Parte XXIII
There's a million voices screaming that this love's a dead-end road
But the only voice that I hearis telling me "go"
Fechei a porta e, antes que eu pudesse me virar, Finn me abraçou.
Ele estava esperando com a maior paciência do mundo que eu enfim desligasse as luzes do Spotlight e viesse para a rua.
Quando me abraçou, me prendendo em seus braços, eu soltei uma risada.
"Tenho uma novidade", murmurei. "Hmm", ele também murmurou no meu pescoço.
"Posso contar no loft?", perguntei.
Como todas as noites eu estava meio esfomeada e cansada, portanto o que eu mais queria era chegar ao loft. Já tinham se passado quase duas semanas desde que Finn tinha me pedido em namoro, mas nossa rotina ainda era a mesma. Apesar de o semestre na NYADA começar a me incomodar devido aos trabalhos de preparação, aos relatórios e as aulas cada vez mais puxadas, eu não queria me afastar de Finn. Aquelas semanas tinham proporcionado algumas mudanças também para ele: Sr. Schue tinha lhe cedido uma semana de experiência na oficina, e Finn tinha passado no 'teste', então agora ele trabalhava lá fixamente por oito horas, assim como Blaine. Quando Finn me contou aquilo, parecia uma criança toda empolgada. Não que eu tivesse algo contra o emprego – afinal, eu era garçonete –, mas achei graça de ele ter ficado tão feliz por ter de ficar sujando as mãos de graxa e coisa e tal. Eu nem imaginava que ele tinha habilidade com carros e motos, no sentido mecânico da coisa, mas aquilo me deixou feliz também.
A única coisa que não me deixava tão feliz era que, agora, não eram todas as noites que nos víamos. Mas eu sabia que a responsabilidade era importante.
Finn nem mesmo quis deixar Puck na mão com aquele negócio deles de piscinas; eles tinham combinado que de segunda a sexta, caso houvesse clientes, Finn o ajudaria. E como Sr. Schue mantinha a oficina aberta até mesmo nos domingos (sabia daquilo, porque o encarregado de ficar lá, quase sempre, era Blaine e o garoto oriental, Mike).
"Não sei se gosto de suspense", Finn disse.
"Ok, sabe as aulas de bateria? É melhor você recomeçar a ensaiar, porque já tenho dois alunos interessados", contei soltando-me dele e erguendo meu queixo para olhá-lo. A minha intenção era ver sua reação. É claro que ele franziu as sobrancelhas e, depois, riu. Parecia meio desacreditado. "Jura?", ele quis saber.
"É a total verdade. Dois papeizinhos foram arrancados da folha, ou seja...", sorri para ele, deixando a frase no ar.
"Isso não vai ser nada interessante", Finn pontuou. "Ei, não fique com medo. Você sabe o quanto eu fiquei indecisa sobre ser a tutora de vocês, mas agora percebo que foi uma besteira ter medo. Os alunos podem ser superlegais, já pensou nisso? E você vai ter com quem conversar sobre baterias, você sabe que eu mal entendo sobre essas coisas", eu acabei rindo. Finn ficou calado, apenas me olhando. "Então... será que eu posso assistir à aula?", perguntei. Na verdade, eu não sabia se deveria realmente inquirir aquilo. Era como que colocar mais pressão em cima dele, e Finn já estava com assustado com tudo aquilo o suficiente.
"O quê? Você quer me ver fracassar logo na primeira vez?", Finn perguntou num tom que estava entre a zoação e o desespero. "Finn, pare com isso", eu lhe disse. "Não entendo muito bem sobre isso, mas seu ritmo é ótimo e você tem paciência. Você vai arrasar".
"Tenho minhas dúvidas".
"Se você não quiser, não apareço, ok? Você quer?", perguntei.
"Você me distrairia, é sério. Então... será que você pode aparecer outro dia? Num dia nos quais meus 'alunos' estejam melhores preparados? Porque não quero que você chegue lá e dê de cara com o caos".
Eu sufoquei o riso no peito dele.
"Caos é o Puck querendo ensaiar só de cuecas", eu falei.
"Não. É sério. Vai ser um caos. Além do mais, não vai ter graça nenhuma me ver explicando para os caras as batidas e tudo mais", Finn garantiu, beijando o topo da minha cabeça levemente.
Eu assenti. Era verdade. Eu não entendia nada sobre baterias.
Ele me ofereceu seu capacete e partimos para o loft. Já me acostumara a me deslocar de moto, mas confesso que, às vezes, se ele tivesse um carro seria bem melhor, porque poderíamos prolongar as conversas. Porque não dá pra conversar com alguém em cima de uma moto. Primeiro, o vento nova-iorquino não deixava, sem contar que sempre arrasava o meu cabelo. E, segundo, era meio perigoso.
Mas quase sempre atravessávamos a cidade em menos de vinte e cinco minutos, o que era, certamente, um bônus. Assim que estacionamos em frente ao prédio, pude saber que havia gente lá dentro, já que as luzes estavam todas acessas. Finn também percebeu, por isso disse: "Opa, acho que não ficaremos sozinhos hoje". Ele parecia lamentar, mas também havia algo a mais que eu não soube detectar. Deixei isso pra lá, porque não importava. Esperava que, seja lá o que Kurt e Santana estivesse aprontando, Finn fosse capaz de aceitar. A menos que fosse strip-pôquer.
Subimos de elevador, lado a lado, de mãos dadas. Ele tentou beijar o meu pescoço, mas eu o repeli, porque temia, caso abrisse a porta, encontrar alguém. Foi uma atitude sensata, porque eu sabia que não podia me animar demais. Se estivesse ocorrendo alguma festinha lá no loft não haveria momentos íntimos entre nós.
Abri a porta do loft e encontrei Kurt e Blaine sentados, brigando pelo controle remoto. "Ei, gente", eu cantarolei. Kurt retirou as mãos de cima das de Blaine, como se tivesse sido eletrocutado, e aprumou o corpo. Ambos estavam vestidos quase da mesma forma: com camisas sociais de manga longa e coletes. Parecia que, desde que começara a sair com Kurt, Blaine também tinha aderido à moda de camadas – o que era, no mínimo, divertido e, no máximo, muito bizarro: pareciam gêmeos, ou algo assim.
"Hmm, ei", Kurt respondeu num tom baixo e subitamente fechado. Blaine largou o controle remoto entre eles e sorriu para nós. "Poxa, cara, nunca vou me livrar de você?", Blaine brincou, olhando para Finn. Finn sorriu, relaxado. Eles tinham se visto, é claro, durante o turno da tarde na oficina do Sr. Schue. Mas eu sabia que Blaine era receptivo o suficiente para não ser inoportuno. Já Kurt... Parecia que ele não conseguia nem mesmo fingir ser legal. Por isso, ele passou por nós sem nem mesmo lançar um olhar para mim ou para Finn e se enfiou no quarto. Assim, do nada. Era o que vinha acontecendo quando Finn estava comigo. E eu nem sabia o porquê. De um lado, achava que poderia ser ciúmes – de quê, não fazia ideia. Mas, de outro, imaginava que poderia haver um motivo para tudo aquilo. Mas eu também não fazia ideia. Ou seja, parecia que eu sempre estava nadando num mar de incerteza quando pensava em Kurt e Finn. Eles nem tentaram engatar numa conversa despretensiosa. Era como se eles não se suportassem – mas por quê? Eu não sabia.
Olhei para Blaine.
Ele deu de ombros. "Vou buscá-lo", Blaine disse, atravessando o hall e indo em direção ao quarto de Kurt.
Eu pude ouvir o Glen Hansard cantando na TV. Por mais que eu adorasse aquele filme, não me detive àquilo, especialmente porque encontrei Santana escapulindo, de fininho, também para seu quarto. "Santana!", eu disse. Ela parou de um modo que delatou totalmente que ela estava mantendo alguém lá dentro. Mais uma vez, ela tinha visitas. "Ai, credo, estou aqui", ela respondeu, fechando rapidamente a porta. "O que, ou quem, você está escondendo aí?", Finn perguntou para ela num tom risonho. O relacionamento deles era mais ou menos assim: não havia seriedade, por isso se entendiam bem. Finn não deixava ser intimidado por Santana, nem mesmo quando ela estava empenhada em ser uma vaca pra cima de mim.
"Shhh, Franksteen!", Santana levou o dedo indicador à boca, numa atitude mais séria que de costume. Eu realmente odiava aquele apelido idiota que ela tinha arrumado para Finn. Porque era totalmente maldoso da parte dela.
Santana foi para a cozinha, e Finn a seguiu.
"Você está escondendo alguém!", Finn afirmou num tom surpreso. "Não é da sua conta", ela retorquiu, enchendo um copo de água. "É aquela menina?", ele perguntou. Da sala, eu quis saber: "Que menina?". Santana olhou para Finn como se dissesse para ele enterrar aquele segredo. "Não é nada", Santana falou. E daí, se retirou mais uma vez para o quarto. Finn me olhou lá da cozinha e caiu no riso. Não sabia bem o que fazer, por isso optei somente por um sorriso. Ainda me perguntava se Blaine iria conseguir tirar Kurt do quarto. Eu apostava que não. Todas as vezes que Finn estava ali aquela era uma cena que se repetia e nem uma única vez Blaine tinha convencido Kurt de 'socializar'. Kurt sempre dizia mais ou menos a mesma coisa (que, de certa maneira, eu até acreditava): que estava cansado.
Para ocupar a minha mente e para não deixar que aquele silêncio repentino se avolumasse, cheguei perto de Finn e o puxei para o sofá. Ele se acomodou, e eu me sentei no colo dele, já que não havia como tentar outra posição. Aquela parecia a mais próxima dele. Perto o bastante para beijá-lo, ao menos.
"Que menina é essa, hm?", eu perguntei.
"Ah. Não sei se posso falar. Tenho medo do vodu da Santana", Finn falou, meio que rindo. Ele tinha razão. Ninguém se meteria com a Santana. Mas eu era amiga dela, não era? "É aquela garota de Friends?", perguntei. Glen estava cantando Lies, e eu olhei para a TV sem enxergá-la de fato. Eu tinha que conversar com Kurt sobre aquilo. Porque já estava ficando completamente ridículo. E eu estava sem entender nada.
"Brittany. Sim. Elas se conheceram no grupo do Facebook, acredita?".
Mas eu acreditava. Eu tinha conhecido Finn no Spotlight. As pessoas, toda hora, se conheciam de várias maneiras inusitadas. "Eu nem sabia que a Santana gostava tanto assim de Friends para estar num grupo sobre isso", eu respondi. Poxa, eu estava meio surpresa. Santana nunca dividia muito sobre suas aventuras amorosas – não que eu quisesse, de fato, saber, mas era de se esperar que, já que morávamos juntas, ela fosse deixar escapar algumas coisas de vez em quando. Mas eu sempre sabia sobre seus relacionamentos na manhã seguinte, quando encontrava a pessoa tomando café forte na bancada ao lado de Santana. Só que quase nunca os mesmos encontros se repetiam. Sempre havia gente nova.
"Vai saber", Finn comentou. Ficamos em silêncio. Aquilo estava me incomodando. Porque não dava simplesmente para ir para o meu quarto e mandar ver com Finn. A casa estava lotada.
Finn escorregou um dedo pela minha bochecha e, depois, seguiu em direção ao meu pescoço.
"Agora não", eu falei, me afastando dele. Finn me olhou parecendo confuso, e daí franziu a testa no momento em que me viu marchando em direção ao quarto de Kurt. "Rachel, eu acho que não é uma id...", ele começou a dizer, mas as minhas batidas na porta de Kurt abafaram o restante de sua fala. Eu não estava ligando. Porque, mais do que o silêncio, aquele esconde-esconde do Kurt estava me irritando. Ele nunca havia sido daquele jeito. "Kurt?", eu perguntei.
Dois segundos depois, dei de cara com Blaine. Olhei-o interrogativa. "Cadê ele?", quis saber.
"A gente vai ficar por aqui, Rach. Kurt não está com ânimo de ver Once", Blaine respondeu. O quê?!
Forcei a porta e entrei no quarto.
"Que negócio é esse?", inquiri olhando para Kurt, que estava na ponta de sua cama. "Pelo amor de Deus. Quero um pouco de descanso", Kurt deu de ombros, parecendo estar irritado também. Olhei para Blaine, que deu de ombros como se dissesse que nada poderia fazer para reverter aquela situação. Balancei a cabeça. "Kurt. É sério. Você conversava com o Jesse, que era um imbecil. Por que não conversa com Finn?", eu andei até Kurt e me sentei ao seu lado. Esperava que meu tom não estivesse denunciando toda a minha raiva que eu sentia daquela atitude dele. "Ele é amigo do Blaine, talvez vocês tenhas coisas em comum. Mas você nem o cumprimenta direito. Por quê?".
Kurt ficou quieto por um tempo. E daí deu de ombros, sem me olhar.
"Olha. É complicado. E você não vai querer saber", ele disse.
Pisquei para as paredes.
"Kurt, isso é importante. Se há algo que eu precise saber, é hora de me contar. Finn também não me conta nada. Eu já perguntei, e sabe o que ele disse? Que não importava", eu falei, meio exasperada por dentro.
"Porque não importa", Kurt sussurrou.
"Mas...".
"Ele deve estar perdido lá na sala. Vai lá, Rachel. Depois a gente se fala", Kurt replicou de um modo tão monótono que, por um instante, achei que não era o meu melhor amigo. Olhei para Blaine em busca de soluções, mas percebi que ele estava tão confuso quanto eu.
Levantei-me da cama e andei até a porta, mas uma ideia me ocorreu e, antes que eu pudesse me refrear, as palavras já estavam saindo da minha boca:
"Vocês já se conhecem?".
Porque aquela era a única explicação. Se eles já se conheciam, talvez fosse natural que nutrissem uma desavença. Talvez tivesse havido alguma discussão entre eles. Mas não sabia quando aquilo poderia ter acontecido. Quando conheci Finn, ele tinha praticamente acabado de chegar à cidade. Quando Kurt tivera a oportunidade de conhecer Finn, então?
"Não importa", Kurt repetiu.
Eu estava insatisfeita, mas mesmo assim saí de lá.
"O que foi?", Finn me perguntou num tom cauteloso. Não sabia que o estava encarando com raiva, também, até me dar conta. "Você promete que não vai mentir para mim se eu quiser saber alguma coisa sobre essa coisa toda?", eu perguntei. "Que coisa toda, Broadway?", Finn ficou sem entender. Fiz um gesto sem paciência e suspirei. "Você sabe, essa coisa entre você e Kurt", expliquei. "Porque tenho a total certeza de que há algo de errado. Não é possível que seja uma mera coincidência. Você o conhece de algum lugar?".
Finn arrastou os olhos para a TV.
"Por que a gente não descansa um pouco?", ele perguntou.
Era aquilo. Havia algo que ninguém estava me contando.
"Você está desviando do assunto", pontuei. "Broadway, o Kurt deve ter os motivos dele. Acho que deve ser uma reação natural", ele me respondeu. "O Kurt nunca foi assim. E você... Eu lembro bem do primeiro encontro de vocês, parecia que você estava vendo um fantasma", eu o acusei. Finn riu sem emoção alguma. "Impressão sua. Eu fiquei, sim, meio assustado com aquele encontro com Sant e ele, mas porque foi uma reação também natural", Finn argumentou. Balancei a cabeça. Havia algo que não se encaixava. Não conseguia acreditar nele.
"Ele é meu melhor amigo, e você, meu namorado. Quero que vocês se deem bem", eu falei. "As coisas não acontecem num piscar de olhos, Rachel. Você tem que entender que eu e ele somos bastante diferentes", ele rebateu, balançando a cabeça como se estivesse desapontado comigo. "Como pode saber? Vocês nem tiveram uma conversa decente! Nada além de 'oi', ou 'e aí?'!", retruquei impaciente.
"Broadway, deixa pra lá".
"Não estou entendendo nada, Finn", fui sincera.
"Eu sei. Nem eu", Finn disse. Fiquei surpresa e direcionei um olhar esquisito para ele. Mas tudo o que ele fez foi me abraçar e beijar a minha cabeça.
Continuava não entendendo nada.
Dois dias depois, Hiram me ligou. Ele era o pai menos neurótico, por isso fiquei contente de saber que justamente ele estava querendo falar comigo. Com o Spotlight e a NYADA, ficava meio difícil manter uma conversa muito duradoura com alguém que estivesse longe, especialmente quando se tratava de ligações. Eu tentava usar o menos possível e, por mais que eu tivesse tentado induzir meus pais a usarem o Whattsap, eles diziam que aquilo não era para eles. Então, tínhamos mesmo de gastar com algumas ligações telefônicas.
"Hey, Estrela", ele disse. Era um apelido de infância do qual eu nunca tinha conseguido me desvencilhar, por mais que eu já tivesse quase vinte anos. Eu sempre seria a Estrela dos meus pais e nada poderia mudar aquilo. "Oi, papai. Como foi o seu dia?", eu perguntei. Era quase meia-noite e Finn não estava no loft. Ele tinha dito que precisaria acordar cedo e sair junto com Puck para arrumar um motor engasgado de uma piscina. Eu não fiquei aborrecida, porque precisava mesmo de um tempo. Já fazia muitos dias que eu e Finn não nos desgrudávamos, e aquilo estava se tornando meio chato. De vez em quando era muito bom manter uma distância, porque sempre que nos reencontrávamos havia aquela chama de saudade absoluta. Não que eu tivesse mudado de ideia sobre ele passar as noites junto a mim – certamente, eu adorava aquilo –, mas ficava mais tranquila por ele estar longe, devido às ultimas circunstâncias com Kurt. Seria mesmo muito bom dar um tempo para os dois reaverem suas concepções sobre aquela situação esquisita.
"O contrato foi assinado", Hiram me informou.
Meus pais mantinham um restaurante em Lima e pretendiam abrir uma filial em New York. Há muito tempo aquilo estava sendo planejado e, apesar de querer a felicidade deles, achava que nunca daria certo. Ficava contente por, finalmente, os planos dos dois estarem saindo do papel. "Puxa, verdade? Isso é ótimo, papai. Leroy não deu os seus famosos pulinhos?", inquiri, meio que soltando uma risada. A verdade é que eu sentia falta dos meus pais. A minha vida em New York era muito corrida, certamente não havia muito espaço para eles agora, mas ainda sentia falta do amor deles, do modo como acreditavam em mim acima de qualquer coisa. "Ele quase beijou a careca do Sr. Walters, foi um fiasco. Quase tive que ir embora naquele mesmo momento", Hiram me disse. Eu ri um pouco mais. Sentia falta da minha família. "Então, quais são os novos planos?", eu quis saber, já meio ansiosa. Eles nunca encontravam tempo para me visitar. Tinha passado o meu primeiro Natal longe deles e foi muito estranho. E, pela primeira vez, eles não tinham feito uma ceia, porque tinham ido jantar na casa de uns amigos. De modo que eu esperava que eles viessem me visitar logo, para eu poder realmente mostrar a eles como estava a minha vida. Como eu era uma nova Rachel.
"Bem, a Páscoa está chegando. E nós precisamos de uma desculpa para averiguar as reformas do estabelecimento", ele me falou. Eu já sabia. "Vocês precisam passar a Páscoa aqui. Eu faço questão, papai. Assim vocês vão poder conhecer o Finn", eu sorri quase sem querer. É claro que Figgins já tinha me delatado. Meus pais tinham feito uma conferência via Skype comigo sobre aquilo. A princípio, achei que me acusariam de ser uma biscate por já estar com outra pessoa em menos de um mês, exatamente como Jesse tinha me acusado de fazer. Mas como eu bem sabia que nem um dos dois aprovava cem por cento Jesse, a notícia foi absorvida com sorrisos. Eles apenas esperavam que Finn fosse me fazer mais feliz do que Jesse. Eu realmente amava os meus pais. Porque, apesar de serem dois, há muito eles tinham deixado aquela fase superprotetora para trás. É claro que eu tinha consciência de que Leroy era mais afobado e mais cético quanto a tudo, mas Hiram tentava acalmá-lo. Eu sabia que, intimamente, eles não acreditavam muito nos meus relacionamentos, já que, depois de um tempo, eu acabava terminando com meus parceiros. E, por isso, eu também sabia que eles não estavam acreditando muito no meu relacionamento com Finn, por mais que eu tivesse dito que estava, pela primeira vez, realmente apaixonada. Aquilo era uma confirmação total do quanto eu esperava que eu tivesse um futuro duradouro com Finn.
"Ah, o Finn. É claro", Hiram disse. Havia algo forçado na voz dele, mas eu deixei passar. Como supracitado, eles não estavam acreditando tanto assim no amor que eu nutria por Finn. Acho que, no fundo, eles esperavam que eu não me tornasse uma daquelas solteiras feministas que ficam gritando para o mundo que uma mulher não precisa de um casamento para ser feliz. É claro que, intimamente, eu nunca tinha dado muita atenção a essa questão de casório. Nunca tinha sido um sonho a ser realizado – eu tinha me comprometido com a Broadway desde o começo, e nada iria me distrair, nem mesmo um casamento. "Vocês vão adorá-lo, eu juro", eu disse. "O que ele faz mesmo?".
Da última vez que tinha falado sobre Finn, tinha dito sobre as piscinas. Era o que Finn fazia. Mas, agora, ele também trabalhava na Oficina do Sr. Schue. E sua primeira aula de bateria estava marcada para o próximo domingo. Então, agora, não haveria por que Finn dizer que precisava arranjar dinheiro, ou coisa assim. Ele tinha coisas a fazer. E, justamente por isso, eu ficava feliz por ele. Não que eu não ficasse, antes de tudo isso. Mas agora era diferente. Finn estava se achando em New York como eu tinha dito a ele que aconteceria mais cedo ou mais tarde.
"Bem, ainda tem as piscinas. Ele as limpa e conserta alguns danos. Mas agora ele conseguiu um emprego numa oficina mecânica. E, olhe só, pai. Finn tem aquela banda e, por isso, vai dar aulas de bateria. Isso é muito bom, não é?".
Meu pai ficou quieto por alguns segundos e daí resmungou: "Muito bom. Claro". Havia incerteza em sua voz. Fiquei impaciente, de repente. Havia algo por trás de suas palavras. "Mas então... Ele é um músico, certo?", Hiram perguntou, ainda incerto. "É, ele ainda tem a banda. Eles não estão tocando com muita frequência, mas Finn está mais animado", eu disse, temendo que estivesse falando as coisas erradas. Pelo menos era o Hiram. Se estivesse conversando com Leroy tudo seria mais diferente; eu teria de editar um pouco mais as palavras. "Rachel, eu fico feliz por você estar apaixonada, mas... Não deposite tanta fé, ok? Jesse tinha uma estrutura sólida, tinha uma carreira a seguir. Não que eu o esteja defendendo, porém, esse Finn parece meio... Como se diz...?", Hiram começou a dizer. Eu sabia que eles estava hesitante e escolhendo as palavras com cuidado para não me magoar.
Soltei um suspiro rápido e forte. Não. Aquilo não podia estar acontecendo. Não com Hiram, que era o pai mais legal. Será que ele e Leroy tinham conversado sobre aquilo e decidido me fazer desencantar por Finn? Porque eu podia apostar que sim.
"Não sei, pai. Realmente não sei", pontuei com um pouco de cansaço e raiva. "Mas Finn tinha acabado de chegar à cidade quando nos conhecemos. Ele precisou de um tempo para organizar a vida. Eu também precisei de um tempo para organizar a minha. E eu acredito no Finn", afirmei com propriedade. Eu estava sendo sincera de coração: eu acreditava no potencial de Finn, mesmo que ele mesmo não acreditasse. Então, eu sentia a necessidade de acreditar nele por nós dois. "É claro, querida. Mas a palavra que estava procurando é volúvel. Acredito no seu amor por ele, mas e se ele mudar de ideia?", Hiram quis saber. Pisquei para as paredes. Eu estava confusa.
"Mudar de ideia? De que está falando? Finn não vai mudar de ideia!", afirmei, mesmo não sabendo sobre o que estávamos de fato falando. Será que Hiram estava falando da estabilidade mental de Finn? Ou do amor que ele sentia por mim? Porque de duas coisas eu tinha certeza: eu o amava, e ele me amava igualmente. Ele não tinha se cansado de mim, não tinha ido embora na primeira oportunidade. Se aquilo não era uma prova do que ele sentia, o que era?
"Ah, querida", ele pareceu lamentar. "No começo é tudo tão bom. Mas depois de um tempo, a gente muda de ideia. A gente quer ser outras coisas, fazer outras coisas, entende?".
Fiquei meio chocada. Meus pais sempre tinham se dado bem, à exceção de uns estresses que renderam algumas sessões de terapia em casal... Mas eles tinham suportado tudo para estarem juntos e para me oferecer o melhor. Então eles sabiam mais do que todo mundo que, se a gente acredita no amor, isso pode dar certo. E eu acreditava. Finn não era volúvel: na verdade, ele era tão resoluto em alguns aspectos! E com relação ao que sentia por mim era um deles.
"Não", eu respondi. Não entendia mesmo.
"Bem, deixa pra lá. Talvez a vida vá te ensinar isso", Hiram disse.
Fiquei desanimada. Estava com a expectativa de que a Páscoa fosse perfeita, que meus pais se dessem bem com Finn, que, até lá, Finn e Kurt tivessem acertado aquela situação esquisita... Mas parecia que era melhor eu parar de sonhar de olhos abertos. Nada daquilo iria acontecer.
"Então... Vocês vão vir para a Páscoa?", perguntei.
"Claro, Estrela. Estamos com saudade", ele respondeu.
Eu sentia saudade também, mas aquilo tinha acabado com o meu ânimo. Não sabia se aquela junção seria uma boa ideia.
A conversa meio que morreu depois disso, porque eu já estava ansiosa para desligar. Nem um deles conhecia o Finn como eu conhecia. Nem um deles poderia afirmar nada sobre ele. E foi com esse pensamento que eu terminei a ligação, dizendo: "Adoro vocês". Talvez eu tenha hiperbolizado um pouquinho no momento, porque tudo o que eu sentia era um pouco de raiva.
Parte XXIV
My words are wrapped in barb wire
My actions speak for what I can't say
'Cause I fall one step forward to push you away
Rachel se afastou de mim e me olhou.
Ela tinha me persuadido a deixá-la me acompanhar até o Musique. Segundo ela, queria que passar uma espécie de calma. Não que fosse funcionar. Eu já estava nervoso só de pensar em me encontrar com meus alunos. Não que eu tivesse receio de me relacionar com as pessoas, mas digamos que, quando você vai ser o tutor de alguém, o papel que você exerce é completamente diferente. E se eu não fosse um bom professor? E se desistissem de ter aulas comigo? E se eu ferrasse com tudo antes mesmo de começar? Uma parte de mim estava crente de que tudo aquilo era uma pegadinha: que ninguém iria aparecer. Mas Rachel tinha me dito para ser positivo, porque tinha certeza de que aquilo daria certo.
Até parecia.
Às vezes, Rachel era tão positivista que ficava difícil de acreditar nela. Não que eu não acreditasse nela. Um dos motivos para estar com Rachel era que ela me deixava à vontade para acreditar. Em especial no meu futuro. Não que, é claro, tudo começara a dar certo na minha vida somente porque estávamos juntos. Isso seria cometer uma falácia. Porque minha vida iria se ajeitar com ou sem Rachel. Mas com Rachel eu acreditava em mim. Ela me dava abertura para acreditar no futuro. Para acreditar que, finalmente, eu não era um fracassado. Porque, verdade seja dita, a vida de todo mundo passa por períodos de trevas, nos quais só acontecem coisas ruins – ou simplesmente não acontece nada; a vida fica só parada no mesmo lugar. Mas aquele jeito dela de cultivar esperanças parecia... Não sei, parecia meio impossível, de vez em quando. Eu não tinha a capacidade de ser como ela. Já tinha parado de acreditar em milagres há muito tempo.
"Promete que não vai ficar com medo?", ela quis saber, em frente do prédio cor de cereja. A estrutura do Musique era ótima. Havia dois prédios interligados por um jardim. Na verdade, pensei no mesmo segundo, não tinha como prometer aquilo, e ela deveria saber. Quer dizer, não dá pra controlar o medo. Achava que não, pelo menos. Como ela conseguira controlar o dela ao ser a nossa tutora? Eu ainda não sabia, mas a julgar que Rachel tinha um autocontrole que eu nunca iria entender, aquilo era fácil de imaginar. Ela tinha o poder de esquecer qualquer coisa para cantar e utilizava daquele mesmo método para nos ensinar um pouco de sua preparação. Se bem que, depois da primeira vez, ela realmente relaxou. Acho que porque Puck e Sam a deixavam à vontade para fazer suas críticas, sem contar que eles sempre a divertiam. Rachel se dava bem com eles, e isso me deixava feliz. Puck tinha parado de ser inoportuno com relação ao fato de estarmos apaixonados, de modo que eu também aprendi a relaxar.
Em contrapartida, eu ainda não tinha relaxado junto aos seus amigos. Quer dizer, era fácil se sentir confortável perto de Santana. Depois de um tempo, comecei a me acostumar com seu jeito provocativo. E, agora, ela era uma das nossas grandes aliadas. Tinha dito na semana anterior que acreditava em mim e Rachel juntos. Que eu fazia sua amiga feliz. E era fácil comprovar aquilo.
Aquela Rachel fechada há muito tinha sido abandonada, e agora havia uma nova Rachel mais sorridente e com uma nova energia. Essa nova Rachel estava disposta a tudo, inclusive se empenhar a dar um rumo na minha vida. Aquilo, para ser sincero, era impressionante. Ela estava do mesmo lado que eu, torcendo por mim. Não poupava palavras de incentivo, mesmo que eu tivesse minhas dúvidas. Rachel era incrível, e eu não media esforços para descobrir coisas a seu respeito. Por mais que parecesse que eu já a conhecia há muito mais tempo do que realmente a conhecia, sempre havia algo que ela me contava de novo. Ela era muito mais aberta do que eu, sabia falar sobre seu passado, por exemplo. Eu nunca tocava no meu, e ela nunca tinha me pressionado. Não sabia se ela somente estava esperando a hora certa, ou se não se importava mesmo.
Mas, se Santana tinha se revelado uma aliada, Kurt ainda era uma incógnita. Ele se afastava toda hora, e quando Rachel o inquiria sobre isso ele não respondia. Kurt simplesmente deixava pra lá – mesmo que houvesse raiva em seus olhares lançados a mim. Por isso, eu sabia que, por ora, estava a salvo: ele não tinha dito nada a meu respeito para Rachel. Nada sobre aquele Finn do passado. Uma parte de mim ficava aliviada; no entanto, a outra, alarmada. Quando é que Kurt iria abrir a boca? E se Rachel já soubesse de tudo e apenas estava me dando espaço para falar a respeito?
Não, improvável.
Se ela soubesse, já teria terminado comigo.
O que não tinha acontecido. Mas sempre parecia que eu estava com a faca no pescoço quando Kurt estava no mesmo recinto que eu. Parecia que havia um relógio tiquetaqueando a todo o momento, apenas descontando os minutos. Era como se Kurt estivesse me dizendo que meu tempo estava terminado. Que eu precisava ser verdadeiro. Mas como? Ela me odiaria, assim como, agora, eu meio que me odiava ao recapitular todos aqueles anos tenebrosos da minha vida que, de um modo ou de outro, eu tinha desperdiçado. Tudo porque eu estava com raiva demais – uma raiva completamente despropositada, agora eu podia entender.
"Não sei. Não dá pra prometer", eu respondi, e a abracei. Abraçá-la minimizava as reações loucas em mim. Eu me acalmava o bastante para pensar melhor antes de dizer algo idiota.
"Respire fundo. Quando terminar, me telefone, está bem?", ela disse. Dava para inferir o quanto ela também estava ansiosa, mas de uma maneira diferente de mim. Parecia que ela estava toda empolgada, enquanto meu estômago se afundava toda hora que eu pensava que eu iria passar algumas lições realmente ruins para duas pessoas que, cedo ou tarde, iriam rir da minha cara. Eu não levava jeito algum para ser professor, será que ela não entendia? Onde eu estava com a cabeça quando aceitara tudo aquilo? Certamente, o amor faz isso com as pessoas: faz com que elas tomem decisões erradas toda hora, sobre coisas sérias. Adorava a maneira como Rachel me fazia sentir, mas às vezes aquilo também não era nem um pouco benéfico. Eu achava que, de vez em quando, a minha cabeça se tornava geleia. E a culpa era dela. Rachel tinha um efeito em mim que me fazia somente concordar com ela. Ela sabia totalmente como me convencer.
"Tudo bem, pode deixar", eu respondi, sabendo que não queria me separar dela. Estar perto de Rachel me acalmava. E, se ela se distanciasse de mim, eu iria ter um ataque de ansiedade. Seria um fiasco. A minha aula poderia ficar completamente comprometida com aquilo.
Ele ficou nas pontas dos pés e plantou um selinho rápido nos meus lábios. E daí sorriu e disse: "Vai dar tudo certo". Eu quase acreditei nela.
Quando um táxi parou no meio-fio, levando-a embora para o loft, eu fiquei me sentindo um idiota por um tempo naquela calçada. Entrei na recepção, onde a mulher de Sr. Schuester estava lá informando a alguns pais sobre o programa de verão. Ela interrompeu momentaneamente a conversa para me dizer: "Sala 201, Finn. É a última do segundo andar, à direita". Eu lhe sorri em agradecimento. Será que ela poderia saber que eu não estava nada preparado para aquilo? Se sabia, no entanto, deixou passar. Dirigi-me à escadaria e subi até o segundo pavimento. Cada andar tinha uma cor diferente. Ali em cima era tudo laranja berrante, uma coisa meio horrorosa. Fiquei tentado, enquanto caminhava com passos lentos, a ligar para Rachel e dizer que queria desistir. Mas estava tão perto. Estava com o celular na mão, pronto para lhe telefonar, quando vi alguém já lá dentro pelo vidro da porta. Fiquei imediatamente surpreso.
Eu conhecia aquele cara.
Abri a porta, e ele olhou para mim.
"E aí, Hudson?", ele mandou num tom quase relaxado. Estava sentado em uma das cadeiras dispostas ao lado da minha bateria.
Fiquei parado por dois ou três segundos, sabendo que aquilo estava dando a impressão de que eu estava tendo um ataque do coração. Mas logo perguntei: "O que está fazendo aqui? Você não é o ex-namorado da Rachel? Jesse Alguma-Coisa?".
Jesse soltou uma risadinha afetada. "Acho que não nos conhecemos tão bem quanto gostaríamos, certo?", ele comentou. Eu queria lhe responder que não queria conhece-lo, mas ele logo continuou: "Fiquei sabendo das suas aulas. Vim averiguar".
Desculpe, mas o quê?
Aquele cara estava ali para me ver fracassar? Porque eu tinha bastante certeza de que, com ele ali, nada sairia do modo como tinha mais ou menos planejado. "Você é um dos alunos?", quis saber, desconfiado. "Vamos fazer assim: fingimos que sim, e tudo fica bem", Jesse me disse.
"Não, você não pode. Olha, se você quer conversar sobre a Rachel, ótimo. A gente conversa. Mas não fique aqui. Isso é algo sério, entendeu? Eu estou tentando fazer isso dar certo", falei sendo sincero. E meio desesperado. "Sabe o que mais me impressiona? A Rachel nunca foi de sair com esse tipo de gente. Você não deve saber, mas ela é exclusivista. Adora estar por dentro da Broadway, e você, muito claramente, não faz parte desse mundo", Jesse falou, num tom calmo lá da sua cadeira. Ele nem mesmo expressava raiva: estava tranquilo, como se não temesse nada. "Certo, você está aqui para me jogar contra a Rachel, entendi. Mas não vai funcionar. Porque eu tenho total ciência de que somos e viemos de mundos diferentes, mas isso não vai mudar nada. Nós vamos fazer isso dar certo, mesmo com toda a diferença que nos cerca", eu afirmei. Estava começando a ficar com raiva, além de em pânico. Eu não precisava de uma briga antes da minha aula. Aquilo iria acabar comigo.
Jesse riu de novo, meio pomposo.
Mal o conhecia, mas já o odiava. E não era porque tinha sido namorado de Rachel. Ele conseguia ser detestável por conta própria.
"Você não sabe com quem está se metendo. Eu sei, ela é incrível no começo. Parece que ela está ao seu lado, que quer o seu melhor. Mas sabe o que descobri? Que a Rachel só pensa em si mesma. É por isso que terminamos, você não sabia? Ela é uma invejosa, não suportou que eu tenha uma vida muito melhor do que a dela, que eu esteja conseguindo alcançar meu sonho. Ela vai te derrubar, meu chapa. Espere só", Jesse falou como se tivesse certeza absoluta de suas palavras.
Tudo bem, confesso que fiquei balançado. Rachel nunca tinha me dito muita coisa sobre Jesse, nem sobre o rompimento, mas ela estava me ajudando com a minha vida. Eu acreditava nela. Aquilo tudo não poderia ser meramente um fingimento. Ela acreditava em mim. Não acreditava? Era o que dizia, pelo menos.
Meu estômago ficou meio gelado, de repente. Aquilo era um mau sinal. Não queria ceder às suas palavras, pareceria ridículo. Pareceria traição: eu acreditava nas coisas que Rachel me dizia, mesmo nas mais improváveis.
E era por isso que eu tinha de retrucar alguma coisa.
"A Rachel não é assim. Você não a conhece", eu retruquei, com um pouco de fúria acumulada.
Comecei a perceber: aquela aula era, sim, uma pegadinha. Ninguém tinha se matriculado para aquilo. Jesse tinha arrancado os papéis da folha, simulando tudo aquilo. Ele somente queria ter a oportunidade de estar cara a cara comigo. E aquilo, mais do que o desespero de antes, começou a me aterrorizar. Como eu poderia lidar com aquele cara dizendo aquelas coisas sobre a minha namorada?
Eu não conhecia Rachel o suficiente. Eu estava blefando. Jesse a conhecia muito mais. Ele sabia do que falava.
Jesse balançou a cabeça, parecendo me zombar.
"Tem certeza, Finn? Eu não apostaria. Vocês estão juntos há o quê, um mês? Isso não é nada. Rachel é um iceberg. Tudo o que você sabe sobre ela e tudo o que vê é apenas uma ponta", ele me respondeu.
Engoli com força.
Não respondi. Não tinha o que responder. O que diria? Que ele estava certo?
Ele se levantou da cadeira e passou por mim, se direcionando para a porta. Olhei para ele, e ele, para mim. Parou na porta e adicionou:
"Não vai demorar muito para você saber com quem está lidando. Pense bem".
Fiquei sozinho na sala ampla e fresca. Não dava pra acreditar. Aquilo tudo era uma farsa. Ele tinha planejado acabar com o que eu mal tinha começado...
Sentei-me na bateria e peguei as baquetas, mas não fiz nada. Só fiquei lá, parado, olhando para as paredes. Pensando. Pensando em tudo, em retrospecto.
Eu adolescente. Meu padrasto. Kurt. Minha mãe. Minha raiva. Minha fuga. New York. Rachel. Rachel dizendo que estava apaixonada por mim. Eu lhe dizendo que aquele sentimento era recíproco. Jesse. Rachel iria me derrubar. Rachel era um iceberg.
Aquela hora se foi. E, de repente, alguém estava batendo na porta. Levei um susto. Era o Schuester.
"Tudo certo, Finn? A aula já terminou?", ele quis saber. Dava para perceber que ele não sabia de nada. Mas não seria eu que tiraria aquele sorriso da cara dele, por isso apenas confirmei: "Yeah, não havia muita coisa para se ensinar hoje".
Mas havia muita coisa para eu aprender. Inclusive sobre a vida e sobre Rachel.
Oi, gente linda!
Então... Tô morrendo de raiva desse Jesse u-u Quase tive um ataque ao escrever este chapter, really. Quê cês acharam? Tão a fim de dar uma tapa na cara dele também?
Anyway, espero que tenham gostado. A trama tá ficando mais com cara de trama agora haha. Preparem os corações, viu?
Love, Nina.
