Extorsão

Hermione entrou no Átrio do Ministério da Magia. Sabia que faltavam duas horas para que seu expediente começasse, mas não estava dando muita importância para isso. Não aparatou diretamente em sua sala, afinal, estava exausta.

Por mais que tivesse tentado, não havia conseguido descansar e dormir direito na noite anterior. A folga que Archie lhe dera não havia adiantado nada, mas a exaustão não foi suficiente para que a garota esperta não percebesse o movimento anormal em que o Ministério estava.

Havia muito mais bruxos e bruxas no local. Alguns vestiam roupas tipicamente trouxas, outros estavam vestidos da mesma forma que os bruxos do seu Departamento. Alguns vestiam ternos de cores estranhas. Mas o que chamou a atenção dela não foram as roupas, e sim as fisionomias que as pessoas carregavam.

Alguns bruxos pareciam envergonhados, estavam com um pergaminho mais escuro na mão e olhavam para o lado oposto, parecendo evitar alguém. Outros estavam felizes, e ainda havia aqueles que estavam confusos e sem lugar.

Ela se encaixava perfeitamente no último grupo. Não precisava ser a mais inteligente de sua idade para saber o motivo do rebuliço no Átrio do seu local de trabalho.

- Lei de Casamento...

Bufou, caminhando em direção ao elevador, a fim de trabalhar o dia inteiro para tirar da cabeça o pensamento que estava lhe tomando a atenção. Ela ainda não havia conseguido um companheiro para se casar.


No momento que plantou os pés em sua sala de estar, ela respirou fundo. Estava mais cansada do que quando saíra, como era de se esperar. Mas não foi o trabalho que a levou àquela exaustão, e sim o clima que estava no Ministério.

Por mais que ela quisesse fugir, todos os bruxos da Inglaterra estavam comentando sobre a Lei de Casamento. Alguns exibiam orgulhosos os contratos assinados, falando em voz alta sobrea alegria e o alívio em que estavam já que não precisaram procurar alguém. Outros evitavam o assunto, não querendo lembrar que ainda estavam solteiros. Algumas mulheres sorriam de forma falsa, tentando convencer o restante do Departamento de que estavam felizes com os novos maridos.

Aquilo tudo estava deixando Hermione louca.

Claro que ficou feliz ao saber dos melhores amigos. Ela já desconfiava do futuro dos dois. Por ser mestiço, Harry teve mais liberdade de escolha, podendo se casar com Ginny. Sabia que o amigo sempre quis isso, a Lei foi apenas um incentivo e uma desculpa para que ele tomasse a devida coragem e fizesse o pedido.

Rony teve a mesma sorte que Harry. Luna era mestiça, e esse fato a deixou surpresa. Poderia jurar que a garota loira e sonhadora era puro-sangue, mas não conhecia de fato sua linhagem para fazer conclusões certas.

Hermione balançou a cabeça em descrença. Por mais que estivesse feliz ao ver seus amigos satisfeitos e finalmente casados, nada tirava de sua mente que ainda estava solteira. Não que esse fato a incomodasse sempre, mas depois da Lei de Casamento, achar um marido à altura estava se tornando um dos maiores desafios de sua vida.

Ela caminhou para o quarto. Bichento estava deitado como uma bola no meio de sua cama e apenas abriu os pequenos olhos quando a dona entrou no cômodo, para depois voltar a dormir. A noite estava suave e ela não sentia calor, a brisa entrava pela janela, esfriando seu corpo.

Retirou a roupa de trabalho e jogou-a em um cesto de palha. As peças desapareceram, o prédio em que morava tinha elfos domésticos, e ela sabia que eles eram os responsáveis por isso. Claro que ela não gostava muito da ideia, mas o fato de as criaturas serem pagas já a deixava mais tranquila.

O mundo bruxo evoluía em certos aspectos, e retrocedia em outros.

Entrou no chuveiro e fechou os olhos quando a água quente correu por todo o seu corpo, desfazendo os nós de tensão, deixando um rastro de alívio por onde passava. Demorou-se um pouco no banho, dando-se aquele momento para não pensar em nada, apenas no som da água batendo no chão.

Depois de alguns minutos saiu do banheiro enrolada em uma toalha felpuda. Bichento ainda estava dormindo em sua cama e ela revirou os olhos ao constatar isso.

- Preguiçoso...

Disse em um tom carinhoso e baixo. Bichento era seu companheiro do dia-a-dia, e sempre seria.

Vestiu um vestido curto e acenou com a varinha para que os cabelos se secassem. A magia facilitava muito a vida dela, e esses pequenos truques que Ginny lhe ensinara eram sempre usados no dia-a-dia.

Saiu do quarto e percebeu um rolinho em cima de sua mesa de centro. Ela sabia que era o Profeta Diário do dia. Bennie deveria tê-lo posto ali. Sempre que trabalhava demais, o elfo dava um jeito de receber sua coruja e guardar seu exemplar.

Hermione pegou o rolo de jornal e abriu-o ociosamente, sabendo que não teria nada de sugestivo. Mesmo que o Profeta Diário parecesse interessado em demasia pelo seu Departamento, o único assunto que reinava no mundo bruxo era a Lei de Casamento. E foi somente sobre ela que as páginas do jornal foram preenchidas.

Abaixo do comunicado oficial sobre a lei implantada dias antes, ela pôde ler uma lista de todos os bruxos que se casaram na Inglaterra. Os olhos castanhos correram de forma livre pelos nomes. Podia ver os de seus amigos, e até mesmo de alguns conhecidos da época de Hogwarts. Até Neville parecia ter achado alguém. Mas o que lhe chamou a atenção foi um nome em específico.

- Viktor Krum.

O rosto dela se esquentou. Quase não acreditou em sua falta de sorte, e teve que reler o nome do seu possível marido duas vezes para enfiar na cabeça de que sua única chance havia ido embora.

Viktor Krum estava casado. Uma maldita bruxa inglesa já tinha fisgado um dos melhores partidos da Bulgária, ou nesse caso, da Inglaterra. Sabia que Krum, com sua influência, conseguiria se mudar para a Inglaterra no momento do casamento.

A raiva tomou o corpo dela. Raiva por ter sido lenta e não ter procurado o bruxo antes, fazendo a proposta. Sabia que ele iria aceitar. Algo lhe dizia que Krum ainda nutria sentimentos por ela, e mesmo que isso não fosse recíproco, ela estaria mais aliviada se ele fosse o seu marido.

Jogou o jornal longe, os pergaminhos de cores acinzentadas se espalharam em um canto da sala enorme. Ela não deu importância a isso. Se dependesse dela, o jornal pegaria fogo. Sua situação não poderia ficar pior.

A campainha soou pelo apartamento e ela olhou para a porta, franzindo o cenho de leve. Não estava esperando ninguém, e Harry e Rony sempre lhe mandavam corujas para avisar que iriam visitá-la.

Levantou-se com calma, passando a mão pelos cabelos secos e volumosos. Deveria ser apenas Bennie com alguma carta atrasada ou algum recado. A mão pálida envolveu a maçaneta e a girou, ela abriu a porta, e o que fitou a sua frente fez seu estômago revirar.

- Olá, lindeza.

O snatcher lhe disse no momento em que viu a garota. Estava apoiado no batente de forma tranquila e vestia as mesmas roupas que estava vestindo na última vez em que se encontraram. Estava com o casaco pesado de couro, vestes pretas e botas da mesma cor. Os cabelos bagunçados e presos. Ele estava idêntico ao snatcher dos pesadelos de Hermione.

Ela fez menção de fechar a porta, mas Scabior enfiou o pé na frente, impedindo-a de concluir seu objetivo. Ela travou o maxilar, não acreditando no atrevimento dele. Não sabia como ele havia descoberto seu endereço, mas com certeza iria pesquisar sobre isso.

- Posso entrar?

O snatcher perguntou, sem esperar a resposta. Entrou pelo apartamento dela como se fosse um amigo bem-vindo. Seus olhos azuis escuros correram livremente pelo lugar, constatando que a garota era mais rica do que ele imaginara. No apartamento em que estava caberia cinco do seu e ainda sobraria espaço para montar um bar. Se ele não soubesse que ela vivia só, poderia concluir que ali morava uma família feliz e uma coruja.

Ela sentiu seu corpo esquentar, a raiva tomando cada célula. O maldito estava no meio de sua sala, a roupa negra contrastando com toda a mobília clara do cômodo. E estava parado, sorrindo, como se fosse uma pessoa convidada.

Ela fechou a porta, não queria vizinhos bisbilhotando quem entrara em seu apartamento.

- Posso saber o que você está fazendo aqui? Ou melhor, posso saber o que você quer aqui?

Scabior olhou para Hermione e sorriu maliciosamente. Ela engoliu em seco, percebendo o rumo que a conversa poderia tomar se ele interpretasse a pergunta de outra forma. Mas ele não se aproximou dela.

- Vim para tratar de negócios com você.

Uma mescla de excitação e desprezo tomou o corpo dela. Ela não podia deixar de pensar que ele finalmente estava com medo, e que deixaria seu trabalho mais fácil, lhe dando algumas informações preciosas.

Ele coçou o pescoço e enfiou a mão no casaco de couro, tirando dali um maço de pergaminhos enrolados. As mãos sujas desenrolaram o conteúdo e ele o jogou na mesa de centro que estava por perto.

Ela não precisava ler o que estava escrito. Sabia perfeitamente do que se tratava. A reportagem de Rita Skeeter parecia estar escrita com letras luminosas, dizendo que o Departamento em que ela trabalhava não estava obtendo sucesso em seu objetivo. Pior, a coluna de Skeeter dizia que a garota estava procurando um ajudante. Hermione não precisava pensar duas vezes para descobrir o que Scabior queria.

- O que isso quer dizer?

Ainda assim perguntou de forma inocente, fingindo-se de desentendida.

Ele riu levemente, enfiando a mão nos bolsos da calça de couro e se aproximando dela lentamente. Os sinais de nervosismos começaram a se intensificar. Não conseguia ignorar o homem que se aproximava de forma desinibida. As mãos nos bolsos apenas faziam com que a calça ficasse mais justa ao corpo dele, exibindo ainda mais o que estava sob o pano.

Ele parou a centímetros dela, e ela não conseguiu se afastar. Sabia que se o fizesse, estaria se mostrando uma pessoa medrosa.

- Sei que você pode conseguir essa vaga para mim.

O hálito quente de Scabior bateu no rosto dela, fazendo-a travar o maxilar. Sempre o mesmo aroma de Uísque de Fogo. Estava bebendo antes de ir até a sua casa, mas o álcool não parecia fazer efeito nele. Finalmente afastou-se dele de forma rápida. Os braços foram em direção ao peito e ela os cruzou ali.

- Nem pense nisso.

A reação dele foi diferente da reação que Hermione imaginara. O snatcher parecia estar se divertindo com a resposta dela. Ela não gostou disso, algo lhe dizia que a resposta que dera era exatamente a resposta que ele esperava.

E era.

Scabior se aproximou novamente e ela deu dois passos para trás. Suas costas bateram de leve na parede perto da porta e ela engoliu em seco. Odiava a aproximação dele. Ele parou em frente a ela e colocou um dedo no queixo, para depois olhá-la com os olhos azuis intensos e virar a cabeça de lado, como se estivesse pensando em algo intrigante.

- Acho que um encontro com Rita Skeeter seria interessante, você não acha?

Hermione não entendeu a insinuação por trás da pergunta dele. Franziu o cenho e não respondeu, temendo que sua resposta fizesse com que ele tomasse a atitude errada. Ele percebeu a confusão dela, e adorou aquilo. Nunca havia visto a garota daquela forma.

- Darei um jeito de mandar uma coruja diretamente para ela. Se encontrei seu endereço, posso encontrar o dela...

O coração dela começou a bater fortemente dentro do peito. As engrenagens do seu cérebro trabalhavam de forma rápida e começavam a captar a ameaça que ele estava lhe fazendo.

- Afinal... Rita Skeeter adoraria uma reportagem extra da famosa garota prodígio Hermione Granger tendo um caso com um ex-snatcher vagabundo, não?

O nervosismo foi embora e a fúria voltou a tomar conta do corpo de Hermione. Ela respirou fundo e entendeu de imediato o que o snatcher pretendia. Ele estava a ameaçando de forma aberta, e o que ele tinha em mãos poderia acabar com a vida dela. Ela sabia que iria colher as consequências algum dia pela noite que havia passado com ele, só não sabia que elas viriam de uma forma tão violenta e estúpida.

- Eu não estou tendo nenhum caso com você, seu imbecil.

Scabior não se deixou levar pelos insultos dela. Apenas sorriu, aproximando-se ainda mais dela. Podia sentir o calor emanar do corpo dela, e sabia que se a provocasse mais um pouco, ela deixaria a inteligência sumir, dando espaço para a raiva em sua forma mais pura.

- Isso não importa, não é mesmo?

Perguntou de forma calma. Hermione apenas mordeu a língua. Sabia que ele estava certo. Se ele abrisse a boca e contasse para Rita Skeeter o que havia acontecido entre os dois, ela não teria chance. A jornalista fofoqueira e perigosa não pensaria duas vezes se a origem da história era verdadeira e publicaria na primeira oportunidade.

E então sua vida iria ser destruída.

- Eu... eu preciso pensar.

Respondeu, derrotada. O que ele tinha em mãos era uma vantagem perigosa, que ele poderia manipular da forma que quisesse, e ela sabia que ele o faria caso ela não deixasse o snatcher satisfeito. Estava sem saída.

Ele se aproximou mais, mas ela foi mais rápida. Abriu a porta de forma rude e acenou para que ele saísse. Ele lambeu os lábios, como se alguém tivesse tirado um sorvete de suas mãos no momento em que ele fosse experimentá-lo.

Ele não se mexeu, mas Hermione precisava ficar sozinha, e ter aquele homem no seu apartamento a olhando com a mesma fome que sempre lhe olhava não era algo bom. Ela deu um passo a frente, chegando até ele e começando a empurrá-lo para fora.

- Saia daqui.

Mandou de forma mal educada. Scabior saiu do apartamento e se virou para ela. Ela fez menção de fechar a porta novamente, mas ele foi mais rápido pela segunda vez, enfiando o pé no meio do caminho. Ele se aproximou uma última vez da garota, pegando uma mecha do seu cabelo e inalando o aroma adocicado de baunilha que o deixava louco.

Os olhos azuis cravaram-se nos olhos castanhos e ele sorriu, afastando-se e caminhando em direção à lareira de visitantes.

- Nos vemos em breve, lindeza.

As chamas verdes engoliram o corpo dele e ele desapareceu. Hermione fechou os olhos, percebendo que era tarde demais e que cada poro do seu corpo estava arrepiado com a aproximação do snatcher. Seu cabelo estava com um leve cheiro de folhas úmidas, e a ela perguntou-se como ele conseguia aquilo a tocando por apenas alguns segundos.

Engoliu em seco e mordeu a língua com raiva, batendo a porta com força.