Capítulo XII
James
Quando abri os olhos na sexta-feira de manhã, sabia que alguma coisa tinha dado errado.
Mas levei um bom tempo para juntar as peças e lembrar o desastre da noite anterior.
Lembrei que beijara Lily.
Sorri e bati minha cabeça de leve na parede acima da cabeceira de minha cama.
Experimentei um frio na barriga ao perceber que tinha quebrado a principal regra de uma amizade platônica. Agora Lily me odiava e eu não podia fazer nada sobre isso.
Fiquei relembrando várias vezes o acontecido. O que será que me tinha feito beijá-la?
Teriam sido as brincadeiras na neve? A lareira? Balancei a cabeça. Os motivos já não importavam muito — além de dolorosos, eram irrelevantes. Eu tinha estragado completamente uma coisa muito legal, e nenhuma racionalização poderia mudar esse fato.
E ainda tinha a questão de Emmeline. Falando friamente, eu a tinha enganado. Mesmo considerando que o beijo em Lily acontecera durante um momento de insanidade temporária, não havia como negar que tinha acontecido, ainda que Emmeline nunca viesse a descobrir.
Outra questão me perturbava. Se Emmeline descobrisse sobre o beijo, o que ela faria?
Certamente seria ferida em seu orgulho. Mas ficaria mesmo magoada, ou apenas aborrecida? Ela dissera que telefonaria de Nova York, mas até aquele momento não tinha dado notícia. Teria ido visitar seu antigo namorado?
O pensamento de que ela estivesse beijando um outro cara me pareceu estranhamente confortador. Embora a imagem da minha namorada nos braços de algum nova-iorquino gosmento não fosse das melhores, a imagem aliviava minha sensação de culpa. Emmeline e eu éramos jovens, e era compreensível que nós dois cometêssemos erros. Certo? Certo!
Resolvida esta questão, meus pensamentos passaram de Emmeline para Lily. Mas antes mesmo que pudesse construir uma desculpa decente, mamãe bateu a minha porta.
— James? Está acordado? — ela perguntou, abrindo a porta só um tantinho.
— Estou, infelizmente.
Rolei na cama e me deitei de bruços, esperando que ela percebesse que eu não estava a fim de papo.
— Lily está lá embaixo, querido.
— Está? — Sentei na cama rapidinho e empurrei meu acolchoado para o pé da cama. — Me dê dois minutos, mãe, e depois diga para ela subir.
Pulei em um pé só pelo quarto, tentando vestir a calça e pentear o cabelo ao mesmo tempo. A porta se abriu enquanto estava abotoando a camisa, e Lily enfiou a cabeça para dentro do quarto.
— Será que você teria um tempo para a sua antiga melhor amiga? — ela perguntou.
Na hora, a sensação ruim que experimentava desde que tinha acordado desapareceu. A voz de Lily soara amistosa, e tudo iria ficar bem.
— Só se você retirar o "antiga" da pergunta — respondi, abrindo toda a porta.
— Trouxe uma oferta de paz — declarou Lily, entrando no quarto. Ela me deu uma caixa de rosquinhas e sentou-se em uma velha poltrona que tenho no quarto.
— Sabe, Lily, acordei esta manhã louco para comer umas rosquinhas. E então você apareceu com elas.
— Conheço você muito bem, Potter.
Lily colocou as pernas no braço da poltrona e apoiou a cabeça na mão.
— Não consegui dormir direito ontem à noite.
— Também não. Me senti péssimo.
Peguei uma rosquinha e passei a caixa a Lily. Ela se serviu de uma e mordeu metade de uma vez só.
— Não podemos deixar isso estragar nossa amizade. Nossas reações foram exageradas.
— Concordo plenamente — respondi.
Pensando bem, a coisa toda não parecia tão grave. Nós nos beijamos. Um beijo não é o fim do mundo. Além disso, somos jovens normais e ativos. Jovens se beijam o tempo todo. Não era como se tivéssemos cometido um assassinato ou coisa assim.
Lily mastigou pensativa por um instante.
— Quero dizer, se a gente chegou a gostar realmente do beijo, então acho que temos mesmo um problema.
Concordei, imaginando aonde ela queria chegar com esse raciocínio. Sempre podia perceber quando Lily estava armando uma de suas teorias.
— Mas, analisando tudo que aconteceu racionalmente, aquele nosso beijo foi quase uma coisa boa.
Ela parou por um momento, esperando minha reação. Como não disse nada, continuou:
— Aqui estamos nós, dois amigos de sexos opostos. É natural que experimentemos uma certa dose de... ahh, curiosidade um pelo outro.
— Curiosidade — repeti, apenas para que ela soubesse que estava prestando atenção.
— Sim. E agora que já colocamos o nosso beijo fora do caminho, podemos deixar essa história toda desaparecer no passado. Sabemos que nunca mais queremos nos beijar e não vamos fazê-lo. Ponto final.
Estava um pouco aborrecido por ela ter se desfeito de meu beijo assim tão fácil. Para mim, a experiência tinha sido como ser mandado para o espaço montado no lombo de um foguete. Quando finalmente me dera conta do que tinha se passado, levará uns dez segundos para sentir os pés no chão novamente! Não poderia negar que ela me excitava, a um nível perigoso.
Mas não estava a disposto a discutir com Lily. Naquela altura da conversa concordaria até se ela dissesse que a Terra era quadrada. Só queria que voltássemos a nossa amizade e prosseguir dali.
— Ponto final — confirmei.
Lily estendeu a mão e a apertei com firmeza.
— Bem, estou contente de que tenhamos resolvido isso — observou ela, como se a discussão fosse sobre quem lavaria os pratos do jantar.
Sorri para ela.
— Eu também, Lily. Estou certo de que vamos dormir bem melhor esta noite.
— Claro. Com certeza.
— Com certeza.
Inclinei-me sobre meu travesseiro e me senti como se tivesse renascido. Afinal de contas, meu mundo não tinha desmoronado, eu não poderia estar mais agradecido.
Sentia meu estômago revirando enquanto dirigia para a casa de Emmeline no domingo à tarde. Ela me telefonara assim que tinha chegado de Nova York naquela tarde, e agora eu estava apenas a alguns minutos de rever aquele rostinho lindo. Queria ouvir sua voz, especialmente porque sentia como se fôssemos ter um novo começo. Desde o caso do beijo em Lily tinha percebido que talvez não estivesse dando tanta atenção a Emmeline quanto ela merecia. Claro que devia ter projetado esses sentimentos em Lily, que por sua vez devia ter projetado os sentimentos dela por Amos em mim, e no final dera no que dera.
Domingo a temperatura ainda estava abaixo de zero. Então, quando Emmeline dissera que queria ir patinar no gelo no parque Hamilton, achei uma boa ideia. Já imaginava nós dois de mãos dadas patinando em círculos no lago. Com exceção de algumas crianças pelo gelo, estaríamos em nosso mundinho particular. Depois iríamos para a casa dela beber chocolate quente (na verdade, cidra quente seria melhor) e ficar nos beijando até tarde da noite. Mal podia esperar por aquilo.
Quando cheguei, Emmeline abriu a porta. Antes que eu pudesse dar um beijo ou um alô, ela se virou, ainda na entrada da casa.
— Olha! O que você acha da minha roupa nova para patinar? — perguntou.
— Uau! — Não pude pensar em nada melhor como resposta.
Emmeline vestia uma roupa rosa para patinação. O material devia ser cem por cento malha elástica, porque estava colado ao corpo como uma segunda pele. Ela usava uma bermuda cor da pele e segurava em uma das mãos os patins imaculadamente brancos. Para ser honesto, todo mundo que conheço patina de jeans e blusa de lã e nunca me ocorreria que Emmeline se vestiria como uma bailarina de patinação no gelo. Mas não seria eu quem iria reclamar. Ela parecia uma atleta olímpica transformada em supermodelo.
— Vamos nessa. Todo mundo vai estar lá.
Ela apanhou o casaco e fomos embora.
Não entendi o que ela quisera dizer com "todo mundo", mas ainda estava meio sem fala pelo efeito de sua roupa. Se tentasse falar, provavelmente minha voz pareceria um guincho.
Dentro do carro, puxei Emmeline para mais perto. Beijá-la apagaria a horrível noite do incidente com Lily. Assim que meus lábios tocassem os dela, o Dia de Ação de Graças seria apenas um sonho ruim. Pelo menos era o que eu esperava.
Senti Emmeline viva e aconchegante em meus braços, e o tecido macio da sua roupa parecia seda. Beijei seus lábios, seu rosto e sua testa. Não me senti voando pelo espaço, mas isso me excitava. Beijei mais forte ainda, tentando esquecer o beijo em Lily.
Depois de uns minutos sem fôlego, decidi que a explosão que experimentara com Lily deveria ter sido porque sentia falta da minha namorada e ficara preocupado de que ela estivesse com outro cara em Nova York. Estava apenas liberando as emoções que surgiram. Existem muitas explicações psicológicas. A mente é muito poderosa... não é o que todo mundo vive dizendo? Emmeline ajeitou o meu cabelo, sorrindo.
— Estivemos só quatro dias separados e você parece um cara que atravessou o deserto todo sem nem um cantil.
Beijei-a de novo.
— É assim que me sinto.
— Bem, fico feliz de saber que você gosta de mim. Não é toda garota que revê seu ex-namorado em Nova York e resiste a toda a conversa para voltar a ficar junto.
Dei uma olhadela em Emmeline, maravilhado pela capacidade que as mulheres têm de dizer a coisa exata para que um cara se sinta um completo idiota. Fiquei contente de que o sol estivesse desaparecendo rápido, porque tinha certeza de que a culpa me faria ficar com o rosto vermelho.
— Melhor a gente ir — disse.
O estacionamento do parque Hamilton já estava com metade da lotação, e reconheci alguns dos carros. De repente captei o que Emmeline quisera dizer com "todo mundo".
— A turma toda está aqui! — ela exclamou, contente, enquanto andávamos pelo meio do pessoal que circulava pelo lago.
— Você não me disse que quase o colégio inteiro estaria patinando aqui esta noite — falei, um pouco mais duro do que pretendia.
— E não é legal? Estou tão feliz em ver todo mundo. — Ela correu na minha frente, desaparecendo atrás da barraca de aluguel de patins.
Poucos segundos depois ouvi os gritinhos de Emmeline. Quando pude vê-la, estava abraçando Carrie Starks como se a garota fosse sua irmã que não via há muito tempo.
Achei uma palhaçada. Mesmo Emmeline gostando das líderes de torcida, Carrie Starks e Amanda Wright, penso que elas são superficiais e burrinhas, na melhor das hipóteses, e caluniadoras e manipuladoras, na pior delas. São do tipo de garotas que oferecem o rosto para os beijinhos de cumprimento, mas são muito impacientes para esperar serem beijadas e nos fazem acabar beijando apenas o ar.
Confiante, Carrie veio para o meu lado.
— Você não vai me dar um beijinho, James? — perguntou ela chegando mais perto.
Preparei os lábios e me curvei. Como esperava, dei um beijo gostoso bem onde a bochecha deveria estar, mas foi inútil, pois beijei só o ar.
Emmeline me arrastou pelo lago, enquanto eu tirava meus patins de hóquei de dentro da mochila. Vi Benjamin Fenwick, Rodolphus Lestrange e Lucius Malfoy, e meus sonhos de uma tarde romântica se evaporaram. Minhas opiniões sobre Benjamin não melhoraram desde a noite da festa que ele dera, quando vi Lily agarrada de um jeito quase indecente com Amos. E odiava Lucius Malfoy.
Lucius sentira uma quedinha por Lily durante o segundo ano no colégio. Ela saiu com ele uma vez, detestou e nunca mais falou com ele de novo. O cara é um troglodita. Lucius então começou a fazer crueldades contra Lily na escola. Como ela não entrou na dele, Lucius pichou as paredes do banheiro masculino com frases pouco agradáveis. Um dia eu o vi fazendo isso e saímos no braço, a única vez em que fiz isso na vida. Depois que o treinador veio nos separar, jurei que nunca mais socaria ninguém. No ano seguinte ele trocou de escola porque os pais se mudaram para outro bairro, e eu não o tinha mais visto. (A propósito, Lily nunca soube dessa briga.)
Amarrei meus patins rapidamente, dizendo a mim mesmo que, depois de um ano e meio, provavelmente Lucius teria melhorado seu comportamento. Portanto, se fosse gentil com ele, não haveria motivo para cenas.
Peguei Emmeline pela mão e circulamos pelo lago. Ignorando a presença de Lucius, realmente estava começando a me divertir.
— Isto é tão romântico — disse Emmeline, olhando para o céu estrelado e a lua cheia.
— E porque você está aqui — respondi, pegando suas duas mãos e girando em círculos.
Fiz uma parada rápida, como no hóquei, ao ver pelo canto do olho que Lucius Malfoy vinha em nossa direção. Ele tinha uma expressão de gozação no rosto e me esforcei para ficar relaxado e me mostrar amistoso.
— Oi, Lucius — cumprimentei. — Conhece Emmeline Vance? Ele a olhou de cima a baixo e deu um sorriso seboso.
— Só de ouvir falar, até agora. Prazer em conhece-la, Emmeline.
Ela olhou para ele e sorriu, flertando.
— Como não vi você por aqui antes?
— Eu estou no colégio Durmstrang. Mas gosto de manter contato com os velhos amigos.
Lucius me olhou e pude ver pelo brilho em seus olhos que ele estava doidinho para me contar alguma coisa.
Não estava nem um pouco interessado fosse lá no que fosse que ele tivesse para me dizer.
Tomei Emmeline pela mão de novo.
— Vamos continuar de onde paramos? — perguntei a ela, me despedindo de Lucius.
Nesse instante ele colocou a mão em meu ombro:
— Falando em velhos amigos, Fenwick me disse que a nossa queridinha Lily Evans está de caso com Amos Diggory.
Percebi que Emmeline fechara ligeiramente os olhos e não a culpei, Lucius falou de um jeito que parecia que Lily e eu tínhamos alguma coisa. Mas não queria que isso ficasse estranho, e então decidi explicar a Emmeline mais tarde.
— Sim, ela está apaixonada — respondi, satisfeito por ver o sorriso malicioso se transformar em uma cara de preocupado.
— Bem, você poderia dar um recado para ela — Lucius disse.
— Sobre o quê?
Senti os músculos de minhas costas se contraírem, mas não deixei que ele percebesse que estava me atingindo.
— Eu vi Amos e Tanya Reed parecendo muito amiguinhos na pizzaria do Jon, numa noite dessas. Na verdade, eles estavam botando para quebrar, em uma mesa no canto.
Ele sorriu para mim e depois riu alto.
— É mentira — falei.
— Não estou nem aí se você acredita ou não, Potter. Mas você deveria dizer a sua amiga que Diggory só a está usando até poder colocar as mãos de novo em Tanya.
Eu estava trêmulo de raiva e não pude me controlar ao dar um passo em direção a Malfoy. Se era verdade ou não o que ele dizia, já não importava mais, queria mais era tirar aquele sorriso idiota da cara dele.
— Isso deve ser ciúmes porque Lily não quis sair com você, seu pateta — falei com raiva.
— Lily é uma panaca — Lucius contra-atacou. — Pode perguntar a qualquer um.
Então Emmeline resolveu entrar na discussão.
— Ele tem razão, James. Todo mundo sabe que Lily é assim, tipo... estranha.
— Obrigado pela sua opinião, Emmeline. Mas isso é entre Lucius e eu.
— Quer sair no braço, Potter? — provocou ele, chegando o rosto perto do meu.
— Você não vale isso — respondi.
Percebi que Benjamin e Rodolphus tinham vindo para perto e nos observavam com curiosidade.
Quando olhei para o outro lado, Lucius aproveitou a oportunidade. Vindo do nada, seu punho me acertou bem no queixo. Cai para trás, sentado, com um gemido.
— Lily é a garota mais legal que conheço — gritei. — Ela põe qualquer namoradinha sua no bolso.
Enquanto tentava me levantar, Lucius pulou sobre mim. Mas antes que ele me batesse de novo, Benjamin e Rodolphus o agarraram. Eles o puxaram para o lado, segurando os seus braços.
— Acho que essa patinação acabou — disse Rodolphus. Ele e Benjamin levaram Lucius para fora do lago.
Fiquei em pé sobre o gelo, ainda furioso. Quando tirei os olhos de Lucius e fitei Emmeline, ela estava me encarando com as mãos na cintura.
— Se você gosta tanto assim de Lily, talvez deva sair com ela — gritou. — Vocês dois merecem um ao outro.
Fiquei só olhando para ela, tão espantado que não podia nem falar. Como não disse nada, ela me sorriu gelado:
— Está tudo acabado entre nós.
Olhei ela patinando a distância e me senti como se fosse um balão que acabara de estourar. Quando ela chegou à beira do lago, desamarrou os patins e correu para o estacionamento.
— Lucius, espere! — pude ouvi-la gritando.
Então não consegui mais vê-la. Enfiei a cabeça em um monte de neve de tão cansado que me sentia. Estava magoado por Emmeline ter terminado comigo, mas no fundo sabia que nosso caso não tinha muito futuro. Ela sempre tivera mais coisas em comum com Carrie e Amanda do que eu quisera admitir, e agora podia ver até que ponto era superficial.
Um vento frio soprou em meus ouvidos, mas fora isso a noite estava silenciosa. Os feriados do Dia de Ação de Graças tinham terminado para mim, e também o relacionamento com Emmeline Vance.
Olhei para a lagoa, agora deserta, e balancei a cabeça negativamente:
— Bem, acho que isso significa que perdi a aposta — disse em voz alta.
