Oi, oi gente! Então gente, borá ler mais um capítulo e encontrar as pistas?
Dama Layla: Opa, estou super curiosa para saber sobre suas teorias, esse capítulo tem algumas pistas, precisa prestar atenção, caso contrário passa despercebida. Aproveite o capítulo.
Sandra Longbottom: Pois é, o Dominick é uma pedra no sapato do casal. Pois é, o meu Lupin é meio chato, rsrs
A Hermione vai ter um pouco de trabalho ainda, criar uma instituição requer muita coisa, vamos torcer que ela consiga logo. ^^
Daniela Snape: Aproveite o capítulo flor.
Lembre-se, comentar nunca é demais!
Bjs e uma boa leitura!
Hermione permitiu-se dormir até tarde na manhã seguinte, porque estava exausta. Pela primeira vez, decidiu tomar o desjejum no quarto. A hora tardia em que se recolhera, a excitação da festa, o assédio de Dominick, a briga com Severus que terminara com uma reconciliação surpreendente... Tudo isso a deixara sem forças.
Fora a primeira vez que o marido se abrira e revelara quanto eram fortes suas emoções. Jamais imaginara que Severus também possuísse um lado sentimental.
Lembrava-se de ter dito a Caldbeck que se sentia confusa, mas era mentira. Sabia muito bem o que queria, porém tinha medo que suas esperanças não se concretizassem. Será que por fim poderia realizar seu sonho de ter uma família e filhos?
Nessa manhã, via o marido com outros olhos. Riu com vontade ao recordar o modo como ele lhe entregara a figurinha da pastora para que a quebrasse. Sim, o conde a compreendia muito mais do que ela o conhecia, e não tinha medo de seu temperamento explosivo.
Admitiu para si mesma que já não o temia, entretanto o poder que emanava de sua forte personalidade era sufocante. Sentiu as faces em fogo ao lembrar o desejo que a invadia, cada vez que ele a tocava. Ficava todas as noites à espera de seus passos no quarto, e quando o via, seu coração se acelerava.
De repente, a castanha reconheceu a verdade. Que Deus a ajudasse, porque estava se apaixonando pelo conde de Caldbeck, seu marido!
*.*.*.*.*
Severus estava muito contente. Sua condessa se revelava cada vez mais a mulher que ele sempre imaginara, desde o primeiro dia em que a vira. Enquanto fazia a barba, sua mente vagava pelos acontecimentos da noite anterior. Adorara a briga com Hermione e antecipara o momento da reconciliação.
Deus! Ela era linda, com seus olhos brilhantes de raiva, as faces coradas, os cachos revoltosos e a paixão à flor da pele. Fosse atirando objetos na parede ou correspondendo em total abandono ao ato amoroso, sua ardente dama trazia à tona todas as emoções que ele costumava guardar muito bem dentro de si.
Sorriu consigo mesmo. Talvez não a tivesse feito gritar como desejara, mas seus gemidos de prazer o deixavam louco de desejo. Se soubesse assobiar, externaria sua alegria naquele instante.
Enquanto vestia roupas de trabalho surradas, seu criado o observava com desaprovação. O moreno sabia que Dobby deplorava a ideia de um senhor nobre se trajar de vez em quando como um lavrador, e mortificava-se quando seu amo resolvia andar assim.
Com ar divertido, o conde acenou para o criado.
— Pare com isso, Dobby. Deixe de fazer cara feia e traga-me as botas de trabalho.
O criado fungou, contrariado.
— Estão em um estado deplorável, milorde — o conde fez um gesto de impaciência.
— Tenho certeza de que a minha reputação não será manchada por causa de um calçado velho.
— Claro que não, milorde — ergueu as botas com dois dedos, como se fossem algo nojento — Porém já nem consigo deixá-las polidas. Não entendo por que deve fazer trabalhos pesados.
Assim dizendo, depositou as botas junto ao amo e cruzou os braços com gesto teimoso.
Percebendo que Dobby estava muito contrariado, Severus não pediu que o ajudasse a se calçar. Tratou de executar a tarefa sozinho, sem dificuldade, porque o couro era macio e confortável.
— Como já lhe disse muitas vezes, Dobby, um homem fica fraco se não exercitar os músculos. Deveria tentar, de vez em quando.
O criado pareceu ultrajado.
— Não posso me dar ao luxo de ser excêntrico, milorde. Nenhum cavalheiro tradicional — enfatizou a palavra — contrataria um criado particular com ideias absurdas.
O moreno analisou seu ponto de vista.
— Pode ser que não, mas aceitou trabalhar para um cavalheiro excêntrico como eu. Entretanto, talvez, quem sabe, sinta-se melhor se mudar de função e for ajudar o cozinheiro...
— Milorde! Percebo que está brincando comigo.
— Muito esperto, Dobby — o conde agarrou um paletó surrado e afastou o criado, que se dispunha a ajudá-lo — Deixe comigo. Vou verificar se a condessa já se levantou.
Dessa vez o pobre criado pareceu muito chocado.
— Milorde! Pretende visitar os aposentos da senhora vestido assim?!
— Sim, creio que desfruto da confiança de minha esposa para tanto. Não são as roupas que fazem o homem.
Mas o serviçal apenas balançou a cabeça de modo triste.
— Está brincando comigo outra vez, milorde. Deve estar de ótimo humor esta manhã.
Sim, Severus se sentia muito bem. Já possuía o corpo e o fogo de Mione. Era hora de conquistar seu coração.
*.*.*.*.*
Hermione sentiu uma forte emoção ao ver o marido entrar em seu quarto àquela hora da manhã. A visão do tórax amplo sob a camisa aberta e das pernas musculosas delineadas pela calça justa a fizeram sentir uma onda de desejo. Ele exalava vitalidade. Como não vira isso logo no início?
Levantou-se do sofá onde, na noite anterior, o conde a deixara fremente de paixão, e aproximou-se para saudá-lo.
— Bom dia, Mione. Espero que tenha dormido bem.
— Sim, obrigada — a castanha lançou-lhe um olhar velado — Quando, por fim, adormeci.
Aproximou-se mais, ergueu-se na ponta dos pés, enlaçou-lhe o pescoço e beijou-o nos lábios.
O conde a puxou para si, e o beijo tornou-se profundo e sensual. Deslizou a mão por baixo do leve négligé e acariciou-lhe um seio.
Ela ergueu o rosto e murmurou:
— Milorde, parece diferente esta manhã, muito... — de repente arregalou os olhos — Severus!
— O que foi?
— Está sorrindo!
— Verdade?
— Sim! E continua!
Ele inclinou a cabeça para um lado.
— Que estranho.
— Nada disso! É maravilhoso. Deve estar feliz.
— Estou — agarrou-a pelos quadris, fazendo-a sentir a força de seu desejo — Nunca antes me cumprimentara com um beijo. Fiquei surpreso.
Hermione corou e tentou se afastar, mas o moreno a segurou com firmeza.
— Não fique constrangida. Gostei muito.
— Fico contente. Não desejo me tornar... bem, excessivamente atrevida.
Podia estar se apaixonando, mas não conhecia os sentimento verdadeiros do marido a seu respeito, portanto precisava ter cautela. Ora! Por que seria que não conseguia se controlar como ele?
Caldbeck a fez erguer o rosto e voltou a ficar sério.
— É maravilhosa e espontânea, mas nunca atrevida demais — Hermione sentiu-se mais segura.
— E o fiz sorrir.
— Sim. Não foi difícil Mas como manterei minha fama apavorante se ficar sorrindo o tempo todo?
Ela riu.
— Dará um jeito
— Interrompi o que ia dizer com o beijo, quando pretendia me dizer algo. O que era?
— Ia dizer que parece muito... primitivo, para usar sua própria expressão de ontem à noite.
— Preciso usar roupas de trabalho com frequência, se isso me faz ter esse ar — voltou a beijá-la, porém logo a afastou — É melhor cuidar da vida, senão ficarei aqui o dia inteiro.
— O que pretende fazer para ter se vestido assim?
— Ajudarei a reconstruir um dos muros de pedra da Mansão Shrieking Shack. A maioria está em estado deplorável, e temos pouco tempo antes que comece a nevar.
— Costuma fazer trabalhos braçais com frequência?
— Sim. Isso me mantém em forma, como acabei de explicar para Dobby — sacudiu a cabeça, fingindo preocupação — O pobre homem não suporta a ideia de ver um nobre arregaçando as mangas para trabalhar duro.
Hermione sorriu.
— E você o provoca, tenho certeza.
— Claro — replicou o moreno com a costumeira gravidade. Beijou-a na testa — Só voltarei para o jantar.
A esposa o observou partir, com seu ar digno e calmo, e sentiu que as esperanças se renovavam.
*.*.*.*.*
Quando Sr. Weasley inquiriu se a condessa gostaria de almoçar, Hermione soube que o cozinheiro preparava um lanche para ser levado até a Mansão Shrieking Shack. Animada, avisou que mandassem sua refeição para lá também.
Desejava ver o marido trabalhando em meio aos outros homens, concentrado em suas tarefas e exibindo os músculos rijos.
Afastando a letargia que a possuía nessa manhã, mandou chamar Winky e vestiu roupas de montaria.
Depois foi encontrar Chalie Weasley, que trazia seu cavalo. O criado a ajudou a montar e acomodou-se em sua própria sela, comentando:
— Lindo dia para galopar, milady.
A castanha concordou, e partiram a fim de testemunhar o raro espetáculo de um conde executando um trabalho braçal.
*.*.*.*.*
Como era de esperar, a atitude fora do comum de Snape atraíra a atenção de muitas pessoas, que se aglomeravam ao seu redor. Era um belo dia de outono, claro e brilhante, o céu azul terminando no verde das colinas. Cenário perfeito para ficar fora de casa, antes que o inverno chegasse. Apesar do vento frio, o sol dourado aquecia as costas e os ombros de Severus. O conde adorava trabalhar com as mãos, ao ar livre, porque isso lhe dava uma grande paz interior.
Havia ocasiões em que seus pensamentos e sentimentos não o deixavam respirar direito, entretanto nesse dia estava feliz. Mione o saudara com um beijo e o fizera sorrir.
Sim, tudo estava bem com o mundo nessa manhã. E parecia que metade de Yorkshire viera compartilhar o contentamento no lindo cenário outonal.
Ao ver Hermione se aproximando, sentiu um enorme prazer. Continuou a trabalhar, enquanto a observava desmontar sob um carvalho frondoso e retirar a cesta de piquenique da pequena carroça que o criado Owen Cauldwell trouxera.
Quando, por fim, ela se sentou, recostando-se no tronco da árvore e ajeitou as saias, Caldbeck fez um sinal para seus homens, e todos pararam de trabalhar.
Ao retirar as luvas grossas, percebeu que muitos dos trabalhadores riam às escondidas, e sua primeira reação foi virar-se e lançar-lhes um de seus famosos olhares gelados. Porém mudou de ideia. Que se divertissem vendo seu amo em idílio com a esposa. Era uma experiência nova para todos.
Sentou-se ao lado da esposa, sobre a manta que ela estendera, e pegou um ovo cozido. A uma certa distância, Carlinhos e Owen serviam-se do conteúdo de outra cesta que o cozinheiro lhes preparara, enquanto os trabalhadores procuravam lugares à sombra para também se alimentarem.
Mal haviam começado a comer, quando um visitante surgiu a cavalo. Severus reprimiu uma maldição ao constatar que era Dominick, que se aproximava no trote. A última coisa que desejava era arruinar seu bom humor por causa do rapaz insolente. Mione parou em meio ao ato de levar um sanduíche à boca e fitou o marido com intensidade, mas ele apenas deu de ombros.
O jovem nobre aproximou-se deles e parou. O moreno acenou com frieza, e Dominick, após breve hesitação, tirou o chapéu em um cumprimento, esporeou o cavalo e partiu.
Ao vê-lo desaparecer a galope, Hermione deixou escapar um suspiro de alívio. Severus inclinou-se e apertou-lhe a mão.
— Não permita que Bole a perturbe, Mione. Não deixarei que volte a molestá-la.
Ela sorriu de modo hesitante, e isso o aborreceu. Maldição! Não suportava vê-la triste.
Mas a castanha logo aprumou os ombros e sorriu com mais animação.
— Sei disso, porém... Não desejo que volte a brigar com ele. Dominick poderia... — calou-se por um instante, pensativa, e continuou — É de admirar que sendo tão rude e agressivo, ninguém o tenha matado em duelo.
Severus balançou a cabeça em negativa e murmurou:
— Justamente o contrário.
— O que quer dizer? Dominick já matou alguém em duelo? — ao vê-la tão alarmada, Snape mortificou-se por ter falado demais.
— Não se preocupe, Mione. Dominick não irá me desafiar.
— Como pode ter tanta certeza? Tenho a impressão de que é do tipo que desafia qualquer um. Bole não tem escrúpulos!
— O motivo para não me desafiar, Mione, é que não deseja morrer.
A esposa arregalou os olhos.
— Dominick acredita que você o mataria em duelo?
— Ele sabe que isso é possível. Sou hábil com armas.
— Bem, ele também deve ser um bom atirador.
— É verdade, mas não se vence um duelo de pistolas sendo o mais agressivo, e sim com sangue-frio.
A castanha ponderou sobre as palavras do moreno, e depois murmurou:
— Alguma vez já...
Interrompeu-se ao ver que ele a fitava com seu olhar frio e distante. Por fim, o marido tornou-lhe a mão e beijou-a,demorando os lábios sobre a palma macia. Entretanto logo retrocedeu, consciente da audiência que os cercava.
— O importante, Mione, é saber que não deve temer por mim em relação a Dominick. Ele me teme e não ousaria atirar pelas costas, pois sabe que tenho amigos poderosos. Mas, veja. — apontou para a estrada — Temos outras e sir Remus Lupin. Que estranha combinação.
— Tem razão — brincou Hermione — Tive a clara impressão de que sir Lupin não era amigo do peito de Evan.
— Com certeza. Remus é uma pessoa muito maçante.
Assim dizendo, o conde de Caldbeck levantou-se, enquanto os recém-chegados se aproximavam do carvalho. Quando os dois cavaleiros desmontaram, Carlinhos apressou-se a segurar as rédeas de seus cavalos a fim de conduzi-los para junto das montarias de Severus e Hermione.
— Bom dia — saudou sir Lupin com excessivo entusiasmo. Severus estendeu a mão para seu vizinho e depois se dirigiu ao amigo.
— Como vai, Evan?
— Melhor, obrigado. A queimadura está sarando, como pode ver. Como está, lady Caldbeck?
A castanha sorriu para os dois visitantes, e Lupin, com um riso seco, apontou para as roupas de Severus.
— Querendo nos deixar com ar de preguiçosos, Snape? — o conde aquiesceu, mas nada disse, então sir Remus voltou-se para Hermione.
— Todos conhecemos as extravagâncias de seu esposo, milady. Jamais se preocupa com a sua posição — antes que ela tivesse tempo de replicar, concluiu — Mas, afinal, é um lindo dia para ficar ao ar livre.
— É verdade — murmurou a castanha, sem animação. Evan adiantou-se.
— Estava cavalgando sozinho, quando encontrei sir Lupin, que me concedeu o prazer da sua companhia.
Severus trocou um olhar de alerta com o amigo. Remus era um homem inteligente, mas era conhecido por não ser tão perspicaz, entretanto a ironia de Evan fora bastante óbvia. Porém sir Lupin não parecia ter percebido, e logo limpou a garganta, como sempre fazia quando pretendia dizer uma de suas frases pomposas.
Evan ergueu os olhos para o alto, como se pedisse ajuda divina, e Hermione levou a mão à boca, contendo uma risada.
Entretanto jamais ficaram sabendo o que o visitante pretendia dizer, porque pela terceira vez nessa manhã, alguém se aproximou, vindo da estrada. Graham Pritchard surgia a galope em um dos cavalos de Severus. Deteve a montaria e retirou o chapéu, em saudação ao grupo, hesitando em se juntar aos amigos do patrão.
— Como vai, Graham? — cumprimentou o moreno — resolveu exercitar meu cavalo?
— Sim, milorde. Tinha compras a fazer no vilarejo.
De repente, o conde voltou-se, ante um súbito burburinho entre os trabalhadores, que já tinham voltado a martelar do outro lado do muro.
O homem chamado Ribble pulou a cerca do canteiro de obras e, sem hesitar, montou no cavalo cinza de Severus, como um raio.
Antes que o espantado Carlinhos pudesse reagir, Ribble atiçou o cavalo com as esporas, pulou o muro e partiu a galope pelos campos.
Atônito, o conde o seguiu com o olhar. Uma coluna espessa de fumaça negra elevava-se por trás da colina mais próxima.
— É a casa de Ribble! — gritou alguém.
— Graham! Desmonte!
Ante a ordem, o secretário apressou-se a descer do cavalo que trouxera, e Severus montou e saiu a galope atrás de seu inquilino, pressentindo que algo terrível acontecera.
O caos se instalara na tarde tranquila. Evan e sir Lupin correram para seus cavalos, Owen Cauldwell arrumava a cesta de piqueniques para o regresso, e Graham, deixado a pé, foi ajudá-lo. Todos os trabalhadores saíram em pressa desabalada na direção da fumaça.
Hermione ergueu-se sem demora.
— Carlinhos, espere!
O criado deteve-se com o pé no estribo, e a condessa correu para a sua montaria, seguindo Evan e sir Lupin, e, de modo corajoso, fez o cavalo pular o muro em direção à colina.
Ao alcançar o topo, viu embaixo um chalé em chamas, o telhado parecendo uma coroa flamejante. O homem chamado Ribble descia pelo outro lado galopando a mais não poder, esquecido de obstáculos e com o olhar preso na pequena casa.
Severus o seguia a uma pequena distância, montado em seu veloz alazão.
Hábil amazona, a castanha já passara à frente de Evan e Remus. Todos os cavaleiros voavam colina abaixo, nas mais diversas direções, como contas coloridas de um colar rompido.
Hermione observou Ribble atingir o chalé e desmontar do cavalo do conde. Ante seu olhar horrorizado, o homem entrou pela porta em direção às chamas. Severus se detivera logo atrás, e a castanha sentiu um baque no coração ao perceber que o marido pretendia seguir desesperado senhor.
Entretanto, antes que Snape tivesse tempo de realizar seu intento, o camponês surgiu de dentro da casa, as roupas em chamas e algo nos braços. Caiu de joelhos, e o conde correu para o seu lado, despiu o paletó e o atirou sobre o infeliz.
Como a um sinal, os outros cavaleiros foram chegando nesse momento junto à casa, enquanto o moreno batia com o paletó nas costas de Ribble, tentando apagar o fogo.
Hermione apeou com mais dificuldade, por causa da longa saia do vestido, e os dois criados apressaram-se a afastar Ribble o mais longe possível do chalé. Enquanto isso, os demais trabalhadores encontravam baldes e potes e tentavam controlar o incêndio. Sem dúvida o chalé estava perdido, mas ainda poderiam impedir que o fogo se alastrasse.
Ribble caíra ao solo, ainda segurando o seu fardo nos braços, e então a castanha percebeu, abafando um grito com a mão, do que se tratava.
Era o corpo queimado de uma mulher nua, a sra. Ribble! A alegre, prestativa e maternal senhora que Hermione conhecera esfregando o assoalho do futuro orfanato.
Desvencilhando-se dos braços do marido, que a detivera a meio caminho, correu para o pobre sr. Ribble e colocou a mão em seu ombro, em um gesto de conforto. Ele voltara a se ajoelhar e soluçava sem parar, agarrado-se ao corpo da mulher.
— Dorrie... Dorrie... — murmurava entre as lágrimas. Um soluço partiu da garganta de a castanha, que se ajoelhou ao lado do homem, em muda solidariedade. Deus! O sr. Ribble também estava muito ferido, percebeu ao ver-lhe as mãos enegrecidas.
Severus aproximou-se por trás e, também em silêncio, afagou os cabelos da esposa. Um a um os demais homens abandonaram os esforços para deter o incêndio e fizeram um círculo em volta do pequeno grupo. Ninguém erguia o rosto nem falava.
Foi então que Hermione viu algo.
O cadáver de Dorrie Ribble estava coberto de sangue, que escorria de um dos braços sem vida. E havia sangue também em suas pernas. Fitou o marido e fez um gesto na direção do que acabava de ver. O moreno enrijeceu, deu a volta e agachou-se junto dos Ribble.
Erguendo o braço ensanguentado da morta, observou-o por alguns segundos, e depois, com delicadeza, afastou o marido em prantos. O pobre homem resistiu por alguns instantes, até que seus amigos, com palavras gentis, o persuadiram a largar o corpo inerte da esposa.
Então o mesmo grito horrorizado partiu de todos. Havia um buraco no peito de Dorrie, onde se via sangue já coagulado que escorrera para seus seios e estômago, deixando poucas dúvidas sobre a causa da morte.
Lupin afastou-se correndo da cena e vomitou no chão. Vários outros ficaram pálidos como lençóis e deram um passo atrás.
De modo vagaroso, Severus ficou de pé, uma expressão sombria no rosto grave. Voltou-se para o secretário.
— Graham, pegue um cavalo e vá chamar o magistrado. Com um gesto de entendimento, o rapaz obedeceu. O conde procurou com o olhar por Carlinhos.
— Vá à casa do Dr. Slughorn e leve-o para Wulfdale. Ribble precisa de imediatos cuidados médicos — fez uma pausa e refletiu — Creio que depois lorde Dawlish desejará vê-lo.
Ribble voltou a soluçar, balançando a cabeça de um lado para outro, sem tirar os olhos da esposa.
Hermione debruçou-se sobre a morta.
— Por favor, senhor, deixe que cuidemos do corpo de sua esposa.
Lágrimas escorriam de seu rosto enquanto falava, e o pobre homem voltou-se para ela, sem na realidade a ver. Engolindo um soluço, a castanha insistiu.
— Peço-lhe, sr. Ribble, saia daqui.
Várias mãos se adiantaram para ampará-lo, e ele por fim se ergueu. Outros seguraram o cadáver da sra. Ribble e o depositaram na grama, com cuidado. Quando Severus mais uma vez se aproximou da esposa, o sr. Ribble pareceu finalmente notar a presença de condessa ao seu lado.
— Tomará conta para que ela seja bem tratada? — pediu com olhos desvairados.
— Prometo. Ficarei com ela até o magistrado chegar. Notou um gesto de contrariedade no rosto do marido, mas não ligou, e repetiu — Prometo.
Ribble aquiesceu e deixou-se levar, ainda em prantos. O conde voltou-se para o criado Owen.
— Coloque-o em um quarto de Wulfdale e chame Dobby e a Sra. Weasley para cuidarem de seus ferimentos até o doutor chegar.
Evan adiantou-se.
— Irei com você.
— Acompanharei Ribble à mansão — ofereceu-se sir Lupin, o rosto muito pálido, enquanto montava o cavalo.
Evan o deteve.
— Creio que não será preciso. O senhor não está muito bem.
Sir Lupin aquiesceu.
— Como quiser. Estarei às ordens caso Dawlish precise de mim.
Assim dizendo, fustigou a montaria e saiu a galope. Evan sorriu com azedume.
— Quanto menos precisarmos dele, melhor — Severus voltou-se para esposa.
— Mione, tem certeza de que quer ficar? — ela o fitou de modo decidido.
— Sim.
E ficou, fazendo Snape se orgulhar de tê-la escolhido como esposa. Embora admirasse sua beleza física e encanto, era seu coração terno, generoso e caloroso o que realmente o atraía.
Percebera isso desde o primeiro instante em que a conhecera. Sem dúvida que a castanha decidira desposá-lo devido à perda da própria fortuna, mas não pensara apenas em si mesma. Fora a promessa de ajudá-la em suas causas caridosas que a tinha convencido. Ela também cumprira sua parte no acordo, e compartilhara com o conde de Caldbeck o leito nupcial, porém Severus desejava mais do que isso. Ansiava por seu amor.
Hermione montou guarda ao lado do corpo da pobre Dorrie Ribble durante toda a tarde. Quando, por fim, a carreta mortuária chegou para levar o cadáver e prepará-lo para o funeral, ela se apoiou no peito do marido e soluçou outra vez. Enquanto voltavam a montar seus cavalos, o sino da igreja começou a soar de modo lento e tristonho, anunciando o falecimento.
Quando tudo voltou ao silêncio, a castanha fitou Caldbeck.
— Trinta e quatro badaladas, correspondendo à idade da Sra. Ribble. Era mais nova que você. Quem poderia ter feito algo tão terrível? Que mente destorcida e cruel cometeria tal assassinato?
— Não sei, mas pretendo descobrir, e logo, Mione.
*.*.*.*.*
Assim que chegaram a Wulfdale, foram ver o pobre viúvo, que permanecia aos cuidados de Dobby e da Sra. Weasley, e a imagem de dor do pobre homem deixou Severus preso de terrível furor.
Fechou-se na biblioteca e ficou andando de um lado para outro, como uma fera enjaulada. Wulfdale fora atacada. Uma das famílias sob sua responsabilidade sofrera um covarde e medonho golpe.
O conde desejava fazer justiça com as próprias mãos.
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Hermione retirou-se para seus aposentos e pediu a Winky que lhe preparasse um banho. Tinham decidido não jantar essa noite, e sentia-se exausta. Aliás, refletiu, nos últimos tempos estava sempre cansada. Onde fora parar sua antiga energia?
Uma bandeja foi trazida ao seu quarto, porém não conseguiu comer nada. Visões do corpo ensanguentado de Dorrie Ribble insistiam em atormentá-la sem descanso.
Depois do banho, sentou-se junto à lareira e chorou. Ribble devia amar muito a esposa para ousar entrar no chalé em chamas, refletiu. Será que algum dia desfrutaria esse tipo de amor com Severus?
O vento uivava na janela, e de repente desejou estar ao lado do marido. Por que não viera vê-la ainda? Relanceou um olhar para o relógio e viu que era muito tarde. Levantou-se e continuou à espera, mas a paciência não era uma de suas maiores virtudes.
Por que ficar ali esperando pelo conde? Aquela era sua casa também, pensou. Apertou o laço do roupão e rumou para a porta que separava seus aposentos dos de Severus.
Entrou na saleta contígua e logo sentiu o perfume característico que anunciava a presença do conde de Caldbeck.
A castanha deteve-se e aspirou, imaginando por que nunca ousara entrar ali antes. Sem dúvida, a razão era que o marido sempre vinha ao seu quarto. Porém havia um outro motivo. Ainda se considerava uma visita em seu novo lar. Aproximou-se da outra porta que conduzia ao quarto de dormir e bateu, mas não houve resposta. Insistiu, e nada.
De repente, algo chamou-lhe a atenção e a fez sorrir. Preto e verde! Quase tudo na decoração dos aposentos particulares do conde de Caldbeck era nessas duas cores. Será que o moreno nunca se cansava? Mas se tratava de um cômodo confortável e bonito.
Voltando o pensamento para o que a trouxera ali, constatou que sem dúvida o marido não estava. Devia continuar trancado na biblioteca, refletiu.
Pegou sobre a cômoda um castiçal com uma vela e, tremendo um pouco por causa das correntes de ar, desceu as escadas. Parecia que havia muito os empregados tinham se recolhido, deixando a mansão às escuras.
Wulfdale, tão acolhedora e alegre durante o dia, era sombria na escuridão, com seres misteriosos parecendo vagar pelos corredores. A impressão era de que suspiros abafados emanavam dos tetos altos, e sussurros partiam das paredes, fazendo Hermione estremecer, à espera do terrível uivo da outra noite.
Por que deixar que sua imaginação a dominasse? Wulfdale era apenas uma casa antiga, muito grande e... escura. Apressou o passo, quase correndo, e logo chegou à biblioteca.
— Sim? — perguntou ao ouvir a batida.
A castanha suspirou, aliviada, ante o som da voz bem conhecida, e tratou de recuperar o fôlego, antes de girar a maçaneta. Ao entrar, viu apenas uma sombra junto à janela.
— Por fim o encontrei. Está sozinho?
— Sim.
— Ótimo, porque estou de camisola. O que faz no escuro?
Após dizer, percorreu a distância que a separava do marido, que ocupava uma poltrona. Ele a puxou para si e a fez sentar em seu colo.
— Está tremendo — murmurou Severus, abraçando-a com força.
Hermione dobrou os joelhos, e o marido os enlaçou com os braços.
— Senti sua falta. Você está bem?
— Sim, mas frustrado e com raiva. Só consigo pensar na pobre Dorrie e no porquê alguém faria tal barbaridade. Quero levar o assassino à Justiça.
— Também não consigo me esquecer dela e do cão que uivou na outra noite.
— O que tem isso?
— Uivou também na noite em que a sra. Creevey morreu — Snape permaneceu em silêncio um pouco, e depois comentou:
— De fato é estranho. Está assustada? — a castanha pareceu ponderar.
— Bem, não muito. Só que é algo enigmático.
— Os acontecimentos dos últimos dias são todos estranhos. Parece que temos mais de um assassinato.
Até aquele momento, os gestos calmos e seguros do marido, sua voz tranquila, a tinham deixado segura, mas essas palavras a fizeram dar um pulo. Sentou-se ereta no colo do conde, sentindo um arrepio.
— Quer dizer... Acha que a mãe de Colin e Dennis também foi... assassinada? Meu Deus! Isso é terrível. Significa que alguém está...
Interrompeu-se, sem conseguir explicar seus pensamentos, mas Severus compreendeu.
— Quer dizer que alguém das vizinhanças está matando e mutilando mulheres, e depois as queima, em uma espécie de ritual satânico e louco. O Dr. Slughorn acredita que a Sra. Ribble foi vítima de uma cerimônia maligna, embora seja difícil assegurar devido ao estado de seu corpo. E parece que foi amarrada com cordas.
— Não! Como deve ter sofrido! — agarrou-se ao marido de maneira desesperada — Quem será esse monstro?
O conde acariciou-lhe os cabelos, tentando acalmá-la.
— É nisso que tenho pensado sem parar, sentado aqui há horas. Quem fez isso e por quê. O motivo poderá nos levar ao assassino. Enviei mensageiros para convocar os senhores vizinhos para uma reunião amanhã. Talvez alguém tenha uma informação importante. Porém no momento... — fez com que Hermione se levantasse de seus joelhos — Vamos para a cama porque você está tremendo. E, mais uma coisa, Mione.
— Sim?
— Não saia de casa sozinha.
*.*
Malditos! Agora iriam persegui-lo como se fosse um animal selvagem. Deu um pontapé violento no cão aos seus pés, que ganiu.
Pelo menos já sabiam com quem estavam lidando. Um destruidor, um anjo vingador caminhava por ali para redimir e purificar com o fogo, semeando o medo.
Ah! Medo! Arregalou os olhos e estremeceu. Agora todos estavam temerosos e cada vez mais sentiriam o pavor se avolumar. Ante tal pensamento, passou a língua pelos lábios.
Em breve ela saberia o que era o terror. Teria medo dele e rastejaria aos seu pés, implorando por misericórdia. Sim, muito em breve.
