Já estou curada da gripe, que tive.
E estou postando um novo, obrigada a todas as reviews e as mensagens privadas, beijos.
Ah não sejam leitores fantasmas, apareçam e dêem um boom!
CAPITULO XII
— Não me lembro de ter visto um homem mudar para melhor em tão pouco tempo — o conde murmurou as palavras que foram um eco dos pensamentos de Bella.
Os dois estavam sentados à uma mesinha em um dos cantos da biblioteca, endereçando convites para o baile. No outro lado, lorde Cullen e o vigário entretinham-se em uma partida de xadrez.
— Mudar talvez não seja a palavra certa — o conde corrigiu a si mesmo em voz baixa, para não ser ouvido pelo neto. — Voltar ao que era antes seria o mais correto. A sua influência sobre ele, minha querida, tem sido muito mais benéfica do que eu poderia imaginar que seria.
Bella continuou com a cabeça abaixada sobre o que estava escrevendo, para que o conde não pudesse adivinhar-lhe a dúvida no olhar. Ela sabia muito bem que não fora por sua influência e nem em seu benefício que lorde Cullen fizera um esforço para mostrar-se mais sociável.
Mas que ele se esforçara, não restava a menor dúvida.
Bella vira os olhares e escutara os sussurros naquela primeira manhã em St. Owen. Embora Edward houvesse escondido os sentimentos com a habilidade costumeira, ela pudera entender a profundidade da aversão de milorde por estar servindo de espetáculo. Muitas vezes
ela mesma passara por situações semelhantes em idade mais jovem. Quando cometia algum erro, não faltavam olhares e cochichos desaprovativos.
Depois daquela manhã, ela nem mesmo teria culpado lorde Cullen se ele retornasse ao interior da concha protetora, pronto para ferroar quem ousasse penetrá-la.
Bella passou a admirá-lo por ele ter enfrentado a realidade.
Aos poucos, lorde Cullen começara a envolver-se no pequeno mundo de Grafton Renforth. Comparecia à igreja regularmente e até estivera presente na pequena festa de despedida de Emmet.
O conde fitou os dois homens curvados.
— Ele parece ter-se afeiçoado ao vigário, o que muito me surpreende.
Bella considerou que o contraste entre ambos, o vigário loiro e milorde ruivo, era como o rei branco e o negro do jogo.
— Eles têm a mesma idade — ela comentou — e muitos interesses em comum. Não vejo por que não poderiam ser amigos.
Contudo aquela não era uma verdade. Apesar de o sr. Michael Newton haver-se tornado um visitante habitual na mansão Cullen , Bella não estava convencida de que lorde Cullen realmente gostasse da companhia do vigário. Era bem possível que milorde estivesse preocupado com um futuro próximo, quando o avô fosse precisar do conforto de um religioso.
— Não se sente bem, minha querida? Ficou tão pálida de repente.
— Apenas um pouco cansada da nossa viagem a Londres — Bella sorriu para tranqüilizá-lo.
Nas últimas semanas, ela se convencera de que a saúde Do conde melhorara. Essa esperança tornava-lhe possível visitá-lo sem trair nenhum sinal de pesar ou preocupação. Animada, partilhava dos projetos ansiosos do conde para o baile, o que o deixava muito satisfeito.
Contudo Bella estava consciente de que suas fantasias róseas eram frágeis e não poderiam sustentar-se.
Volta e meia, a verdade, na forma de uma tosse cavernosa ou de uma expressão de dor, rompia suas ilusões. Era um lembrete de que o futuro sobre o qual o conde e ela falavam com freqüência talvez não o incluísse.
E quando se esgotasse o prazo, abrir-se-iam fendas em seu coração, como acontecia naquele momento.
— Cansada, minha querida? — O conde mirou o relógio de pedestal. — Não é para menos. Veja que horas são. O resto dos convites pode esperar até amanhã. Edward, meu filho — ele chamou o neto —, é preciso levar Bella para casa. Creio que a deixei exausta com os preparativos para o baile. Tornei-me tão amolante como uma criança com um brinquedo novo.
— De jeito nenhum — Bella protestou. — Milorde sabe que, para mim, os preparativos têm sido tão prazerosos quanto para o senhor. Por favor, cavalheiros, não interrompam seu jogo.
O vigário sacudiu a cabeça.
— Na verdade, posso considerar-me derrotado. É somente uma questão de tempo até lorde Cullen chegar ao xeque-mate. E eu que pensava vencer esta noite. Minha posição parecia promissora até agora há pouco.
— O senhor é um oponente valoroso, vigário. — Lorde Cullen moveu um de seus peões e tirou uma peça branca do tabuleiro. — E um excelente tático. Xeque!
— Acho que não sou adversário digno de um estrategista do seu calibre. — O sr. Michael Newton contemplou sua posição enfraquecida com um meneio desalentador de cabeça, antes de avançar com uma de suas peças restantes. — a propriedade fica no caminho para o vicariato. Como recompensa por ter perdido o jogo, terei o maior prazer de levar a srta. Swan para casa.
Bella não demonstrou o desapontamento que a atingiu. O vigário era uma pessoa excelente. Bondoso, cortês, prestativo e... muito bonito, com efeito. Mas em comparação a lorde Cullen, a companhia dele era um tanto insípida, comparada à inteligência viva do barão que fazia tudo brilhar.
— Eu protesto, sr. Michael Newton. — Lorde Cullen capturou mais um dos peões do vigário. — Xeque. Se eu soubesse da penalidade pela perda, teria virado a partida a seu favor.
O barão voltou-se e fitou Bella com tal intensidade que deu a ela a impressão de que lhe acariciavam o pescoço. Ela foi invadida por um calor violento, incontrolável, e desejou ter um leque à mão para poder abanar a face que sentia enrubescer.
— Espero que o senhor concorde — ele continuou com voz rouca — que a honra de escoltar a srta. Swan é um prémio que deveria tocar ao vencedor.
— Hum, sim. — O vigário tentou um movimento e voltou atrás. — O senhor tem razão. — Adiantou uma peça diferente. — Xeque!
Lorde Cullen desviou o olhar de Bella com um fingimento convincente de pesar que despertou nela uma mágoa genuína. Analisou o tabuleiro por um momento e levantou uma peça com o dedo indicador e o médio. De longe, pareceu a Bella ser um cavalo.
Lorde Cullen, sem pressa, deixou a peça sobre outra casa.
— Xeque-mate. — Ele estendeu a mão. — Obrigado por esta partida emocionante, sr. Newton
— O prazer foi meu — o vigário respondeu, aceitando a derrota com elegância. — Agora, milorde, se me der licença, preciso ir para casa.
Depois de cumprimentar lorde Cullen, foi até o outro lado do recinto, onde Bella endereçava o último convite.
— Srta Swan, como milorde ganhou a honra de levá-la de volta para casa, deverei passar na casa do sr. e da sra. Shaw?
Bella experimentou um mal-estar de culpa, embora tivesse certeza de que o comentário do sr. Newton não fora intencional. Ela estivera tão ansiosa por outro convite de lorde Cullen para observar as estrelas que esquecera da pobre sra. Shaw.
— Vigário, eu lhe serei eternamente agradecida se fizer isso por mim. Não sei o que anda acontecendo com o sr. Shaw ultimamente. Ele é o mais afável dos homens quando está sóbrio.
— Shaw, o ferreiro. — Lorde Cullen coçou o queixo, e seu olhar tornou-se sombrio. — Ele não serviu na artilharia, durante a guerra?
Bella anuiu.
— Segundo ouvi dizer, ele e o primeiro marido da sra. Shaw serviram juntos. Na maior parte do tempo demonstra ser um homem de hábitos bastante moderados. No entanto, uma ou duas vezes por ano, ele exagera um pouco na bebida e torna-se bem desagradável. Sobretudo para a sua mulher. Quando o homem fica nesse estado, eu me preocupo com a sra. Shaw e com a criança.
— Uma situação muito triste, com certeza. — O vigário parecia perturbado e algo surpreso diante de tal comportamento. — Se eu chegar lá e o sr. Shaw estiver sóbrio, vou me empenhar em incentivá-lo. Se o encontrar embriagado, talvez possa persuadir a sra. Shaw a refugiar-se no vicariato.
— Seria muita bondade de sua parte. — Bella criticou-se por haver comparado o vigário com lorde Cullen, com desvantagem para o primeiro. — Espero que isso faça o sr. Shaw recuperar o bom senso.
O conde estalou a língua com intenção reprovativa.
— Minha filha, não sei se posso aprovar o seu envolvimento em uma situação tão deprimente.
— Nem eu — lorde Cullen resmungou.
Aqueles comentários afligiram Bella bem mais do que as reprimendas escarnecedoras de sua tia. As opiniões de lorde Cullen e do conde eram muito importantes para ela.
Nervosa e trémula, Bella ficou em pé.
— Em que situação ficaria o nosso mundo se todos pensassem assim? Se as pessoas de boa vontade jamais se envolvessem em situações deprimentes? — Ela ignorou tanto o olhar chocado do conde como o ameaçador de lorde Cullen. — E se a Inglaterra nunca houvesse se envolvido com as questões do continente?
A sinceridade destemida de Bella emudeceu o barão e o conde. Ela dardejou um olhar fulminante na direção deles.
Com que direito o avô e o neto contestavam as pessoas que eram objeto de sua simpatia, sendo que ambos se beneficiavam dela?
— Tenho muita pena da sra. Shaw, do marido e, sobretudo, da criança. Não consigo dormir à noite quando penso no sofrimento daquela família. A única coisa que posso fazer é dar-lhes o pouco de assistência que está a meu alcance.
A consciência de Bella acusou-a de não estar sendo honesta. Não era justo descontar em lorde Cullen e no conde as mágoas que nutria havia muito tempo contra os Crowley. Mas o avô e o neto eram responsáveis por trazer-lhe à tona emoções que ela não ousava nomear. E também um pouco de raiva justificada não mataria ninguém.
Antes que suas emoções oprimidas pudessem correr por outros canais, Bella caminhou até a porta.
Sr Michael, acho que aceitarei o seu gentil oferecimento de levar-me. No caminho, podemos visitar o sr. e a sra. Shaw.
— Sim, podemos... — O vigário apontou o tabuleiro. -
Lorde Cullen... a partida?
Bella convocou as últimas brasas de sua indignação e fitou milorde com olhar dardejante, como quem o desafiava a contrariá-la.
— No futuro, lorde Cullen terá muitas oportunidades de cobrar seus ganhos.
Bella procurou executar uma retirada gloriosa, mas ao virar-se com ímpeto, tropeçou no carpete e quase foi ao chão. Conseguiu equilibrar-se no último instante e precipitou-se para fora da biblioteca, com o sr. Michael Newton correndo em seu encalço pela galeria.
Do ressentimento tolo em relação ao conde e a lorde Cullen só restavam cinzas. Bella estava envergonhada. Em vez do encantamento de observar as estrelas durante algumas horas ao lado do barão, teria o prazer de enfrentar um bêbado detestável.
Prejudicara a si mesma para vingar-se de outrem.
— Não tenho sido censurado dessa maneira há muito — o conde comentou, bem depois da saída de Bella E o cenho franzido transformou-se em um sorriso.
— É bem interessante, não acha?
— Um balde de gelo sobre a cabeça tem o mesmo efeito, dependendo do modo de interpretar os fatos — Edward retrucou, sem tirar os olhos da porta.
Lorde Cullen achou o termo "interessante" muito suave para a sensação de mergulhar em um lago no inverno.
Tivera esperança de persuadir Bella a fazer um desvio no caminho para casa. Quem sabe subir na torre para observar estrelas no telescópio? Naquele ano, a chuva anual de meteoros em Escorpião estava mais espetacular do que nunca.
Em suas análises astronômicas durante a noite passada, Edward havia se inspirado nos absurdos românticos de fazer um pedido para uma das estrelas cadentes.
Acabava de ver a evidência de sua tolice sentimental. Tornava-se evidente que Bella rejeitava a idéia de passar algumas horas da noite com ele e preferira mediar uma disputa doméstica entre o ferreiro e sua mulher. Independente de quanto ele demonstrasse querer alterar o fato.
Mais do que isso, a srta. Swan parecera ansiosa para ficar na companhia do belo e virtuoso sr. Michael. Baseado no conhecimento crítico de uma quinzena, Edward teve de reconhecer que o vigário era um camarada valoroso, tinha um caráter impoluto e possuía uma aparência excelente.
Edward não saberia dizer o que ele invejava mais.
— Ela estava certa, o que não deixa de ser vexatório.
— O conde tampou o tinteiro e fitou a pilha de convites que Bella terminara. — Eu não ficaria surpreso se alguém a advertisse para não se envolver com um caráter detestável como o seu, meu filho, ou com um velho encrenqueiro e inválido como eu. Devemos agradecer às nossas estrelas da sorte pela persistência de Bella em pensar o melhor de todos.
Edward sacudiu a cabeça. O que fazia as pessoas imaginarem que as bolas flamejantes de gás, a milhões de quilômetros de distância, poderiam ter alguma influência sobre o destino humano? Seria porque as estrelas ficavam lá no alto, piscando, como se fossem olhos ternos de mãe que espiavam o berço de seu filho adormecido?
Ah, que ilusão extravagante! Tão tola como a de que Bella começava a gostar dele.
As palavras do avô trouxeram-no de volta à realidade. Bella gostava de todos. De ferreiros beberrões e suas esposas, de nobres doentes e de veteranos de guerra desfigurados. Assim como as estrelas lançavam seu brilho sobre pecadores e santos. Não adiantaria enganar a si mesmo. Não havia, e nem haveria, um lugar especial para ele no coração de Bella.
— Ainda assim, eu não gosto disso, meu filho — o conde afirmou, ao voltar para a sua poltrona predileta. Espiou a derrota do vigário ainda arrumada sobre o tabuleiro de xadrez. — Bella está envolvida em um jogo perigoso. A Inglaterra pagou um grande preço por meter-se nos planos de conquista do general Bonaparte.
As palavras do avô fizeram lorde Cullen deduzir que possuía várias peças de informações discrepantes que poderiam criar um modelo significativo, se conseguisse organizá-las.
O conde descansou o queixo nos dedos entrelaçados.
Meu filho, pode chamar-me de velho intrometido, mas podemos conversar sobre o que aconteceu em Waterloo?
Waterloo! De repente, todos os fatos ajustavam-se em seus lugares.
— Obrigado, meu avô. — Edward encaminhou-se até a porta. — Falaremos sobre isso, eu lhe prometo, mas no momento tenho um assunto importante para resolver.
O conde acenou com expressão de entendimento... talvez maior que de Edward.
A carruagem modesta do sr. Michael ainda não alcançara a estrada principal, quando viram um pônei subindo a alameda do povoado.
— Olá, vigário!
Mesmo no crepúsculo, Bella percebeu que era o sr. Barnes, o moleiro.
— Sim. — O sr. Michael puxou as rédeas e deteve o cavalo. — Aconteceu alguma coisa?
— É minha mulher, vigário. Teve gêmeos.
Ao expressar as congratulações, Bella deu-se conta de que o sr. Barnes não teria vindo a povoado à procura do vigário, se tudo estivesse bem com a esposa e os recém-nascidos.
— São muito pequeninos — o moleiro confirmou os receios de Bella. — Minha mulher está com medo de que eles morram. Quer batizá-los depressa. O senhor poderia ir até lá?
— Claro. Vou deixar a srta. Swan em casa.
O moleiro virou a montaria atarracada e voltou para a aldeia.
— Srta. Swan — o vigário reconsiderou o oferecimento —, talvez fosse melhor voltar a casa do conde e permitir que lorde Cullen a leve para casa. Sinto muito se lhes causei um desentendimento. Embora eu admire sua natureza caritativa, não posso deixar de enaltecer o desejo de milorde em protegê-la.
Proteger?
Bella tratou de afastar a idéia antes de acreditar realmente nela. Entre as inúmeras razões que lorde Cullen pudesse ter para desaprovar a ligação dela com os Shaw, com certeza o desejo de protegê-la não estava na lista.
— Não quero impedi-lo de batizar os bebês. Pode deixar-me na casa do sr. Shaw. É bem perto de Casa Farei uma visita rápida e depois irei para casa.
— Tem certeza? — O vigário afrouxou e estalou as rédeas, e o cavalo continuou o caminho a passo rápido. — E se o sr. Shaw estiver muito embriagado?
— Convidarei a sra. Shaw e a criança para passarem a noite na casa do meus tios.
Bella procurou parecer mais confiante do que na verdade se sentia. Tia Lauren ficaria lívida ao descobrir que a sobrinha dera abrigo aos abandonados na ausência da família. Talvez ela pudesse convencer os criados a fecharem os olhos. Somente dessa vez.
— Acho que lorde Cullen não vai aprovar... — O vigário não escondia a sua reverência pelo homem de quem se tornara amigo.
A ansiedade dele acabou revivendo as brasas da irritação de Bella em relação a Edward.
— Se milorde censurasse a leitura da Bíblia aos sábados, o senhor aceitaria a desaprovação? Receio que a influência dele sobre o senhor seja perniciosa, vigário.
— Srta. Swan! Eu discordo. Trata-se apenas de...
— Por favor — Bella interrompeu-o. — Eu jamais me perdoaria se o atrasasse para a bênção daqueles pobrezinhos. Isso sem mencionar o conforto que o fato representará para a mãe.
Bem, se a senhorita está resolvida...
Bella estava certa de que lorde Cullen não se deixaria convencer por suas desculpas ou seus protestos, em situação semelhante. Contudo a última coisa que ela desejava neste mundo era que o vigário endurecesse seu ponto de vista, pois a vacilação somente o diminuía diante de seus olhos. Era um sentimento contraditório, mas que não podia ser negado.
— Estou. Mas talvez eu tenha me preocupado à toa. O sr. Shaw pode estar sóbrio ou quem sabe terá adormecido de embriaguez e não fará ameaças a ninguém.
— Espero que tenha razão. — Apesar das dúvidas, o pastor puxou as rédeas para diminuir a marcha, quando se aproximaram da cabana dos Shaw.
Bella não quis dar-lhe a oportunidade de mudar de idéia. Segurou as saias e pulou do veículo, antes de este parar completamente.
— Não se preocupe, vigário. Nada acontecerá. — Ela acenou um adeus. — Obrigado por ter-me trazido e recomendações à sra. Barnes.
Seria imaginação ou teria ouvido vozes de dentro da cabana? Sem querer que o sr. Michael as escutasse, deu uma palmada no traseiro da égua. O animal saiu em um trote ligeiro.
Bella inalou fundo para fortalecer sua coragem e bateu na porta, que imediatamente foi aberta com uma força que a surpreendeu.
— Quem está aí? — O cheiro de gim espalhou-se ao redor.
— Bella Swan, sr. Shaw — ela respondeu com animação forçada. — Eu gostaria de falar com sua esposa, se for possível.
— E tem de ser justamente agora? — o ferreiro gritou esticando para a frente o queixo barbudo.
— A hora é inconveniente? — Bella espiou por cima do ombro dele. A sra. Shaw estava muito pálida e com o olhar arregalado. — Peço-lhe desculpas. Eu vinha voltando da casa do conde para a casa com o vigário. Vi luzes e pensei...
— O que a senhorita quer com a nossa Bree? Bella raciocinou rápido e encontrou uma desculpa.
— Bem... O conde oferecerá um baile de máscaras daqui a duas semanas. Sei que a sua esposa é uma excelente costureira. Assim, eu esperava que ela pudesse...
— A senhorita acha que não posso cuidar de minha mulher? Que ela será obrigada a costurar?
O ferreiro deu um passo à frente, com olhar ameaçador. Embora ele fosse um pouco mais baixo do que Bella, seus braços eram musculosos e suas mãos enegrecidas, grandes e poderosas. Pensar na dor de um soco daquele homem forte e atarracado a fez ficar com vontade de sair correndo para casa. E pensamento idêntico a fez ficar parada, para o bem de Bree Shaw. Enquanto mantivesse o sr. Shaw ocupado na porta, ele não poderia atingir a esposa.
— Claro que não. — Bella queria que a sra. Shaw tirasse o filho da cama de rodinhas e saísse pela porta de trás, enquanto o marido estava distraído. — Na verdade, a sua esposa estaria me prestando um grande favor. Como não mando confeccionar roupas, também não conheço outras costureiras.
Bella preferia ser torturada a ter de admitir aquilo para qualquer pessoa de Grafton Renforth, mas o desespero para distrair o ferreiro era muito grande. A mulher pareceu ter escutado o apelo mudo de Bella, pois caminhou na ponta dos pés até o leito do filho, ergueu a criança adormecida e apoiou-a no ombro.
— Tenho certeza de que o senhor é um homem próspero• — Bella continuou a tagarelar —, mas o conde ofereceu-se para pagar meu vestido, e alguma ajuda é sempre bem-vinda quando se trata de sustentar uma família, não é mesmo?
Na ânsia de falar sem trégua e também por medo, Bella acabou por erguer a voz. E a sra. Shaw, na pressa, não segurou a criança com a delicadeza que deveria.
E, como conseqüência imediata, o menino acordou e esfregou os olhos.
— Aonde vamos, mamãe?
Um instante antes de o sr. Shaw virar-se, Bella comprovou nele toda a fúria de um touro mal-humorado.
— Bree! Responda ao garoto! Para onde vai levá-lo? Aterrorizada, a mulher fitou Bella e o marido.
— Eu... eu...
— Ah, mas que menino lindo! — Bella gritou. — Ele precisa usar o urinol, não é verdade? As crianças odeiam molhar os lençóis.
O ferreiro não acatou a desculpa de Bella e desconfiou de uma fuga frustrada.
— Maldita seja, Bree! — Ele avançou na direção da esposa.
— Por favor, sr. Shaw! — Bella agarrou-se no braço do homem. — Não faça nada do que possa arrepender-se!
Ela sentiu alívio ao vê-lo virar-se. Nisso, viu o ódio nos olhos escuros e também... um abismo negro de sofrimento.
— A senhorita era conivente, não é? — Ele se desvencilhou e ergueu o braço.
Dividida entre o medo e a piedade, Bella preparou-se para o golpe que poderia desacordá-la. Fechou os olhos, e uma questão bizarra veio-lhe à mente.
Lorde Cullen teria uma máscara sobressalente para lhe emprestar? Se o ferreiro lhe acertasse o rosto, ela certamente iria precisar de uma.
