13º Capítulo – Complicated
Sinopse: Brennan é prática e procura o ser também na resolução de seus problemas amorosos. Booth, porém, parece estar perdido e faz com que a parceira se confunda também. Enquanto isso, homicídios precisam ser resolvidos e a antropóloga está na mira de serial killers, do governo e da imprensa.
Brennan estava pensativa. A xícara de café parada no ar, ela de pé, vestida para o trabalho, imóvel, na bancada da cozinha. Tantas coisas em sua cabeça, um sentimento estranho, ansiedade misturada à derrota, tudo ao mesmo tempo. O que estaria acontecendo?
Ao acordar pela manhã e pensar na noite anterior, percebeu de repente que demorava além do normal para escolher uma roupa simples para o trabalho. Escovara os dentes distraidamente, duas vezes. Penteou os cabelos demoradamente, observando seus movimentos no espelho e avaliou a calça preta, a camisa salmão com modernas pregas que saíam dos ombros, o terninho bem cortado marrom com uma cinta ao redor da cintura.
Marcara um horário com Sweets e ia vê-lo antes do trabalho. Interessante saber que o psicólogo, com agenda sempre cheia e quase de férias, tinha horário para ela. Ele sempre dava um jeito para seus pacientes mais importantes. Hum, sei, ela pensou.
A campainha tocou e ela foi lentamente até a porta. O olho mágico revelou um rosto conhecido e pela primeira vez em anos seu estômago gelou ao vê-lo. Booth aguardava e havia pessoas com ele. Ela respirou fundo e abriu.
O primeiro olhar, de manhã, depois do que compartilharam na noite anterior, foi constrangedor. Pela primeira vez, Brennan denunciava sua insegurança quanto às suas palavras anteriores sobre "ele ser muito especial e não querer estragar a parceria". Seria isso mesmo o que ela queria? Um casal, igualmente vestido de terno acompanhava o agente. Ela fez um sinal para que todos entrassem.
___Vocês aceitam um café? – ela perguntou, a xícara com o líquido gelado ainda na mão.
Todos negaram, inclusive o parceiro.
___Bones, este é o agente Smith e a agente Svensson. Eles farão sua segurança até o fim do caso.
Após depositar a xícara na bancada de granito que separava o hall de entrada, Brennan os cumprimentou com apertos de mão. Três segundos de silêncio foram suficientes para denunciar aos agentes que a dupla estava com algum problema de ordem pessoal ou profissional.
Booth rapidamente enfiou a mão no bolso do paletó.
___Seu celular – ele estendeu o aparelho para ela – Você esqueceu na minha casa ontem à noite.
Ela pegou o telefone em silêncio e os agentes se entreolharam. O clima estava um pouco pesado.
___Os agentes foram designados pelo FBI para fazer a sua segurança, já que você está correndo perigo. Se estão jogando com você, cometendo homicídios conforme os homicídios fictícios de seus livros, então certamente você precisa de proteção.
___Nos revezaremos neste trabalho, Dra. Brennan – o agente Smith completou.
___A senhora sequer nos notará, estaremos sempre por perto, mas discretamente distantes – a agente Svensson concluiu.
___Eu tenho interrogatórios o dia todo hoje, creio que você tenha muito trabalho no Jeffersonian na identificação e análise dos corpos e dos membros – Booth disse passando a mão na nuca, ligeiramente sem graça.
Brennan assentiu.
___Ah, ia me esquecendo.
A antropóloga foi até a mesa da cozinha e voltou com uma sacola de papelão com alças pretas, estendeu para Booth.
___Sua roupa, você deixou aqui.
O parceiro ficou muito constrangido e quase corado. De olhos levemente baixos, pegou a sacola. Os agentes se entreolharam novamente e o agente Smith encarou o colega.
___Tenho certeza que estará também fazendo a segurança de sua... – olhou de relance para Brennan – parceira, certo agente Booth?
A agente Svensson pigarreou. Booth encarou-o sério, porém o constrangimento o impediu de falar.
___Ei, não é nada do que vocês estão pensando – Brennan reclamou.
___Bones – Booth quase suplicou entre dentes que ela se calasse.
___Booth só dormiu na minha casa porque...
___Dra. Brennan, o envolvimento de vocês não nos interessa.
Booth passou a mão no rosto nervoso.
___Dra. Brennan – a agente Svensson começou aproximando-se da antropóloga – conhecemos os protocolos do FBI. Não se preocupe – ela lançou um olhar cúmplice para o agente Smith – somos muito discretos.
A boca da cientista se abriu em uma expressão de espanto. Aqueles dois realmente estavam pensando que ela e Booth tinham um envolvimento romântico.
___Ok – Booth elevou a voz – Precisamos ir.
___Estaremos há uma distância considerável de seu perímetro. A seguiremos até o Instituto, ficaremos de campana e permaneceremos à noite na porta do seu prédio – a agente continuou.
___Ou onde quer que a senhora durma.
Booth encarou o agente, não gostou da brincadeira. A agente o olhou com reprovação.
___John!
Brennan então percebeu que aqueles agentes tinham olhares e algumas atitudes muito íntimas um com o outro.
___Vocês sim tem envolvimento amoroso, eu e Booth somos só parceiros...
Os três arregalaram os olhos. Booth a fuzilou com o olhar reprovador e os dois agentes mudaram de cor na hora.
___Com licença... – a agente comentou arrastando o parceiro pelo braço para fora do apartamento.
Booth a encarou. Suspirou fundo e tentou aliviar a tensão do momento. Brennan passeava o olhar constrangido por qualquer lugar menos os olhos dele.
___Você está indo para o Jeffersonian?
Ela teve que encará-lo e tentou ser natural.
___Não, eu vou passar no Sweets antes...
Brennan parou a frase, pois se arrependera do que dissera. O olhar intrigado e investigativo de Booth a fez entender a burrada que cometera em comentar que após um beijo pavorosamente elétrico entre eles ela ia a um psicólogo. Ficou sem graça e os dedos das mãos começaram a bater na calça nervosamente.
___Você quer uma carona? – ele estava sério, mas ela captou aquela característica expressão divertida.
___Não. Vou ao consultório dele mesmo e não no Bureau.
Ficaram em silêncio por milésimos de segundo. Booth sabia que Brennan não sabia dar desculpas, uma vez que Sweets alugava um andar em um prédio de escritórios praticamente em frente ao FBI.
Booth teve um ímpeto de conversar sobre o acontecido e pedir para que ambos não ficassem estranhos um com o outro. Brennan pensava a mesma coisa, mas resolveu evitar tocar no assunto. Sorriu para ele sem graça e estremecia toda vez que sua mente lançava flashes de lembrança das sensações prazerosas vividas horas antes.
___Bom, estou de saída então – disse afinal indo em direção à bolsa depositada sobre a mesa da cozinha.
___Eu também, tenho muito trabalho – ele completou, a voz mais alta do que o normal.
Ela passou por ele, ele lhe deu passagem e ambos ficaram sem graça simplesmente pela proximidade milimétrica e rápida que compartilharam. Foram embora pensativos.
***
___Homem, caucasiano, 40 anos. Nossa vítima pré-café da manhã já fora identificada ontem por Brennan, eles o trouxerem após o expediente – Cam comentou, as mãos na cintura, olhando para o grupo debruçado sobre o corpo decomposto.
___Bastante decomposto, apesar da morte não ter ocorrido há mais de 4 dias – Daniel concluiu.
___Siris azuis, claro, como no livro de Brennan – Hodgins comentou e recebeu um olhar sério de Cam.
___Vamos esquecer o livro e nos concentrar nas evidências.
___É difícil se concentrar nas evidências quando todas elas são iguais as da ficção de Brennan – Ângela comentou virando o rosto para a médica, sentada em frente ao monitor do computador da plataforma.
Ela voltou-se para a tela e comentou:
___Vocês encontrarão o ferimento que indicará morte por tiro.
Daniel debruçou-se sobre o rosto decomposto.
___Sim... Ferimento elíptico no osso frontal – ele ficou ereto encarando Cam – Execução.
Ele voltou-se para o crânio.
___A bala saiu pelo occipital.
Cam andou pela plataforma, pensativa, uma mão no queixo e a outra cruzando o corpo, abaixo dos seios.
___As mortes têm relação, mas os padrões são diferentes.
___Lembra quando aqueles malucos imitaram o livro da Brennan? – Hodgins começou, Cam fitou-o, desta vez com curiosidade – Eram três malucos, não um só. Brennan percebeu a falta de similaridade dos padrões.
Cam ficou pensativa, o olhar investigativo observando as carnes acinzentadas e moles do corpo sobre a mesa de análise. Vislumbrou distraída, as caixas com os ossos das vítimas anteriores, empilhadas num canto da plataforma.
___Que idiotice... Pode ser um jogo... – ela falou quase filosofando.
___É um jogo – Hodgins completou – Estão jogando com a Brennan e conseqüentemente com todos nós, sua equipe.
Todos olharam para o entomologista.
___Mas é muito insano, um grupo de serial killers? Sem chance, os serial killers agem sozinhos, cara...
___Pode não ser um serial killer – Ângela disse olhando para a tela do computador – Pode ser um grupo, como há dois anos, um grupo de fanáticos por Brennan fazendo algo para chamar a atenção.
___Hum, fanáticos não – Cam falou pensativa – Ele ou eles sabem muito bem o que estão fazendo. Não escolhem as vítimas aleatoriamente, isso está muito bem planejado. Eles conhecem a Brennan, sua rotina, seus horários, seus locais de convívio.
Ângela sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha.
___Brennan corre perigo – murmurou.
___Onde ela está? – Hodgins perguntou de repente para Cam, ao que Ângela e Daniel olharam.
___Ela vem mais tarde, vai se encontrar com Sweets antes.
***
Brennan batia nervosamente ambas as mãos nos joelhos. Respirou fundo e encarou Sweets. Ele estava sério, aguardando a antropóloga começar a falar, como ela tinha dito que o faria. Ela estava muito nervosa, ele percebeu. Seus olhos treinados notaram alguns fios de cabelos úmidos próximos às orelhas e no alto da testa. Nunca tinha visto-a nesta situação. Ficou intrigado, um pouco ansioso para saber o que se passava com ela. Imaginou se tinha algo a ver com o caso dos assassinatos que imitavam seus livros, era algo que poderia causar-lhe tensão, mas conhecendo-a como a conhecia julgava ser difícil ela se abalar por isso.
Como sempre, a antropóloga estava muito bonita. O rosto limpo, sem maquiagem, um leve batom rosado nos lábios delicados. Os cabelos estavam escovados para trás, mais lisos do que o habitual, talvez por ser início do dia e sem a rebeldia característica das intempéries do tempo. A roupa, no entanto, era muito elegante para um simples dia de trabalho. Ele diria que ela estava pronta para ir a um museu, cinema ou show. Isso deixou-o muito intrigado.
Brennan soltou o ar quente, em uma longa baforada, encarando-o.
___Sweets, vou ser direta, prática. Sou cientista, não agiria de outra forma.
O psicólogo assentiu, as mãos depositadas no colo e as pernas cruzadas.
___Você está acompanhando minha parceria com Booth há um certo tempo, acredito que nos conheça, nos tenha avaliado, enfim, sabe muita coisa sobre nós.
Sweets franziu o cenho, prestando atenção em cada palavra, analisando cada movimento de seu corpo e expressões de seu rosto.
Ela baixou os olhos para as mãos nervosas, como se tomando coragem para falar alguma coisa. Após três segundos, Brennan encarou-o, o olhar assustado, ele percebeu.
___Algo está acontecendo entre nós...
Sweets não mudou de expressão, parecia estar com a respiração parada.
___Algo que pode atrapalhar nossa parceria... – ela disse olhando para a janela.
Brennan permaneceu imóvel, o olhar parado observando a claridade. Sweets estava igualmente imóvel, mas começava a suar, dada a ansiedade da espera. A antropóloga não era uma paciente comum, bem como o agente Booth. Tirar alguma coisa pessoal dela era algo extremamente difícil, portanto, se ela vinha até ele de espontânea vontade para pedir ajuda, alguma mudança drástica em sua personalidade estava acontecendo.
___Eu nunca gostei muito de psicologia – ela começou, os olhos baixos – Mas você disse uma coisa certa vez que desprezei, mas que nos últimos dias tem me feito pensar.
Ela encarou-o, o olhar um pouco mais decidido, mas ainda havia uma sombra, alguma coisa obscura e triste.
___Você disse que eu e Booth tínhamos dificuldade em formar novos laços.
___Sim, o relacionamento substituto que vocês forjam que faz com que não tenham a habilidade de se envolver com outras pessoas.
Brennan cerrou os lábios e ficou encarando-o, investigando-o, ele pensou. Sweets continuou encarando aqueles olhos mais claros que o normal tentando entender onde ela queria chegar.
___Por quê, Sweets? Por quê você vê isso em nós? O que isso quer dizer exatamente? Porque Booth sempre fugiu dessa conversa e agora eu quero saber o que isso significa.
Sweets entendeu que Brennan precisava de respostas para as questões que tinha em mente, outras questões que ele só conheceria no decorrer da sessão. Decidiu dá-las a ela.
___Bom – ele curvou-se em posição de explicar algo – Vocês trabalham juntos há alguns anos, suas vidas pessoais e amorosas são complicadas, inconstantes. Existe essa dificuldade em formar laços duradouros com outras pessoas porque vocês estão conectados um ao outro, se completam.
Brennan estava com o cenho franzido, prestando atenção às explicações psicológicas de Sweets. Ainda assim gostaria de algo mais sucinto. Como ele parecia ter terminado ela, colocando a mão no queixo, inquiriu:
___Você quer dizer que estamos envolvidos de certa forma... sem estarmos envolvidos de verdade?
Sweets apertou os lábios, pensativo, após disse:
___Posso ser direto, Dra. Brennan?
Brennan continuou encarando-o, apreciaria muito a clareza e a precisão, mas naquele momento, com aquele assunto delicado, ela não sabia exatamente o que queria.
Sweets respirou fundo, entendendo que a antropóloga estava hesitante e amedrontada.
___Eu considero, como profissional, que a parceria de vocês ultrapassou um limite, uma linha ética e moral imposta por vocês mesmos.
Brennan franziu o cenho ainda mais. Apertou os lábios, como Sweets poderia saber se ambos já estavam envolvidos ou não?
___Vocês cederam, uma vez, provaram um pouco do que poderia ser um relacionamento amoroso entre ambos. Naquele dia no casamento do seu irmão, vocês se permitiram experimentar isso.
"Ah, tá, o casamento de Russ", ela suspirou. "Mas não é só isso. E o outro beijo é só um detalhe, porque existe uma tensão, desejos, pensamentos, atração, um monte de coisa, caramba", a mente de Brennan estava ativa demais.
___Você tem medo de ceder e gostar do que vai viver, Dra. Brennan. Teme pela parceria entre ambos. Para você está bom do jeito que está. Para os dois, na verdade. São parceiros, muito bons juntos, mas existe uma linha, não é mesmo? Um limite que não pode ser cruzado.
___Isso mesmo, Sweets. Acontece que tem ficado complicado de uns tempos pra cá...
Sweets continuou fitando-a, o olhar compassivo, aguardando a antropóloga falar e desabafar.
___Às vezes acho que vou enlouquecer – ela disse jogando a cabeça para trás, apoiando-a no encosto da poltrona.
Sweets curvou-se para frente, apoiando ambos os cotovelos nas coxas.
___Dra. Brennan, vou lhe falar o que falei para o agente Booth em uma de nossas sessões.
Ela fitou-o.
___Vocês partilhamuma paixão platônica, isso é fato – ele viu a antropóloga arregalar os olhos, mas serená-los imediatamente, como que aceitando a conclusão – Resta você me dizer se quer ajuda para manter a parceria profissional intacta ao mesmo tempo que investe em um relacionamento amoroso pra valer com o agente Booth ou... – ele fez uma pausa – se quer continuar controlando seus instintos e precisa de ajuda psicológica para isso.
Hum, ele falou isso para Booth? Por quê? Ela pensou milhões de coisas, se ajeitou na poltrona, com mais firmeza de movimentos. Encarou Sweets com seriedade.
___Eu sempre avaliei os prós e os contras de meus relacionamentos amorosos. Podia separá-los em categorias, por exemplo, com determinada pessoa o relacionamento duraria só um dia ou não passaria de sexo, com outra o envolvimento poderia ser maior dada as compatibilidades intelectuais.
Sweets sorriu diante do jeito técnico e calculista da antropóloga. Ela apertou os lábios com hesitação.
___Com Booth... – ela molhou os lábios – eu não sei o que avaliar – ela respirou profundamente – Eu não sei como, quando... eu não sei... não há o que avaliar, minha mente não avalia nada...
Ela baixou os olhos.
___Acho que estou perdendo a capacidade de raciocínio. Isso me deixa louca...
Sweets sorriu diante da confusão de Brennan. Sabia exatamente o que se passava com ela, mas ela, uma antropóloga renomada, uma cientista brilhante com um QI acima da média, não sabia.
___Algum tempo atrás – ela o encarou – se estivéssemos tendo esta conversa e você me perguntasse o que eu queria eu lhe diria facilmente que escolhia controlar meus instintos, porque saberia fazer isso.
Os olhos dela ficaram tristes.
___Mas hoje, eu não sei te responder o que eu quero.
Sweets curvou-se ainda mais para frente e com olhos brilhantes a encarou.
___Dra. Brennan, antes a atração física era perfeitamente controlável, mas agora que vocês se permitiram ultrapassar um pouco essa linha imaginária que limita o profissional com o pessoal, tanto você quanto o agente Booth não sabem como agir.
Ela franziu o cenho sem acompanhar o raciocínio.
___Sweets, eu sou uma cientista. Tenho problemas sérios com coisas que não têm evidências físicas, as quais eu não posso investigar, analisar e avaliar.
___Evidências físicas... hum, ok! – Sweets esfregou uma mão na outra – Responda as perguntas, mentalmente.
Brennan ficou encarando-o, séria.
___Alguma vez você notou que se sentia bem só por falar ao telefone com o agente Booth, mesmo que só sobre trabalho?
Ela ficou com o cenho franzido, fitando-o. "Sim, claro", ela pensou.
___Você já percebeu ter ficado irritada e de mau humor só porque vocês dois tiveram que ficar um tempo trabalhando separados?
"Claro, meu parceiro, nos completamos", ela pensou observando a janela pensativa.
___ Você já sentiu aquele frio no fundo do estômago por causa de alguma coisa que ele falou ou fez?
Ela desviou os olhos imediatamente, nervosa. Sweets percebeu. "Claro que sim, e como!"
___Você estremece, nem que seja um pouquinho, quando ele a toca? Um simples roçar de mãos, por exemplo.
Brennan continuou encarando-o, um pouco assustada.
___Isso prova alguma coisa para você, Dra. Brennan?
Ela suspirou, parecia confusa. Ele disse:
___Se respondeu sim a todas as perguntas isso prova.
Ela o encarou.
___Prova o quê?
Ele encostou no sofá e olhou-a, ligeiramente divertido.
___Que você está perdidamente apaixonada pelo agente Booth.
Apesar de aquilo parecer realmente verdade, Brennan continuou encarando Sweets, imóvel, petrificada. Ele sorriu.
___Dra. Brennan, isso não é o fim do mundo. Se apaixonar é algo maravilhoso, uma experiência enriquecedora para qualquer pessoa.
Ela engoliu em seco e disse, a primeira palavra saindo como um miado.
___Sweets, eu não costumo me apaixonar. Eu me permito envolver, mas me apaixonar não. Eu decido quando vale a pena me apaixonar.
Sweets achou graça. No coração não se manda, mas esta frase ele deixou para o pensamento.
___Pois é, Dra. Brennan, parece que desta vez, quem escolheu por você foi seu coração.
Brennan continuou encarando-o, séria. Diante da aparente confusão da cientista, Sweets começou um aconselhamento.
___Aviso que esta situação de vocês não é um caso raro, eu atendo outros agentes e policiais que estão passando por isso também.
A frase parecia não ter surtido efeito em Brennan. Ela continuava encarando-o, apreensiva.
___Eu sugiro, como um profissional treinado, que converse com o agente Booth. Vocês são parceiros há muito tempo, se conhecem há anos. Podem conversar abertamente sobre isso, da possibilidade de se relacionarem amorosamente e como isso afetaria o seu trabalho. Tenho certeza que o agente Booth é muito inteligente e vai dialogar com você da melhor forma.
Brennan respirou profundamente. A idéia lhe pareceu bem sensata, já que ela sabia que não poderia continuar essa parceria desta forma. Mas ficou preocupada novamente.
___Sweets, o FBI poderá nos afastar se descobrir nosso envolvimento.
___É só serem discretos.
Brennan suspirou, um ar derrotado.
___Teríamos que esconder de todo mundo, inclusive de nossos colegas de trabalho. Eu não gosto de relacionamentos assim, escondidos.
___Vocês podem revelar tudo quando perceberem que o relacionamento tem futuro.
___Futuro? Como assim?
Ela franziu o cenho novamente. Sweets abriu um largo sorriso.
___Sério, não sabe, Dra. Brennan?
___Você fala de casamento?- ela perguntou alarmada.
___Casamento? Não. Por quê? Você cogita isso com o agente Booth?
___O quê? Claro que não? Eu nem cogito ficar com ele. Eu cogito tomar um bom coquetel de remédios que farão com que meu cérebro cancele esses sentimentos e eu volte a ser simplesmente a parceira profissional dele.
Sweets riu.
___Hum, sua cogitação é do tipo impossível então.
Brennan riu, mais relaxada, mas ainda nervosa.
___Siga meu conselho, Dra. Brennan. Procure o agente Booth e conversem claramente sobre o assunto, sem rodeios, de forma adulta e civilizada.
Brennan suspirou mais tranqüila. Se sentia muito melhor do que quando entrara. Olhou decidida para o psicólogo.
___Quer saber, você está certo. Eu vou falar com o Booth, hoje!
Ela se levantou e cumprimentou o garoto com um beijo no rosto. Ele se surpreendeu com a atitude e sorriu visivelmente encantado.
Brennan saiu para o Jeffersonian.
***
Brennan entrou no carro, após colocar sua torta para viagem dentro do porta-luvas. Saíra de casa com apenas café preto no estômago e a sessão com Sweets a fizera ficar com fome.
O Royal, é claro, o restaurante que fazia a melhor torta de frango que já comera em toda a sua vida. Ele ficava exatamente em frente ao Museu do Ar e do Espaço, na Maryland, há três quadras de distância do Instituto. Inúmeras foram as vezes que caminhara a pé, sozinha ou acompanhada, rumo ao restaurante.
A antropóloga estacionou o carro dentro do estacionamento coberto e pegou a torta, comeu-a ali mesmo, sabia que ao entrar no local não teria tempo para isso. Seus pensamentos estavam agitados e seu coração acelerava toda vez que pensava na sessão que tivera com Sweets.
Respirou profundamente, engolindo um pedaço da torta e sentindo o prazer em degustá-la. De tortas doces não gostava, de frutas cozidas sentia uma certa repulsa. Lembrou-se de Booth. Ele adorava tortas doces e vivia insistindo para que ela pelo menos provasse. Sorriu. Agradava-lhe a idéia de se abrir com ele, conversar abertamente sobre seus sentimentos e saber o que ele pensava sobre tudo aquilo.
Lembrou-se de uma discussão séria que tiveram no final do caso da menina que encontraram em uma mala. Tinham ficado juntos pela primeira vez, no casamento de Russ. Arrepiou-se. Ficou tensa, de repente. A atração sexual que Booth sentia por ela era visível, mas... e sentimento? Ela lembrou-se de uma frase do parceiro naquela noite.
"___Eu fui um cavalheiro, Bones, um maldito cavalheiro!"
Suspirou profundamente. Lembrou-se também de uma conversa que tivera com Ângela por telefone sobre o assunto.
"___Seu parceiro é louco por você e você é a única em todo o Jeffersonian que ainda não notou".
Suspirou. "Quer saber, vou arriscar!" Odiava o sentimento desagradável da rejeição e se fosse de alguém por quem nutria afeição era pior. Sempre se protegia em sua redoma imaginária, assim era ela.
De repente, como se acordasse, percebeu ainda estar no carro, devaneando romanticamente, enquanto no andar superior sua equipe já trabalhava.
___Definitivamente, Temperance Brennan, você está mudando – comentou em voz alta pegando o notebook no banco do carona.
Antes de sair do carro, verificou o rosto no espelho retrovisor, exibiu os dentes para si mesma, tirando com a língua qualquer resto de comida.
___Vou escovar os dentes lá em cima – comentou para si mesma.
Saiu do carro em direção ao elevador e vislumbrou de relance o agente Smith cumprimentando os seguranças da guarita na entrada do estacionamento.
Chegou ao Instituto e rumou diretamente para sua sala, onde depositou o notebook sobre a mesa, escovou os dentes no toalete e colocou seu jaleco, pensativa.
Caminhou em direção à plataforma forense onde avistara Daniel e Hodgins. Todo o complexo estava agitado, estagiários andando de um lado a outro, ouvia e respondia um "bom dia" vez ou outra pelo caminho.
A equipe já avançara bastante no trabalho de identificação da vítima, bem como a causa-mortis.
Fora informada por Daniel e Hodgins que Cam estava presa em sua sala atendendo telefones e até àquela hora já participara de duas reuniões, ambas com representantes do governo. Com as mãos na cintura, ouviu Hodgins reclamar que recrutara dois estagiários em química do Departamento de Ciências, pois o químico do Instituto fora emprestado ao Aquário Municipal para analisar minerais presos nas novas algas marinhas recebidas do mar da Finlândia, pois o biólogo responsável estava de férias.
___Legal, né? – Hodgins comentou saindo da plataforma um pouco irritado – Algas marinhas são mais importantes do que uma investigação criminal. Preciso de um ajudante! Um que trabalhe em tempo integral!
___Ele se esqueceu de mencionar ao Aquário sobre a pressão que o Jeffersonian está sofrendo com este caso – Brennan deu de ombros, ele já tinha saído.
Não era a primeira vez que Hodgins ficava sobrecarregado. O químico do Instituto não pertencia ao Departamento Forense simplesmente, ele atendia a todo o complexo de museus do Jeffersonian.
Há anos Hodgins acumulava as funções de entomologista e químico. Apesar de adorar e suas graduações serem das áreas, ele se sentia sobrecarregado e quando voltava de férias o serviço estava acumulado.
Daniel comentou sobre o orifício que a equipe encontrou no crânio, informou o tipo de arma que provavelmente fora usada e sobre Ângela que estava naquele momento fazendo uma busca na lista dos desaparecidos, juntamente com um agente do FBI e um representante do governo na sala de Reconstrução Facial.
Brennan debruçou sobre o corpo e Daniel mostrou-lhe os ferimentos. Ainda debruçados, a professora fitou-o.
___Talvez esta seja uma boa oportunidade para testarmos sua técnica – ela sorriu ao ver os olhos azuis do aluno iluminarem e seu sorriso se abrir.
Ele ergueu-se e ambos se olharam.
___Está tudo no meu notebook, é só conectar em rede – ele falou ansioso e sorridente.
Ela sorriu e encorajou-o.
___Faça então.
Ele saiu apressado da plataforma.
***
Ângela e Brennan saíram pela porta da frente do Instituto. Ao descerem as escadarias foram abordadas por microfones com diferentes logos, gravadores de voz, MP5's e celulares segurados por mãos ávidas por informações. Estavam sendo filmadas e registradas em fotos digitais em diferentes ângulos e ambas tentaram se esquivar como que de moscas.
___É verdade que estão imitando seus livros, Dra. Brennan?
___Dê uma declaração, doutora!
___O corpo encontrado é de mais uma pessoa ligada ao governo?
___Você acha que o assassino é alguém da sua equipe?
No mesmo instante, vozes firmes e autoritárias empurraram os jornalistas e Brennan viu vários seguranças do Instituto, bem como o agente Smith que a puxava pelo braço.
Rapidamente Ângela e Brennan foram levadas em direção ao utilitário do agente, recebendo rápidas instruções deste.
___Eu as aconselho a saírem para o almoço de carro e só sair dele quando estiverem há metros de distância do Instituto.
Brennan percebeu que não poderia ir para o Royal Dinner, pois certamente as amigas seriam abordadas novamente. Pediu ao agente que pegasse a Avenida Independência e as levasse para Tidal Basin, onde caminhariam às margens do lago e comeriam por ali mesmo. Voltariam a pé, após. O agente concordou, no entanto, traria as amigas de volta com seu carro.
Tidal Basin é um enorme lago circundado por três famosos pontos turísticos da cidade: o monumento à Washington, o Jefferson Memorial e Franklin D. Roosevelt Memorial.
Brennan e Ângela trataram de comprar dois cachorros-quentes e dois sucos para viagem tão logo saíram do carro do agente Smith. Começaram a caminhar e vislumbraram as árvores brancas do outro lado do lago, aos pés do Memorial à Jefferson. Eram lindas.
As amigas se sentaram em um banco de concreto para devorar os lanches. Fazia um sol quente e gostoso, apesar do frio. Um vento gelado balançava seus cabelos e fazia com que os raios do sol não tivessem força suficiente para esquentar os corpos. Ambas trajavam roupas de inverno e estavam muito elegantes para um simples dia de trabalho. Ângela costumava dizer que o inverno era a época mais elegante do ano e que uma artista como ela não podia usar qualquer roupa. Ela olhou para Brennan, um pouco impaciente e disse:
___Amiga, estou preocupada, me diz o que você quer falar ou eu vou ter um treco!
Brennan suspirou com o lanche na mão e observou o lago e a aglomeração de pessoas visitando o Jefferson Memorial.
___Eu quero te contar uma coisa e talvez precise de um conselho.
___Claro que precisa – Angie disse fitando-a séria, os olhos quase presunçosos.
Brennan fechou o saquinho do cachorro quente, ainda tinha um pedaço, jogou na lixeira ao lado do banco. Ângela fez o mesmo e após sentar, observou a amiga tomar uma golada do suco, dispensando o canudo. Brennan soltou uma baforada de ar quente, como se tomando coragem.
___Caramba, querida, desembucha!
Brennan encarou-a.
___Você acha possível manter um relacionamento amoroso com um colega de trabalho, certo?
Angie sorriu prevendo o assunto.
___Quer dizer, bem, você e Hodgins parecem ser dar bem.
Ângela continuou fitando-a, o olhar compassivo. Brennan apertava o copo de plástico e o resto de suco remexia no fundo.
___Eu não sei como fazer isso, sabe? Eu... – Brennan ficou ereta.
A antropóloga suspirou e sorriu. Angie franziu o cenho e estava ficando ansiosa.
___Na verdade eu sei o que tenho que fazer, só não sei como – ela olhou para Angie e abriu um largo sorriso desconcertado – Eu só complico, né?
Ângela riu com ela, assentindo com um leve aceno de cabeça.
___Angie, eu estou apaixonada pelo Booth.
A artista arregalou os olhos com um sorriso nos lábios. Ela já sabia que Brennan era apaixonada por Booth há tempos, porém a amiga admitir isso abertamente era algo novo.
___Eu até conversei com Sweets sobre isso, acredita? – a cientista sorriu nervosa.
___E o que ele acha?
___Bom, ele me tranqüilizou, disse que se apaixonar é a coisa mais normal do mundo...
Ângela riu.
___E é, Brennan. Minha amiga, você é tão complicada! – Angie disse abraçando-a.
Brennan deitou a cabeça no ombro de Ângela e ambas ficaram alguns segundos em silêncio observando os transeuntes e a paisagem.
___Eu quero conversar com ele e expor meus sentimentos, Angie, só não sei qual será sua reação. Tenho um pouco de receio... – ela disse, a cabeça ainda no ombro da amiga.
Calmamente, Ângela comentou:
___Declaração de amor, isso se chama declaração de amor. E eu acho que diante disso a reação dele será se declarar também.
Brennan levantou a cabeça e encarou a amiga.
___Eu estou falando sério, Angie.
___Eu também, Brennan. E tem mais, tome cuidado com o local onde irão conversar porque a reação dele será do tipo te agarrar, dando-lhe um beijo sufocante e fazer um sexo selvagem ali mesmo.
Brennan riu indignada e Ângela continuou séria, depois sorriu.
___Sabe, não é difícil manter um relacionamento amoroso com alguém com quem você já tenha um relacionamento profissional.
Ambas começaram a caminhar, Brennan com o braço esquerdo cruzado com o direito dela.
___É só ter maturidade, saber dividir as coisas, cada um respeitar a individualidade do outro e o trabalho também.
Brennan permaneceu pensativa e as considerações de Ângela até que eram agradáveis e bem aceitáveis.
___Eu estou tão feliz! – Angie sorriu e apertou a amiga – Vocês foram feitos um para o outro, querida!
Brennan fez uma careta, sorrindo. Só a Ângela mesmo para falar uma coisa daquelas.
___Você cria expectativas porque é minha amiga e de Booth também.
Ângela parou e encarou-a.
___Definitivamente não, Brennan. Vocês realmente foram feitos um para o outro.
A antropóloga continuou encarando-a. Ângela sorriu.
___Você se completam como parceiros profissionais, já pensou como não será completa essa parceria amorosa também?
Brennan gargalhou e Angie admirou-a num raro momento de descontração. As duas continuaram a caminhar.
___Adoro você assim, espontânea – a artista cutucou a melhor amiga.
A uma distância considerável, o agente Smith caminhava, sempre atento aos movimentos das duas, a mão esquerda pousada sobre a arma coberta pelo terno.
De repente Brennan parou, o cenho franzido, a boca entreaberta e os olhos mais claros do que o normal.
___O que foi, querida? – Angie encarou-a e olhou na direção em que os olhos azuis da antropóloga miravam.
Avistou Booth parado conversando com uma mulher loira, do outro lado da 15ª rua. As amigas estavam próximas a um entroncamento das Avenidas Maine e Independência, bem longe do local onde o parceiro de Brennan estava.
Ambas permaneceram imóveis, observando a cena e Ângela rezou internamente para Booth não fazer nenhuma besteira, não agora. O agente estava de cabeça baixa enquanto a moça falava ativamente, pareciam estar discutindo. Brennan molhou os lábios tentando descobrir mentalmente se conhecia alguma mulher loura que fazia parte da vida de Booth. Além de Rebeca não se lembrava de ninguém e aquela não era a mãe de Parker.
Booth passou a mão nos cabelos, como Brennan sabia que ele fazia para espantar o nervosismo e gesticulou com a moça. Não pareciam estar brigando. Ele baixou a cabeça novamente e enfiou a mão nos bolsos da calça. A moça loura disse algo, virou-se de costas para ele e começou a andar lentamente na direção contrária. Ele ficou vendo-a se afastar. Ângela soltou o ar que prendera por alguns segundos e Brennan estava com o olhar cravado em cada movimento de Booth.
De repente a moça, com um rápido movimento, voltou-se, se aproximou dele e com ambas as mãos puxou Booth pelo rosto cravando um beijo em seus lábios. Ele não resistiu, continuou com as mãos nos bolsos.
Ângela sentiu o chão faltar e um frio subiu como um relâmpago por seu corpo e ela não teve coragem de olhar para a amiga petrificada ao seu lado. Brennan não teve tempo ou coragem para esboçar qualquer reação, continuou dura, imóvel, não conseguia acreditar no que via.
Após intermináveis segundos, a moça se afastou, deixando Booth parado e sozinho. Ele levantou os olhos para a rua e saiu imediatamente, pelo sentido contrário.
Angie fez uma careta dolorosa e lentamente virou os olhos para Brennan. A antropóloga encarou-a, os olhos claros tentando esconder os sentimentos ruins.
___É por isso que eu sempre digo que agir com o coração é muito perigoso.
Suas palavras saíram pesadas e ela soltou-se da amiga caminhando em passos largos em direção à rua, rumo ao Jeffersonian a pé. Ângela viu o agente Smith iniciando sua abordagem para deter a antropóloga.
Ângela sentiu uma dor aguda no peito, como se fosse com ela o sofrimento. "Justo agora", pensou triste observando uma revoada de pombas subindo juntas, assustadas com algumas crianças brincalhonas.
