Nota da Autora: desejo a todas as minhas leitoras um ótimo ano novo!
Primeiro Dia
Ela estava em seu quarto, perto da janela. Seus olhos estavam intensamente focados em algo através dos vidros. Olhava com atenção o campo verde que se estendia ali. A manhã tinha tudo para ser bonita, mas a chuva que caía apenas fazia com que o sol se sentisse tímido em sair, deixando o céu como um manto cinzento. Por mais que ela apreciasse as peculiaridades da chuva e estivesse até mesmo gostando de observar as gotas escorrendo das folhas das árvores, ela sabia que se pudesse, seus olhos alcançariam através daquelas paredes.
Pensou na noite que tivera. Demorara horas para conseguir dormir, e a noite inteira acordava de forma assustada quando os uivos reverberavam em volta do castelo, chegando com uma facilidade absurda ao quarto dela. Ela não estava acostumada com aquilo, e mesmo que tivesse tentado ignorar, percebia de certo modo os uivos às vezes mais altos, outros mais baixos, indicando a distância que o lobisomem estava do castelo.
- Ele não vai aparecer.
Ela escutou uma voz fina e familiar e virou-se, para fitar o elfo atrás de si. Ginny o olhou por breves segundos, até desviar os olhos novamente para a janela e cruzar os braços, dando de ombros.
- Eu sei disso. Não estou o esperando.
O elfo sabia que ela estava mentindo. Cada músculo dela estava tenso, como se a qualquer momento o mestre dele fosse entrar pelo jardim e voltar para o castelo. Ele continuou.
- O mestre fica fora por todo o período de lua cheia. – ele conseguiu observar o desapontamento no rosto da garota. – O almoço será servido no primeiro andar.
Ela assentiu e o elfo fez uma reverência, desaparecendo logo em seguida. Deixou Ginny com uma sensação estranha, como se alguém estivesse a sufocando com mãos invisíveis.
Afinal, achara que ele ia pelo menos voltar na parte do dia, mesmo que ele tivesse lhe dito que ficaria fora por uma semana.
Mas desapontou-se quando descobrira que não.
Depois do almoço, ela aproveitou que a chuva havia estiado e saiu do castelo, sentindo seus sapatos encharcarem quando se enfiaram na grama fofa e molhada. Andou por ali calmamente, ignorando o frio e a umidade que a arrepiavam.
Ela fez algo que nunca fizera desde que colocara os pés ali, e não precisou pensar muito para achar um motivo para fazê-lo. Automaticamente, seu corpo a levou para o perímetro do castelo, e ela andou ao lado da parede, vez ou outra passando a mão pelas pedras.
Ao chegar próximo a um lugar onde ela nunca esteve, surpreendeu-se com uma árvore enorme que havia ali, e surpreendeu-se ainda mais quando viu uma grade muito semelhante à grade que ela escalara. Era um pouco maior, e os ferros eram mais espaçados. Não havia flores crescendo ali.
Ela correu as mãos pela grade de forma relutante, sentindo-a fria e molhada por causa da chuva. A ideia de subir aquela grade e fugir dali nem ao menos passou pela cabeça dela. Ela estava imersa em pensamentos, e esses tomavam um rumo totalmente diferente do da fuga.
Ela escutou um barulho de um galho se quebrando e assustou-se, afastando-se da grade e virando-se. Andou calmamente de volta para o castelo.
A noite já havia chegado. Ela estava deitada no sofá confortável da biblioteca, apreciando o barulho da chuva e da madeira crepitando na lareira. O lugar estava quente, e ela corria os olhos pelos livros de licantropia daquele maldito armário de vidro, procurando algo de diferente que já havia lido. Mas ela já tinha decorado praticamente cada página ali, e a raiva e o desapontamento começavam a tomar o seu corpo.
Um uivo chegou aos seus ouvidos e ela automaticamente estremeceu, como se temesse que o lobisomem entrasse pela porta da biblioteca a qualquer momento.
- Você está procurando no lugar errado, Weasley.
Uma voz conhecida chegou aos seus ouvidos e Ginny gritou, jogando o livro para cima, que caiu com um barulho oco em cima do chão de madeira da biblioteca. Ela se virou, procurando por Snape. Mas ele não estava ali. A menos...
Seus olhos foram em direção à lareira e ela conseguiu discernir por entre as chamas a cabeça do seu antigo professor flutuando. Andou até o lugar, ignorando que era Snape ali, na biblioteca de Greyback, aparecendo de livre e espontânea vontade. Olhou-o em fúria.
- O que você quer dizer com isso? – ela perguntou.
Mesmo que Snape tecnicamente fosse apenas borrões e chamas, ela conseguiu captar com facilidade o sorriso cínico dele, algo tão peculiar que ela já estava acostumada a ponto de não se importar.
- Há livros no quarto de Greyback que podem responder as suas perguntas sobre licantropia.
O que ele disse fez a curiosidade dela se atiçar em segundos. Ginny abriu a boca para responder, mas logo depois a fechou, franzindo o cenho.
- Como sabe que procuro algo sobre licantropia?
A cara de enfado de Snape era mesmo irritante, mas ela percebeu os olhos dele indo em direção à pilha de livros daquele assunto que ela colocou em uma mesa próxima ao sofá. O rosto dela pegou fogo, mas tratou logo de descartar o que ele lhe falou.
- Não posso simplesmente entrar no quarto de Greyback, Snape. Ele irá me matar.
- Greyback não está presente nesse momento. E pelo que eu sei, não estará por uma longa semana. Se você for rápida, o seu cheiro terá sumido de lá antes mesmo de ele voltar.
Ela assentiu, mas logo outras perguntas surgiram na mente dela. Ginny se aproximou da lareira, fitando o rosto de Snape com atenção.
- Por que está me ajudando? O que está acontecendo no mundo? O que está acontecendo fora desse castelo?
Mas antes que ele pudesse responder, o rosto havia sumido, deixando-a fitando apenas as chamas da lareira. Ginny se irritou, sua vontade era enfiar as mãos nas chamas e tentar pegar Snape pela gola daquela túnica ridícula que ele usava, puxando-o diretamente para a biblioteca, para que ele respondesse suas perguntas.
Mas ela sabia que ela nunca poderia fazer aquilo.
Ginny abriu a porta do quarto de Greyback com relutância, sentindo-se extremamente estúpida ao fazê-lo. Por mais que o lobisomem não estivesse presente no castelo e ela ainda tivesse alguns dias para ficar só, entrar no quarto dele para procurar o que Snape havia lhe dito era no mínimo suicídio.
Não sabia quanto tempo o seu cheiro ia demorar para sair dali, e sabia que o olfato do lobisomem era afiado demais para que ele não sentisse nada se sobrasse no mínimo um resquício. Ela estava se arriscando. E muito. Mas algo lhe dizia que o que estava prestes a fazer no momento poderia valer a pena.
Ela fechou a porta atrás de si e seus olhos correram timidamente pelo local, procurando por livros que ela nunca tinha visto. Não havia livros ali. Pelo menos visíveis. Ela não precisava perguntar o motivo. Era no mínimo burrice deixar livros no quarto, quando se tinha uma biblioteca imensa como a do castelo. E era mais que óbvio que se houvesse livros raros que tratavam do assunto licantropia ali, eles não estariam expostos para qualquer um ver. Mesmo que ninguém visitasse aquele quarto, era arriscado demais.
Ela tentou não tocar em nada quando andou pelo cômodo. Apenas buscava o que precisava com os olhos. A única prateleira que havia ali, perto de um móvel de aspecto antigo, era preenchida com tubos que continham líquidos diferentes. Alguns até bonitos. Um líquido era transparente, mas uma luz prateada emanava dele, fazendo com que ele clareasse a parede ali perto. Por mais que ela achasse aquele objeto atraente, ela não se arriscava nem mesmo a tocar os tubos.
Ginny estava quase desistindo quando percebeu algo peculiar no quarto de Greyback. Um quadro. Não que um quadro fosse um objeto de decoração estranho demais para um quarto. Mas ela estava no quarto de Fenrir Greyback, um dos lobisomens mais temidos do mundo. E aquele quadro destoava de toda a decoração do quarto, e até mesmo da personalidade do dono do quarto.
Era um quadro de tamanho médio, posto na vertical. A pintura era de um homem sentado em uma poltrona. O bruxo possuía um bigode de escovinha e usava um chapéu pontudo e roxo. Mas seus olhos estavam fechados, como se a pintura estivesse cochilando.
Ela se aproximou dali, de repente lembrando-se dos filmes de romance policial trouxas que seu pai havia insistido em comprar, fazendo todos os Weasley assistirem aquilo. Normalmente as pessoas guardavam cofres atrás de quadros. E se...?
Suas mãos foram até a moldura dourada e fria do quadro, e ela fez um pouco de força, tentando retirar o objeto da parede. Mas ele nem se mexeu. Ela tentou mais uma vez, mas o quadro parecia estar grudado ali.
- Sua mãe não lhe ensinou a não mexer nas coisas dos outros, mocinha, ahn?
A voz chegou aos seus ouvidos rapidamente e Ginny se assustou, soltando um gritinho histérico de adolescente e se afastando. Ela procurou o locutor, e percebeu tarde demais que a pintura que antes estava sentada e aparentemente cochilando em uma poltrona, agora estava inclinada em direção a ela, observando-a com visível curiosidade e diversão.
Ela havia se esquecido completamente de que quadros podiam se mexer e interagir com o mundo fora das telas. Pensou que fora tola. Estava longe demais do mundo mágico e há tempo demais trancada ali para se lembrar desse fator importante. Como pudera se esquecer disso? Hogwarts era infestada com quadros daquele tipo.
E agora aquele homem com bigode de escovinha poderia abrir a boca e contar a Fenrir Greyback que ela estivera ali. Ela o olhou com atenção, respirando fundo e decidindo ser sincera. Não tinha nada a perder se o fizesse.
- Eu só quero ajudar... há livros escondidos nesse quarto. Estou apenas os procurando.
Tentou dar ênfase à ultima palavra. Ele podia achar que ela estava tentando roubar algo ali dentro. Esperou uma reação dele, mas o quadro apenas riu, como se ela tivesse contado uma ótima piada.
- E por que livros escondidos iriam te interessar, ahn? Acho que isso não seria da sua conta.
O homem dentro do quadro parecia ter encerrado o assunto, já estava voltando a postar suas costas no encosto da poltrona dele, quando ele de repente semicerrou os olhos, voltando a se inclinar. Ele piscou algumas vezes.
- Você é Ginny Weasley?
Ele perguntou, sem pestanejar. Parecia querer apenas uma confirmação. Ela o olhou, confusa.
- Sim.
Respondeu de forma honesta e percebeu a fisionomia do homem mudar de desinteressado para excitado em dois segundos. Ele inclinou-se mais um pouco em direção a ela e piscou mais algumas vezes, sorrindo.
- Finalmente! Você demorou a aparecer...
Ela não entendeu absolutamente nada, mas ficou surpresa quando parte da moldura lateral do quadro se descolou da parede e se afastou, como se o quadro fosse uma pequena porta. Ela esqueceu-se completamente do que o homem da pintura havia lhe falado depois do que viu. Ali dentro havia três estantes repletas de livros, e ela não precisou pensar muito para descobrir o assunto que eles tratavam.
- Tente o vermelho.
Ela escutou a voz abafada do homem lhe sugerir e pegou timidamente um livro com uma encadernação vermelha escura.
Andou calmamente até a cama de Greyback, sentando-se ali e abrindo o livro. Seus olhos correram pelo conteúdo do livro da forma mais atenta possível. Estava mais que claro que aquele livro tratava da maldição da licantropia de forma mais abundante, mas nada do que ela estava lendo era realmente novo. O conteúdo abordava o assunto mais profundamente, e não inédita.
- Isso não vai me ajudar...
Ela murmurou, enquanto seus olhos continuavam a passear pelos parágrafos, procurando em vão algo diferenciado.
- Leia com mais atenção.
O quadro sugeriu. Ela respirou fundo. Não sabia exatamente por que estava fazendo o que aquele quadro estava lhe pedindo, mas aceitou o conselho dele da mesma forma. E não se arrependeu. Logo seus olhos capturaram algo possivelmente novo.
"Por mais que seja uma anomalia mais comum do que antigamente, e recentemente bruxos consigam controlá-la de alguma forma com a poção Wolfsbane, a licantropia ainda é considerada uma maldição. Já não bastasse lobisomens não terem controle do seu próprio corpo, ainda precisam buscar sua companheira para que não percam sua real identidade.
Ainda não se sabe qual o tempo certo para que lobisomens virem uma besta por completo, mas o papel da companheira é justamente colocá-lo em seu mundo humano, impedindo-o assim, de se entregarem à licantropia por inteiro. Por serem evitados diante da sociedade bruxa, muitos possuem dificuldade em encontrar a sua companheira. Não se sabe se o envelhecimento precoce de certos lobisomens está ligado a isso, mas podemos perceber que lobisomens ligados a uma companhia vivem mais tempo.
Porém, estudos indicam que a companheira de um lobisomem não é escolhida de forma aleatória. Nem mesmo os mais estudiosos conseguem entender o tipo de ligação que um lobisomem possui com sua companheira, mas não há dúvidas de que tal ligação seja algo que eles chamam de alma. Ao encontrarem sua companheira, os lobisomens desenvolvem uma obsessão fora do normal e até mesmo conseguem amar."
Ginny não queria acreditar no que estava lendo. Lobisomens precisam ter uma companheira? E essa companheira não era escolhida aleatoriamente? Então como eles saberiam que aquela pessoa seria a sua companheira? A pessoa que ia fazer com que ele vivesse, procriasse e até mesmo amasse?
Ela lembrou-se de Lupin. Ele era extremamente alucinado com Tonks. Sempre fora. E a ligação que os dois tinham era intensa demais para ser entendida. Tonks o amava. E ponto final. Não questionava o que ele fazia nos seus momentos de lua cheia e não possuía medo algum da licantropia. Lupin sentia um forte instinto de proteção quando estava ao lado dela.
Ginny pegou-se pensando naquele assunto por muito tempo. Greyback não era um lobisomem comum. Na certa não havia achado sua companheira ainda. Seu físico estava mudado, deixando-o mais parecido com um lobo a cada dia. Mas por que isso, exatamente?
Ela virou-se para o homem do quadro, que a observava com uma atenção absurda.
- O livro diz que a ligação que um lobisomem tem com a sua companheira é algo forte demais para ser impedido. E diz também que todo lobisomem, sem exceção, tem uma companheira vivendo pelo mundo. Basta que ele a ache...
Ela deixou no ar. Mas o homem do quadro apenas sorriu para ela, piscando com o olho esquerdo no mesmo momento em que falava.
- Parece que você chegou na hora certa, mocinha. Ahn?
Hermione andava ao lado de Snape com cuidado. Mesmo que o professor tivesse lançado um feitiço de invisibilidade nos dois, ela sabia que Comensais da Morte agora andavam livremente pelas ruas de Londres, procurando bruxos que ainda estavam desaparecidos desde que a guerra havia acabado.
Mesmo que ela fosse uma garota catalogada e fosse tecnicamente propriedade de Severo Snape, se alguém visse os dois andando pelas ruas àquela hora da noite, poderiam suspeitar de algo. E de qualquer maneira, ninguém poderia sequer saber para onde eles estavam indo.
Ela se sentiu aliviada no mesmo momento quando viu uma porta verde escura surgir por entre dois prédios do subúrbio, indicando uma casa singela e de aparência pequena. O quintal estava cheio de ervas daninhas, e a grade parecia enferrujada.
Snape abriu o portão e xingou algo quando o ferro fez barulho. Mas ninguém se aproximou dos dois. Eles caminharam até a porta verde e Snape apontou a varinha para a maçaneta, murmurando um feitiço estranho. A maçaneta fosca brilhou ardentemente, ficando em um tom dourado claro. A porta se destrancou logo em seguida.
Hermione entrou na frente de Snape, e o que viu fez seu coração saltar. De felicidade.
Toda a família Weasley estava reunida ali, e Molly foi a primeira a se levantar do sofá e ir de encontro à garota, abraçando-a ternamente e beijando o topo da sua cabeça. Hermione foi em direção a todos os ruivos, abraçando um por um, até chegar em Rony. Os dois ficaram extremamente sem jeito, mas estava claro que eles estavam emocionados demais para não se abraçarem.
- Eu senti sua falta.
Ele murmurou no ouvido dela, fazendo-a sorrir.
- Tudo bem, podemos ficar nos amando e nos abraçando a noite inteira. Afinal, uma guerra não está prestes a explodir no mundo bruxo.
A voz arrastada de Snape fez com que todos os Weasley lhe dessem atenção. Estava claro que o moreno não estava de bom humor naquela noite. Molly se aproximou um pouco dele.
- Você tem visto Ginny?
Snape revirou os olhos. Molly Weasley às vezes confundia proteção com serviços de babá. Mas do mesmo jeito respondeu.
- A vi hoje pela noite. Mas precisei usar a lareira para isso. Como estamos em lua cheia, preciso me aproveitar disso para falar com ela, sem deixar rastros.
- E o que você conversou com ela?
Arthur perguntou, fazendo com que Snape arqueasse minimamente as duas sobrancelhas.
- Pedi para que sua filha olhasse alguns livros sobre licantropia. Ela precisa entender o que é isso, já que convive com um lobisomem.
- Isso é inútil, Snape. – Arthur se aproximou dele. – Desconfio de que esteja gostando de manter a minha filha naquele castelo. Exijo que seus esforços sejam maiores para tirá-la de lá!
Naquele momento, Hermione e Snape se entreolharam. Estavam um ao lado do outro. Hermione fez um gesto com o ombro. Snape respirou fundo.
- Acho que já passou da hora de eles saberem.
Ela disse a ele, que concordou com um gesto afirmativo com a cabeça. Os Weasley se entreolharam e logo depois voltaram sua atenção para Snape.
- Saberem do que? – perguntaram.
- Da profecia.
