CAPÍTULO 12

Acordei no dia seguinte sem notícias de Paul. Ele provavelmente tinha chegado de madrugada e era muito educado para ligar nesse horário. Isso se ele veio mesmo.

Fui para a escola já ansiosa para largar. Provavelmente teria algum recado dele na secretária eletrônica quando eu chegasse. Chegamos à escola mais cedo que o normal porque Brad tinha reunião do time antes da aula e por isso havia poucos alunos por lá. Mas Cee Cee e Adam já estavam lá sentados em um dos bancos do pátio. Eles costumavam chegar naquele horário para namorar um pouco. Eles acenaram quando me viram e eu fui na direção deles sentando no banco ao lado. Ficamos conversando um pouco e eu nem me importei de segurar vela para eles. Cee Cee e Adam não eram do tipo de namorados que ficavam se agarrando o tempo todo. Eles se limitavam a pegar na mão um do outro e vez ou outra Adam ficava acariciando os cabelos lisos de Cee Cee. Era muito fofo de se ver.

Uns dez minutos antes de a aula começar, eu vi Gina se aproximando de nós.

- Bom dia. – ela falou assim que nos alcançou.

- Oi Gina. – respondi – Bom dia. Esses são meus amigos, Adam e Cee Cee. Pessoal, essa é Gina. – é claro que eles sabiam quem ela era já que foi Cee Cee que me falou dela no dia anterior, mas Gina não sabia disso.

Eles se cumprimentaram rapidamente e Gina se voltou para mim.

- Telefone para você.

Só então eu percebi que ela estava com um celular na mão que me estendia. E é claro que Cee Cee e Adam ficaram curiosos. Eles não sabiam que eu já tinha conhecido a novata e nem que tinha tanta intimidade a ponto de alguém ligar para o celular dela para falar comigo. Eu peguei o aparelho, meio receosa embora soubesse quem era.

- Alô? – me afastei um pouco do local para evitar que eles ouvissem algo que não deveriam.

- Oi Suzannah. É Paul. – claro que era ele. – Desculpa não te ligar antes, mas eu cheguei muito tarde e achei melhor não ligar para a sua casa. – como eu disse: muito educado.

- Sem problemas.

- Então... nós podemos nos encontrar essa tarde depois da sua aula?

- Claro – tudo bem que o que eu queria mesmo era passar a tarde com Jesse, mas ele ia entender. – Onde?

- Eu estou hospedado no Pebble Beach Hotel and Golf Resort. – claro que ele estava lá. Aquele era simplesmente o hotel mais caro da região. Nunca em minha vida eu poderia sonhar em ficar hospedada ali. – Você poderia vir aqui?

Hein? Eu? Encontrar um homem que eu nem conheço num quarto de hotel? Não mesmo meu camarada.

- Não pode ser em outro lugar? Eu não tenho como chegar aí. – tudo bem que tinha ônibus para lá, mas era muito longe.

- Você pode pegar uma carona com Gina. Ela também vem.

Epa. Aí as coisas mudam um pouco. Não que eu conhecesse Gina há séculos, mas era outra garota indo junto comigo.

- Só um instante. – afastei o celular do rosto e me virei para falar com Gina que conversava animada com Cee Cee. – Gina?

- Oi? – ela virou para mim, ainda com um sorriso no rosto. Quem bom que eles estavam se dando bem.

- Você vai encontrar com Paul depois da aula?

- Vou.

- Posso ir junto?

- Deve! – ela me encarou como se eu estivesse louca. - Porque você acha que eu vou? Estou tão curiosa quanto você.

- Certo. – tinha que inventar alguma desculpa para aqueles dois que estavam sentados na frente de Gina nos encarando ainda mais curiosos. Voltei a falar com Paul. – Tudo bem, então. A gente se vê depois da aula.

- Ok. Até mais. Boa aula.

- Obrigada. – desliguei e devolvi o celular à dona na hora que os professores se dirigiram às salas para iniciar a aula.

No caminho Gina ficou do meu lado e falou baixo para que Cee Cee e Adam, que estavam atrás de nós, não ouvissem.

- Eu tenho aula agora com sua amiga. Ela vai me fazer perguntas, não vai?

Não era tão difícil assim reconhecer a personalidade de Cee Cee. Ela era muito transparente. E eu não digo só na cor.

- É bem provável. – eu respondi no mesmo tom.

- Ela vai fazer perguntas para você?

- Com certeza!

- O que você vai dizer? – ela perguntou quando já estávamos chegando à sala dela.

- Alguma idéia?

- Você pode dizer que vocês descobriram que têm um amigo em comum. – mas não foi Gina que respondeu. Stephanie se materializou ao nosso lado nesse momento fazendo com que uma garota mais nova a atravessasse e sentisse um arrepio pelo corpo. Ela olhou para trás, mas seu olhar atravessou o corpo de Stephanie. Ela deu de ombros quando não viu nada e voltou a andar.

- Estava nos espiando, Steph? – Gina perguntou pelo canto dos lábios.

Ela apenas riu.

- Eu gostei da idéia. – falei.

- É. Eu também. Obrigada, maninha.

- Disponha. – Stephanie respondeu e sumiu.

Depois da aula eu fui até onde Jake estava ao lado do carro para avisar que não iria para casa. Inventei uma desculpa qualquer de que iria fazer um trabalho na casa de uma amiga e disse que chegaria antes do jantar. Depois fui até onde Gina me esperava e entramos no carro dela. Eu não entendia muito de modelos de carro, mas sabia que o dela era um Mercedes Benz e dos caros.

- Bonito carro. – comentei depois que ela deu a partida.

- Obrigada. Meu pai me deu assim que chegamos aqui.

- Quando eu me mudei o máximo que eu ganhei foi o quarto com a melhor vista da casa.

Ela riu enquanto dirigia pela cidade.

- Mas não é que meus pais sejam bonzinhos nem nada do tipo. – ela falou – Apenas eu que sou muito esperta. – ela viu que eu a encarava confusa e tratou de explicar – Eu não queria me mudar de jeito nenhum para cá. Sabe... eu simplesmente adoro New York. – dava pra notar pela forma que ela se vestia. – Então eu disse a eles que se eles me obrigassem a sair de lá eu faria o que fosse preciso pra ser expulsa da escola no primeiro dia de aula.

- Você é louca. – eu comentei rindo.

- Talvez. – ela também riu. – Mas então eles me ofereceram essa belezinha aqui – falou dando uma palmada de leve no volante – em troca de eu prometer me comportar. E você sabe... um presente desses não se recusa.

- Que carro é?

- Um Mercedes Benz SLK 55.

- Ah. – essa vida era muito injusta mesmo. Gina tinha a minha idade e já tinha um celular e um carro enquanto o máximo que eu consegui foi uma extensão no meu quarto. Muito injusto.

Chegamos ao hotel depois de um tempo e ela estacionou em uma vaga próxima a entrada. Gina tirou o celular da bolsa e discou um número assim que saímos do carro.

- Paul, chegamos. Ok. Estamos indo. – ela desligou e guardou o aparelho – Vamos. Ele pediu para esperarmos na recepção.

Fomos até a recepção e sentamos em um dos sofás confortáveis que ficavam dispostos por todo o saguão.

- Olá Gina. – falou uma voz grossa atrás de mim.

Eu me virei na sua direção no mesmo momento que Gina levantou para cumprimentá-lo. Mas antes, me deixa falar a idéia que eu tinha desse Paul. Gina já tinha me dito que ele era muito inteligente, então era meio óbvio que eu imaginasse que ele usava óculos. Também imaginava ele pálido, magro, com gel no cabelo, mais ou menos no estilo do Henri, mas com mais estilo já que ele era podre de rico. Mas ainda assim eu imaginava um nerd. Ah, e pelo jeito que ela falava dele, dizendo que ele tinha experiência no assunto e tal, eu o imaginei com uns trinta anos ou mais. Não poderia estar mais enganada.

Eu me deparei com um cara que devia ter a minha idade, mais de um metro e oitenta e pele bronzeada, com cabelos castanhos encaracolados e olhos muito azuis sem nenhuma lente de óculos na frente. Gato é pouco para descrevê-lo.

Ele cumprimentou Gina com um abraço e voltou-se para mim.

- Você deve ser Suzannah. – quem mais?

Eu levantei e fiquei de frente para ele tentando disfarçar o meu choque devido a sua aparência de modelo de cuecas.

- Oi. – Oi? Só oi? Quantos anos você tem? 10?

Eu apertei a mão que ele me estendia enquanto me encarava com um olhar estranho. Como se estivesse olhando para uma obra de arte raríssima. Quase com adoração. Eu não sei como estava a minha expressão. Provavelmente com uma cara bem idiota. Só esperava não estar babando. Uma pena que eu nem pude passar em casa para me arrumar melhor. Estava com uma saia branca que ia até os joelhos e uma blusa básica azul marinho. Tudo muito simples graças a minha mania de querer posar de santinha. E ali estava Paul. Lindo e elegante com uma calça social preta e uma camisa de botões branca com as mangas dobradas até o cotovelo. O príncipe e a plebéia.

Epa! Que papo feio é esse, Suzannah Simon? Você tem namorado! E um namorado lindo e maravilhoso que você ama muito e que te ama também. Claro que eu não tinha esquecido isso. Foi só um momento de fraqueza que já passou. Só de lembrar do meu amor eu já ficava com o coração acelerado.

- Venham. – ele falou depois que soltou minha mão – Vamos para um lugar mais calmo para conversarmos sem interrupções.

Espero que esse lugar não seja o quarto dele, mas eu não tinha muitas esperanças. Não que vá fazer alguma diferença o local que vamos conversar. Afinal, Gina também estava lá. E, além do mais, eu não tenho porque ficar encucada com esse cara. Tudo bem que ele é lindo, mas Jesse também é. Eu só estava ali para saber as respostas das minhas dúvidas e mais nada. Depois disso cada um ia para um lado.

Paramos em frente a uma porta depois de subirmos pelo elevador até o último andar e ele passou o cartão no leitor. O quarto dele, é claro. Na verdade, parecia mais um grande apartamento de luxo com uma sala enorme, sala de jantar, cozinha e havia duas portas fechadas em uma das paredes que deveriam ser do quarto e do banheiro. E a vista pela enorme janela era simplesmente maravilhosa. Uma praia com areia branquinha e a água azul do mar que se estendia até perder de vista.

- Querem beber alguma coisa? – ele perguntou educadamente depois que entramos.

- Alguma coisa bem gelada – Gina respondeu enquanto sentava em um dos confortáveis sofás sem a mínima cerimônia. – Essa cidade é muito quente.

- É isso que dá você ficar usando essas roupas de couro aqui. – Paul falou se encaminhando para o bar – Você não está mais em New York.

Gina deu língua para ele e não respondeu.

- Você quer alguma coisa, Suzannah?

- O mesmo que você pegar para Gina. – respondi sentando ao lado dela. – E pode me chamar de Suze.

- Claro. – ele riu enquanto pegava três latas de refrigerante do frigobar.

Depois que todos estavam instalados confortavelmente, Paul sentou em frente a nós, e já tendo bebericado um pouco do refrigerante para refrescar, começamos finalmente a conversar sobre o que interessava. Paul foi o primeiro a falar.

- Eu estou muito feliz por te conhecer, Suze.

Dava para notar isso, já que ele não parava de me olhar e sorrir para mim.

- Obrigada por vir até aqui, Paul. – eu já estava começando a ficar constrangida pela forma como ele me olhava – Mas não precisava ter feito isso. Eu poderia fazer as minhas perguntas por telefone mesmo.

- De forma alguma. Em primeiro lugar, eu não confio muito em conversas por telefone. E em segundo lugar, eu não poderia perder a oportunidade de finalmente conhecer uma Deslocadora. – ele sorriu para mim, simpático – Meu avô não teve essa chance e eu não poderia desperdiçá-la.

- Tudo bem então.

- Será que eu poderia te pedir uma coisa antes de começarmos?

- Claro. – o que ele poderia querer de mim?

- Eu preciso de provas. – ele agora estava sério.

- Quê?

- Eu quero ver pelos meus próprios olhos o que você faz. Eu quero ver você tocar em um fantasma.

- Ah.

- Relaxa, Paul. – Gina falou entre um gole e outro – Eu já vi. É verdade.

- Mas eu quero ver assim mesmo.

- Mas... não tem nenhum fantasma aqui. – eu disse olhando ao redor.

Ele voltou a sorrir para mim.

- Se você é mesmo uma Deslocadora, você pode chamar qualquer fantasma até você que ele virá.

- Como? – essa era nova.

- Um Deslocador tem esse dom. Você só precisa se concentrar em algum fantasma e chamá-lo pelo pensamento. E ele ouvirá independente de onde estiver.

- Você está falando sério?

- Sim. Vamos. Tente.

Não custava nada tentar, certo? Fechei meus olhos me sentindo um pouco idiota. Só esperava que aquilo não fosse uma pegadinha. A primeira pessoa que me veio à mente foi Jesse e eu já estava quase chamando seu nome quando mudei de idéia. Ninguém sabia que eu namorava um fantasma. Sem contar Brad, mas ele não sabia que Jesse era um fantasma. Não sei por que, mas eu achei melhor deixar isso em segredo por enquanto. Não sei como Paul e Gina reagiriam quando ou se descobrissem, mas eu não acho que seria de uma forma boa. Afinal, eles eram Mediadores e eu não queria que eles tentassem mediar meu namorado. Mas eu ainda tinha que levar um fantasma para aquela sala. Lembrei de Stephanie e imediatamente me concentrei nela e chamei seu nome em pensamento. No instante que abri os olhos ela se materializou na minha frente.

- Alguém chamou? – ela perguntou com as sobrancelhas franzidas.

Meu Deus! Isso era...

- Incrível! – Paul exclamou completando meus pensamentos. – Só Deslocadores podem fazer isso.

Ele deu um sorriso enorme de aprovação para mim. Como se eu precisasse da aprovação dele. O que eu precisava mesmo era de respostas.

- Precisa de mais alguma prova? – eu perguntei com uma sobrancelha erguida.

Ok. Eu estava meio que me sentindo a tal agora que tinha descoberto que podia chamar fantasmas só com a força do pensamento. E tudo bem que foi Paul que me ensinou isso, mas eu tinha coisas mais importantes para perguntar para ele. Como, por exemplo, aquilo que Gina me falou sobre me deslocar entre o mundo dos mortos. Isso era muito interessante. Eu acho.

- É claro que não, mas... – ele hesitou – eu gostaria muito de ver isso. Se você não se importar, é claro.

Bem, pedindo assim...

- Tudo bem.

Eu levantei e fui até onde Stephanie estava. Quando estendi a mão para tocá-la ela se esquivou.

- O que você quer? – ela perguntou me olhando desconfiada.

- Calma Steph. – Paul respondeu por mim – Eu pedi para ela me mostrar o dom dela. Mas só a parte de te chamar e te tocar.

Stephanie ainda me olhava desconfiada e não se mexeu.

- Stephanie – Paul insistiu -, ela não vai te levar a lugar nenhum. Eu prometo. – sua voz era baixa, tranqüilizadora.

Ficou um clima meio estranho no ar, mas eu não consegui identificar o que era.

- Eu sou cobaia agora, é? – ela perguntou com a voz mais descontraída.

- Por favor. – ele pediu lançando aquele sorriso maravilhoso para ela.

- Ok. Mas só dessa vez! – e se aproximou de mim estendendo a mão esquerda na minha direção.

Eu simplesmente toquei no seu braço de leve ela voltou a se afastar. Olhei para Paul e ele estava estático. Aos poucos um sorriso foi aparecendo no seu rosto e logo ele começou a gargalhar. Tem cada louco nesse mundo. Que medo! Então ele fez uma coisa que me pegou completamente desprevenida. Ele veio rápido na minha direção e me pegou nos braços me dando um abraço apertado de tirar o fôlego.

- Paul... você... está... me sufocando. – eu me esforçava para falar no meio do seu abraço.

Ele me soltou devagar ainda sorrindo.

Aquilo foi muito estranho. Muito mesmo. Embora ele não parecesse achar o mesmo.

- Desculpe, eu me empolguei. – percebi – Mas é que é tão incrível.

Eu voltei a sentar no sofá, um tanto constrangida. Não pelo fato dele ter me abraçado daquela forma. Por mais estranho que possa parecer eu não senti nada quando aquele corpo musculoso – é, dava para sentir seus músculos através da roupa – entrou em contato com o meu. Não senti uma faísca sequer quando ele me tocou. Eu acho que era porque eu já me sentia tão atraída por Jesse que era fisicamente impossível meu corpo corresponder a outro que não o dele. Quando eu abracei Paul – ou melhor, quando ele me abraçou – foi como se eu estivesse abraçando um irmão. Não que eu abraçasse meus meio-irmãos... Ah! Teve aquela vez que Jake me abraçou depois que eu o ajudei a se vingar da Kelly. Hum... é, definitivamente foi igual a abraçar um irmão. Ou meio-irmão.

Mas o que me deixava constrangida era toda aquela veneração que Paul parecia ter comigo. Eu não sei se eu estava gostando muito disso.

- Posso ir agora? – Stephanie perguntou, interrompendo meus pensamentos.

- Pode. – Paul respondeu sentando novamente – E obrigada.

- Certo. Tchau maninha.

- Tchau Steph. – Gina respondeu. Todo esse tempo ela se mantinha calada, recostada descontraidamente no sofá.

- Ok. – Paul falou assim que Stephanie sumiu – Sei que você tem perguntas a me fazer. Pode começar.

Ai. Por onde começar? Tinha tantas coisas para perguntar, mas estava tudo tão confuso na minha cabeça.

- Me explica um pouco como é essa coisa de ser Deslocador.

Ele se posicionou de forma mais confortável no sofá e pensou um pouco antes de falar.

- Bem, como você já percebeu, um Deslocador é bem diferente de um Mediador. Vocês têm contato com fantasmas como se eles ainda estivessem vivos – eu bem sabia disso – e ainda podem "convocá-los" a qualquer momento. Claro que depende apenas do fantasma se ele vai responder ao seu chamado ou não. E por poder fazer tudo isso, fica muito mais fácil para você fazer com que eles sigam seu caminho.

Isso me lembrou da pergunta que eu mais queria fazer.

- Gina me falou algo sobre poder transportar fantasmas para o mundo dos mortos.

- Isso mesmo.

- E como funciona isso?

- Vocês também têm o poder de se deslocar no tempo e no espaço. Esse é o principal diferencial de um deslocador.

- No tempo e no espaço? – que coisinha mais cafona de se dizer. E estranha.

- Sim. Pelo que meu avô descobriu sobre o assunto vocês podem se deslocar deste plano da existência ao próximo. Antigamente, no Egito, os Deslocadores eram contratados pelas famílias dos mortos como guia para os espíritos para garantir que seus entes queridos terminassem onde deveriam em vez de ficar andando sem objetivo pelo planeta. Mas é claro que eles não eram conhecidos como Deslocadores na época. Eram chamados de xamãs.

- Mas como é que faz isso? Como eu faço para me deslocar de um lugar para outro?

- Você só precisa pensar no lugar que quer ir, em qualquer tempo, e se concentrar nisso. Você poderia fazer isso agora mesmo se quisesse.

- Isso parece ser... – eu não sabia bem como eu me sentia com relação a isso. Mas era bom saber que meu trabalho como Mediadora...opa, Deslocadora, poderia ficar mais fácil – legal. – completei.

- Não tanto. – ele falou sério.

Eu o encarei com o cenho franzido.

- Como assim?

- Você tem essa capacidade de se deslocar entre os mundos, mas não deve usá-la.

- Porque não? – eu me senti como uma criança que recebia uma linda boneca e depois descobria que não poderia tirá-la da caixa.

- Por que isso pode matá-la. – ele falou ainda mais sério do que antes. – Talvez não agora, mas com o tempo. Isso faz mal para o corpo humano. – ele explicou quando viu minha cara assustada. Eu sabia que era isso que transparecia no meu rosto, pois era como eu me sentia – É como se suas células ficassem fracas a cada vez que você se desloca. Com o tempo elas morrem e seu corpo começaria a definhar aos poucos.