Capítulo IX: os Seis Caminhos de Pain

Sentei-me à beira da janela, como fazia algumas noites para conseguir dormir. Olhei para o céu, as estrelas o cobriam até onde minha visão conseguia alcançar, a brisa gelada de inverno tocava minha pele, fazendo-me sentir arrepios. O dia que se seguiria a esta noite repleta de detalhes, típicas da estação mais rigorosa do ano, era o principal motivo que não deixava o sono levar-me para o mundo dos sonhos. A qualquer momento a Dor poderia fazer do mundo e do meu mundo um inferno.

Desde que protegemos a vila contra a destruição completa, derrotando o mentor dos planos contra Konoha mais repletos de crueldade, muitas coisas mudaram. Mais uma vez, a pessoa que eu considerava mais importante, até mesmo que minha própria vida, corria perigo. Dessa vez, não só Konoha, mas todo o mundo ninja sofreria as conseqüências se algo desse errado.

Havia se passado quase um mês desde que Naruto fora treinar com o Sapo Ermitão, em Myobokuzan, a Montanha dos Sapos, e eu não recebera nenhuma notícia dele, se estava bem ou se o treinamento estava realmente dando certo. Minha preocupação estava muito além dos limites normais, semanas se passaram desde que eu dormira descentemente pela última vez, meu coração se apertava de saudades o tempo inteiro e quase sempre eu continha meu choro desesperado, eu tinha de ser forte dessa vez, era necessário para que eu não o atrapalhasse.

A única coisa que me mantinha ocupada para que eu não enlouquecesse com todas essas paranóias era a minha missão de patrulha em conjunto do Shino, ficamos encarregados de vigiar os arredores de Konoha. Caso houvesse alguma invasão por parte da Akatsuki deveríamos informar rapidamente à Godaime para que ela chamasse o Naruto. Sim, nós estávamos depositando todas as nossas esperanças nesse treinamento, e isso era o que mais me deixava acordada durante as noites: o fato de que ele era o único que poderia tentar lutar de igual para igual contra Pain e os seus Seis Caminhos de Dor. Só de pensar nisso eu sentia um arrepio percorrer minha espinha, de modo que todos os meus pêlos se eriçassem com repúdio à idéia de que eram altas as chances de que Naruto perdesse, não só a luta, mas também a própria vida, de modo torturante, quando lhe fosse extraída a Kyuubi.

Às vezes eu chorava escondido, como agora, para tentar aliviar um pouco essa pressão exercida em volta do meu ser, tentando me esmagar sempre que lhe era possível. Mas assim que o sol nascia eu me recompunha para não deixar que ninguém percebesse os meus momentos de fraqueza, que eram constantes, mas que à noite se faziam insuportáveis.

Mais uma vez o sol nascia sem que eu tivesse conseguido descansar o mínimo necessário para ter forças de correr novamente em volta de Konoha como eu teria de fazê-lo, mesmo tendo dormido ou não. Sem muita demora eu me dirigi para o banheiro, lavei as lágrimas do meu rosto e tratei de forçar uma expressão neutra, de modo a não atrair perguntas demais sobre o meu bem estar. Escovei os dentes, troquei de roupa e desci as escadas, tomando o cuidado de não fazer barulho, não queria que minha mãe viesse se preocupar excessivamente comigo como ela vinha fazendo nos últimos dias. Em vão.

- Sakura...? – ouvi o chamado distante de minha mãe.

Respirei fundo e respondi.

- Sim?

- Espere, não está um pouco cedo para você sair? Sente-se, vou preparar algo para você comer...

- Não estou com fome mãe, pode voltar a dormir.

Forcei um sorriso, mas acho que não deu muito certo. Ela apenas olhou tristemente para o meu rosto e antes que pudesse dizer mais alguma coisa, saí pela porta.

O ponto de encontro com Shino era o Portão Principal de Konoha, geralmente eu chegava um pouco mais cedo por causa da minha insônia permanente. Era uma necessidade minha sair de casa, assim pelo menos eu parava de pensar nas coisas horríveis que me atormentavam todas as noites. Era pior quando eu conseguia dormir: os pesadelos não aliviavam em nada o meu cansaço.

- Bom dia Sakura-san. – Shino me cumprimentou, de longe.

- Bom dia Shino. – dessa vez não forcei um sorriso, pelo menos com ele eu podia ser verdadeira.

Ele parou de frente para mim e não fez mais nada. Vi sua expressão tomar contornos de preocupação e tristeza, sua respiração tornando-se um pouco mais pesada.

- Sakura-san... seus olhos estão fundos. Continua sem sono?

Apenas afirmei com a cabeça.

- Também percebi que perdeu um pouco de peso. Você não acha que deveria ir ao hospital, talvez tirar uns dias de folga...

Suspirei.

- Você sabe que eu não iria nem arrastada. Todos estão dando o seu melhor, pretendo fazer o mesmo. O que importa é o meu desempenho nas nossas patrulhas, o que faço ou deixo de fazer fora desse contexto é irrelevante.

- Mas Sakura-san, você é médica, sabe melhor do que eu que não vai durar muito tempo se continuar assim.

- Vamos. – disse, virando-me para iniciar a patrulha.

Shino demorou um pouco para vir atrás de mim, mas finalmente colocou-se ao meu lado, pulando entre os galhos da densa floresta que envolvia os arredores de Konoha. Eu não podia culpá-lo, tudo que ele disse era verdade, me partia o coração tratá-lo daquela forma, mas era o único jeito de tentar fazer com que parasse de se preocupar comigo, já era o bastante ter de se preocupar com a vila inteira.

Como de costume nós começamos a vasculhar a parte mais próxima dos muros de Konoha. Sempre que completávamos um perímetro, aumentávamos o raio para então reiniciar as buscas até que alcançássemos os limites da vila. Vez ou outra Shino liberava alguns de seus insetos para ficar de olho nas partes que nós já havíamos passado, sempre se preocupando de manter-se atualizado a cada quinze minutos.

Meu coração mantinha-se em ritmos variados, sempre acelerando quando havia alguma possível invasão por parte de Pain. Até o momento isso ainda não se concretizara, mas a cada dia que se passava, as chances de um ataque surpresa aumentavam absurdamente, eu podia sentir isso. Era frustrante o fato de que eu podia apenas esperar pela sua chegada, sendo impossibilitada de contra-atacar, tamanha era a diferença de níveis entre nós. Tudo que eu podia fazer era notificar Tsunade-sama, e eu o faria com todo o meu coração, o mais rápido que meu corpo agüentasse.

Enquanto mais uma vez eu me perdia em pensamentos, notei uma expressão diferente no que eu podia ver do rosto de Shino, e isso não devia significar boa coisa.

- Algum problema?

Ele permaneceu pensativo, nós paramos. Novamente, assim como daquela vez em que ele vira os akatsukis na Vila dos Cataventos, Shino sentou-se no chão fazendo alguns selos, ficando imóvel por alguns minutos. Esperei pela explicação que não tardaria muito.

- Vejo três silhuetas a leste de onde estamos.

Meu coração saltou em disparada, o suor frio porejando pelas minhas mãos. Era chegada a hora.