Vince praticamente passou todo o sábado na casa deles, chegando por volta das duas horas e só indo embora depois do jantar. Lily gostou extremamente do rapaz desde o momento em que o viu entrar pela porta. Apesar de ser baixo e magro, ele era bem apessoado e muito charmoso, com seus cabelos loiros cortados muito curtos e grandes olhos azuis. Declaradamente homossexual, possuía uma inteligência aguda e uma presença de espírito capaz de prender a atenção de qualquer um, tendo feito Lily rir com suas histórias apimentadas sobre modelos e o mundo da moda. Também era bom com as crianças, para as quais leu histórias enquanto Lily preparava o jantar.
Foi só no dia seguinte que percebeu quanto James tinha se comportado discretamente, deixando-a livre para conversar com Vince a maior parte do tempo. Ela ficou tocada por aquele gesto generoso e disse isso ao marido logo que ele acordou na manhã de domingo.
— Não precisa me agradecer — James murmurou, bocejando e espreguiçando-se ao mesmo tempo. — Gostei de observar a conversa que tiveram. Você e Vince vão formar uma grande equipe. Posso ver que meu investimento estará em boas mãos. Além disso — ele emendou, sorrindo —, sabendo que ele é gay não terei muito com o que me preocupar.
Lily arqueou as sobrancelhas ao ouvir o comentário.
— Será que você já se preocupou realmente sobre esse assunto, James? Como seria se Vince não fosse homossexual?
— Nesse caso, eu o manteria o mais longe possível de você — ele replicou com toda seriedade.
— Mas por quê? Por acaso não confia em mim?
— Eu confio em você. Simplesmente não confio nos homens.
— Mas você é um deles — ela apressou-se em comentar.
— Exatamente. — James sorriu e abraçou-a. — Você não ficaria segura comigo nem por um segundo, mesmo que fosse casada com outro homem. Eu iria desejar tê-la no momento em que a visse.
— James, não pode estar falando sério!
— Claro que estou. Nunca falei mais sério em toda minha vida. Agora, cale-se e me beije. É manhã de domingo, e não tenho que trabalhar.
— Ah, é mesmo? Mas eu tenho — ela replicou, colocando de lado os lençóis. Em seguida, levantou-se da cama para ver por que Emma estava chorando.
Ainda estava pensando nas palavras de James na segunda-feira pela manhã, sentada em uma das cadeiras da creche em que pretendia matricular os filhos. Será que ele realmente tinha falado sério? Tentaria seduzi-la mesmo que ela fosse casada? James era mesmo esse tipo de homem? Predatório? Totalmente inescrupuloso?
Ela não gostava de pensar naquilo, nem um pouco. Continuava remoendo tais pensamentos quando chegou em casa, por volta do meio-dia. Sentia-se indisposta, sem apetite e não tinha vontade nem sequer de verificar a caixa do correio. De qualquer forma, aquilo não importava, pois sabia que só iria encontrar contas e folhetos de propaganda.
Alimentou as crianças e as colocou na cama para o descanso vespertino, então foi para a sala de estar e sentou-se diante da televisão, assistindo desanimada a uma novela pouco interessante. Não foi a melhor escolha que poderia ter feito. As personagens do drama levavam vidas torturadas e cheias de sobressaltos, cercadas por mentiras e intrigas, discussões e rompimentos. Lily sempre desejara uma vida pacífica, emocionalmente estável. Simplesmente não podia suportar brigas ou confrontações.
Ela desligou a televisão e estava prestes a começar o preparo do jantar quando ouviu o baixo ruído do telefone. Sempre diminuía o volume da campainha quando as crianças estavam dormindo, e apressou-se para atender na extensão que ficava na cozinha.
— Sim? — ela atendeu, sentando-se em uma das cadeiras da copa.
— Lily, aqui é James. Escute, algo terrível aconteceu em minha casa e terei que ir imediatamente para a Itália.
No mesmo instante Lily pensou no pai de James, que tinha problemas cardíacos.
— Foi seu pai? Ele teve um ataque do coração?
— Não, graças a Deus. Quando eu disse minha casa, referi-me a Itália, não à villa Potter... É Francesca. Ela tentou se matar, tomando uma overdose de pílulas para dormir.
Lily sentiu a cabeça girar.
— Mas... mas por quê? — ela balbuciou nervosamente. — Quero dizer...
James suspirou.
— Se quer mesmo saber minha opinião, acho que ela não está conseguindo suportar a perda. Para ser franco, estava preocupado que algo assim pudesse acontecer. Você pode fazer uma mala para mim, Lily? Coloque apenas o suficiente para uma viagem de dois ou três dias. Consegui reservar uma poltrona no último vôo para Roma, e de lá vou pegar uma conexão para Milão.
Tentando manter-se calma, Lily respirou fundo, apesar de sentir-se devastada por dentro.
— Mas, James, por que você tem que ir? E quanto à família de Francesca?
— Ela não tem família alguma.
— E quanto a seu pai e sua mãe? Eles não podem ajudar? Estão a apenas uma hora de Milão, você sabe...
— Eles não podem saber nada sobre isso, Lily. A notícia provavelmente mataria meu pai.
— Mas por quê? Posso entender que uma mulher que acabou de ficar viúva tente o suicídio, especialmente em um caso como o de Francesca, que não teve filhos. Não creio que seus pais ficariam tão chocados, James.
— Acredite em mim, Lily. Eles ficariam muito chocados se conhecessem toda a verdade. E não posso arriscar que Francesca conte tudo a eles. Infelizmente, sou a única pessoa que pode ajudá-la nesse momento. É um tremendo inconveniente, eu sei, mas é assim que as coisas são.
— O que Francesca poderia contar a eles? Sobre o que está falando, James?
— Não posso explicar tudo agora, Lily, não há tempo para isso. Faça a mala para mim, por favor. Estarei aí em dez minutos para apanhá-la.
Ao dizer aquilo ele desligou. Simplesmente desligou. Lily ficou olhando para o telefone aturdida. Seu marido estava jogando tudo para o ar e voando para o outro lado do mundo para estar ao lado de uma mulher que supostamente não amava mais.
Aquilo era incrível!
Inacreditável!
Insuportável!
Ela fez a mala lentamente, ao mesmo tempo em que tentava pensar em algo para impedir o marido de viajar.
Estava parada no portão da frente com a mala a seus pés quando James chegou e saltou do carro.
— Sinto muito por isso — ele disse, inclinando-se para beijá-la no rosto e pegando a bagagem ao mesmo tempo. — Estarei de volta na sexta. Já telefonei para todos com quem tinha compromissos explicando que um fato inesperado me ausentaria da cidade por uns dias. Se minha mãe ou meu pai ligarem, invente alguma desculpa para explicar por que não estou aqui. Diga-lhes que estou viajando para tratar de negócios com Vince... Diga-lhes qualquer coisa... eles não podem saber a verdade, Lily. Isso é imperativo. Prometa-me.
— Eu... eu prometo.
— Boa menina. E não precisa ficar tão preocupada. Explicarei tudo quando voltar. Não tenho tempo agora. Se perder mais alguns minutos não vou conseguir entrar no avião.
Ela o seguiu até a porta do carro.
— Você... você vai me ligar quando chegar lá, não vai, James?
— O quê? — ele perguntou distraidamente ao jogar a mala sobre o banco traseiro e sentar-se atrás do volante. — Oh, sim... sim, claro que vou.
— Poderá me explicar tudo então — ela comentou secamente, fazendo-o virar a cabeça.
— Você não está preocupada sobre eu e Francesca ainda, está? Sim, posso ver que está, mas isso não é necessário, querida. Ela seria a última mulher na Terra em quem eu tocaria. Realmente sinto muito, mais preciso ir ou perderei o vôo. Amo você! — Ele bateu a porta do carro e abaixou o vidro da janela. — Ligarei assim que possível para lhe contar toda essa longa história.
Lily observou o carro afastar-se, sentindo o coração apertado. Queria confiar nele, realmente queria. James parecera tão sincero. E ele dissera que a amava. Vinha dizendo aquilo muitas vezes ultimamente...
O arrependimento por não ter forçado o marido a esclarecer melhor seu relacionamento com Francesca atormentou Lily por toda tarde. Não devia ter sido tão fraca. Devia ter pedido que ele explicasse todos os detalhes sobre o noivado com Francesca e o posterior rompimento.
Só depois do chá, Lily finalmente começou a abrir a correspondência que chegara pela manhã. A primeira carta era a conta telefônica da casa e a quantia a deixou espantada. Era uma conta bem mais alta do que teria esperado, levando-se em conta que a família havia passado três semanas na Itália durante o mês anterior.
De maneira automática, seus olhos examinaram a lista de chamadas, detendo-se quando ela percebeu dois telefonemas internacionais no mesmo dia, um mais caro do que o outro. O primeiro fora feito para os pais de James, no domingo em que tinham chegado à Austrália e durara sessenta minutos.
O segundo era para um número em Milão... Um número com o qual Lily não estava familiarizada, e aquele tinha durado quase duas horas! O horário indicado na conta informava que a chamada havia começado às duas e cinco da tarde naquele mesmo domingo e terminado por volta das quatro, a mesma hora em que ela voltara para casa, vinda da mãe.
Lily olhou para o número, sentindo seu coração se acelerar. Sabia que aquele não era o telefone do escritório de Milão. Tal número ela conhecia de cor.
Já quase sem esperança, caminhou até a pequena mesa onde guardavam a agenda de telefones e endereços e abriu uma das gavetas. Apanhando o livro, ela abriu-o na letra "P" e procurou pelo endereço de Jeremy Potter em Milão. O número do telefone era o mesmo que constava na conta. James tinha ligado para Francesca e falara com a mulher por duas horas, enquanto ela estivera fora de casa!
Ela irrompeu em lágrimas. Como ele fora capaz? O traidor. O mentiroso. O bastardo!
Soluçando furiosamente, ela abriu a segunda conta, endereçada pessoalmente a James. Tratava-se de outra conta telefônica, mas dessa vez do telefone celular, o mesmo que James carregava consigo para qualquer lugar que fosse.
Com os olhos nublados e os ombros trêmulos, Lily procurou pelo mesmo número entre as ligações. E lá estava ele não uma mas três vezes. Certo, essas não eram chamadas longas, apresentavam duração de poucos minutos, mas uma delas a deixou chocada, realmente chocada, porque a ligação tinha sido feita na noite de quarta-feira, no horário das sete e quinze, quando James devia estar se preparando para a comemoração do aniversário de casamento deles.
Mesmo assim ele havia encontrado tempo para telefonar para Francesca!
Seu marido era um mentiroso, um adúltero e um bastardo. Tinha seduzido Francesca deliberadamente... talvez em um gesto de vingança, e estava mantendo um caso a distância enquanto amenizava as tolas suspeitas da esposa com as mesmas armas que usara com Francesca. Mentiras e sexo.
Lily não tinha acreditado nem por um momento sequer que Francesca tentara o suicídio. Aquilo não passava de uma tramóia para fazer James encontrá-la e lhe dar aquilo de que sentia falta. James, em sua cama. James, dizendo-lhe que tinha que voltar para a esposa, pelo bem dos filhos, mas que era a ela que realmente amava. Ela. Sempre ela.
Exatamente como a mãe de James tinha dito.
Lily passou do desânimo para o desespero, e então finalmente para o desejo de destruição. Toda sua fúria concentrava-se em James!
Daquela vez não faria vistas grossas. Não iria ficar calada nos bastidores como uma gatinha espantada. Não ia rolar na cama e esmurrar o travesseiro como uma louca, nem agiria como uma vadia estúpida como tinha feito na última quarta-feira.
Cerrando os dentes com força, Lily procurou na agenda o número do telefone da agência de viagens que costumavam usar e discou. Não havia mais vagas no vôo do dia seguinte que iria diretamente para Roma, mas ela poderia apanhar outro avião pela manhã, descer em Zurique e fazer uma conexão para Milão em seguida. Se não houvesse nenhum atraso, chegaria ao apartamento de Francesca menos de um dia depois de James.
Isso, é claro, se sua mãe concordasse em cuidar das crianças.
Aquele seria um grande favor para se pedir, mas se tratava de uma verdadeira emergência.
— Claro que poderei cuidar das crianças — Lisa ofereceu-se assim que acabou de ouvir toda a história que a filha lhe contara. — Vou tirar o restante da semana de folga. Mas não se incomode em trazê-los aqui. Prefiro fazer minha mala e ficar em sua casa. As crianças ficam mais à vontade no ambiente em que estão acostumadas.
— Oh, mãe, muito obrigada! Nunca serei capaz de retribuir esse favor.
— Bobagem. Para que servem as mães? Agora, não tire conclusões precipitadas, Lily. Só Deus sabe o que está acontecendo entre James e aquela mulher, e concordo que você não pode ficar parada sem fazer nada... Entretanto, ainda não acredito que James a tenha traído. Quanto mais penso no assunto, mais chego à conclusão de que o pobre homem está sendo manipulado por uma mulher astuta e perigosa. Ela trocou James por Jeremy quando isso lhe foi conveniente.
Sem dúvida, porque Jeremy era o filho mais velho e possivelmente o irmão mais rico... e agora que ele estava morto, a fulana voltava a atacar na direção de James.
Lily estava realmente abatida. Nunca tinha pensado em Francesca sob aquele ponto de vista. A mulher sempre lhe parecera uma criatura fraca e sem vontade própria.
Mas talvez sua mãe estivesse certa. Talvez, por baixo da máscara, Francesca fosse muito diferente do que aparentava, bancando a mulher indefesa para atrair os homens que queria, exatamente como uma aranha viúva negra tecendo sua teia.
— Talvez você esteja certa, mãe — ela disse friamente. — Mas eu não conseguiria ficar em paz se você não me ajudasse. Preciso esclarecer isso bem depressa. Oh, e mãe, quando James ligar amanhã de manhã, não diga a ele que não estou em casa. Diga-lhe que estou doente e você está cuidando de mim, por isso não posso atender o telefone. Diga-lhe que estou na cama dormindo, e sugira que ele tente ligar no fim do dia. Nesse horário já estarei lá, e o bastardo vai desejar não ter nascido!
— Oh, Lily, detesto vê-la assim tão amarga.
— Existem ocasiões na vida em que precisamos agir com determinação, mãe. Agora vou pegar algumas roupas e fazer minha mala. Vejo-a mais tarde.
Muito obrigada Ninha Souma, Joana Patricia e Lu Potter pelos comentários, e agora sim Lily vai confrontá-los, no próximo cap saberemos enfim toda a história que envolve Francesca. Será esse o fim do casamento?
