Peço mil perdões por ter demorado tanto a postar esse capítulo! Estou de férias, mas o estágio está a todo vapor e isso toma meu tempo ):

Como forma de recompensá-las, trouxe esse capítulo um pouco maior pra vocês lerem! Espero que gostem! n-n


A voz de Hinata soou trêmula, e o olhar de Sakura se voltou para ela. A moça fitava o esposo, os olhos enormes e redondos, o rosto completamente desprovido de cor.

- Com que direito entra no reino dos mortos? – exigiu Sasuke.

Kiba desviou o olhar da esposa. Curvou-se, em primeiro lugar para Sasuke e depois para Sakura. Então correu os dedos de leve pela lira, como se testando sua prontidão. Quando falou, suas palavras formaram acompanhadas por notas leves, e sua voz foi a magia que as uniu:

Ó, Hades, que o mundo silencioso e escuro governa,

a ti toda mulher nascida deve vir,

pois todas as coisas belas a ti regressam.

Tu és o credor que é sempre pago

pelos que sobre a Terra permanecem.

Pela eternidade somos teus, assim.

Procuro, todavia, alguém que veio a ti muito cedo:

botão que foi colhido antes de florejar.

Tentei aceitar minha perda, mas, ah, eu a amo tanto

que aos poucos essa dor vai me matar!

Meu amor é muito forte;

seu poder, devastador.

Por isso te peço: o que era meu, retorna-me

e tece outra vez as tramas dessa doce vida

que tão cedo teve fim.

Peço-te apenas isto: que a devolvas a mim.

Ao chegar a hora, tua ela será outra vez.

Porque, ah, eu a amo tanto

que a dor de sua ausência

aos poucos está me matando!

As palavras de Kiba chegaram a fim, entretanto seus dedos continuaram roçando as cordas suavemente.

Sakura sentiu o coração partir ao meio. A música a tocara como nenhuma outra. Sentiu as faces úmidas e tocou o rosto, enxugando as lágrimas que ela nem percebera derramar.

Olhou para o deus sentado em silêncio a seu lado. Seu rosto também refletia tristeza pela canção do mortal. Sasuke fez menção de falar; entretanto, quando seus olhos escuros viram os dela cheios de lágrimas, ele suspirou.

- A escolha é sua. Permiti que deliberasse a sentença seguinte, mas, mesmo que eu não o tivesse feito, a vida de Hinata é sua prerrogativa. Apenas você poderá libertá-la; portanto, por duas vezes lhe foi concedido o poder de decidir sobre seu destino. Decida com sabedoria, deusa da Primavera – falou em uma voz que espelhava a emoção da música de Kiba.

Sakura suspirou, trêmula, sentindo pela primeira vez a impressionante responsabilidade que se exigia de uma deusa. O futuro de Hinata repousava em suas mãos.

Ela se virou na cadeira para encarar a moça.

O corpo delgado de Hinata continuava rijo. O único movimento nele era o das lágrimas que corriam por sua face pálida e pingavam no tecido de seu diáfano vestido.

- Como você morreu? – Sakura perguntou suavemente.

Hinata não respondeu.

A melodia de Kiba mudou para uma canção mais melancólica, que sublinhou suas palavras:

- Apenas um mês após o nosso casamento, fomos fazer uma caminhada ao luar. Hinata se perdeu por conta de uma súbita neblina e escolheu o caminho errado. Em vez de este conduzi-la de volta para mim, seu amado marido, levou-a a um ninho de víboras onde ela encontrou a morte.

Embora Kiba não cantasse, suas palavras ainda soavam líricas. Sakura sentiu que estas criavam um manto de tristeza ao seu redor, e tornou a chorar pela tragédia da morte de Hinata.

Então aquela fora a escolha errada da menina. E a perda de seu jovem marido, o preço que ela havia pagado. Um preço que ainda pesava sobre sua alma.

Sakura observou que a moça continuava emudecida pela tristeza, mesmo diante de Kiba. Comovida, estendeu o braço e apertou a mão da pequena alma. Esta era fria, e ela pôde sentir os tremores que sacudiam o corpo frágil de Hinata.

- Eu a liberto – disse em meio às lágrimas. – Pode retornar à vida com seu marido. Agora compreendo sua tristeza e fico feliz em poder ajudá-la.

Hinata engasgou com a surpresa. Seu corpo tremeu visivelmente, assim como seus lábios.

- Oh, querida! Não se preocupe comigo. Eu ficarei bem, Naruto cuidará de mim, assim como o deus do Submundo. – Sakura tornou a lhe apertar a mão, buscando o apoio de Sasuke com o olhar.

O deus sombrio observava Hinata, atento.

- Perséfone fez sua escolha e eu me curvo a ela. Porém, com uma condição... – Sasuke encarou Kiba. – Hinata pode retornar ao Mundo dos Vivos apenas se você não olhar para trás. Deve confiar que ela o seguirá. Quando sair deste palácio, não poderá pôr os olhos nela até que a pequena alma tenha partido do meu reino e esteja uma vez mais no mundo mortal.

- Sua vontade é uma ordem. Ela me seguirá, disso eu não tenho dúvida. – Kiba se curvou diante de Sasuke e Sakura. – Nunca mais deixarei de louvar sua benevolência com o meu canto. – Seus olhos capturaram os de Hinata, e, mais uma vez, suas palavras se transformaram em música:

Segue-me, segue-me!

Juntos para sempre ficaremos

Tu me pertences, pertences a mim..

Unidos para sempre seremos.

Kiba continuou extraindo magia de sua lira. Com um último olhar penetrante para a esposa, ele se virou, e, entoando seu canto, caminhou pelo Salão Nobre.

Hinata começou a segui-lo, como se ele a tivesse laçado com uma corda invisível. Tropeçou nos degraus do altar, mas endireitou o corpo e seguiu aos trancos atrás do marido.

Olhou uma única vez por cima do ombro, e Sakura ficou chocada com a expressão vidrada em seus olhos. A pequena alma parecia mergulhada num transe.

Kiba e Hinata saíram do palácio, e Sasuke falou em meio ao repentino silêncio:

- As petições estão encerradas por hoje.

Naruto bateu a lança contra o chão de mármore, e o grupo de mulheres se curvou para Sakura mais uma vez antes de desaparecer pela porta de entrada, deixando-a sozinha com Sasuke e Naruto.

Nenhum deles proferiu uma só palavra.

Sakura não conseguia tirar da cabeça a expressão de Hinata enquanto esta acompanhava o marido para fora do salão.

Enrolou um fio de cabelo ao redor do dedo, intrigada. Era como se a menina estivesse presa. Agora que Kiba e sua música mágica haviam ido embora e a cena se repetia em sua cabeça, algo parecia fora do lugar.

Na realidade, sua intuição gritava que alguma coisa estava muito errada.

- Vou voltar para os meus aposentos – disse, tentando parecer indiferente, e sorriu brevemente para Sasuke. – Obrigado por me convidar. Achei tudo muito interessante. – Segurando a respiração, desceu os degraus do altar, apressada, na esperança de que Sasuke não a impedisse de sair dali. Fez um sinal para Naruto, que continuava de pé na entrada do salão. – Pode me levar de volta ao meu quarto? Quero descansar um pouco. Essa tensão toda me deixou exausta.

Sakura viu o daimon lançar um olhar inquiridor por cima do ombro, contudo ele devia tido o aval de Sasuke, pois acedeu e, solícito, conduziu-a para fora do Salão Nobre. Quando já estavam distantes da sala de audiência, ela parou e puxou a manga de Naruto para que ele a encarasse.

- Há algo errado com Hinata. Posso sentir isso. Não percebi nada enquanto Kiba tocava sua música, mas, logo que ele se foi, tudo mudou.

- O que deseja fazer, Sakura? – Naruto perguntou, baixando a voz.

- Preciso segui-los. – Sakura não soubera o que ia dizer até ter falado... Porém as palavras a fizeram se sentir bem. – Tenho que me certificar de que tomei a decisão certa ao deixá-la voltar para o marido.

Naruto aderiu solenemente.

- Ninguém quer que ela se magoe.

- Claro que não.

- Venha por aqui – ele orientou, decidido, e levou Sakura rapidamente para a frente do palácio. – Essa é o caminho. Apontou para a trilha de mármore preto. – Hinata não deve estar muito longe.

- Obrigada, Naruto! – Ela o abraçou num impulso, em seguida saiu correndo.

- O Submundo é seu, deusa da Primavera! – o daimon gritou atrás dela. – Pode ir e vir à vontade. E Hinata também pertence a este reino. Mas Kiba é um mortal: uma vez que passar pelo portal, não poderá mais voltar enquanto permanecer vivo.

- Vou me lembrar disso! – ela respondeu por cima do ombro.


- Sakura foi atrás de Hinata? – Sasuke perguntou ao amigo.

- Sim.

Ele caminhou pelo salão vazio, inquieto.

- Kiba estava escondendo alguma coisa. Sua música teceu uma teia de sedução, porém suas palavras eram falsas. A pequena alma não queria segui-lo.

- Concordo, teme. - Naruto falou com convicção.

Sasuke parou de andar.

- E você gosta de Hinata, dobe.

Não era uma pergunta.

- Sim – confessou o daimon.

- Tem certeza?

- Hinata me faz rir. E eu não ria há eras. Também me faz feliz, me sinto diferente perto dela.

- Já se conheceram bem? – perguntou o deus das Trevas.

- Ainda não houve tempo para isso. E ela é tão moça! – lamentou Naruto, impotente.

Sasuke concordou.

- As mulheres são seres complicados.

- Verdade.

- Traga-me o elmo da invisibilidade. Vou seguir Sakura. É possível que eu tenho de interceder para corrigir esse erro.

O alívio inundou as feições de daimon.

- Obrigado, teme.

O olhar de Sasuke se aqueceu.

- Não precisa me agradecer, dobe.

Naruto caminhou, apressado, para o suporte que segurava o elmo da invisibilidade. Agarrou-o com firmeza e, como sempre, seu peso foi uma surpresa para ele. Este parecia tão leve, mas, na verdade, era um enorme fardo para carregar.

Levou o elmo para o senhor do Submundo, e Sasuke o tomou de suas mãos. Em seguida, fez uma pausa, pensativo.

- Naruto, preciso que faça algo por mim.

- Claro.

- Veja se Eneias esteve em Elísia recentemente.

- Fique tranquilo.

O deus assentiu. Depois, em um movimento rápido, colocou o elmo da invisibilidade sobre a cabeça.

A dor que varreu seu corpo foi excruciante, porém ele apertou os lábios e se recusou a ceder à agonia. Passaria logo, lembrou a si mesmo. Tudo o que valia a pena tinha um preço.

Respirou profundamente até recuperar os sentidos.

Naruto assistiu ao corpo do deus ondular e, em seguida, desaparecer.

- Traga-as de volta, Sasuke! – falou para o espaço vazia diante dele.

A resposta de Sasuke flutuou até o daimon, já vindo do outro lado do salão:

- Eu as trarei.


Sakura avançava, depois abrandava o passo, conseguindo manter Hinata à vista sem se colocar ao alcance da música de Kiba.

- Ele não se cansa nunca? – indagou para si mesma.

Ao considerar a situação com a mente limpa, em vez de nublada pelas notas de um feiticeiro disfarçado de músico, não fora difícil para ela perceber o perigoso efeito que a música de Kiba tinha sobre todos que a ouviam. Os mortos interrompiam sua peregrinação por Elísia quando ele passava. Flores e árvores balançavam em sua direção. Até mesmo ela ficava sorrindo como uma boba se chegava perto demais de sua voz.

-Urgh! Kiba parece aquelas guloseimas que são doce demais! Deliciosas à primeira vista, mas capazes de provocar vômitos logo em seguida – Sakura falou para si mesma, feliz por se ver atenta apenas à própria voz enquanto cumprimentava brevemente os espíritos que, surpresos, faziam reverencias e se curvavam enquanto ela passava, apressada.

- Eu devia ter sido mais esperta. Devia ter prestado mais atenção a Hinata do que a esse fedelho que canta! E não devia ter sido tão arrogante em relação àquela cena toda de Dido – conclui, mordendo o lábio, frustrada.

O céu à sua frente começou a mudar, e um calafrio percorreu seu corpo. Sabia muito bem que a luz se desvanecendo sinalizava o final da parte bela do Submundo. Estava refazendo o caminho pela qual ela e Hinata tinham vindo do Mundo Superior.

Obrigou-se a não pensar nos sonhos ruins e nas trevas. Se Hinata passaria por ali novamente, ela também passaria.

À sua frente, ouviu um latido assustador. Pouco depois, a música distante ficou mais alta, e os latidos se transformaram em grunhidos de filhote.

Sakura abanou a cabeça. Que diabo Kiba estava fazendo?, perguntou-se com uma careta.

Armando-se contra o feitiço da música, apressou o passo até caminhar num ritmo constante, e as pernas longas de Perséfone a carregaram rapidamente. Sua respiração continuou profunda e regular, e ela sorriu com satisfação. O corpo de Perséfone não era apenas jovem; também estava em grande forma.

A trilha fez uma curva abrupta para a esquerda, e Sakura estacou. Bloqueando o caminho, bem à sua frente, estava um cão monstruoso. A criatura medonha se avultou sobre ela e rosnou num aviso ameaçador.

Ela piscou, tentando clarear a visão, mas a imagem permaneceu diante dela.

- O maldito tem três cabeças! – disse, ofegante.

O "maldito" rosnou outra vez, e Sakura apertou os lábios. Era apenas um cão. Claro que o maior cão que ela já havia visto... E, merda!, tinha três cabeças!

A criatura tornou a rosnar com saliva escorrendo pelas três bocas.

O rosto de Sakura se iluminou com um sorriso aliviado assim que sua mente atordoada processou o que ela via. O monstro não era nada mais do que uma versão gigante de Edith Anne, com a mesma papada e baba pendendo da boca, só que multiplicada por três.

Seu riso fez três pares de orelhas se erguer em sua direção.

Ela avançou, falando em um tom que considerava o seu mais "canino" (o qual era muito diferente de seu "tom felino", pois gatos não toleravam conversa de bebê de nenhum tipo):

- Ei, bonitinho! – chamou, delicada.

O monstro abanou as três caudas, hesitante.

- Que surpresa maravilhosa! E pensar que eu já estava sentindo falta de Edith Anne! Acho que agora vou ter que transformá-lo no meu Cãozinho do Inferno enquanto eu estiver aqui – falou, já a curta distancia da horrenda criatura.

- Arfgh!? – respondeu a fera.

- Edith adora quando eu faço carinho em suas orelhas. Venha cá. Abaixe-se um pouco para experimentar. – Sakura estendeu a mão delgada em direção a uma das seis orelhas, e o monstro inclinou a cabeça para que ela a acariciasse.

Uma das outras cabeças da besta suspirou e roçou seu braço, quase fazendo-a perder o equilíbrio. As outras duas ganiram, lastimosas.

- Cachorro bonito... – Sakura sorriu, batendo de leve no focinho molhado da cabeça do meio, e fazendo o terceiro cão uivar como um filhotinho carente. – Ah, venha aqui... Que tal um carinho sob o queixo?

Enquanto sussurrava, acariciava e seduzia o monstrengo, Sakura vasculhou a mente em busca de um nome.

O Cérbero é o cão de guardo do Submundo. Sua função é devorar qualquer alma que tente escapar e evitar que pessoas vivas entrem no reino de Hades.

- Isso, garoto! – Sakura prosseguiu. O cão ganiu e todas as três cabeças lhe deram aquele olhar triste de cachorro. – Não se sinta mal. Kiba me enganou também.

Três caudas balançaram no ar.

- Tudo bem, vamos fazer um acordo. Vou seguir aquele músico impostor e Hinata. Só precisa cuidar para que o "Linguinha de Ouro" não passe por você de novo! – Ela tentou reunir os três pares de olhos. – Entendeu bem?

O Cérbero se agitou e latiu.

- Ótimo. Já vi reprises de Lassie o suficiente para saber quando um cachorro diz "sim". Seja um bom menino, quero dizer... sejam bons meninos. Eu os verei na volta.

E, com um carinho final em uma das orelhas, Sakura deixou o guardião do Submundo abanando os rabinhos e latindo tal qual um cachorrinho feliz.

Saiu, apressada, retomando seu ritmo com determinação.

- Eu não devia ficar tão surpreso – Sasuke murmurou para si mesmo depois de observar Sakura enfeitiçar o Cérbero como havia feito com suas montarias. Seguro dentro da invisibilidade proporcionada por seu elmo, ele seguira a deusa de perto o suficiente para ouvi-la censurar a si própria por ter permitido que a música de Kiba a influenciasse em seu julgamento. Sakura era muito mais sábia do que imaginava. Pois ele também não seu deixara enganar pelas palavras do mortal? E isso porque era um deus maduro e experiente no comando de seu reino!

Verdade que ela era uma deusa, mas parecia uma criança. E, mesmo assim, continuava a dar provas incríveis de maturidade.

Por exemplo, o instinto dele lhe dizia que Naruto confirmaria que Eneias havia acabado de entrar em Elísia. Como Sakura tinha percebido a dissimulação de Dido quando tudo o que ele observara fora uma alma feminina adorável acostumada à presença de imortais?

E ela ainda se opusera a seu ponto de vista, não com a ira típica das deusas, mas com lógica e discernimento.

Sasuke riu ao se lembrar da aposta que Sakura havia feito. Antes de ela ter vindo visitar seu reino, ele jamais teria acreditado que a deusa fosse muito mais do que uma jovem e fútil divindade.

Sakura acariciou o Cérbero, e Sasuke sentiu uma súbita onda de ciúme por conta da atenção que ela dispensava à criatura de três cabeças.

Apertou a mandíbula. Queria que Sakura o tocasse.

O pensamento fez suas mãos suar. Era chocante, porém ele não podia mais negar: talvez o que Naruto dissera fosse verdade. Talvez fosse melhor, mesmo, experimentar um pouco de felicidade do que nenhuma. Maldito dobe! pensou, com um sorriso de canto.

Enquanto seguia às pressas pela estrada, Sakura pensou que, mais cedo ou mais tarde, teria que voltar a visitar o cão de três cabeças outra vez. Quem sabe pudesse levar um agrado para ele. Edith Anne, sua cadela, amava Bacos... Certamente o pessoal da verdadeira Hell's Kitchen, a cozinha do Inferno, poderia fritar um pouco de bacon para um lanche. Ao se lembrar do tamanho da criatura que acabara de conhecer, contudo, concluiu que eles teriam que fritar muito bacon para o Cérbero.

A estrada fez outra volta abrupta, e Sakura estacou, quase caindo na beira de um lago que ameaçou engolir seus pés. Suas águas eram densas e negras, quase oleosas.

Olhou ao redor. A escuridão cercava toda a lagoa, de modo que a água parecia se estender infinitamente para todos os lados.

Estremeceu, porém tratou de se recompor. Ela era uma deusa, lembrou, medindo cada palavra com cuidado.

Ilumine o lugar!, sussurrou sua consciência.

Com uma exclamação de alívio, Sakura levantou a mão e ordenou:

- Preciso de luz!

A esfera incandescente brotou de sua palma e pairou sobre ela.

- O que deseja, senhora?

Ela pulou e soltou um gritinho estridente que, com certeza, não a qualificaria como uma deusa. Surgindo da escuridão, um homem esquelético se materializara a seu lado. Usava vestes cinzentas que se arrastavam no chão e carregava um longo cajado, fazendo-a se lembrar das varas que os gondoleiros usavam para conduzir os barcos pelo canal de Veneza.

Mas era ao que sua semelhança com qualquer coisa mortal ou romântica acabava. O homem era um ser repugnante, cujos olhos enormes, cor de âmbar, brilhavam com uma estranha luminescência.

Sakura não precisou vasculhar a memória para lhe dar um nome. Era nínguem menos do que Caronte, o barqueiro do Inferno.

- Preciso seguiu Kiba e Hinata. Você os transportou através do lago?

- Sim, senhora.

- Então eu quero ir também.

- Como desejar, senhora. – Ele fez um gesto largo e, de repente, um barco apareceu, empurrando o banco de areia a seus pés.

Dizendo a si mesma para não pensar em naufrágios, lagos sem fundo ou coisas assustadoras que poderia estar à espreita logo abaixo da superfície, Sakura subiu na embarcação, tomando assento próximo ao centro.

Caronte entrou no barco e se inclinou para fincar a vara no fundo do lago, porém parou em meio ao movimento e ficou muito quieto, como se estivesse ouvindo palavras sussurradas. Balançou a cabeça com o mais breve dos movimentos, fez uma pausa e, em seguida, finalmente os empurrou para longe da margem.

- A viagem não é longa, senhora.

Sakura assentiu e tentou, sem sucesso, relaxar. Manteve os olhos focados adiante, não querendo olhar para a água.

Uma lembrança a invadiu: a cena de O senhor dos anéis, no momento em que Frodo e Sam atravessaram os Pântanos Mortos. Estremeceu,com medo de olhar para dentro da água e ver refletidos rostos de cadáveres. Seu único consolo era a esfera de luz que pairava lealmente perto de seu ombro.


Sakura estava com medo. Com tanto medo que ele quase arrancou o elmo da cabeça.

Mas, então, se lembrou de sua reação quando zombara dela por ser jovem e mimada. Provavelmente Sakura não ficaria muito feliz com sua interferência, por ele ter usado o elmo como subterfúgio... muito menos com o fato de ter se disfarçado para segui-la.

Seus instintos, entretanto, sussurravam para que ele a tomasse nos braços e a protegesse de seus medos.

Como sempre, Sasuke ouviu a voz da razão, embora, pela primeira vez em sua existência, ansiava por seguir a do coração.

Caronte sentiu a presença de seu deus. Sabia que, quando embarcara com a Deusa da Primavera, o senhor da Trevas também entrara no barco. Também se deu contar de que o deus do Submundo queria manter a deusa alheia à sua presença.

E se havia uma coisa que sabia fazer era ser discreto.

Sasuke permaneceu na extremidade oposta da embarcação com os olhos fixos em Sakura. Viu a maneira como ela se agarrava ao assento: com tanta força que tinha os nós dos dedos esbranquiçados. Também mantinha a espinha ereta, como se, assim, pudesse se armar contra seu pavor. Sua pequena luz iluminava o espaço ao redor, e ela parecia estar flutuando em um halo que era quase tão fascinante quanto sua beleza.

O barco encontrou uma marola e oscilou perigosamente. Sakura estremeceu inteira em resposta.

Rápido, mas com cuidado! A raiva de Sasuke viajou até os pensamentos de Caronte. O barqueiro concordou com um discreto gesto de cabeça, mesmo estremecendo sob a fúria do deus.

Com o senhor do Submundo em permanente vigilância, o restante da travessia foi rápido e tranquilo.

- Siga o caminho que conduz até lá adiante, senhora. – Caronte apontou para a frente, na escuridão, e Sakura saiu do barco para a margem. – O portal de Hades fica um pouco além. Após passar por ele, encontrará a entrada para o Mundo Superior.

Sakura percebeu que não precisava de nenhuma coordenada. Deméter tinha razão. Era como se seu corpo pressentisse o caminho para o mundo lá de cima.

Mesmo assim, sorriu educadamente para o barqueiro.

- Obrigada, Caronte. Conheço o caminho a partir daqui. – Deu alguns passos, parou e voltou-se para o homem alto. – Vai estar aqui quando eu voltar, não vai?

Caronte quase sorriu.

- Sim, senhora.

- Ainda bem.

Sakura e sua esfera de luz se afastaram do lago e, sob o manto de invisibilidade, Sasuke as seguiu.

Os portões cor de marfim assomaram diante dela. Por sorte não havia nenhum sinal do misterioso nevoeiro formado por pesadelos.

Passando pelas portas, Sakura estreitou os olhos, tentando avistar a forma etérea de Hinata, mas não viu nada além do veludo da escuridão.

Parou e tentou escutar alguma coisa. Ainda podia ouvir a música, porém esta parecia distante e indistinta.

Ah, por favor, não permita que seja tarde demais!, rezou em silêncio enquanto disparava a correr com a vontade de uma velocista.

Passou pelo bosque de árvores brancas como um relâmpago, em seguida encontrou a passagem subterrânea e deu um suspiro de alívio. Dentro deste, divisou duas silhuetas: uma a vários metros à frente da outra.

Correu silenciosa e rapidamente, cobrindo a distancia que a separava de Hinata em um só fôlego.

Mas a música era tão doce! Lina sentiu os ombros relaxar e os passos vacilar. Deveria descansar um pouco e depois... Não preste atenção à música!, sua mente gritou as palavras, e, com o poder de uma deusa, ela bloqueou a enfeitiçante melodia de Kiba.

De repente, e com muita clareza, Sakura foi capaz de ouvir algo que ficara abafado sob as notas até então: o choro de Hinata. Como se pressentisse sua presença, a moça olhou por sobre o ombro e, quando a viu, suas feições se transformaram com a força de sua emoção.

Sakura percebeu que Hinata ainda lutava contra o feitiço da canção de Kiba. Mesmo estando quase na boca do corredor escuro, a pequena alma continuava tropeçando e arrastando os pés, resistindo como podia à atração que a música do marido exercia.

De súbito, num descomunal esforço, ela proferiu silenciosamente apenas uma palavra na direção de sua deusa:

Socorro!

Kiba entrou na luz solar do mundo dos vivos, e Sasuke ergueu as mãos para tirar o elmo da invisibilidade e fazer algo que ele nunca tinha feito: revogar sua palavra, não permitindo que Hinata deixasse o Submundo.

Antes que pudesse agir, contudo, Sakura o fez: agarrou Hinata pela mão e a segurou de tal modo que a moça conseguiu impedir a si mesma de pisar na luz.

Então, com uma voz doce que representava bem a sua ingenuidade, a pequena alma chamou o músico, que permaneceu de costas.

- Oh, meu Deus! Kiba, veja! A luz do sol faz com que minha túnica fique transparente, e não tenho nada por baixo!

Com um grito de vitória, o jovem e arrogante músico se virou.

Seu olhar de triunfo desapareceu, no entanto, quando percebeu que encarava a esposa e a deusa Perséfone, e que ambas continuavam em segurança na boca escura do Submundo.

- Nãããão! – Seu grito de fúria ecoou pelo túnel, e ele saltou para a frente.

Invisível, Sasuke ergueu a mão e emitiu um comando silencioso.

O corpo vivo do músico tentou passar pela sombria entrada de seu reino, e o ar ao seu redor pareceu solidificar.

Kiba cerrou o maxilar e tentou avançar outra vez, mas a barreira invisível o impedia. Quanto mais lutava, mais firme a barreira se tornava.

- Você pertence a mim! – Suas palavras não eram mais sedutoras ou mágicas, e sim duras e cruéis.

Hinata se encolheu, como se com medo de que ele a surrasse.

Sakura sentiu uma onda de raiva invadi-la.

- E você parece uma criança mimada, Kiba! Não pode possuir a alma de outra pessoa. Volte para o seu mundo e deixe Hinata em paz!

- Nunca! Ela sempre será minha!

Sakura abanou a cabeça. Conhecia bem aquele tipo de homem. Ele nunca se contentaria apenas em amar uma mulher. Sua espécie precisava controlar, intimidar, subjugar...

Percebeu a ira se expandindo dentro dela, o que conferiu poder às palavras que atirou em Kiba:

- Vá embora, fedelho!

Algo se chocou contra o músico, ergueu seus pés e o lançou para longe do corredor sombrio, até que ele desapareceu.

Aparentemente, havia descoberto outro poder da deusa Perséfone, Sakura refletiu com um sorriso amargo. Ninguém deveria irritar uma deusa.

Sem saber que estava sendo seguida pelo deus invisível, passou um braço em torno de Hinata, que ainda soluçava em silêncio. Apoiando seu peso leve, afastou-se do Mundo dos Vivos e conduziu a moça pela escuridão acolhedora do túnel, depois pela clareira das árvores brancas.

Uma vez segura dentro do corredor sombrio, Hinata desabou no chão. Tinha parado de chorar, mas estava ofegante como se tivesse acabado de correr uma maratona.

-... Você veio atrás de mim! – ela se esforçou para falar enquanto lutava para controlar a respiração.

Sakura sentou-se a seu lado e a abraçou com força.

- Claro que vim. Eu sabia que algo estava errado. Desculpe eu tê-la deixado ir... Foi a música. A princípio não consegui pensar claramente por causa dela, mas, assim que partiu com Kiba, percebi que não queria ir com ele.

- Não. – Hinata estremeceu, porém buscou forças no abraço de sua deusa. – Eu não queria ir com ele.

- A escolha errada que disse ter feito... Não foi ter tomado o caminho que a levou à morte, foi? – Sakura quis saber.

- Não - confirmou a moça, a voz tornando-se mais forte enquanto falava. – Kiba foi a minha pior escolha. Eu o conheci, e no dia seguinte estava comprometida com ele. Fiquei tão cega pela magia de sua música, que nem mesmo olhei para sua alma. Se eu tivesse feito isso, teria visto que seu coração era cheio de crueldade, mas não me dei contar de nada até que fosse tarde demais. – Hinata estremeceu, porém tentou se controlar. Precisava desabafar. Ficara em silêncio por tempo demais. – Tudo começou com coisas pequenas. Ele não gostava do meu cabelo, pediu-me que mudasse. Eu obedeci. Depois implicou com as minhas roupas, com meus amigos... – As palavras vinham cada vez mais rápido. – Tentei contar à minha família, mas eles só ouviam a música de Kiba. Entregaram-me a ele de boa vontade, acreditando que a minha hesitação era puro "temor virginal". Depois que nos casamos, Kiba nem sequer me permitiu visitar minha família. Não suportava minha ausência. Era como se quisesse me consumir. Se eu tentava ficar longe dele, mesmo que fosse para ter um momento de privacidade, ele me batia. Kiba me bateu várias vezes. A vida com ele era uma prisão. – Os olhos de Hinata continuaram marejados, porém as lágrimas cessaram. – Quando o nevoeiro fez com que eu me perdesse dele, simplesmente fugi. Nem mesmo vi o ninho de cobras. No final, fiquei feliz por ter sido mordida. De certa forma foi um alívio.

- Você é muito corajosa. – Sakura tocou a face úmida da garota.

- Acha isso mesmo, Sakura?

- Claro que sim. Tem a palavra de uma deusa.

Hinata sorriu.

- Então devo acreditar. – Sua expressão mudou, tornando-se introspectiva.

- O que foi, querida? – Sakura quis saber.

A menina olhava para o caminho que levava de volta ao Submundo.

- Tenho que ir. Não posso ficar tão próxima do Mundo dos Vivos. Não me sinto bem.

Sakura concordou com um gesto de cabeça. Podia ver a necessidade nos olhos da pequena alma.

Os passos de Hinata se mostraram confiantes conforme ela atravessava o bosque de árvores cor de leite, e Sakura a seguiu vagarosamente.

Quando se embrenharam por entre as árvores, ela parou, e a moça a fitou por cima do ombro.

- Não vai voltar comigo? – A voz de Hinata soou assustada mais uma vez.

- Sim, não se preocupe. Eu estou indo. – Sakura hesitou. – Importa-se em ir na frente, querida? Preciso fazer algo, primeiro, e não quero obrigá-la a me esperar.

- Mas, vai voltar para o palácio de Hades?

Sob o elmo da invisibilidade, o deus prendeu a respiração à espera da resposta.

- Claro que sim. Eu só preciso ter uma conversa rápida com Deméter.

Ele e a menina suspiraram, aliviados.

Hinata compreendia a necessidade de Sakura de falar com a deusa Deméter, até porque, de certa maneira, ela havia tomado o lugar de sua mãe viva. Assentiu com um sorriso.

- Posso voltar antes para o palácio, então.

- Não vai ficar com medo de ir sozinha?

- Não. Meu lugar é aqui. Não sinto mais medo.

Sakura a abraçou outra vez.

- Não vou me demorar muito.

A pequena alma sorriu e cruzou os portões cor de marfim.

Conforme Sakura adentrou o bosque novamente, ouviu a voz da garota ecoando através dos galhos.

- Vou providenciar para que deixem uma refeição pronta para você! Vai estar faminta quando voltar!

Sakura sorriu. Hinata ficaria bem.


O que acharam da revelação da Hinata? Ainda bem que a Sakura-chan percebeu a tempo e salvou nossa pequena alma!

Pra quem não conhece, a história de Kiba e Hinata foi baseada na lenda de Orfeu. Orfeu perdeu sua esposa Eurídice depois que ela foi mordida por cobras e o mesmo foi atrás dela no submundo. Porém ele deveria sair do reino de Hades sem olhar pra trás, o que não aconteceu e assim, a perdeu para sempre. A informação do Kiba bater em Hinata não faz parte da lenda.

Elektra Black: Agora você sabe porque o Kiba foi até o submundo! Mas deu tudo certo e a Hinata não foi com ele, ainda bem! Espero que tenha gostado!

Andressa Martins: Ahhh, pode ter certeza que logo logo esses dois vão acabar cedendo ao que lhes puxa tanto um pro outro. Sasuke-kun já está até com ciúmes! hahahaha! O Kiba até tentou, mas a Sakura-chan foi mais esperta e salvou a Hinata! Espero que tenha gostado! *-*

É isso então! Nos vemos no próximo capítulo (que não demorarei tanto a postar, prometo!)

Beijos,

Uchiha Lily!