Parte 12

Por baixo do ar condicionado, Carlos escrevia um mail de relatório à directoria, tamborilando os dedos no teclado furtivamente. O calor abrasador do fim do dia enchia o pequeno escritório, trespassado pelo sol que raiava através das persianas corridas. No cimo da secretária reinava a confusão de amontoados de papeis empilhados vertiginosamente e copiosa quantidade de canetas, lápis e pequenos livros espalhados ao acaso. Fazendo uma pausa, Carlos sacudiu ao de leve a cabeça por baixo da corrente de ar fresco e levantou-se para ir buscar uma bebida ao pequeno frigorífico.

Rodava agora a cadeira segurando umas folhas nas mãos passando os olhos pelo que lá estava escrito, quando a porta se abriu. Voltou-se para ver quem chegava e o espanto assolou-o ao se aperceber de quem era.

April.

Levantou-se de imediato, ainda demasiado surpreendido para falar. De um branco deslumbrante, ela vestia um camisa por cima de um top e envergava umas calças curtas e justas. O cabelolevemente ondulado caía-lhe pelos ombros em madeixas de tom dourado. A expressão era séria e os olhos demonstravam o seu nervosismo.

-Eu... preciso de falar contigo... - Murmurou enquanto fechava a porta atrás de si. Carlos ainda mal tinha pousado o copo, abriu a boca preparando-se para falar, mas ela cortou-lhe a palavra.

-Quero falar contigo sobre o que aconteceu antes... - Desviando o olhar do dela, Carlos iniciou em tom baixo. - Não, não tens de o fazer, não há problema, a sério, eu percebo. O coração pesava-lhe no peito dolorosamente, já receava o que ela poderia dizer.

-Não acho que compreendas. - O sobrolho franzido curvilíneamente, mostrava o receio das palavras que iria proferir. - Eu não vou viver nas sombras, não vou passar a vida escondida.

Carlos olhou-a por um momento, pensando depressa. Pensara que que ela iria falar sobre o que acontecera depois da sua última conversa, de como a tinha beijado, mesmo depois de ter jurado a si próprio que não o voltaria a fazer. De o ter feito a frente de toda a gente. Pensara que ela o perdoaria. Mas ela nem sequer reparara nisso.

Dor percorreu-o por todo o corpo ao aperceber-se do que se passava. Um tom de dureza ameaçou tomar controlo a medida que falou. - Eu sei que as coisas agora são diferentes, April. E eu sei que tu sabes, mas eles não. Eu não vou mudar a minha decisão. Tens de fugir, não interessa o quão inconveniente que seja para ti. Ele voltou-se caminhando para a porta. Tinha-se apoderado do punho desta na mão quando sentiu uma mão no braço.

- Carlos, eu tenhu algo a dizer e é melhor ouvires. - Estavam os dois parados no limiar da porta, o céu, obscurecido pelo passar do tempo, ameaçava chover a qualquer momento.

-Eu não vou ser posta de parte, não me importa quem eles pensarem que são. - Os pingos de chuva começaram a cair-lhes nas faces, misturando-se com as lágrimas que caíam da face dela. - Eu não vou ser resguardada e não me vão dizer o que posso ou não fazer. Entendeste? Não és o único que pode fazer com bem te apetece.

O cabelo dourado escorria agora água, delineado ao longo da face dela, estavam os dois no meio do jardim, completamente encharcados.

-Achas realmente que seria estúpida o suficiente para não saber que eles acabariam por vir atrás de mim? É isso que pensas? Ora, já é mais que tempo que alguém te puxe do teu trono onde tens estado sentado ão e trazer-te de volta à Terra onde o resto de nós vive. Tu achas que és o único que sabe alguma coisa do que se está a passar! Tu pensas que és o único que pode fazer alguma coisa sobre isso! Bom, eu não quero ser aquela que te acorde tão bruscamente, mas há coi-

Mas ela não teve opurtunidade de dizer o que havia ou não havia. Carlos tinha dado um passo em frente e tomou-a nos seus braços e inclino-se para provar novamente o fogo que tinha permanecido adormecido desde o último encontro. April empurrou ou punhos contra os ombros dele, tentando afastá-lo, mas Carlos não a soltaria. Segundos depois, ele não precisava de o fazer. Os lábios dela acenderam-se e ela beijou-o com igual intensidade, pondo os braços de volta do pescoço dele e puxando-o para si. Carlos perdeu-se num momento maravilhoso em que não existia mais nada a não ser April.

Lentamente, foram-se apercebendo que estavam no meio de chuva cerrada e vento gelado, e abrandaram o seu ímpeto, até que, relutantemente, April deixou os lábios dele e, em silêncio, deixou que Carlos a levasse pela mão até ao interior de novo. Sem produzirem um som, caminharam até á entrada dos apartamentos. Então, April subiu até aos dormitórios femeninos, deixando Carlos a pensar como poderia alguma vez ter duvidado dela.