—Então esta é a sua emergência?

—Mãe!

Harry ficou boquiaberto com a figura da sua mãe na porta, enquanto todos os meninos se amontavam às suas costas. Logo atrás deles, estavam James, que encolheu os ombros. Harry supôs que não deveria ter se surpreendido com o fato de sua mãe ter se preocupado com ele e seu irmão depois de três dias desaparecidos. Mas ele nunca tinha considerado o fato dela vir procurá-los.

—Foi aqui que você esteve nestes últimos três dias?

—Sim. — Harry mergulhou em uma bacia com água fria sobre o criado-mudo o pedaço de pano que segurava, torceu-o e colocou de volta na testa febril de Hermione—Ela levou um tiro, a bala atravessou o corpo, mas ela está com muita febre. Talvez por causa da forte hemorragia, talvez ela tenha apanhado friagem por ter ficado muito tempo no sólido úmido. Pensei em contratar alguém para tratar dela, mas resolvi que seria mais seguro eu mesmo cuidar com ajuda dos meninos. Não sei quem atirou contra ela,entendeu?

Lady Lilian se aproximou da lateral da cama e baixou os olhos para a jovem febril na cama.

—Quem iria querer atirar nela?

— Já disse, não sei. Tudo que tenho são algumas suspeitas. Nenhuma prova.

— Mas estamos procurando por provas — disse James ao se aproximar da mãe.

— Como à senhora nos encontrou? —Harry perguntou.

— O cocheiro me contou. — Um movimento no chão chamou a atenção de Lady Lilian. Enormes olhos castanhos fitavam-na entre pelos longos e sarapintados. — O que é isto?

— Um cachorro — respondeu Harry, rindo da expressão de dúvida que sua mãe estampava.

— Demos o nome de Matador a ele, porque ele perseguiu o homem que atirou na Mione e deu uma mordida diretamente nas partes íntimas do maldito. E meu nome é Teddy. — O menininho sorriu para a senhora. — Sou filho ilegítimo do Orion.

— Fora. Todos vocês para fora — disse Alex e começou a expulsar os meninos que tinham invadido o quarto. — Vou ver se a Sra. Stark pode preparar um chá para nós — ele disse à sua mãe e arrebanhou os meninos para fora.

Depois que a porta se fechou atrás de James e dos meninos, Lady Lilian olhou para o seu filho mais velho.

— Aquele menino fala e se parece com um cantor de coral de igreja. Isso até que prestemos atenção ao que ele diz. Partes íntimas? Filho ilegítimo? Palavrões?

— Estou começando a acreditar que Teddy fala essas coisas porque gosta de chocar as pessoas — Harry disse.

— Sei. — Lady Lílian tirou as luvas, o chapéu e o casaco e se sentou em uma cadeira, próximo à lareira. — Então, esta é Lady Hermione? E ela realmente foi baleada? — Quando Harry assentiu, ela balançou a cabeça. — Ela cuida sozinha de todos estes meninos?

— Ela tem dois irmãos, de dezesseis e quatorze anos, além de Darius, de treze, que a ajudam. — Ele rezou silenciosamente para que a sua mãe não descobrisse que os três garotos passavam grande parte do dia espionando um bordel. — Tem também o tutor dos meninos. Septimus Vaughn. Se bem que creio que ele deva ter acabado de sair de Oxford.

— E quem é esta tal de Sra. Stark

— Ela é a criada faz-tudo, mas só fica aqui durante o dia. A mulher poderia ajudar a tratar de Hermione, mas ela tem uma filha que está em recuperação e seis netos para cuidar sozinha. Tem dias que ela nem pode vir trabalhar, mesmo assim envia um pouco de comida para todos.

— É muita responsabilidade para esta moça. Os parentes dela deveriam se envergonhar disso. Quando você me contou sobre esta situação, não imaginei que ela estivesse cuidando sozinha deste bando.

— Concordo que a família deveria se envergonhar. Ou no mínimo contratar alguém para ajudá-la.

— Há quanto tempo ela está febril?

— Desde a noite em que levou o tiro.

— Não faz tanto tempo. Eu trouxe algumas mudas de roupas para James e você. E para mim.

— Para a senhora?

— Vim ajudar a cuidar dela.

— Mas...

Lady Lilian se aproximou do filho e afagou seu ombro.

— Ela precisa dos cuidados de uma mulher. Imagine como ela ficará sem jeito depois que acordar e descobrir que você era a única pessoa que estava à sua cabeceira enquanto ela estava muito fraca para cuidar das próprias necessidades.

Harry suspirou e assentiu com a cabeça, ciente de que não fazia sentido discutir com a mãe.

— Sei que eu me sentiria assim se a situação fosse inversa. Mas a senhora também não pode assumir tudo sozinha.

— Não se preocupe, vou permitir que você e os meninos mais velhos continuem cumprindo suas tarefas. Ah, aí está o chá — ela disse, sorrindo para James quando ele entrou e colocou a bandeja que carregava sobre a mesa próximo à lareira.

Uma vez convencido pela mãe, Harry deixou a cabeceira de Hermione e se juntou a ela e James para compartilhar um chá e uma refeição leve. Ainda estava um pouco contrariado com a presença da mãe. Seria bom contar com a ajuda dela para cuidar das necessidades pessoais de Hermione, mas a interferência causou um pouco de ressentimento. Seu desejo era ficar ao lado de Hermione dia e noite como se ele pudesse pessoalmente defendê-la da morte. Ele
chegou à conclusão de que precisava muito descansar, pois só o cansaço poderia justificar um pensamento tão ridículo.

Quando terminaram de tomar o chá, sua mãe estava a par de todos os fatos e boatos que Harry sabia. Ele próprio se surpreendeu ao perceber que tinha contado tanto a ela. Foi até um pouco difícil esconder a verdade do que havia entre ele e Hermione. A habilidade da senhora de interrogar era espantosa.

Harry gostaria muito de colocá-la no encalço dos Wesley, mas nunca teria coragem de expor a própria mãe a tal perigo, não importava quão boa fosse a causa.

— Tem certeza de que quer mesmo fazer isso? — Harry perguntou quando ela pediu que ele pegasse papel e tinta para fazer uma lista de tudo que precisaria para cuidar de Hermione.

— Esta febre não é contagiosa — ela disse.

— Eu sei, mas cuidar de alguém assim tão mal é uma missão muito cansativa. — Ele esperou para ver a reação enquanto ela terminava de escrever o que parecia ser uma longa lista.

— Peça para os meninos ajudarem a trazer estas coisas para mim — ela disse quando entregou a lista a James, que rapidamente se retirou. Em seguida, olhou para Harry. —Tenho seis filhos, meu querido. Entre todos, vocês tiveram todos os tipos de doenças, ossos quebrados e os ferimentos mais ensanguentados que já vi. Entretanto, acho que vou mandar chamar tia Petúnia

— Não seria melhor mandar chamar tia Sarah? Ela é mais forte e, digamos um pouco mais delicada.

— Tem razão, é por isso mesmo que ela precisa ficar em casa para manter os seus outros irmãos na linha. Petúnia é muito boa para cuidar de doentes, Harry. Ela cuidou de mim quando tive uma febre após o parto de James.— A senhora se levantou e caminhou até a cama. — Quem é o médico que está cuidando do ferimento? — perguntou ao descobrir o ferimento de Hermione e analisar com atenção.

— Doutor Pryne.

— Roger Pryne?

— Não sei qual é o primeiro nome dele. Mas sei que é um homem alto, tem cabelos castanhos um pouco grisalhos e um modo correto de falar. A senhora o conhece?

— Pela descrição, tenho quase certeza de que o conheço. Uma velha amiga de escola minha se casou com ele. — Ela suspirou. — Ela já morreu. Foi muito triste. Não tinha nem trinta e cinco anos quando se foi. Tinha o coração fraco. O que ele disse sobre o ferimento e a febre?

— Ele disse que o tiro não foi fatal, mas que a febre pode ser. Ele receitou chá de casca de salgueiro e disse que era para dar banhos de água fria. Nada mais.

Lady Lilian cobriu o ferimento novamente.

— Realmente não há mais nada que possa ser feito. Não fique tão preocupado, meu querido. Não conheço esta moça, mas pelo que você me disse ela parece ser forte o bastante para lutar contra isto. Uma mulher capaz de cuidar de dez garotos e ainda sobreviver só pode ser forte. Agora, preciso que você me responda algumas perguntas.

Harry fez o que pôde para se conter enquanto era bombardeado por uma série de perguntas. Algumas, sobre Hermione, eram tão pessoais que ele ruborizou como um garoto. Uma coisa era cuidar das necessidades pessoais de uma pessoa inconsciente, mas falar a respeito era totalmente diferente.

Entretanto, quando a sua mãe o dispensou, dando ordens para que descansasse um pouco, ele o fez com a consciência em paz, apesar do estado delicado de Hermione. E só o fez porque sabia que a sua mãe lutaria pela vida de Hermione assim como ele, e com muito mais habilidade. Juntos, eles poderiam salvá-la. Ele não se permitiria pensarem nada diferente.

Hermione contorceu o semblante. Todo o seu corpo doía. Tentou se lembrar do que acontecera antes de ir para a cama. E por que estava sozinha? Por que Harry não estava dormindo ao seu lado? Será que fora embora enquanto ela dormia?

Lembranças do parque voltaram numa torrente pela sua mente e ela respirou com dificuldade. Alguém tinha atirado contra ela. Mantendo os olhos fechados e o corpo imóvel, ela tentou se concentrar no ferimento. Doía, mas não mais do que o anterior, apesar de ter a leve impressão de que iria doer muito caso tentasse mexer o braço. As outras partes doloridas, provavelmente, eram resultados da queda depois do tiro. Ela engoliu o pânico que se espalhou ao se lembrar da bala dilacerando seu ombro.

Em seguida, percebeu que estava com sede. Muita, muita sede. Parecia que alguém havia enchido sua boca com lã, lã mofada. De repente, ficou desesperada para lavar a boca e escovar os dentes, certa de que se sentiria bem melhor depois disso.

Com todo cuidado, abriu os olhos e olhou ao redor. Apesar da visão um pouco embaçada ainda, ela pôde perceber, para seu alívio, que estava no seu quarto, na Toca Granger. Quando seus olhos finalmente clarearam do nevoeiro insistente do sono, ela ficou boquiaberta e não conseguiu conter um suspiro. Havia uma mulher sentada ao lado da sua cama, consertando o que parecia muito ser a camisa de um dos meninos. Era uma bela senhora, trajada discretamente, mas só de olhar dava para perceber que suas roupas haviam sido feitas por uma das melhores modistas. Subitamente, a mulher olhou para ela e sorriu. Hermione corou sob o olhar fixo e profundo dos imensos olhos verdes da senhora.

— Ah, que bom. Você acordou — disse a mulher. — Sou Lady Lilian, a mãe de Harry. Pode me chamar de Lilian. E não pense que estou forçando algum tipo de intimidade ao dizer podemos conversar mais tarde. Desconfio que deva estar precisando beber algo e com certeza querendo muito se livrar do gosto amargo da boca. — Lady Lilian serviu um pouco de suco para Hermione e ajudou-a a beber lentamente. — Cinco dias lutando contra a febre e um dormindo deve ter deixado sua boca com a sensação de que um exército passara por aí marchando com as botas enlameadas.

Hermione estava muito atordoada para dizer qualquer coisa. Ela se sentia como uma boneca de pano da mulher quando Lady Lilian lhe deu o que era preciso para limpar a boca, escovou seus cabelos e lhe deu um banho de esponja umedecida. Só depois que a senhora terminou de vesti-la com uma camisola limpa e amarrou um laço de fita nos seus cabelos que Hermione conseguiu se recuperar do estado de estupor. Embora a noção de que uma viscondessa cuidara dela como se fosse sua criada ameaçasse chocá-la outra vez.

— Então faz cinco, digo, seis dias que levei um tiro? — finalmente conseguiu perguntar.

Lady Lilian colocou uma bandeja com fatias de maçãs e pão com manteiga sobre o colo de Hermione.

— Coma um pouco. Bem devagar. Sei que Roger — ela ruborizou um pouco —, quer dizer, Doutor Pryne, prefere que seus pacientes tomem um caldinho, mas ele não proíbe alguns alimentos leves que não agridem o estômago. Tenho certeza de que isto fará bem a você. — Ela se sentou ao lado da cama novamente. —Você ficou febril na mesma noite em que levou o tiro. Poucas horas depois de ter sido trazida para casa. O médico acha que a febre se
agarrou e não passava porque você ficou muito tempo deitada no chão úmido,
ferida e apanhando friagem. O terreno próximo àquele lago é sempre muito úmido. E é claro, não se pode esquecer de que você tinha acabado de se recuperar de outro ferimento sério. Você nem teve tempo de recuperar todas as forças direito.

Hermione assentiu lentamente, recordando-se da umidade fria que rapidamente penetrou por suas roupas. Estava desesperada para perguntar por Harry. Suas lembranças desde que levara o tiro não passavam de flashes do seu rosto, de dor e calor. Lembranças que podiam muito bem ser apenas resultado de sonhos febris, mas ela desconfiava que não.

— Ro... Doutor Pryne disse que você é muito jovem e saudável e que conseguiria combater a febre. À medida que os dias passavam e a febre não baixava, acho que Harry foi ficando um pouco bravo com o homem. Mas o médico mostrou que estava certo. Você precisou lutar contra a febre por conta própria e no seu tempo. O ferimento não inflamou em momento algum. Na verdade, está cicatrizando muito bem, e com uma rapidez impressionante. Não fosse pela febre, pareceria que você estava dormindo enquanto o pior passava.

Harry tinha ficado ao seu lado, ela pensou, e ficou profundamente agradecida por isso. O modo como Lady Potter errava o nome do Doutor Pryne, quase o chamando pelo primeiro nome todas as vezes que se referia a ele, despertou a curiosidade de Hermione. Ela mordeu um pedaço de maça e mastigou lentamente a fim de impedir a si mesma de fazer algumas perguntas inoportunas.

— Sem dúvida você deve estar se perguntando por que estou aqui — disse Lady Lilian

Com a boca cheia de maçã, Hermione apenas aquiesceu com um aceno de cabeça.

— Depois de Harry e James terem passado quase três dias desaparecidos, resolvi sair à procura dos dois. Sei que os dois já são adultos e, gostando ou não, sei que costumam, digamos, dar umas escapadinhas para se satisfazerem. Entretanto, eles nunca haviam simplesmente desaparecido. O único recado que recebi de Harry foi que tinha acontecido uma emergência e ele não sabia quando voltaria para casa. Marston, nosso mordomo, contou-me
que James havia ido com Harry. Até que finalmente eu soube de toda a história sobre os dois garotos que vieram à nossa casa e que todos saíram correndo para o parque. E depois disso confrontei o nosso cocheiro.

Hermione só pôde admirar tamanha persistência.

— Sinto muito se eles a deixaram tão preocupada.

Lady Lilian acenou no ar uma mão elegante e cheia de anéis.

— Os homens são assim mesmo. Desta vez Harry teve um bom motivo, só por isso não atormentei os ouvidos dele. — Ela sorriu quando Hermione riu, mas rapidamente recuperou a seriedade. —Você estava com febre, minha criança, e ele ficou para cuidar de você. James ficou para ajudar com os meninos. Que mãe teria coragem de culpá-los por isso? No entanto, acabei assumindo a responsabilidade como de costume. Harry colaborou muito, mas eu trouxe a ajuda feminina que faltava assim como Petúnia, a tia de Harry. Com nós três juntos, trabalhando noite e dia, as coisas correram bem melhor. Tivemos tempo até mesmo de ajudar James e aquele rapaz adorável, Septimus, a cuidar dos meninos.

— Espero que eles não tenham dado muito trabalho para vocês. — A ideia de ter tantas pessoas que não estavam acostumadas às muitas diferenças da sua família transitando pela Toca deixou Hermione muito nervosa.

— Não deram mais trabalho do que teria dado qualquer outro bando de meninos. Acho até que deram um pouquinho menos. Acredito que eles tenham se comportado por sua causa. Eles a amam muito, minha querida — ela adicionou baixinho e sorriu quando Hermione corou. — Desconfio que por serem meninos eles não costumem dizer muito isso, mas, acredite, eles certamente a amam. Estavam sempre dando uma passadinha pelo quarto só para ver se você estava respirando. Mais os pequenos, mas seus irmãos e Darius também fizeram a mesma coisa uma ou duas vezes. Pois para os mais novos você é como uma mãe, apesar de a chamarem de Mina ou prima. Especialmente o Teddy. — Ela franziu a testa. — Harry me contou que o menininho dormiu nos pés da sua cama nos primeiros três dias e ficava grudado à porta do quarto, do lado de fora. Ele só perdeu o medo de que você pudesse morrer na tarde em que cheguei. Depois disso ele começou a falar de modo confiante que você não se juntaria a Sra. Pettibone. — Ela olhou ao redor. — A mulher ainda está por aqui?

Pelo jeito restavam poucos segredos, Hermione concluiu. Mas supôs que deveria estar grata por Lady Lilian não ter saído correndo da casa e gritando que ali só moravam bruxos. Hermione olhou na direção da figura nebulosa da Sra. Pettibone, que estava sentada ao lado da lareira. As filhas da mulher já deviam ter retornado para casa a esta altura, portanto o motivo só podia ser outro para que o espírito da mulher continuasse rondando. Ela teria que resolver este
mistério em outro momento, quando estivesse mais forte, depois que conseguisse resolver alguns dos seus próprios problemas.

— Temo que sim — Hermione disse, quase sorrindo pelo modo como Lady Lilian olhava desconfiada na direção da lareira, obviamente tentando enxergar o que ela estava vendo. — Alguns espíritos sentem necessidade de continuar vagando pela Terra, para terminar algo. Logo resolverei este mistério e então o espírito da Sra. Pettibone poderá encontrar a paz. Ela é inofensiva.

— Então você realmente pode vê-los? — Lady Lilian disse baixinho. —Por acaso há muitos deles as soltas por aí?

— Há bastante em Londres.

— Bem, o que não é uma surpresa, suponho. Mas sempre pensei que, quando morremos, nosso espírito subisse ou descesse imediatamente.

— A maioria sim. Como eu disse, alguns ficam rondando porque sentem que deixaram algo que precisa ser concluído. Alguns dos motivos que os levam a ficar vagando nem sempre são bons, tais como raiva ou sentimento de vingança. Alguns estão simplesmente confusos, não sabem direito o que aconteceu com eles. Outros ainda não estão prontos para desistir das coisas
terrenas, apesar de não poderem tocar ou provar mais nada. — Ela encolheu os ombros e ficou surpresa ao perceber que não sentiu quase nada de dor com o movimento. — Mas acredito que o inferno não deixe muitos escaparem das suas garras, não permita que fiquem vagando ao bel-prazer.

Quando Lady Lilian assentiu como se as palavras de Hermione fizessem todo sentido, a jovem respirou aliviada. A última coisa que desejava era assustar a mãe de Harry.

— A senhora não ficou com medo, ficou?

— Claro que não. Não tenho certeza se acredito ou não em tais coisas, mas o assunto me fascina. Posso entender por que você se esforça tanto em esconder isso de todos. Alguns poderiam ficar com medo, e acho que isso pode ser perigoso. — Ela sorriu. — Confesso que fiquei um pouco assustada quando Jerome ficou bravo e as coisas começaram a se mover sozinhas ao redor.

— Oh! — Que péssimo momento para o dom de Jerome se manifestar. —Achei que este dom em especial tivesse escapado aos meninos.

Lady Lilian levantou, apanhou a bandeja vazia e ajudou Hermione a beber mais um pouco do suco.

— Foi tudo muito intrigante. Acho que passei a acreditar mais nestas coisas depois que vi Jerome fazendo aquilo. O seu irmão, Estefan, agiu rápido para contê-lo. — Ela pousou a caneca vazia sobre o criado-mudo. — Posso imaginar quantas tragédias tais coisas devem ter causado aos seus, mesmo assim deve ser fascinante viver em uma família abençoada por tantos dons
miraculosos.

Hermione piscou lentamente. Nunca tinha visto as coisas por esse ângulo. Algum dia, quem sabe, conseguiria, se pensasse bastante sobre o assunto. Neste momento achava difícil esquecer as tragédias, especialmente em uma casa cheia de crianças abandonadas pelas próprias mães. Ela foi arrancada de seus pensamentos ao sentir o afago que Lady Lilian fez na sua mão.

— Um dia, minha criança, quando o medo e a superstição deixarem de existir — disse a mulher —, todos estes dons passarão a ser vistos como a bênção que são.

A porta do quarto se abriu, pondo um fim à busca de Hermione por uma resposta educada. Harry e Teddy entraram, e o cachorro veio saltitando logo atrás. Hermione tentou manter o sorriso para Harry como se fosse uma simples saudação. Estava desconfiada de que a mãe de Harry já sabia sobre o que havia ou estava acontecendo entre eles, mas Hermione não via por que admitir isso abertamente por meio de palavras ou atos. Lady Lilian era uma mulher muito gentil, pelo que Hermione tinha percebido, mas o futuro da família Potter dependia fortemente do casamento de Harry com uma herdeira. Ela certamente não poderia contar à mãe de Harry que ela havia aceitado aquela dura verdade e se deitado com o filho dela mesmo assim. Penélope notou então uma caixinha decorada que Teddy trazia nas mãos. Era o porta-jóias da sua mãe.

— Teddy, onde você pegou isso? — ela perguntou, pois imaginava que tivesse guardado bem escondido, na gaveta da sua escrivaninha, na pequena biblioteca da casa.

— Eu achei na biblioteca — ele respondeu enquanto colocava a caixinha sobre a cama. — Pensei que você pudesse querer usar algo bonito. Isto pode fazer com que se sinta melhor.

Ele abriu o pequeno baú de jóias da mãe e sorriu. Lady Lilian ofegou discretamente. Hermione olhou para Harry, que se limitara a erguer uma sobrancelha, numa indagação silenciosa.

Hermione suspirou.

— Não roubei estas jóias. Elas eram da minha mãe e pertencem a mim. Posso não saber muito sobre o testamento e o que está escrito nele, mas desta parte eu me lembro. A casa e as jóias são minhas. Tudo que está dentro desta caixa foi comprado pelo meu pai. A maioria foi dada à minha mãe quando ela soube dos romances extraconjugais do meu pai. Gina tinha pegado tomei de volta. Estão faltando algumas peças, mas vou encontrá-las também quando chegar o momento certo. — Ela remexeu na caixa e tirou um colar de diamante com safiras. — Papai deu isto à mamãe no dia em que eles se casaram. Depois da segunda amante que ele teve, ela guardou o colar aí dentro e nunca mais usou.

Lady Lilian se inclinou sobre a cama para tocar no colar.

— É lindo. Sempre adorei diamantes. Amo tanto que seria incapaz de deixar de usá-los só porque o homem que meu deu era um patife infiel. Um colar em particular sempre foi meu preferido.

— Mas a senhora nunca mais usou aquele colar, mãe — Harry disse, tentando desesperadamente afastar da sua mente a ideia mercenária de que a caixinha de jóias estava cheia o bastante para dar à Hermione o dote de que ele precisava desesperadamente.

— A senhora vai voltar a usar o colar — disse Teddy, sorrindo para Lady Lilian. — A senhora vai ter o seu colar de volta e muito mais.

Harry percebeu o modo como a sua mãe olhou para Teddy surpresa e ao mesmo tempo com um leve rubor de culpa nas faces.

— Eu as terei de volta?

— Sim — respondeu Teddy depois de Lady Lilian ter balbuciado algumas palavras incompreensíveis. — O navio dela não afundou como todos imaginam. O navio passou por uma forte tempestade, mas ela só o empurrou para a direção errada.

— Mãe? A senhora vendeu os seus diamantes e investiu em algum empreendimento arriscado?

Antes que sua mãe pudesse responder, ouviu-se um forte barulho no andar de baixo. Com medo de que pudesse ser outro atentado contra Hermione, Harry disse para as mulheres e para Teddy permanecerem ali e saiu correndo do quarto. Não sabia se ficava bravo com a mãe por ter vendido seus diamantes sem lhe contar nada ou se ficava agradecido por ela ter tentado ajudá-lo como podia. Quando chegou aos pés da escada, o homem que os meninos tentavam impedir de entrar empurrou a porta, escancarando-a. A visão de Lorde Ron Wesley na porta da Toca Granger foi o suficiente para banir da sua mente todos os pensamentos sobre a sua mãe, jóias de família sendo penhoradas e investimentos secretos.

— Então é aqui que você tem se escondido — disse Ron, abaixando a bengala que obviamente erguera para bater nos meninos. — Gina não vai gostar nada disso.

— Não estou me escondendo, estou simplesmente visitando os meninos. Existe algum motivo para a sua visita, senão me espionar, milorde? — Harry perguntou.

Harry analisou Ron. O homem provavelmente era considerado um tipo bonito pelas mulheres. Era alto e forte, tinha fartos cabelos ruivos e olhos azuis muito claros. Ele era também corrupto, astuto e, Harry agora sabia perigoso.

— Espionando você? — Ron sorriu. — De forma alguma. Só vim em busca de notícias da minha irmã, meia-irmã, para ser mais exato. Papai adotou a garota, mas isso não a torna minha irmã. Lady Hermione Granger? Ela costuma passar muito tempo aqui. Permiti que ela se dedicasse a sua caridade, mas ela nunca se ausentou por quase uma semana. A princípio pensei que ela estivesse ficando aqui porque ela e Gina tiveram uma discussão, mas lembrei que isso já tinha acontecido antes, e várias vezes, mas Hermione nunca havia se ausentado por tanto tempo.

— Talvez ela tenha se cansado de dormir no sótão. — Harry soltou um meio sorriso quando Ron estreitou o olhar.

— Os problemas da nossa família não são da sua conta. Como eu disse, Hermione está desaparecida há muitos dias. Fiquei muito preocupado quando soube que uma mulher tinha sido atacada em um parque, próximo à minha casa. Só quero ver por mim mesmo se ela está bem.

Uma rápida troca de olhares com Hector foi tudo que Harry precisou para confirmar o seu palpite de que Ron estava mentindo descaradamente. O homem queria confirmar se seu ataque contra Hermione falhara. Ron precisava de um corpo para se apossar abertamente de tudo que pertencia a Hermione por direito. Harry queria chutar o homem para fora, mas resistiu ao impulso. Não apenas porque o homem tinha a posse das promissórias do seu pai.
Ron era o guardião de Hermione. Até que ela se casasse, atingisse a maioridade, ou a sua família, por meio dos tribunais, conseguisse livrá-la da guarda dele, Ron tinha a lei do seu lado. Havia certo prazer em mostrar para o homem que ele falhara na tentativa de se livrar de Hermione, mas o prazer seria ofuscado pela noção de que ela continuaria correndo risco.

— Ela não tem passado muito bem — Harry iniciou ciente de que era uma tentativa inútil para manter o homem afastado.

— Ah, sei. Uma vez que também tem andado sumido nos últimos tempos, devo entender então que você tem cuidado da minha tutelada?

— Não seja tolo, milorde — disse tia Petúnia ao entrar na sala, com James logo atrás. — Que homem é capaz de cuidar de algum que está doente? Eu e Lady Potter que tivemos a honra. — Ela olhou para Harry. — Talvez fosse melhor levá-lo para ver a tutelada dele, querido. Ela ainda não pode ser removida, mas mostre como ela tem sido bem cuidada. Isto deverá acalmá-lo.

Um tanto surpreso pela coragem com que a tia enfrentava Ron, Harry assentiu e começou subir a escadaria. Fez sinal displicente com a mão para Ron segui-lo. O homem passou pelo corredor dos meninos, no vestíbulo, que o encaravam calados, e Harry teve a nítida impressão de que Ron empalidecera um pouco. Assim como também notou que, apesar de
sutilmente, Ron mancava um pouco, como um homem que tivesse sofrido um ferimento nas suas partes mais íntimas. Ele ficou morrendo de vontade de verificar por si mesmo se aquele ferimento era uma mordida de cachorro.

Harry só esperava que a visita de Ron não causasse uma recaída na recente recuperação de Penélope. Ele não estava certo sobre tudo que tinha acontecido com ela sob o teto de Ron, mas tinha certeza de que ela não gostava muito dos seus meios-irmãos. Ele imaginou que o som de passos subindo os degraus rapidamente deveria bastar como um aviso a ela do
confronto que se aproximava.

— É Charles — disse Teddy ao entrar com um rompante no quarto. —Ele descobriu sobre nós.

Hermione desconfiou que o homem já soubesse sobre a casa há muito tempo, mas ela não poderia se preocupar com isso naquele momento.

— Aqui, Teddy, esconda isto embaixo da cama — ela pediu enquanto guardava as jóias da sua mãe dentro da caixinha, fechava e entregava ao menino.

Em seguida, ela soltou o corpo sobre a pilha de travesseiros que Lady Lilian ajeitara sob suas costas, exausta por causa do momento de pânico. Hermione se surpreendeu quando Lady Lilian puxou a cadeira para mais perto da cama e tomou a sua mão. A mulher pretendia mostrar a Ron que havia um grupo contra ele. Ela queria dizer para Lady Lilian que era uma posição perigosa a assumir, mas, antes que tais palavras pudessem sair, Harry entrou no quarto, com Ron logo atrás.

Bastou uma rápida passada de olhos em seu meio irmão para que Hermione agradecesse ao apoio de Lady Lilian. Ela se distraiu por uma fração de segundo ao ver o espírito da Sra. Pettibone se aproximar da cama para encarar Ron. A pitada de humor morreu no mesmo instante em que ela fitou os olhos frios de Ron.

Num primeiro momento, Ron agiu com toda gentileza e cavalheirismo. Com um tom de profunda preocupação na voz, ele perguntou sobre o ferimento e a saúde dela. A sua declaração de que algo deveria ser feito para apanhar o miserável que a tinha atacado foi perfeito no tom e no modo. Ele chegou até a trocar algumas palavrinhas agradáveis com Lady Lilian. Enquanto isso, o tempo todo de baixo da cama, vinha um rosnado baixinho.

Hermione ignorou a possível hostilidade do cão contra Ron e esperou que o pior acontecesse. Era o estilo de Ron acalmar as suas vítimas com uma conversinha fiada e galante para então atacar com uma pergunta mordaz ou uma ameaça. No momento em que ele estampou seu sorriso calculado, ela se preparou, determinada a não entregar nada em palavras ou na fisionomia.

— Você precisa agradecer aos Potter por toda a ajuda, querida — ele disse —, assim como eu. Depois que estiver vestida, podemos ir para casa.

— Não, Lorde Wesley — disse Lady Lilian num tom firme de voz —, isso não será possível. De forma alguma. Hermione acabou de se recuperar de uma febre debilitante. Se ela for removida agora, a febre pode voltar. Enfraquecida como está da última contenda, a exposição poderá matá-la. Uma vez que tenho certeza de que não deseja carregar em seus ombros a culpa pela
morte dela, seria melhor deixá-la aqui até que o médico diga se ela já pode sair
da cama.

Hermione percebeu o leve rubor brotando nas faces de Ron que indicou que ele estava lutando para se controlar. Ron não estava acostumado a ser contrariado. Mas não havia nada que pudesse fazer. Lady Lilian não apenas estava certa, como seu título era superior ao dele, e discutir com a senhora seria o mesmo que cometer um suicídio social. Ele não poderia nem mesmo tentar ameaçar Lady Lilian com as promissórias do seu falecido marido, pois já tinha
usado esta mesma arma contra Harry. Valer-se do mesmo artifício com a mãe de Harry, que certamente já sabia disso e mesmo assim lhe dava ordens, seria uma perda de tempo. Tentar cobrar a dívida de uma mulher sob tais circunstâncias, especialmente com o chefe da família vivo, seria uma gafe embaraçosa, e ele sabia que a história poderia acabar vazando. Hermione quase desmaiou com a força do alívio que varreu seu corpo quando, depois de uma
despedida curta, Ron se foi.

— Aquele homem não veio aqui por estar preocupado com você — disse Lady Lilian.

— Não — concordou Hermione. — Ele veio ver o corpo. Ron pode até não ter puxado o gatilho da pistola disparada contra mim, mas definitivamente foi ele quem a colocou nas mãos da pessoa que atirou. — Ela observou o modo como Matador olhava na direção da porta, o corpo inteiro do cãozinho ainda estava tenso, pronto para atacar. — Creio, no entanto, que foi ele que atirou em mim.

— Assim como eu — disse Harry. — Ele estava mancando de um modo estranho, que pode muito bem ter sido resultado de uma mordida de cachorro, digamos, nas partes íntimas.

Lady Lilian deu uma olhada para o filho.

— Acho que está na hora de você buscar ajuda de pessoas que estão acostumadas a lidar com criminosos diariamente. Um policial, ou caçador de ladrões, ou um daqueles agentes da Rua Bow. Eles ajudam a localizar criminosos, não é isso? No mínimo, eles poderiam ajudar a proteger Hermione e os meninos enquanto você estiver em busca da verdade.

Harry assentiu.

—No momento em que o vi na porta, eu soube que precisava fazer algo mais.

— Você acha que ele seria capaz de tentar atingir os meninos? — Hermione perguntou.

— Acho que aquele homem é capaz de qualquer coisa para alcançar seus objetivos.

— Maldição.

Não havia mais nada a dizer, pois Harry tinha toda razão. Hermione soube no dia em que se vira diante do túmulo da mãe que seus meios-irmãos não queriam compartilhar nada com ela, nem mesmo o que era seu de direito. À medida que o tempo passava, ela temia que eles nunca permitissem que ela chegasse aos vinte e cinco anos ou que se casasse, mas isso não era algo em que ela costumava pensar muito ou com muita freqüência. Ela sempre imaginou que estivesse preparada para encarar a dura verdade de que seus meios-irmãos desejavam a sua morte, mas isso ainda era um pouco assustador. No entanto, ela não poderia se deixar afundar na autopiedade. Ela precisava sarar recuperar as forças o mais rapidamente possível, pois agora estava realmente enfrentando uma luta por sua vida.


(n/a): oii gente, achei que eu não fosse terminar nunca esse capítulo. Demorou, mas finalmente conhecemos o Ron e Lady Lilian. Finalmente as coisas vão começar a esquentar!

Muito obrigada a todos que estão lendo e principalmente para quem está comentando.

Amanda: Oii linda, que bom que você está gostando e espero que tenha gostado desse também, aguardando review sua, ok? Bjoos

Midnight: Heii querida, realmente Mione foi meio burrinha não escutando Teddy, mas pelo menos, isso serviu para juntar(ainda mais) nosso casal favorito! Acho que já ficou claro quem atirou na Mione, mas ele ainda vai ter o que merece, pode apostar! Espero que tenha gostado, bjoos