Capítulo Doze
Time To Talk
(Hora de Conversar)
Blaise cortou um pedaço de carne com a faca e o jogou no balde. Ao seu lado, Harry Evans Potter — ou seja lá qual fosse seu nome — cortava a dele com mais cuidado. O professor Lupin lia um livro em seu escritório; Blaise conseguia vê-lo pela porta entreaberta.
— Então é Potter agora?
— Aparentemente, Zabini — disse Potter, pegando outro pedaço de carne da pilha que estava na ponta da bancada.
— Touché — murmurou Blaise. — Mas era Evans, não era?
— Benson — respondeu Potter, inclinando a cabeça.
— Sabia — disse.
— Bom pra você. — Potter o olhou de canto de olhos. A expressão curiosa era exatamente a mesma, mesmo que seus olhos fossem verdes agora, e seu cabelo estivesse mais escuro e mais bagunçado, ao invés de ser claro e arrumado. — O que aconteceu com você?
Giovanna aconteceu.
— Nada me aconteceu — respondeu, batendo a faca na tábua de cortar. — Só cresci.
— Acho que gostava mais de Benson — disse Potter friamente. — Ele não fazia as pessoas chorarem por diversão.
Benson morreu, Blaise pensou sombriamente.
— Está falando da Granger? — Potter apenas o olhou e, estranhamente, Blaise se pegou sentindo culpa. — Não tive escolha; ela ia dizer que me conhecia e ela é uma sangue-ruim. Ela teria arruinado tudo mesmo sem querer.
— Arruinado tudo? — perguntou Potter, mais uma vez parecendo curioso.
— Não é da sua conta. — Potter deu de ombros como quem dizia "se você diz", e Blaise sentiu outra pontada de culpa. — É para alimentá-lo — indicou o balde de pedaços de carne e, depois, a porta do escritório de Lupin — durante a lua cheia? — perguntou, mudando de assunto.
— Não — respondeu Potter, revirando os olhos. Blaise não sabia se ele tinha percebido sua intenção ou se só não estava nada impressionado com a pergunta. — Os alunos do terceiro vão estudar lesmas carnívoras na próxima aula.
— Oh. — Potter não falou nada. — Lupin é o senhor Evans?
— Não — respondeu Potter. — Ele é o tio John. Padfoot, meu padrinho, é o senhor Evans. Ou era, acho.
— Oh — repetiu Blaise. — Como está o pai? — perguntou antes que pudesse evitar. — Eu não o vejo desde... — Pigarreou. — É difícil de saber pelas cartas, sabe?
— Triste — respondeu Potter. — Cansado. Ou era como estava no fim do semestre passado, pelo menos. — Blaise não podia honestamente dizer ter esperado algo diferente; mandava cartas quase todos os dias para seu pai, o que ajudava, mas não era a mesma coisa.
Mas ele está vivo, suponho, pensou. É o que importa.
— Então, com quem está morando? — perguntou Potter daquele seu jeito bem-intencionado e curioso, ainda que brusco. Blaise precisou se forçar a não sorrir. Benson morreu, lembrou. E Zabini não pode gostar de Evans nem de Potter. — Sua mãe? — Blaise assentiu, tenso, e, felizmente, Potter não forçou o assunto. — Está feliz na Sonserina?
— Bastante — disse curtamente. — Giovanna ficou satisfeita — adicionou, permitindo-se um momento de orgulho amargurado. Potter o observou, curioso como sempre, e Blaise sentiu que estava sendo muito amigável e dando as informações rápido demais. Zabini não pode gostar de Evans nem Potter. Jogou uma pequena pilha de carne no balde. Potter fez o mesmo. — Acho que não tem por quê perguntar se você está feliz na Grifinória; pelo que eu ouvi, só um Weasley e sangues-ruins conseguem ser feliz por lá. — Potter terminou de cortar seu último pedaço de carne e deixou a faca de lado.
— Estou feliz — disse Potter friamente, e Blaise se parabenizou mentalmente por ter irritado o outro garoto.
Amigos, pensou e adicionou isso à sua lista mental. Potter não gosta que insultem seus amigos. Provavelmente usaria essa informação mais tarde.
— Então você é tão ruim quanto eles — disse lentamente.
— E orgulhoso disso — respondeu Potter, indo lavar as mãos na tigela de água e sabão que Lupin deixara para eles. — Eu não sei como você pode dizer essas coisas depois de ter sido criado por um muggle e ter frequentado uma escola muggle. Você realmente acha que seu pai vale menos do que você?
O pai é muito melhor do que todo mundo nesse mundo mágico idiota, pensou, mas sabia que não podia dizer isso.
— Ele é um muggle — disse. — E é melhor guardar isso para você. — Potter pareceu desapontado.
— Bem, eu acho que o senhor Benson é brilhante — disse Potter curtamente. — Mesmo que você tenha mudado demais para perceber.
— Você quer falar comigo sobre mudanças, Evans? — Potter secou as mãos e acenou na direção do escritório de Lupin.
— Eu mudei meu nome e a cor do meu cabelo — disse Potter —, não tudo. — Havia algo reprovador na maneira que ele olhou para Blaise, e isso o fez se encolher um pouco na cadeira. Potter parou na porta. — Não imagino que nos daremos bem, Zabini, mas se você vir Blaise Benson por aí, diga a ele que seus amigos sentem falta dele e que eu gostava de conversar com ele.
Abriu a porta e foi embora; Blaise o observou partir, sentindo-se inquieto.
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Christopher Morton fungou e secou os olhos, antes de soltar um som baixinho e sofrido. Sirius se sentou na cadeira em frente a dele, pensando que essa devia ser a pior coisa que já precisara fazer.
— Eu sinto muito — disse Sirius.
— Por que mandaram você? — Morton conseguiu perguntar.
— Mandar uma carta era uma opção — disse Sirius, cuidadoso. — Mas achei que você teria perguntas, ou... cartas são incompletas, e você merece entender tanto quanto nós entendemos no momento.
— Mas por que você?
— Os representantes do Departamento de Registros Mágicos não são conhecidos por sua compaixão — respondeu Sirius. — Para eles, é tudo estatística, e achei melhor te poupar disso. E, como eu já disse, eu fui o Auror que o encontrou.
— Mas ele não estava m-morto.
— Não — disse Sirius. — Mas ele não podia ser movido e estava além das minhas habilidades de cura. O Curandeiro qualificado...
— Quem?
— Era o Curandeiro Leatherby que estava de plantão naquela noite. E ele chegou o mais rápido possível, mas não havia nada que ele pudesse fazer.
— Você não tentou o bastante — disse Morton, choroso. — Porque t-tentaria, depois de ele ter dito aquelas coisas para o seu amigo Lupin na p-plataforma. Aposto que você q-queria que ele...
— Eu tentei salvá-lo — disse Sirius brevemente. Passara a noite toda acordado (primeiro, conversara com Scrimgeour e, depois, começara a papelada) em seu cubículo no Ministério antes de voar até Hogwarts e, de luto ou não, não ia ficar sentado e ouvir alguém dizer que não tinha tentado o bastante. — E também vou fazer tudo o que puder para descobrir o que aconteceu e quem foi o responsável.
— Isso é tudo muito bom — rosnou Morton em meio novas lágrimas —, mas isso não me ajuda, né? — Fungou e soluçou. — Meu pai morreu. Morreu. E agora eu não tenho ninguém — a senhora Morton morrera quando seu filho tinha quatro anos, Sirius descobrira — nem nada.
— O testamento de seu pai está sendo examinado pelo Ministério nesse momento — disse Sirius. — Eu sei que você provavelmente não liga para dinheiro, propriedades e posses no momento...
— O que te deu essa ideia? — perguntou Morton sarcasticamente.
— Não ficará sem nada — garantiu Sirius e sabia que essa não era uma garantia muito boa e que Morton preferia o pai ao dinheiro. — Tire tanto conforto quanto conseguir disso. — O rosto de Morton se enrugou e ele voltou a soluçar. Sirius ergueu a mão para colocá-la no ombro de Morton e ele se encolheu, afastando-se.
— Não — disse com a voz pastosa.
— Desculpe — murmurou Sirius. — Essas são suas. — Tirou três envelopes do bolso. — Leia quando estiver disposto. Essa é do Departamento de Supervisão e Controle das Crianças Mágicas e contém uma lista de contatos para você, e também te dá algumas opções. A segunda são algumas perguntas dos Aurores, para ver se você sabe de algo que possa nos ajuda a encontrar a pessoa ou pessoas responsáveis. Achamos melhor que você escrevesse as respostas e nos mandasse por coruja ao invés de ser questionado... que isso poderia ser mais fácil para você. Se não for, a terceira é apenas um envelope, mas está endereçado a mim e se quiser entrar em contato comigo por qualquer motivo, seja para fazer mais perguntas ou para se manter atualizado, o envelope permitirá que faça isso.
— Certo — disse Morton tristemente. Sirius assentiu e lhe entregou os envelopes.
— Tem alguma pergunta? — perguntou. Morton fungou e balançou a cabeça. — Vou indo, então. Acho que o professor Snape quer falar com você. — Sirius conseguia ouvi-lo andando de um lado para o outro em frente ao escritório, na verdade. — De novo, eu sinto muito, Christopher. — Saiu do escritório, indo para o corredor da masmorra, onde Snape esperava impacientemente.
Mas a impaciência pareceu sumir de seu rosto quando ele olhou para Sirius.
— Você está bem? — perguntou.
— Se eu estou bem? — perguntou Sirius. Snape esperou. — Não de verdade. Mas meu pai não acabou de morrer, então não tenho do que reclamar. — Indicou a porta. — Cuide dele.
— Que tipo de Chefe de Casa acha que eu sou? — perguntou Snape, parecendo um pouco ofendido. Sirius forçou um sorriso e conjurou uma cadeira no corredor, esperando que Snape tivesse mais chances de confortar Morton do que Sirius tivera.
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— Eu vi Wood no Salão Comunal hoje cedo — disse Harry, enquanto ele, Ron, Hermione e Draco caminhavam até o Salão Principal para o café da manhã. Draco ainda estava com eles e, de fato, ficara com eles depois do jantar na noite anterior; ele tinha feito o dever de casa no canto do Salão Comunal com eles e até jogara xadrez com Ron.
Se perder para Ron era bom para Hermione, Harry achou que era essencial tanto para Draco quanto para Ron; Draco tinha levado numa boa — ele parecera intrigado, na verdade —, mas era uma forma segura e não ofensiva de Draco e Ron se enfrentarem sem que o outro se machucasse ou se ofendesse. Harry também achava que Ron ficara feliz por finalmente ter saído por cima de Draco; era algo que ele não conseguira fazer e quisera desesperadamente desde que chegaram em Hogwarts.
— Ele disse que o primeiro treino é hoje, então espero que Hedwig consiga voltar antes do jantar. Padfoot disse que mandaria minha Galaxy...
— As Galaxys são boas e tudo o mais — disse Ron, parecendo cauteloso (obviamente, ele não queria ofender Harry) —, mas não são vassouras para competição...
— Eu sei — disse Harry. — McGonagall ia conversar com Padfoot sobre isso; ela acha que eu devia ganhar a nova Nimbus, mas eu ficaria feliz com uma vassoura decente da es... — Harry parou e franziu o cenho; guardada numa alcova na lateral do Saguão de Entrada estava uma motocicleta enorme e inconfundível.
— Harry? — chamou Hermione, olhando-o. Ela tinha visto a moto em suas visitas a Grimmauld, então quando a viu, arregalou os olhos. — Oh! Essa não é...
— É — respondeu Harry, confuso. Olhou ao redor, meio que esperando que Padfoot (o homem ou o cachorro) saísse de trás de um pilar ou alguma porta escondida para surpreendê-lo, mas ele não o fez. — Ele não falou que viria e eu conversei com ele ontem à tarde, depois da aula de voo... — Harry contou mentalmente os dias que faltavam para a lua cheia, mas seria apenas no final da semana seguinte, então não podia ser isso. Balançou a cabeça, confuso.
— Talvez ele mesmo trouxe sua vassoura — sugeriu Draco.
— Talvez — concordou Harry, mas não era o que achava; Padfoot teria avisado, certamente. — Talvez ele já esteja no Salão. — Com um último olhar curioso para a moto de Padfoot, ele e os outros abriram as pesadas portas e entraram no Salão Principal. Padfoot não estava na Mesa Principal (mas Moony estava e conversava com Hagrid) nem na de Grifinória, tampouco esperando em algum canto. Harry ficou um pouco desapontado.
Mas sua entrada não foi ignorada; Hydrus, Crabbe, Goyle, Parkinson e Shafiq estavam esperando por eles. Harry olhou para as mãos deles, mas eles não seguravam as varinhas; olhavam para Draco. Harry ficou na frente dele.
— Você vai sentar com a gente — disse Hydrus a Draco, olhando por cima do ombro de Harry. — Eu não sei o que foi aquilo ontem, mas já acabou. Não vamos falar sobre isso; será como se nunca tivesse acontecido. Vamos.
Draco suspirou e passou por Harry para seguir seu irmão e os outros Sonserinos. Ele não parecia feliz — irritado era uma palavra melhor — e Harry também notou que, pela primeira vez, Draco não tirou a gravata ao se sentar com os Sonserinos.
— Eu já volto — disse Harry a Ron e Hermione, que assentiram e foram se sentar com Neville. Aproximou-se da Mesa Principal, recebendo olhares estranhos dos outros alunos; Harry vira apenas alunos do sétimo ano irem até lá (provavelmente com perguntas sobre seus NIEM), e até mesmo isso era raro. Felizmente, Moony não pareceu se importar e Hagrid pareceu feliz.
— Harry! — exclamou Hagrid, acenando com tanto entusiasmo que quase derrubou o minúsculo professor Flitwick da cadeira. O professor de Feitiços ajeitou o chapéu e se aproximou mais da professora Sinistra.
— Harry — disse Moony carinhosamente, mas não com tanta animação —, posso te ajudar com alguma coisa?
— Sim — respondeu. — Você viu o Padfoot? — Moony o olhou de um jeito estranho.
— Não — disse, piscando. — Deveria?
— A moto dele está no Saguão de Entrada — explicou. Moony piscou novamente.
— Como é?
— Eu disse...
— Eu ouvi — disse, gesticulando. — Mas não, eu não o vi. — Sorriu e indicou a mesa de Grifinória. — Fred e George estão aqui, então não acho que ele tenha sido sequestrado. — Harry riu, mas o franzir não saiu de seu cenho. — Estou certo que ele vai aparecer — disse, mas parecia preocupado; ele, como Harry, provavelmente concluíra que se Padfoot não estava ali para vê-los, estava à trabalho. E isso, Harry duvidava, era algo bom.
— Está tudo bem, Remus, Harry?
— Só estávamos falando sobre o Padfoot, senhor — respondeu Harry, olhando para Dumbledore, que passou por eles para chegar ao seu lugar. Dumbledore (que provavelmente sabia tudo que tinha acontecido, estava acontecendo e ia acontecer em Hogwarts) pareceu perturbado por um momento.
— Espero que ele se junte a nós em breve — disse com um sorriso pequeno e triste. — Ele aceitou minha oferta para ficar para o café da manhã.
— Por que... — Moony começou a perguntar, mas Dumbledore apenas balançou a cabeça.
— Atrevo-me a dizer que Sirius te contará mais tarde — disse em voz baixa. — Agora, entretanto, não é a hora nem o lugar para tais coisas. Sugiro que vá sentar por ora, Harry.
— É — disse Harry —, er... tudo bem. — Os olhos de Dumbledore brilharam.
— Bom dia para vocês. — O sorriso que seguiu foi mais feliz do que seus antecessores, e Dumbledore inclinou a cabeça para eles, antes de se sentar ao lado da professora McGonagall.
— Eu vou... er... vou me sentar, acho — disse Harry, olhando para Dumbledore. Remus assentiu.
— Está tudo bem? — perguntou Ron quando Harry se sentou. Apenas deu de ombros, pegou uma torrada e se posicionou de modo que pudesse observar as portas enquanto comia. Neville deu um olhar questionador para Hermione, mas ela apenas balançou a cabeça.
Padfoot chegou dez minutos depois com Snape de todas as pessoas. Apesar de ser alto, ele não se destacava muito; Padfoot usava uma capa preta, como os alunos, e ninguém prestava muita atenção em Snape — era provável que fossem repreendidos ou insultados se olhassem por muito tempo.
Havia bolsas sob os olhos de Padfoot e linhas mal-humoradas ao redor de sua boca, e Snape parecia ainda mais sério do que o normal. Mas Padfoot se alegrou ao ver Harry e bagunçou seu cabelo ao passar, mas não falou. Harry o observou se separar de Snape na Mesa Principal; Snape foi para a direita, enquanto Padfoot ia para a esquerda, onde Moony estava. Flitwick e Sinistra tinham ido embora e, agora, McGonagall estava no lugar vago de Flitwick, conversando com Moony.
— Ele não parece bem — disse Hermione, observando Padfoot. Harry a olhou. Ela levou a mão à boca e Neville guinchou. Harry se virou a tempo de ver a cadeira de Moony ir para trás, enquanto ele levava a mão ao rosto, e Padfoot abaixava o braço.
O que em nome de Merlin...
Então, Padfoot ajeitou a cadeira de um Moony indignado e o puxou para um abraço.
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— Mas que diabos... — começou Remus, segurando o rosto, mas foi interrompido por McGonagall.
— Senhor Black! — sibilou ela, do outro lado de Hagrid; Sirius conseguia ver Harry e seus amigos olhando em sua direção, mas, felizmente, o resto da escola não vira nada. — Entendo que teve uma manhã difícil — Sirius olhou para a antiga Chefe de sua Casa, sorrindo, e, então, olhou para Remus, que parecia irritado o bastante para deixá-lo à mercê dela —, mas é um visitante aqui, numa escola, e está dando um péssimo exemplo para os alunos!
— Ninguém viu — disse Sirius. — Não sou idiota. — Remus bufou, zombeteiro. — Bem, Harry viu, mas ele mora com meu "exemplo" há anos e ele virou um bom garoto. — Os lábios de McGonagall se torceram. — Eu vi isso — disse, e ela os crispou na mesma hora.
— Você não viu nada — disse, severa. — E acho que ele é um bom garoto, mas isso deve ser mais pelo sangue da mãe do que por sua influência. — Ela sorriu de repente, surpreendendo Sirius, e tirando a maldade de seu comentário. — Merlin sabe que você e Potter eram terríveis nessa idade.
— Você amava — disse Sirius.
— Acho que preciso agradecer a vocês dois pelos meus fios brancos. — Hagrid riu.
— Provavelmente — concordou Remus em vão.
— Não comece, senhor Lupin — avisou McGonagall, olhando-o. — Você não era muito melhor. — Remus pareceu envergonhado.
— Sou melhor do que antes — disse levemente. — O que é mais do que pode ser dito sobre certas pessoas. — Esfregou a bochecha de um jeito bastante petulante.
— Você mereceu — murmurou Sirius, mas sacou a varinha e conjurou um feitiço de cura rápido.
— Por quê? Faz duas semanas que eu não te vejo! — Sirius abriu a boca, mas estava bastante ciente de McGonagall e Hagrid, sentados ao lado, ouvindo. Sentiu suas bochechas corarem um pouco e coçou o nariz quando o cheiro de Remus passou de exasperado para curioso.
— Pergunte a Dora — disse brevemente.
— Vou perguntar — disse Remus, pensativo. Sirius resmungou e se serviu de ovos mexidos. Remus esperou até que Hagrid e McGonagall estivessem envoltos numa conversa para perguntar: — Então, o que aconteceu?
— Morton morreu — contou Sirius em voz baixa. — Vim contar ao filho.
— O que... Como? — Sirius suspirou, deixou o garfo de lado e explicou os eventos na noite anterior num tom tão baixo quanto possível; todos os professores sabiam, mas Sirius não tinha certeza de que Hagrid sabia e ele poderia tentar abraçar Morton se o visse, o que provavelmente não acabaria bem. — Uma noite longa, então — disse Remus quando Sirius terminou. Mas tinha omitido a parte sobre Marlene.
— Muito. Ainda não dormi. — Sirius abafou um bocejo.
— Então não devia estar voando — disse Remus.
— E nem vou — respondeu, revirando os olhos. — Eu provavelmente acabaria batendo num daqueles aniãos muggles...
— Avião? — sugeriu Remus, sorrindo.
— Isso — disse Sirius. — Dumbledore disse que posso deixar a moto onde ela ficou guardada antes, apenas por alguns dias, e usar o flu no Salão Comunal da Grifinória.
— Onde ficou guardada antes?
— Tem uma garagem no sétimo andar.
— O quê? Mas o mapa...
— Nós nunca descobrimos — disse Sirius tristemente. — Eu nem sabia que o lugar existia até Dumbledore me levar lá. Acho que eu lembro onde fica. Na verdade, posso ir até lá agora. — Engoliu seu suco de abóbora e se levantou.
— Você quer que eu...
— Eu vou ficar bem — disse, bocejando. — Pode ser que eu passe um tempo com Harry antes do começo das aulas. — Remus sorriu. — A gente se vê no próximo fim de semana.
— É o que parece — disse Remus com um sorriso irônico. — Cuide-se nesse meio tempo.
— Você também — disse, sustentando o olhar de Remus para que ele soubesse que falava sério. — E fique de olho no...
— Harry, sim — terminou Remus.
Sirius sorriu para ele e se afastou com um aceno, indo em direção a seu afilhado na mesa de Grifinória.
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— ... fazendo aqui?
— A senhora McKinnon veio procurar pelo Mestre e decidiu esperar quando o Mestre não estava em casa.
— Mas por quê? — sibilou Sirius, soando quase em pânico.
Marlene percebeu que o que ouvia não era, de fato, um sonho e acordou, lembrando-se a tempo de que havia uma xícara de chá à sua frente; impediu-a de tombar e Monstro, o elfo, a levou para a pia.
— 'Dia — disse ela, sonolenta, afastando o cabelo do rosto. Sirius estava parado perto da lareira, olhando-a com uma mistura de esperança e horror, usando vestes amassadas e cobertas de cinzas.
— Oi — disse Sirius, olhando para a lareira como se quisesse entrar nela mais uma vez. Marlene revirou os olhos, espreguiçou-se e bocejou. — Er... posso... O que está fazendo?
— Eu estava dormindo — disse Marlene, sem se dar ao trabalho de levantar. — E antes disso, estava te esperando. — Sirius passou uma mão pela barba rala que aparecera nas horas desde a última vez que o vira. Deu um tapinha no lugar ao seu lado, e Sirius olhou para Monstro (que estava ocupado na pia e não prestava atenção nele), antes de encolher os ombros e ir se sentar.
— Na minha casa? — perguntou Sirius.
— Precisamos conversar — respondeu Marlene e seu coração disparou. — E estava óbvio que você não ia me procurar...
— Eu teria...
— Então por que está aqui e não na minha porta, perguntando-se por que não atendi?
— Eu teria te procurado em algum momento — corrigiu Sirius e ela acreditou, mas precisava resolver isso agora, não em algum momento. — Eu tive uma longa noite e a única coisa que eu realmente quero fazer nesse momento é dormir.
Anda, Marlene disse a si mesma. Pergunte.
— É apenas isso? — perguntou Marlene, encontrando seus olhos. Sirius a olhou e, depois, sem que quisesse, seus olhos foram para os lábios dela.
— Eu... — Hesitou. — Monstro, vá um pouco lá pra cima. — Monstro se curvou e sumiu. — Isso... Você... — Balançou a cabeça e esfregou o queixo. — Deixei bastante claro o que eu quero, acho. — Marlene concordava e ficou feliz por ele ter dito isso; outrora, tudo o que teria recebido teria sido uma piada ou comentário sagaz ou algum comentário sugestivo, isso se ele não tentasse mudar de assunto.
Mas você cresceu, não foi?, pensou, observando-o. Estava acostumada a isso, mas, às vezes, a maturidade de Sirius a pegava de surpresa.
— ... ou tão claro quanto possível sem ser um idiota e, uh... bem, sem forçar o assunto — dizia Sirius. — Então...
— Então depende de mim, é o que está dizendo? — perguntou Marlene.
— Honestamente — respondeu Sirius —, sim. — Marlene inclinou a cabeça e Sirius pareceu cauteloso. — Então, o que você quer?
— Acho que deixei bastante claro ontem à noite — murmurou, olhando-o nos olhos. Mais uma vez, os olhos dele foram para sua boca, antes de subirem. O coração de Marlene estava disparado em seu peito; suas cartas estavam todas na mesa metafórica agora, prontas para explodirem em seu rosto ou para que Sirius colocasse as dele, dependendo do que acontecesse agora.
Sirius ficou em silêncio e o coração de Marlene parou, mas ela não conseguia desviar os olhos. Era uma coisa Grifinória, pensou ela, encarar sua potencial destruição e ainda ser fascinada por ela.
— Acho que deixou — disse ele por fim e era impossível de ler seu rosto. Talvez ele também estivesse se preparando para ser rejeitado, mas ela não tinha a menor intenção de fazer isso, não de novo. — Então...
— Então, se você for idiota o bastante para me aceitar de volta depois de tudo o que eu fiz nos últimos três anos — disse Marlene ironicamente, o coração batendo ridiculamente rápido —, então sou sua. Não mereço outra chance, mas sou egoísta demais para não aceitar se for oferecida. — Sirius a observou por um longo momento, antes de sorrir.
— Venha aqui — disse ele, puxando-a para um abraço apertado e carinhoso. Marlene não resistiu; passou os braços ao redor dos ombros dele e descansou a bochecha em seu pescoço.
Ficaram assim por um tempo, mas Sirius foi o primeiro a se afastar. Não para longe; ele manteve uma mão em seu quadril, mas a outra foi para sua orelha, onde ele colocou seu cabelo, afastando-o de seu rosto, antes de levar a mão para seu queixo. Seus olhos estavam vivos — mais vivos do que qualquer cinza que já vira e muito mais vivos do que o cinza tinha o direito de ser — e prenderam-se aos seus quando ele a fez erguer a cabeça.
Então, nada; Sirius não se mexeu — nem para frente nem para trás —, tampouco falou. Ele apenas a observou e um sorriso tolo apareceu lentamente em seu rosto.
— Provocador — disse. Então, só para ser maldosa, tirou a mão dele de sua cintura e começou a se afastar. Sirius a puxou de volta (não que tenha tentado impedi-lo) e, então, finalmente, finalmente, dez anos (de mortes falsas, cárceres equivocados, culpa, tentativa de assassinato, ser encontrada de novo, lutarem lado a lado em um exercício de treinamento e dividirem almoços e lanches demais para contar) depois do seu último beijo, a boca de Sirius encontrou a sua.
Continua.
