discussão que as coisas estavam meio estranhas entre eles. Odiava-se por ter falado demais outra vez e pensava se realmente não estava colocando muitas expectativas sobre ele. Mas era demais querer que o próprio namorado fosse feliz?

Foi para a cozinha peparar alguma coisa para comerem, quando aquele mal estar voltou e apoiou-se na bancada. Estava começando a ficar preocupada com aquilo e talvez devesse procurar um médico.

Estava lendo seu horário da primeira semana de aula na faculdade, quando finalmente se tocou que estava encrencada. Até o momento, achava que era emocional, um desequilíbrio de hormônios ou uma simples gastrite. Mas quando teve que correr para o banheiro "chamar o juca" por causa do cheiro da própria comida, começou a juntar dois mais dois e sentiu um calafrio lhe percorrer a espinha.

Abriu a lata de lixo procurando sua cartela de comprimidos. Não estava louca. Havia tomado todos. Lembrava-se perfeitamente de escolher um horário no alarme do celular para tocar todos os dias, de tanto medo que tinha de esquecer. Então… Aquilo era mesmo possível? Isso realmente estava acontecendo ou seria um pesadelo surreal?

Lavou o rosto, tentando voltar a respirar. Estava pálida feito papel quando viu seu reflexo no espelho. Respirou fundo, tentando não se desesperar, mas não conseguiu pensar em mais nada. Miro estava no batente da porta, quando ela saiu.

– Ei, você tá bem, Debie? Passou aqui correndo.

Ela só consegue acenar em afirmativo, passando a mão pelos cabelos.

– Chris, eu vou ter que sair um minuto, você fica bem?

– É alguma coisa que eu possa buscar pra você?

– Não, tudo bem. Eu não vou demorar.

Seguiu até a cozinha e desligou o fogo, largando tudo como estava. Já não tinha o menor apetite nem para uma sopa de doente ou um copo de água. Pegou as chaves e seguiu apressada para a farmácia.