Depois da minha ausência e a demora na atualização o que me resta é um formal pedido de desculpas e meu eterno agradecimento à Angelique Lebrun por dar o ar da graça e comentar por aqui. Obrigada sua linda! haha
Aos demais, uma ótima leitura!
O nome do evento era Torneio Tribruxo. Tribruxo. TRIBRUXO. Por que raios Potter estava fazendo volume em um evento em que ele claramente não deveria estar? Desde que Draco se lembrava de ter conhecido aquela criatura insignificante enquanto provava seu traje de Hogwarts sua vida havia deixado de ser aquela expectativa para o sucesso que tanto lhe ensinavam. Era sempre Harry Potter acompanhado de Ronald Weasley e Hermione Granger à sombra do herói do mundo bruxo que não sabia nem trocar de fraldas quando resolveram tratá-lo assim. Um herói é? Tão heróica sua não-atitude contra o Lord da Trevas que lá estavam novamente sob ameaça e dessa vez Draco e sua famíllia, que tanto fez para não perder o posto de "cidadão de bem" catorze anos antes, estavam servindo para Voldemort. Só de pensar no nome do bruxo ele sentia os fios loiros arrepiarem e a náusea apertar o estômago. Era melhor se concentrar em qualquer outra coisa no momento e não mais no que gostavam de chamar de trio de ouro. Um mestiço, uma sangue ruim e um traidor de sangue. Saudades valor e bons costumes.
– Pansy, só restamos nós nos dormitórios de todas as casas de Hogwarts, quanto tempo mais você precisa para se arrumar?
Entediado, Draco estava encarando a parede de pedra, apenas aguardando Parkinson sair de seu quarto. Com a desculpa de que o dormitório feminino não era tão bom quanto o dos homens, ela decidiu que iria se arrumar na ala masculina, querendo Malfoy ou não, mas Draco sabia que ela só havia optado por isso pois não se dava muito bem com as colegas de quarto, ainda que Daphne Greengrass fizesse algumas poções com ela de vez em quando.
Pessoalmente ele também achava que Pansy era mais homem do que muitos naquele lugar, só tinha um gosto muito peculiar para acessórios e fitas de cabelo. Bem, quem era ele para duvidar ou questionar o gosto feminino? Se comentasse qualquer coisa teria o sapato de fivelas prateadas no meio dos olhos em dois tempos.
Esse era outro detalhe de importância questionável para o sonserino: por que e para quê um baile onde os quatro – e não três como deveria – bruxos estariam expostos como macacos em um zoológico trouxa, festejando e dançando como se não pudessem morrer em um dos jogos? Deu de ombros. Seria interessante se Potter acabasse acidentalmente ferido.
– Que tal?
Uma única palavra resumia a roupa de Parkinson: rosa. Da cabeça aos pés o tom berrante destacava-se, sapatos forrados com o mesmo tecido brilhoso do vestido, a saia armada e cheia de pontos cintilante, os cabelos negros esticados para cima com um produto de textura molhada, mais o grande laço de tule que caía quase como um véu sobre os ombros descobertos, revelando a pele pálida e os ossos pontudos que furariam um olho. Em uma tentativa frustrada de arrancar alguma palavra de Malfoy ela abriu os braços, evidenciando que estava ali ainda, caso o rapaz que estava com as sobrancelhas arqueadas de surpresa muda não tivesse notado.
– E então? – uma pontada de irritação evidenciava-se em sua voz aguda. Era melhor falar logo antes que ficasse surdo.
– É... Rosa.
– Percebeu isso sozinho, gênio?
Marchando com seus sapatos cintilantes de saltos quadrados pelo corredor, Pansy disparou na frente, questionando-se em voz baixa o motivo de pedir opiniões desse tipo para garotos, esses que não saberiam nem combinar a cor da meia com os sapatos se não fossem pela atenção das mães. Malfoy teria rido se não suspeitasse que a garota tomaria aquilo como afronta pessoal e o azarasse, nem que isso custasse comparecer sozinha ao baile, o que na visão feminina era pior que a morte.
Como previsto em seu humor oscilante, Pansy logo mudou da raiva para a alegria desmedida e escancarou os lábios a ponto de evidenciar todos os dentes de sua arcada dentária, tamanha sua animação com o salão lotado. Como ela conseguia se locomover entre tantas pessoas sem precisar parar periodicamente e solicitar que abrissem passagem era algo que Draco nem queria saber, só o que queria era encontrar logo a porcaria de um acento vazio onde pudesse se encostar e fazer seu papel de herdeiro Malfoy até que aquela palhaçada toda acabasse.
– Oh Merlin, como a Chang é sem graça... – a garota comentou maldosa certa altura. – Será que se eu disser que seu vestido está horrível ela começa a chorar?
Como o comentário havia sido para si própria, Draco apenas lançou um olhar para a imagem de Cho do outro lado do salão, conversando com o tal de Cedrico Qualquer-coisa, o único representante de Hogwarts nesse torneio se tudo estivesse indo de acordo com as regras. Isso é o que acontecia quando permitiam tantos mestiços e sangues-ruins frequentando as escolas mágicas: a tradição estava se perdendo.
Só perdeu sua seriedade quando viu Granger entrar no salão, Potter e Weasley embasbacados vendo a amiguinha irritante se aproximando em um longo azul que a fazia parecer algum ser mágico muito bizarro. Pansy que estava ajeitando o laço em sua cabeça foi interrompida quando sentiu o dedo esguio e pálido de Draco lhe cutucando o ombro, logo após indicar discretamente a direção do trio. Tantas ações meticulosamente treinadas para Parkinson soltar uma gargalhada semelhante a um relinchar. Não fosse a música ao fundo, todos os presentes teriam notado, mas àquela altura até mesmo ele se deu a liberdade de rir, mais da reação da acompanhante do que da imagem bizarra de Granger. Parkinson dobrou-se sobre os joelhos, tamanha sua diversão e Draco escondeu os lábios com uma das mãos, como se fosse algum tipo de crime um Malfoy esboçar qualquer reação alterada de sua seriedade natural. Pansy não era lá tão ruim, admitiu. E era divertido ouvir seus pensamentos exteriorizados para o mundo, como se a garota não ligasse se mais pessoas ouviriam e isso chegava até a ser admirável; nem mesmo sua acidez jogada aos outros era natural, sendo tudo ensaiado mentalmente, articulado durante meses de férias e relembrados em tópicos imaginários em tempos livres. Draco estava saindo igual ao pai e isso já não era mais um elogio.
Agora, nem mesmo se Ginny quisesse teria passado despercebida. Não vestia nada de cor extravagante como Pansy ou tinha seus cabelos armados em uma tentativa de penteado ridículo como Granger. Cabelos. Mesmo soltos e escovados para trás, eram eles que a denunciaram: a marca Weasley, a sina que acompanhava todos aqueles traidores de sangue e que pareciam tão adoráveis nela. Longbotton a acompanhava e parecia ainda mais patético, ainda mais ao lado de uma garota de aparência tão chamativa quanto a da garota. Ela tinha sardas nos lábios que desciam pintando seu queixo, o pescoço e colo e ainda salpicava a ponta de seu nariz e estendia-se à margem da raiz dos cabelos. Pode ver que suas mãos pintadas erguendo-se até a altura do rosto, escondendo uma mecha opaca atrás da orelha, enquanto ria de alguma piada que Neville talvez tivesse contado, ou de sua aparência de garoto assustado. Preferia acreditar na segunda opção.
– Se continuar olhando as pessoas vão desconfiar. – Pansy comentou sem um pingo de piada ou aversão. Constrangido, Draco voltou o rosto para ela, sentindo as bochechas esquentarem. – Degradante. – ela condenou falsamente, o nariz arrebitado enrugado em uma careta debochada.
– Não sei do que está falando.
– Está tão vermelho quanto os cabelos dela.
E o disfarce quase foi abandonado quando ele notou perder a postura diante daquele julgamento. Talvez anos mais tarde Draco nem se lembrasse dessa conversa ou de como quase tombou para fora do acento, mas naquele momento sentiu como se Parkinson pudesse sair de seu lugar e gritar para todos os cantos que ele, um Malfoy declarado e educado na maior base de sua nobreza de sangue-puro estava admirando Ginevra Weasley.
Aquela, logicamente, não era a primeira nem seria a última vez que ele se surpreenderia com Pansy. Vinte anos depois Draco agradeceria à Merlin por ter a garota como amiga. A única.
– Ela não é do nosso mundo, Draco, e não estou falando sobre uma guerra de casas ou algo do tipo: a Weasley jamais será do nosso meio simplesmente porque não quer.
A frase foi dita mais como um conselho disfarçado em consolo do que bronca. Mudo pela insinuação de que Ginny chamava mais sua atenção do que ele gostaria de admitir, Draco balançou a cabeça em negativo, como se isso pudesse invalidar as ideias que Pansy sugeriu tão delicadamente, um contraste gritante com a personalidade pouco reservada da única garota na festa trajando cor-de-rosa.
– Não é como se eu estivesse apaixonado por ela. – sibilou com os lábios torcidos, como se tivesse provado algo de gosto ruim.
– Sei que não. – os olhos castanhos estreitaram-se para alguém no outro lado do salão, mas desviaram-se a tempo de evitar que Malfoy notasse quem era o alvo dos prováveis comentários internos de Pansy. – Sinceramente, por que os chamam de trio de ouro? – e a inacreditável proeza de Parkinson em mudar o tom da conversa e seu humor mais rápido do que a representante de Beauxboux mudava de roupa.
Draco analisou Ronald Weasley trajado com uma veste clássica que o sonserino poderia jurar ter visto um de seus antepassados – um tataravô, talvez? – usando em um dos quadros de família, Harry Potter usando qualquer coisa de gosto duvidoso que apenas descendentes de mestiços ou alguma ligação com o mundo trouxa gostava de vestir e Hermione Granger expondo os não-mais-enormes-dentes em uma tentativa de sorriso, que fazia seus olhos apertarem, lhe dando uma feição de dor. Pansy tinha razão: por que trio de ouro?
– Se eles são de ouro, prefiro sermos de latão.
– Não somos nem mesmo um trio, para início de conversa.
– E Blaise? – Draco riu da reação de sua acompanhante.
– Zabini consegue ter o humor pior que o seu às vezes e para mim basta um Malfoy.
Permitindo-se rir mais uma vez naquela noite Draco não chegou a notar quando o grupo dos quatro-e-não-três bruxos juntaram-se para a valsa. Observou apenas da metade para o final da valsa de abertura e viu quando os demais casais se juntaram no salão para dançar, ou quase isso. Todos os casais ali pareciam sentir a estranha necessidade de expor que estavam em um encontro e talvez por isso estivesse se sentindo tão incomodado com os cochichos acerca dele e Pansy, que sentia-se deslumbrante em seu vestido espalhafatoso e sorria largamente para cada bandeja que se aproximava. Foi preciso pelo menos cinco músicas com intervalos de outras duas de ritmo lento para que Draco convidasse a garota para dançar, oferta essa aceita com um salto que a fez sair de sua mesa para o meio da pista, como se molas tivessem grudadas em seus sapatos brilhantes.
Draco não podia mentir: estava começando a temer seu futuro a partir daquele momento. Seus receios não eram mais pelo destaque ou reconhecimento; algo lhe dizia, no fundo de sua mente, que em breve teria problemas além de Harry Potter, problemas reais. Por enquanto, a alegria desmedida de Pansy o fazia esquecer dos próprios receios e aproveitar o que ainda restava de uma vida tranqüila.
..
Mesmo hoje, tantos anos após o baile, Helga sentia-se incomodada com o ocorrido naquela noite, como se tivesse azarado alguém com um Imperio ou deixado os chinelos virados com a sola para cima, coisas que faziam sua mãe gritar horrorizada, a acusando de todos os tipos de crimes familiares que aquilo significava. Chutou sua pantufa para o alto e marchou para a porta após ouvir batidas na mesma:
– Desculpe o horário, senhorita Parks, mas sem o senhor Silfo para pegar suas cartas elas acabam acumulando na portaria... – o senhor entregou os envelopes e ajeitou os óculos de aros amarelados pelo tempo.
– O que disse a respeito de Thomas?
– Ah, o rapaz sempre pede pelas suas correspondências quando pega as dele comigo... Costuma dizer que é mais prático trazer as suas porque poupa tempo.
Se Bob Pumpkin soubesse o que aquela frase dita de forma tão displicente e inocente causou em Helga não teria estranhado seus olhos arregalados, tornando-se assustadoramente maiores do que já eram, nem seu rosto petrificado em um tom abóbora. Ele teria causado um caso gravíssimo de parada cardíaca sem ao menos se dar conta que tinha esse talento.
Por que Silfo faria isso? Não era ele quem sempre praguejava por ter suas correspondências misturadas às dela? Ah, é mesmo, Helga acabava de descobrir que isso nunca aconteceu. Se já não bastasse ser perturbada pelo velho Malfoy lembrá-la do baile em seu último ano ainda tinha essa novidade e com ela... O mundo estava ficando louco?!
– Dê um outro tapa, talvez volte a funcionar.
– Ou volta ao normal ou quebro de vez. – Ludmila arqueou a sobrancelha esquerda, analisando a imagem petrificada de Helga que ainda tinha os envelopes em mãos.
Adoráveis momentos em que Parks sentia-se como seu computador antiquado, onde uma tela azul imensa povoava sua mente e ela notava-se paralisada como uma grande imagem que dizia "Error 404, Mind not afound". De meias de lã desbotados pelas lavagens feitas de modo errado e sua grande camisa xadrez de botões que ela havia emprestado para sempre de seu pai, Helga não parecia muito adequada para estar parada quase na metade de um corredor, mas quem disse que ela havia notado isso cinco minutos atrás quando Pumpkin estalou os dedos na frente de seu rosto tentando tirá-la de seus devaneios?
– Aquele velho gagá da portaria estava assustado, disse que você tinha congelado.
– Eu estou bem, Ludmila... – gaguejou envergonhada.
– Claro... – Nymph alisou a barriga e olhou discretamente para Ludmila, seus olhos gritando "Por que não estamos correndo?!"
Constrangida por sua postura, Helga logo convidou as amigas para entrar, no que não passou de um apontar para a sala. Elas entraram um tanto relutantes, Nymph ainda parecendo querer sair correndo e a imagem de sua barriga saindo na frente quase fez a ex-grifinória rir.
– A ideia foi da Nymph. – Ludmila entregou a amiga sem dó ou piedade.
– Bom saber que posso contar com sua discrição, maldita.
– Não, tudo bem, eu estou meio estranha hoje mesmo...
– Hoje? – Nymph cutucou o braço de Ludmila que murmurou a dor aguda. – De qualquer forma a ideia foi da eterna gestante aqui.
– Você concordou que precisávamos vê-la...
– Concordei que precisava ver a porta, não a Helga. Aliás, eu já consertei aquele serviço seu, então já estou liberada.
Nem se quisesse Ludmila conseguiria, não quanto a altura de Nymph poderia bloquear a porta e a mulher em seu pouco tamanho não atravessaria. Incrivelmente a ideia de desaparatar não passou pela sua cabeça.
– Eu posso fazer uma pergunta para vocês?! – gritou Helga de repente, fazendo as duas amigas saltarem de susto. Seus impulsos desmedidos ainda matariam alguém, mais fatais que o poder secreto de Pumpkins.
– Responda Nymph, antes que ela pendure uma melancia na cabeça e saia dançando por aí.
– Mila... – a moça voltou a rir, mas tentou disfarçar o melhor que pode ao ver o semblante aflito de Helga. – Pode dizer.
– Se uma pessoa presta favores a você sem nenhum tipo de motivo aparente, o que isso significa?
– Que ela quer dinheiro. – Ludmila quebrando sonhos. – Posso ir?
– Talvez ela se importe.
Com os olhos sonolentos Colt encarou a senhora Miller incrédula. Custava ela colaborar um pouco? Tudo o que a farmacêutica queria era o sossego de sua casa, mas isso era impossível com aquelas duas em sua rotina, um jeito discreto da vida lhe dizer que não, ela jamais teria sossego e se achasse muito ruim ainda seria obrigada a socializar. Pessoas... Isso fazia Colt arrepiar e ter refluxo.
– Mas não faz sentido... – Helga murmurou, tentando adivinhar os motivos de Silfo mentir para ela, talvez sua grande necessidade de importuná-la como era de praxe em todos os sonserinos. Precisava evitar a todo custo achar que ela era importante de alguma forma para ele.
Apenas Ludmila sabia que Thomas era – e sempre foi – apaixonado pela jornalista e que estava adiando ao máximo seu casamento com Pandora. Ela suspirou, observando suas amigas mudarem de assunto facilmente, comentando aleatoriedades como crochê e meias de lã para bebês. Silfo era mesmo um idiota e ela não poderia fazer nada para ajudá-lo.
