Capítulo 11 – Partida

-O que?! –Ben arregalou os olhos, sentando-se na cama rapidamente. –Achei que você fosse órfão.

-Pensava a mesma coisa, até o Grão Mestre dizer que ela está viva e que quer falar comigo.

-E o que você pensa em fazer? –coçou a nuca, ainda não conseguindo digerir os fatos.

-Não sei... –o moreno encarou o amigo, por trás da seriedade que sua face demonstrava, havia o olhar de uma criança assustada. –Não quero falar com ela.

-Mas por quê? –Ben estava sentindo frio e resolveu deitar novamente, cobrindo-se até o pescoço.

-É uma longa história e estou com sono. –Kevin resmungou, virando para o outro lado.

-Tudo bem, quando quiser me contar estarei pronto pra ouvir. –o mais novo disse, fechando também seus olhos e deixando-se levar pelo sono.

—X—

Gwen estava sentada em frente ao espelho, penteando lentamente os cabelos ruivos. É verdade que tinha ficado mal durante um tempo depois de todos aqueles acontecimentos com Kevin.

Gostava muito dele e queria até tê-lo como namorado, porém quando soube que ele ainda continuava no mundo do submundo, minou seus planos. Não conseguiria ficar tranqüila ao lado dele, pensando que a qualquer momento a policia poderia vir atrás deles.

Ou então que seriam perseguidos por contrabandistas, como aconteceu na noite do encontro. Não era isso que ela tinha imaginado para sua vida. Kevin era uma pessoa maravilhosa, mas ele não parecia nem um pouco disposto a largar esse estilo de vida. E ela não ficaria sua vida inteira esperando por um cara que talvez não se tocasse disso.

Por isso, Gwen decidiu que não ficaria sentada chorando por ele. Iria prosseguir com sua vida normalmente e que teria ele como um grande amigo, como sempre foi. Foi extremamente doloroso no começo, chorava todas as noites. Mas conforme os meses foram passando, a ferida foi cicatrizando e hoje restava apenas uma doce lembrança dessa época.

Até porque, foi por causa dele que ela aprendeu a se desligar um pouco das responsabilidades e passar a curtir mais a vida de adolescente, como as outras garotas de sua idade. Hoje em dia, ela estava saindo com um garoto da sua classe de Química, chamado Matt.

-Você vem jantar, querida? –sua mãe perguntou, do outro lado da porta do quarto.

-Já estou indo... –ela respondeu, terminando de escovar os cabelos.

A ruiva calçou suas pantufas e desceu as escadas sem fazer barulho. Enquanto jantava com seus pais, o telefone tocou. Ela levantou-se e foi atender.

-Alô? –disse, segurando o copo de suco na mão.

-Gwen? –uma voz familiar do outro lado da linha chamou.

-Oh, meu Deus! –ela colocou o copo na mesa e segurou o telefone com as duas mãos. -Vóvó Verdona!

-Olá, minha filha! –Verdona parecia muito empolgada. –Como você está?

-Morrendo de saudades de você... –a neta sentiu lágrimas se formando. –Você está aqui na Terra?

-Estou sim... Na verdade, estou na porta da sua casa. Será que poderia abrir logo? –ela reclamou. –Estou congelando aqui fora!

Sem nem esperar mais um segundo, Gwen largou o telefone e saiu correndo para a sala. No momento em que abriu a porta e viu aquela simpática senhora de meia idade, usando sua túnica roxo-escuro, não conseguiu se segurar e começou a chorar.

-Que saudades de você, vó! –ela abraçou Verdona com vontade.

-Eu também querida... –a senhora passou as mãos pelos longos cabelos da neta. –Agora vamos entrar, está muito frio aqui fora!

Depois de matar as saudades do filho e conversar um pouco com a nora, Verdona subiu até o quarto da neta. Iria ficar instalada lá, durante o tempo que ficasse na Terra, a pedido da própria Gwen.

Assim que ficaram a sós, a Anodita voltou a sua forma original, deixando a casca humana caída no carpete.

-Me sinto melhor assim... –comentou, ao sentar na cama. –Então, como você mudou, pequena!

-Como assim? Continuo a mesma pessoa... –a mais nova sentou na cadeira da escrivaninha.

-Está mais madura... Praticamente uma mulher. –passou a mão no rosto da neta. –Eu noto pelos seus olhos o quanto você está mais desenvolvida.

-Obrigada... –ela corou.

-Está namorando o Andrew, não é?–sorriu maliciosamente, estreitando o olhar.

-Quem?

-Aquele menino alto, musculoso e moreno que anda com você e seu primo! –Verdona levantou e ficou zanzando pelo quarto, olhando as fotos na parede.

-Ele se chama Kevin... E não, não aconteceu nada entre nós, se é isso o que você quer saber. –Gwen também levantou-se, andando atrás da avó, que mexia em tudo.

-Tá, tanto faz... –revirou os olhos, parecendo entediada, sentando de novo na cama. –Não vim aqui pra ficar conversando sobre sua vida intima com garotos... E que pelo visto anda muito mal...

-VÓ! –a ruiva interrompeu a fala de Verdona e ficou vermelha de constrangimento. –Podemos mudar de assunto?

-Desculpa... Mas como eu estava falando, queria te refazer aquela proposta de vir como para Anodine.

-O que?! –sentiu o jantar revirar no estômago. –Mas...

-Querida, se você não começar seu treinamento agora, nunca vai conseguir controlar seu poder. –ela abraçou a neta. –Tem algo muito importante que eu preciso te contar...

-É sobre meu lado Anodita?

-Exatamente. A mana que existe dentro de você está muito alterada e pode acabar machucando você ou as pessoas a sua volta. –Verdona estava séria. –Por isso você deve vir comigo num treinamento especial.

-Vou ficar quanto tempo longe? –ela desvencilhou-se do abraço.

-O suficiente para que você domine seus poderes.

-Vou falar com meus pais, antes de fazer as malas. –a ruiva andou até a porta do quarto.

-Não precisa querida, já falei com eles. –a Anodita sorriu, serenamente. –Eles deixaram, desde que você não fique sem mandar noticias.

Gwen trocou seu pijama por uma calça jeans, uma blusa de manga comprida e tênis. Quando se despediu de seus pais, chorou até soluçar. Sentiria falta deles, mas era preciso, não desejava machucar ninguém.

Fazia um tempo em que percebeu que os poderes estavam estranhos. Tinha momentos que funcionava perfeitamente, em outros era excessivo ou escasso. Por isso, resolveu ouvir os conselhos de sua avó e foi com ela para Anodine.

Queria ter se despedido de Ben e Kevin, mas preferiu não o fazer. Sabia no fundo do seu coração, que se olhasse para o moreno antes de partir, iria desistir da viajem. Ela não desejava ceder novamente àqueles sentimentos que já tinha superado.

Com a ajuda de sua avó, liberou os poderes e ambas voaram para os céus, atravessando a atmosfera. Em milésimos de segundos, deixavam a Terra para trás, rumando para Anodine.