XII.

Olivia e os outros viram quando Peter deu as costas e saiu sem nada dizer. Ela ficou decepcionada, pois se arrumara para ele e ninguém mais. Charlie notou sua reação, mas preferiu ficar quieto. Sabia o quanto ela era tímida. Temia deixá-la envergonhada diante dos irmãos Debuisson. Bernard se adiantou e quebrou o silêncio constrangedor que se fizera após a saída de Peter.

-Você está ainda mais bonita do que de costume com essas flores nos cabelos.

-Obrigada, Bernard.

-Está mesmo, Livia. Nunca vi você assim.

Charlie falava a verdade. Ela estava diferente. Tinha um brilho nos olhos, na pele clara e macia. Olivia perdera aquele ar assustado. Seu olhar mudara, parecia se deter nas coisas mais concretas. Aquela estranha expressão, que parecia sempre estar fitando um ponto invisível para as outras pessoas, finalmente desaparecera. Ela estava amado pela primeira vez na vida.

-Quer dar uma volta?

-Não sei, prefiro esperar Peter. Podemos ir todos juntos.

Charlie e Raoul se entreolharam. Duvidavam muito que o rapaz retornasse em breve.

-Por que não vamos ao encontro dele, Livia?

O rosto dela se animou.

-É uma boa ideia. Deve ter ido para a praça.

Saíram sem mais demora. Charlie e Olivia caminhavam juntos. Os irmãos vinham logo atrás. A praça estava cheia. Bernard viu pessoas dançando e tornou a repetir o convite da noite anterior.

-Vamos?

-Nunca fiz isso... Tenho medo de errar.

-Não tem nenhum mistério. e se errar, qual o problema, Livia?

-Mas, Charlie...

-Vá dançar com o rapaz. Se Peter passar por aqui eu não o deixarei ir embora. Quando acabar a dança, continuaremos a procurá-lo.

Bernard puxou-a pela mão e logo eles entraram no grande círculo. Olivia não teve dificuldade em acompanhar os outros faziam. Depois de alguns minutos, percebeu que não estava preocupada ou pensando em nenhuma coisa triste. Estava só se divertindo, mais nada. As pessoas deram-se as mãos; a roda girava cada vez mais depressa.

Subitamente ela se soltou. Os olhos ficaram fixos, os braços caídos ao longo do corpo. As mãos se ergueram e esconderam o rosto. Alguns pararam para ver o que havia acontecido. Olivia estava pálida. Charlie tirou-a dali rapidamente dali.

-O que aconteceu? Está passando mal?

-Peter... Eu o vi. Está correndo um grande perigo. Vai cair numa armadilha.

-Como assim?

-Eu não sei, eu apenas vi.

-Onde?- perguntou Raoul.

-Perto daqui, eu sei que consigo guiá-los.

Bernard não entendia nada. O irmão caçula nunca contara que Olivia via coisas.

-O que está acontecendo, Raoul?

-Bishop está metido em encrenca. Precisamos arrumar alguns homens para nos ajudar.


Ela deu um passo adiante e sorriu. Peter notou seu ar triunfante. O pai olhou-a com aprovação.

"Nós o perdemos de vista durante um certo tempo. Mas quando abandonou aquele impostor que o raptou, senti que nem tudo estava perdido. Vi que gosta da garota. Ela nada mais é que uma versão apagada, desbotada de nossa Olivia. Eu mandei buscá-la na floresta de Abernethy,onde ela vivia com a família. É magnífica, não é?"

Sim, magnífica era a palavra certa. Aquela, então, era a Olivia de seu mundo. Parecia ser mais alta, mais desenvolvida do que a Olivia com a qual convivia. Notava-se que ela tinha modos desenvoltos. Parecia não ter medo de nada.

"Como vai, Peter Bishop? Meu senhor escolheu-me para você."

"O que quer dizer com isso? Ficou louco?"

"Não precisa ficar aqui por causa daquela garota. Você tem ao seu alcance uma versão dela, pertencente ao universo onde você viveu e passou a infância. Ela é em tudo superior à outra. Não há motivo que o prenda aqui."

Peter sentiu a vista escurecer de pura raiva. A prepotência daquele homem não possuía limites.

"Ninguém se compara a ela. Ninguém, entenderam bem? Ela é única."

"Está se comportando como um tolo, Peter Bishop. Nós somos perfeitos um para o outro."

Ela falava com calma e segurança. Parecia acreditar que aquilo era justo e certo.

"Você não me interessa."

O pai se exasperou.

"De qualquer forma, você vem comigo. Meus homens estão ocultos, mas são em número considerável. Não me obrigue a usar a força."

"Não vou. Só me leva daqui morto."

Peter não se moveu. Contudo, tinha a certeza de que ele não estava blefando.


-Peter...

Ele sentiu a presença dela antes da voz.

-Vá embora, Olivia. Eles são perigosos.

Ela se colocou ao seu lado, ele segurou a sua mão. Os olhos da outra faiscaram. O pai não perdia um só movimento.

-Afaste-se, garota. Você não é para ele.

-Engano seu. O lugar dele é ao meu lado.

O homem balançou a cabeça. Das trevas saíram quatro homens.

-Fuja, Olivia. Por favor...

-Não...

De repente, um dos homens avançou. Moveu-se na direção deles, como se desejasse afastá-los. Olivia ficou tensa. Para a surpresa de todos, um véu de fogo se interpôs entre eles e o agressor.

-Que diabos você é? Uma bruxa?

A voz do outro Walter soava rouca de ódio.

Quando o fogo cedeu, Peter e Olivia já haviam recuado. Atrás deles estavam Charlie, os irmãos Debuisson e mais uma dezena de homens armados de foices e facões.

Os do outro lado recuaram, até serem envolvidos pela escuridão. Peter envolveu a cintura de Olivia, sustentando-a para que não caísse. Estava extenuada. Saíram rapidamente dali, aproveitando a escolta dos camponeses arrebanhados por Bernard e Raoul.


Quando chegaram perto das barracas, Olivia sentiu novamente seus joelhos fraquejarem. Peter pegou-a nos braços. Ela estava fraca, parecia exausta. Fez com que ela se deitasse. Charlie e os outros os deixaram a sós.

-Como soube que eu corria perigo?- ele acariciava seus cabelos.

-Eu vi...

Ele beijou sua testa.

-Não devia ter feito isso. Eles são perigosos. Nunca vão nos deixar em paz.

Olivia olhou-o bem dentro dos olhos.

-Não podia ser de outro jeito, Peter. Você pertence a mim.

-Eu sei, minha querida.

Peter procurou sua boca, ela correspondeu com sofreguidão. Os lábios dele eram como a água para uma grande sede. Ele sentiu então uma grande felicidade, apesar da ameaça que pairava sobre suas cabeças. Ele era dela. Simplesmente.