Capítulo 12

"COMO ELE É BONITO."

Foi o primeiro pensamento que lhe veio à cabeça quando abriu os olhos. Sentia a urgente necessidade de fechá-los de novo e deixar de pensar.

Ele estava sentado junto à cama, dormindo, mas mesmo assim não parecia descansado. Tinha os músculos tensos e o queixo obscurecido pela barba, vestia um fato negro, tão negro como as sombras debaixo dos seus olhos fechados. Ginny olhou para baixo e viu que tinha adesivo nos pulsos, com os seus dedos evitando tocar a agulha do soro.

A cinta do hospital que cobria a sua aliança parecia estar destinada a estar ali.

Ocultando a união que jamais deveria ter existido.

Ele era tão bonito como a primeira vez que tinha posto seus olhos nele, muitos anos antes, só que nesse momento havia muito mais entre eles, ela tinha crescido, ele tinha crescido. E agora existia um casamento de conveniência e uma dor onde deveria ter estado o seu coração.

Mas não se arrependia.

Em algum lugar do seu interior, ainda tentava justificar a dor. A felicidade que tinha encontrado nos seus braços, o carinho que a tinha rodeado quando os seus olhos tinham baixado a guarda, quando seus fortes braços a haviam abraçado como um homem deveria abraçar a uma mulher, o pensamento de que só Draco podia fazer tudo voltar a ficar bem.

- Ginny? - perguntou ele preocupado ao abrir os olhos. Tinha tirado o casaco e, ao olhar para ele, Ginny viu a marca do batom da Pansy, uma lembrança do que tinha ocorrido, se é que o necessitava. Sentiu os seus olhos encherem-se de lágrimas e olhou para outro lado, mas ele interpretou mal a sua agonia - Aqui – disse ele enquanto lhe punha um cabo na mão - Aperta-o. Tirar-te-á a dor.

«Nada tirará a dor», esteve a ponto de dizer ela. Os calmantes não serviriam de nada e misturados com as emoções que fervilhavam dentro dela seria uma poção explosiva, mas ainda tinha orgulho, ainda tinha algo que Draco jamais poderia destruir. Em vez de olhá-lo girou a cabeça para as cortinas e examinou a habitação, tentando lembrar-se exactamente da razão porque estava ali.

Era evidente que todos os quartos eram iguais ali, então por que pensava que aquele era o mesmo em que tinha morrido Ron? Que as cortinas brancas eram exclusivas para as suas perdas?

Perdas.

O bebé apareceu na sua consciência, aquela pequena vida que jamais tinha visto e nunca tinha desejado conscientemente. Mas agora que o tinha perdido deu-se conta do muito que o queria.

O seu bebé.

As lágrimas saíram de seus olhos, cada uma carregada de agonia pela perda de seu filho. Quando Draco pulsou o botão na sua mão, ela afastou-o. De algum modo queria, necessitava sentir a dor, a agonia física. O seu corpo exigia a lembrança de tudo o que tinha perdido.

- Sinto muito.

As palavras de Draco soaram insignificantes e vazias, uma vez que o seu filho tinha morrido.

- Deveria te ter escutado - acrescentou ele gentilmente e sentou-se no colchão, pulverizando o seu aroma ao redor de Ginny. Esta continuava sem conseguir olhá-lo - Não podia perceber por que não confiavas em mim, por que insistias em que havia algo entre a Pansy e eu.

- Não entendias? Como podes dizer isso quando estiveste a mentir-me o tempo todo? Supunha-se que eu tinha que me fazer cega cada vez que te deitasses com ela? É essa a linguagem que compreendes? – ela nem percebia como ele era capaz de falar daquilo quando ela acabava de perder um filho.

- Desde que a Pansy e eu rompemos não me deitei com ela.

- Economiza as palavras, Draco - disse ela apertando o botão. Mas aquela era uma dor que nenhuma droga poderia curar, uma agonia que a medicina moderna nunca sararia. A cura para um coração partido era tão evasiva como a de uma constipação comum, tanto uma como outra só podíamos esperar que passasse, e a doença era provavelmente igualmente predominante - Vi-te com ela. Apanhei-vos, não tentes sequer negar. Os teus empregados sabiam. O Rafaello quase teve um enfarte por ter que correr para te avisar que a tua mulherzinha estava a caminho, e mesmo assim tens a lata de te sentar aqui e me dizeres que não foste para a cama com ela?

Pela primeira vez Draco não se zangou, não mostrou fúria nenhuma. Em vez disso tirou-lhe o interruptor da mão, e agarrou-a com a dele.

- Precisas estar acordada para isto, Gin. Vais ouvir-me e tens que acreditar no que digo. - disse ele com tanto desespero na voz que Ginny quase se comoveu. Mas a dor que a afligia naquele momento tornou o seu coração tão frio que até a assustou.

- Não vou acreditar em nenhuma palavra que digas, Draco Malfoy! Nem preciso das tuas desculpas agora. Já perdi o suficiente hoje, já sofri o suficiente, já derramei lágrimas que cheguem. Vai embora! – ela disse com a expressão mais determinada que conseguiu com as lágrimas a escorrerem pela sua face.

- Não me vou embora. Quando me disseram que estavas no hospital senti que morreria se alguma coisa grave te tivesse acontecido…

- Não quero saber o que sentiste. Não quero saber o que pensaste. Como vês, eu estou óptima mas preferia ter morrido junto com ele. – desta vez a agonia foi mais forte que ela e os soluços dolorosos impediram-na de falar mais.

- Ginny…

- Sai! - ela conseguiu gritar entre os soluços.

Ele apertou-lhe a mão que ainda segurava e ela afastou-a repentinamente, sentindo uma dor aguda no local onde a agulha penetrava a sua pele.

- Ninguém morreu.

- EU ESTAVA GRÁVIDA!

- Eu sei…

- Quando cheguei o doutor disse que... Gravidanza ectopica probabile. Não precisei de um dicionário para traduzi-lo. Assinei o consentimento para...

- Probabile - disse ele - Significa provavelmente. Não perdeste o bebé mas estiveste perto. Tens uma gravidez de risco pela frente, irás precisar de cuidados durante os próximos meses e o bebé provavelmente será prematuro mas ele está a salvo.

Ginny julgou que nada no mundo podia lhe causar tamanha felicidade. Foi como se tivessem acendido uma grande lareira dentro de um quarto frio, inundando o seu ser com um calor reconfortante e vital.

- Ele… eu não…? - as lágrimas caíram com mais abundância mas desta vez ela não se importou. Eram lágrimas de alegria e alívio, lágrimas de reconforto e esperança.

- Está tudo bem, Gin. – Draco disse acariciando-lhe o cabelo com um sorriso na cara.

Naquele momento ela não se importou que ele a tocasse, naquele momento nem se lembrava que ele a tinha traído. Só importava o facto de o seu filho estar salvo, de ainda ter aquela criança protegida dentro de si. Ela ainda era mãe, no seu ventre carregava a prova do amor que sentia por Draco, carregava a pessoa mais preciosa naquele mundo, carregava uma vida, carregava um novo amor.

Enquanto chorava, deixando-se ser acariciada pelo seu marido, os calmantes começaram a fazer efeito e acabou por adormecer com tanta serenidade que teve um sono cheio de sonhos com crianças e alegria.

oOo

Abriu os olhos e a luz cegou-a. Semicerrou-os e viu um vulto mexendo-se. Conseguiu distinguir uma bata branca.

- Já acordou. – a voz de um homem disse ao seu lado. Parecia ter gritado nos ouvidos dela apesar de saber que ele tinha falado bem baixo. – Como se sente?

- Como se tivesse sido atropelada por um comboio. – ela disse e a sua voz saiu rouca. Tinha a boca mais seca que um deserto, quase conseguia sentir o sabor da areia na lingua. – Preciso de água.

- Aqui. – o homem disse e Ginny forçou-se a abrir os olhos. Um homem moreno, de olhos tão escuros como a noite e uma face capaz de fazer inveja a um Deus grego estava ao seu lado, usando uma bata branca por cima do que parecia ser uma camisa azul clara, segurando um copo de água. Ginny aceitou o copo e ele ajudou-a a sentar-se. – É normal que se sinta cansada, passou por muito nas últimas horas. Mas felizmente está tudo bem agora. Sentirá frequentemente nauseas fortes e tonturas devido aos medicamentos que administramos e terá que ficar sob observação por algum tempo mas tudo correrá bem.

E sem saber porquê, ela não conseguiu deixar de acreditar naquele homem que nem conhecia.

- Nem me apresentei. Chamo-me Leonardo Panini. Sou o médico que está a tratar de si.

Ela simplesmente acenou com a cabeça, enquanto bebia a água como se não houvesse amanhã.

- Onde está…?

- O seu marido? Julgo que foi a casa trocar de roupa. Passou aqui o dia inteiro e a noite ao seu lado.

- Dormi assim tanto tempo?

Ele riu tirando o corpo vazio das mãos trémulas da ruiva.

- Foi o efeito dos calmantes. Agora gostaria de a examinar. Posso?

Mais uma vez ela acenou afirmativamente com a cabeça e viu que ele auscultava a sua barriga, palpava aqui e ali delicadamente, depois aproximou-se da cara dela e examinou os seus olhos, seguido da sua pressão sanguínea.

- Parece-me que está tudo estável. Se precisar de alguma coisa é só carregar neste botão para a enfermeira vir logo. - ele disse e saiu. Ginny ficou a olhar para ele enquanto caminhava e depois fechou os olhos para conseguir pensar coerentemente.

- Estás melhor? - a voz de Draco fez o seu coração saltar, mas não abriu os olhos. Era como se os mantivesse fechados estaria a salvo da dor que ele era capaz de impingir no seu coração.

- Estou. – ela disse secamente. Ouviu ele movimentar-se ao seu lado, aproximando-se da cama.

- E o bebé?

- Está estável. – ela disse, lembrando-se das palavras do médico. Finalmente abriu os olhos para encarar outros cinzentos. Foi como se estivesse a vê-lo com Pansy novamente mas tratou de engolir a dor. Não iria chorar outra vez á frente dele.

- Porque não me disseste que estavas grávida?

- Eu tentei, várias vezes, mas havia sempre qualquer coisa mais importante para fazeres. Ou era o Snape, ou era a Pansy ou o teu trabalho. Ou estavas cansado, ou zangado, ou demasiado ocupado para me ouvir.

- Eu não sou assim tão inacessível. Devias ter me dito! – a voz dele mantinha-se calma mas ela sabia que ele não estava calmo.

- És! És inacessível quando se tratava de mim. Tinhas sempre alguém para ajudar. Falavas de mim, que eu era fechada e distante e no entanto também tu me afastavas, também me fechaste as portas e eu não sabia como chegar a ti. E depois a Pansy… eu tive medo, confesso, medo da tua reacção. A Pansy disse que tu a mandaste abortar quando ela julgou estar grávida e eu… como é que sequer foste capaz?

- Eu nunca lhe disse para abortar, nem sequer soube de qualquer possibilidade de gravidez porque nunca houve nem poderia haver. Eu seria incapaz de mandar alguém abortar, mesmo que a crinaça não tivesse sido planeada.- a voz dele começava a dar sinais de fúria.

Ginny começou a ver o quarto começar a andar á roda e fechou os olhos. Estava muito fraca para discutir.

- Não quero brigar contigo. Não agora, Draco.

- Desculpa. – ele disse e ela sentiu a honestidade das palavras dele.

- Quero voltar para Londres depois de sair daqui. A minha mãe cuidará de mim durante a gravidez e tu não terás que te preocupar com nada. – ela murmurou. Na verdade era a desculpa que tinha para se afastar dele.

- Nem penses. Estás á espera do meu filho, quero estar contigo, quero acompanhar a gravidez e temos mais do que gente suficiente para tomar conta de ti. Ficas em Itália, comigo. – ele não deixava lugar para argumentos nem ela tinha forças para fazê-lo.

- Tudo bem, mas uma vez que o bebé nasça e eu tenha a certeza que não corre perigo algum, quero o divórcio e volto para Londres. Ele vai comigo e nem tentes ir a tribunal porque vou lutar com unhas e dentes pelo meu filho.

Ela viu-o apertar o maxilar mas Draco não disse nada durante vários minutos.

- Eu era incapaz de tentar te tirar o nosso filho. – ele disse antes de virar as costas e sair do quarto.

A ruiva suspirou. Finalmente podia baixar a guarda que com tanto esforço erguera. As lágrimas mais uma vez escorreram pela sua face. Como é que tudo se tinha complicado tanto? Como é que uma pessoa sensata como ela tinha chegado áquele ponto?

Se não fosse pela vida que carregava dentro de si, ela era capaz de sair a correr daquele hospital e fugir para um lugar isolado do mundo, onde não houvesse Draco Malfoy, nem Pansy Parkinson, nem sequer Marcus Flint.

Fechou os olhos, certa de que não conseguiria dormir mas a escuridão dava-lhe uma sensação de conforto e protecção, como se o simples acto de fechar os olhos a protegesse do mundo que eles viam.

N/A: Tive peninha de vocês e decidi que não podia vos por a sofrer muito tempo á espera do capítulo, então em vez de estudar para os exames, andei a escrever este capítulo e espero que gostem, não é tão triste como outro, né? Sei que esperavam capítulo maior mas mais vale pouco que nada ;) e prometo que as coisas vão melhorar para a Gin Agora tenho mesmo que estudar =P, prometo que tiro um tempinho todos os dias para continuar a escrever mas não vou actualizar tão rápido. Beijo e não esqueçam de deixar review.

PS. Sei que não posso esperar que todos gostem do que escrevo mas tenho pena por perder um leitor que pelos vistos estava acompanhando a fic.