Em Mirkwood
Legolas aproximava-se de seus aposentos quando a figura encapuzada surgiu no corredor. Amras baixou o capuz e dirigiu-se ao príncipe.
- Lamento se falhei com o senhor, alteza – disse o noldor.
- Não houve falha alguma, meu amigo – Legolas esclareceu. – Sei o quanto meu pai pode ser persuasivo.
Após um breve silêncio, Amras prosseguiu.
- Irei embora o Reino da Floresta a qualquer momento.
- Por quê? – indagou o príncipe.
- Seu pai deixou claro que meus serviços não são mais necessários, então retornarei a Lórien. Um mensageiro chegou a pouco. Voltarei com ele dentro de alguns dias, conforme o rei o liberar. Embora minha estada em Mirkwood tenha sido agradável, será um grande prazer voltar a servir à Senhora Galadriel.
Legolas baixou os olhos.
- Eu sinto muito.
- Não sinta, alteza. Quando suas perguntas começaram, eu tive a certeza de que haveria consequências. Todavia creio que o conhecimento mútuo é uma arma bastante útil para trazer a paz a Terra-Média e fico feliz de ter contribuído. No entanto, se me permite o atrevimento, peço apenas que o que lhe disse não morra entre essas árvores. Há muitas falhas no povo de Aulë, porém também há coragem e honra. Que Yavanna Kementari, Rainha da Terra guie seus passos na missão que Ilúvatar depositou em suas mãos.
- Honrarei seus ensinamentos, Amras. Vou partir para Valle em breve, onde deverei me demorar durante alguns dias. E se não puder voltar a vê-lo, espero que tenha uma boa viagem e que leve consigo o melhor do Reino da Floresta.
O noldor agradeceu, fez uma reverência e se retirou.
No Quarto de Thórin
O príncipe despertou na poltrona onde havia passado a noite. Percebeu sobre si um cobertor que o havia protegido do frio noturno, sem conseguir se lembrar de quando o havia colocado. As botas foram retiradas de seus pés não por ele, estava certo disso. O príncipe piscou e balançou a cabeça, tentando se livrar dos últimos resquícios de sono e a lembrança da provável responsável o alcançou. Não se recordava de muita coisa, além de ter bebido o chá e de haver se sentado na poltrona. Mirou a cadeira vazia onde Sigel havia estado, prometendo a si mesmo jamais se deixar enganar novamente pela astúcia feminina.
Com Balin
O anão mais velho escutou pacientemente cada palavra que Thórin tinha a dizer. Sua sabedoria conseguiu perceber que o espírito do jovem precisava expulsar aqueles sentimentos ruins que toldavam sua mente. Uma a uma, Thórin atirava as palavras, ora esmurrando a mesa, ora erguendo-se da mesma, indignado. Mirava a janela por um momento e retornava, detalhando ainda mais o que havia acontecido.
Balin reconhecia que Thrór reagira de forma exagerada ao comentário do príncipe. Se o Rei Sob a Montanha estivesse em seu juízo perfeito, poderia até bufar e contradizer o que o neto tinha sugerido, porém banir Thórin de sua presença e humilhá-lo na frente da guarda real havia sido a comprovação definitiva de que ele não estava nada bem.
Quando parecia que o príncipe de Erebor já havia esvaziado sua aljava, Balin julgou que era hora de dizer o que tinha no coração.
- Creio que não podemos mais negligenciar a realidade, meu príncipe. Para ter agido dessa forma, seu avô deve estar tomado pelo mal do ouro. Espero sinceramente que encontremos um meio de ajudá-lo, no entanto isso será ainda mais difícil se a mágoa que vejo em seus olhos não puder ser remediada.
Thórin fitou o amigo.
- Não posso mentir para você, Balin, nem para mim. Sei que era o anel falando pela boca de meu avô, mas foi a voz dele que pronunciou as palavras de humilhação que me baniram de sua presença, foram os braços dele que me empurraram como se eu fosse um ladrão qualquer e foram seus olhos que me miraram com um desprezo que eu jamais imaginei ser capaz de suscitar. Sei que um dia serei vencido e o perdoarei, contudo esse dia não é hoje, Balin.
O mais velho silenciou. A mágoa na voz de Thórin era recente demais. Pouco ou nada ele poderia fazer para mitigá-la.
- Dê, então, tempo ao tempo, meu jovem – aconselhou o mais velho. – E veremos que em breve o sangue prevalecerá sobre a ira.
- Assim espero, Balin, assim espero.
Thórin permaneceu ainda alguns momentos na presença silenciosa do mestre e amigo, sentindo que conversar com ele realmente o havia favorecido. Quando julgou já haver tomado muito de seu tempo, o príncipe despediu-se.
- Obrigado por ter me ouvido, Balin.
Ele viu no sorriso que o amigo ofertou a confirmação de que Balin sempre estaria lá quando Thórin precisasse. Sim, o filho de Thráin sabia que poderia contar com Balin em qualquer circunstância.
Próximo aos aposentos dos curadores.
Após a conversa que havia tido com Balin, Thórin sentia seu coração um pouco mais leve, contudo muito tempo ainda seria necessário para que o príncipe se visse livre daquele peso. Caminhou decididamente até a entrada do corredor que levava aos aposentos da família de curadores. Havia um assunto pendente a ser resolvido. Permaneceu em seus arredores até que aquela pela qual ele procurava finalmente apareceu.
Como se tivesse chegado naquele momento, Thórin imprimiu passos em direção a ela. A anã carregava um cesto de ervas que enchiam o ar com sua fragrância refrescante. Sem saber exatamente a partir de quando, Thórin percebeu que já associava o cheiro de qualquer erva à Sigel.
Quando viu o príncipe de Erebor diante dela, a anã parou sem conseguir conter um certo ar de expectativa.
Thórin não se perdeu em rodeios e externou o motivo que o levara até aquele lugar.
- Eu dormi – ele dirigiu-se a ela.
- Espero que tenha dormido bem, altea.
- Melhor do que se poderia esperar, dado o estado de nervos no qual eu me encontrava ontem.
Sigel tentou agir com naturalidade.
- Fico feliz em saber. Uma boa noite de sono é um bem precioso.
Thórin estreitou os olhos. Ela estava fazendo-se de desentendida.
- Contudo penso que tenha conseguido usufruir dele somente devido a uma certa infusão que entorpeceu minha mente, algo que eu deixei bem claro que não gostaria que acontecesse.
- Preferiria ter passado a noite em claro, sendo sacudido por sua tempestade?
- Não gosto de fugir das lutas que se apresentam diante de mim – ele disse, cruzando os orgulhosos braços.
- Uma batalha sem objetivo, apenas pelo gosto da disputa, não merece ser travada. O que, além de olheiras, o senhor teria conquistado se passasse uma noite mal dormida?
- As utilidades de minhas lutas cabem a mim determinar. Não outorguei essa responsabilidade a ninguém, muito menos a você.
Sigel cerrou os dentes. Não era a primeira vez que se via na posição de suportar a ingratidão do príncipe, porém ela havia dito a si mesma que seria a última. Ele não era o único naquele diálogo com sangue Dúrin correndo nas veias.
- Sinto haver me intrometido em seus assuntos, meu senhor – ela principiou, determinada a dizer tudo o que ele merecia ouvir. – E posso lhe assegurar que da próxima vez que o encontrar com o espírito revolto em ira, não me desviarei de meu caminho para ajudá-lo a menos que o senhor o solicite e deixarei que a insônia lhe sirva de companhia para que o senhor veja o sol se por e nascer novamente, sem que suas pálpebras encontrem o repouso merecido. Se é disso que necessita para se sentir realizado, eu me disponho a ignorar suas necessidades de agora em diante, como parece ser de sua vontade – ela concluiu, sem conseguir disfarçar a mágoa.
Uma a uma as palavras de Sigel atingiram o peito de Thórin, fazendo com que ele quase se arrependesse do que tinha dito a ela. A jovem fez menção de passar por ele, seguindo o seu caminho.
- Um momento. Eu ainda não a dispensei.
Sigel parou.
O orgulho latejava no peito de Thórin, no entanto ele não podia deixar que ela se fosse. Não naquelas condições.
- Você tomou da infusão – disse sem olhá-la. – Por que não sentiu nada?
- Julga agora saber o que sinto ou deixo de sentir? – ela olhou para o lado, mirando o perfil do anão. – Estou acostumada a varar noites junto ao leito de meus pacientes, inspirando infusões bem mais fortes do que aquela. Sou mais resistente do que pareço.
Thórin ainda não se sentia a vontade para mirá-la nos olhos.
- Você me cobriu – ele comentou – e providenciou para que eu ficasse confortável. Por quê?
- Não queria que sentisse frio – ela respondeu o óbvio.
- Eu sei, mas por que meu bem-estar lhe importa a tal ponto?
Sigel sorriu levemente, meneando a cabeça. Anões e seu orgulho inabalável. Ela havia acabado de perceber o que o príncipe não ousava admitir e seu peito encheu-se de ternura. Por trás do perfil duro e das palavras de gelo, parecia haver um coração de carne.
- Meu senhor, pare com isso.
Ele virou o rosto em direção a ela, surpreso com suas palavras.
- Parar com quê?
- Se quer me dizer alguma coisa, apenas diga – ela comentou.
Thórin mirou os olhos de safira que se voltaram para ele, emoldurados na face clara cercada por fios dourados.
- Eu dormi – ele principiou com os olhos baixos – como há muito tempo minhas preocupações não me permitiam fazê-lo – ele parecia estar dividido entre demonstrar gratidão e ressentir-se por haver sido ludibriado por ela. E estas foram as únicas palavras que seu orgulho permitiu que ele dissesse. E Sigel as compreendeu.
A anã pousou inesperadamente a mão sobre o peito dele, fazendo-o erguer os olhos e fitá-la, incrédulo.
- Sigel, isso não é apropriado – ele disse, olhando para os lados.
- Lamento que necessite trilhar um caminho tão longo e difícil, meu senhor – ela prosseguiu sem dar ouvidos aos receios dele. - Sei que o orgulho e a fibra das rochas estão gravados a ferro em nossa carne, todavia há orgulho além da conta em seu peito e ele não lhe trará nada além de ruína.
A respiração de Thórin acelerou-se diante as palavras serenas e do olhar de safiras reluzentes.
A jovem começou a retirar a mão do peito de Thórin. O anão acompanhou com os olhos o movimento dela, lamentando o fato.
Sigel fez uma leve reverência e voltou a seguir seu caminho. Após alguns passos, ela permitiu-se olhar para trás. Talvez encontrasse sobre si os olhos de Thórin como ocorrera na noite anterior. Infelizmente o que viu a entristeceu deveras. O príncipe, de olhos cerrados, lutava consigo mesmo. Seu espírito de curadora conseguia sentir a angústia dele e lamentou que suas habilidades ainda fossem muito limitadas para que ela pudesse lhe proporcionar algum alívio.
Ela retomou seu caminho enquanto Thórin permaneceu um tempo considerável no corredor.
