Capítulo 12
Com o casaco de lince incrivelmente caro jogado nos ombros, Kikyou tinha uma aparência jubilante quando eles entraram no hall do hotel de luxo, onde Jaken havia reservado uma mesa para o almoço, por telefone.
- Sinto muito – Sesshoumaru disse, franzindo a testa e segurando com mais força o braço de Kagome – mas Jaken deve ter achado que, como eu sempre usava este hotel para reuniões de negócios, seria um bom lugar para almoçarmos. Eu deveria tê-lo avisado de que preferíamos comer em um lugar mais simples. Se vocês quiserem procurar outro restaurante, existem muitas tavernas excelentes aqui perto.
- Querido... – Kikyou ronronou encantada com o chão de mármore, as paredes de vidros fumê, as cadeiras forradas de couro legítimo, os candelabros enormes, de desenhos futuristas, e o brilho frio de metais cromados, que pareciam estar em toda parte – nem pense nisso!
Kagome percebeu que ele estava esperando pela sua resposta, mas ficou em silêncio, observando, fascinada, uma selva em miniatura, formada por plantas tropicais de caules tão grossos quanto o pulso de um homem, e que cresciam até o teto. As folhas também eram tão grandes que ela poderia facilmente se envolver em uma delas, cobrindo-se da cabeça aos pés.
- Então, Kagome? – Como sempre, ele falava com impaciência. – Quer almoçar aqui ou não?
- Para mim tanto faz – ela respondeu. Mas então, lembrando-se da preferência dele por lugares familiares, apressou-se a acrescentar:
- Mas acho que, como já temos um a mesa reservada aqui, seria grosseria não usá-la.
O restaurante do hotel estava cheio de pessoas elegantemente vestidas, e o murmúrio de suas vozes podia ser ouvido acima do barulho dos pratos e do tilintar dos talheres. No entanto, o silêncio tomou conta do lugar quando Sesshoumaru foi reconhecido. Kagome sentiu os dedos másculos enterrarem-se em seu braço e percebeu que ele estava consciente de ser o centro das atenções. Seu coração começou a bater mais depressa, apreensivo por causa daquele grego orgulhoso, com coragem suficiente para enfrentar o mundo, mesmo cego, e praticamente disparou, quando "maitre" aproximou-se depressa, o rosto iluminado por um sorriso de boas-vindas.
- Seja bem-vindo, senhor – ele cumprimentou, fazendo uma mesura. – Estamos muito contentes com a honra que nos dá, sendo nosso freguês novamente. E fico feliz em poder lhe dizer que, apesar de sua reserva ter sido feita com pouco tempo de antecedência, a sua mesa habitual está à sua espera.
De repente, Kagome percebeu que não conseguiria suportar vê-lo passar pela tensão de caminhar por entre aquele emaranhado de mesas, para se sentar num lugar de destaque, onde estaria à vista de todo o restaurante.
- Se... Se o senhor não se importa, eu gostaria de me sentar em um de seus reservados. Eles dão à impressão de serem tão aconchegantes! – Ela corou e foi com dificuldade que prosseguiu, no seu desajeitado pedido de desculpas:- Eu... Eu não estou acostumada a freqüentar lugares como este, e prefiro me sentar num lugar de onde possa ver tudo sem ser observada.
- Kagome, pelo amor de Deus! – Kikyou exclamou, exasperada.
- Leve-nos para um reservado, Andréas – Sesshoumaru ordenou com suavidade, apertando de leve o braço de Kagome, para mostrar que sabia por que ela fizera aquele pedido e se sentia grato e aliviado por sua compreensão.
Sem perceber a corrente de ternura que ligava seus dois companheiros, Kikyou conversou feliz, durante toda a refeição, lançando olhares triunfantes para a irmã, de vez em quando. Kagome respondia por monossílabos, tentando esconder a emoção que sentia por estar ao lado de um marido cujo menor toque era eletrizante. Sesshoumaru, por sua vez, tinha uma aparência preocupada, e foi provavelmente por isso que Kikyou não protestou quando, no final do almoço ele disse:
- Eu venho tão pouco a Rodes, atualmente, que vou aproveitar o resto do dia para resolver alguns negócios urgentes. Não se incomoda Kikyou, se a deixarmos sozinha por algumas horas?
- Sozinha? – Kikyou repetiu, desconfiada.
As narinas dele tremeram, mas sua voz continuou baixa e educada quando respondeu à pergunta da cunhada:
- Vou precisar de Kagome, para tomar nota de algumas coisas.
- Ah, nesse caso – ela encolheu os ombros – não se preocupem comigo. – De repente, seu rosto iluminou-se. – Acabo de me lembrar que vi um salão de beleza, quando passamos pelo hall do hotel. Vou passar o tempo cuidando dos meus cabelos.
Como se estivesse querendo se desculpar por sua ausência, Sesshoumaru insistiu em marcar uma hora para Kikyou no salão de beleza, dizendo que todas as despesas dela correriam por sua conta.
- Você é tão generoso, Sesshoumaru querido – Kikyou comentou quando eles se preparavam para ir embora. – Mas pelo menos – ela lançou um olhar de desprezo para a irmã – você tem a satisfação de saber que aprecio a sua bondade, como merece.
Com uma pressa que Kagome achou quase grosseira, Sesshoumaru levou-a para fora do hotel. Tomaram um táxi, que já estava esperando, e para sua surpresa ele disse ao motorista:
- Vamos para a Cidade Velha, "parakalo".
- Você tem negócios na Cidade Velha? – ela perguntou, enquanto se afastavam velozmente dos edifícios só de escritórios, construídos no coração comercial da cidade.
- Negócios muito importantes – Sesshoumaru assegurou com solenidade. – Tenho o dever de garantir que você não volte para Kairos desapontada por ter perdido a chance de ver o que está morrendo de vontade de conhecer.
- Quer dizer que você mentiu para Kikyou? – Kagome perguntou surpresa com o comportamento do marido.
- Claro que sim – ele confessou, sem demonstrar o mínimo arrependimento. – Do mesmo modo que você mentiu para mim, primeiro quando disse que estava se sentindo mal, e, depois, quando afirmou que tinha aversão por casacos de peles de animais.
- Mas eu não menti para você, Sesshoumaru – ela se defendeu, com uma calma e uma dignidade que o levaram a franzir a testa. – Desde a infância eu fui ensinada a não mentir, e nunca faria isso, a menos que fosse forçada por circunstâncias excepcionais.
- Tais como. . .
- Quando a verdade fosse mais prejudicial que a mentira – respondeu com indiferença.
- Então, você não passa de uma tolinha, pedindo para ser magoada – Sesshoumaru disse com aspereza. No entanto, havia em sua voz um tom estranho, que despertou em Kagome a suspeita de que, pela primeira vez em sua vida, aquele grego inescrupuloso sentia-se confuso.
Apesar da atmosfera constrangida que reinava entre os dois, Kagome animou-se quando o táxi parou à sombra das maciças fortificações feitas de pedras cinzentas, além das quais se erguia um castelo antigo, rodeado por um anel de árvores copadas.
- Essas fortificações foram construídas no início do século XIV, para repelir os ataques de piratas e dos muçulmanos egípcios – Sesshoumaru contou, enquanto passavam pelo portão que dava acesso ao pátio de uma casa construída com pedras sólidas, e que ostentava um enorme brasão sobre a porta principal. – Deixe-me testar a minha memória. . . – Hesitante, ele percorreu com os dedos a beirada de uma antiquada fonte. Depois, com a testa franzida, concentrou-se em reviver na memória uma cena que nunca pensou que não pudesse mais ver, da última vez em que estivera ali. – À nossa esquerda deve haver uma pirâmide de bolas de canhão, que, a julgar pelos gritos, continua a ser usada como trave de gol pelos garotos de escola. Certo?
- Certíssimo – Kagome encorajou, rindo alegremente.
- Se tomarmos a ruazinha estreita, calçada de pedras, que está bem à nossa frente – ele continuou – vamos dar numa praça que tem uma fonte de azulejos coloridos, bem no centro. Dessa praça saem várias ruas, que estão cheias de bazares.
Seria impossível explorar toda a Cidade velha durante o pouco tempo que tinham, por isso os dois começaram a caminhar de mãos dadas pelas vielas limitadas de ambos os lados por casas medievais, construídas tão junto umas das outras que projetavam uma sombra só. Era fácil imaginar os cavaleiros de mantos vermelhos, que patrulhavam a cidade silenciosa durante a noite, procurando, á luz de lanternas, os espiões e malfeitores da era medieval.
Então, como Sesshoumaru tinha dito, passaram por baixo de um arco de pedra e entraram numa praça, onde se ouvia, por todos os lados, o som das vozes dos mercadores anunciando suas ofertas, atraindo os turistas curiosos para suas lojas totalmente abertas na frente, e que pareciam abarrotadas até o teto com rendas feitas à mão, esculturas em madeira, potes de cobre e latão, cerâmica, artesanato em couro, esponjas, objetos de prata, e fios e mais fios de contas coloridas, que formavam uma espécie de terço e que os homens orientais, ricos ou pobres, velhos ou moços, costumavam desfiar por entre os dedos, sempre que tinham alguma preocupação.
- A senhora não quer tomar um cafezinho? Ou, quem sabe, comer um pedaço de bolo? Por favor, entre na minha cozinha e escolha à vontade – o persistente dono de uma casa de chá insistiu, quando Kagome parou para admirar os doces que ele tinha expostos.
- Ele vai ficar muito contente se você aceitar o convite – Sesshoumaru comentou, com um sorriso. – Os gregos têm o costume de ir até a cozinha, para inspecionar os utensílios e o modo como os doces são feitos. Você pode mesmo olhar dentro da geladeira, se quiser.
- Isso não vai ser necessário – ela recusou apressadamente, embaraçada pela idéia, mas depois hesitou fascinada pela variedade de doces feitos com nozes, amêndoas, mel e creme, que tinham uma aparência de dar água na boca.
- "Parakalo"...
Quando o ansioso confeiteiro pediu-lhe para se sentar, por meio de sinais, do jeitinho que Jaken tinha lhe ensinado, Kagome riu, deliciada.
- Sesshoumaru, será que não podemos entrar um pouquinho? – perguntou, ainda sorrindo. – Não precisamos demorar muito...
Acabaram sentando-se num agradável terraço, sentindo o sol acariciar-lhes o rosto, com um copo de delicioso café na mão e ouvindo o som romântico do "bouzouki" misturar-se aos gritos que vinham do colorido mercado em volta. E isso foi um verdadeiro desastre para o horário que haviam planejado. No início, sentiram-se felizes por se sentarem lado a lado, num silêncio amigável, mas, quando Sesshoumaru começou a falar deixou-a completamente fascinada pelas palavras que revelavam a solidão que ele escondia por trás de uma fachada de independência e arrogância.
- Eu costumava ficar horas e horas sentando, quando ainda não era cego, vendo a vida passar. Quando era jovem e pobre esse era o meu passatempo favorito. Eu acabava o trabalho do dia, jantava, comprava um jornal e saía à procura de um café, desses que ficam na calçada, onde me sentava na última fileira, geralmente perto de uma janela. Muitas vezes, depois de ler o jornal de cabo a rabo, eu puxava conversa com as pessoas em volta, para passar o tempo. Mas na maioria das vezes ficava sentado em silêncio, observando a beleza das garotas, rindo das peraltices dos garotos que brincavam na rua, ouvindo as conversas em volta, irritando-me com as risadas estridentes. Era sempre muito divertido. Posso contar nos dedos de uma mão às vezes em que me aborreci...
- E você estava sempre sozinho, quando era rapaz? – Kagome perguntou, com voz meiga. – Não sentia falta de alguém para lhe fazer companhia?
- Às vezes, sim – ele reconheceu com seriedade. – E isso sempre acontecia quando, em vez de ser o observador, eu me transformava na pessoa que era observada. Nós, os gregos, somos uma raça amistosa, que gosta de companhia e desconfia de todos os que preferem a solidão. Além disso – seus dentes muitos brancos brilharam num sorriso autocaçoísta - somos muito inquisitivos. É por isso que, na Grécia, você nunca vai encontrar uma casa isolada das outras, como acontece com tanta freqüência em seu país.
- Mesmo assim, não consigo acreditar que você vivesse sozinho por escolha própria! Principalmente depois que você me mostrou, com tanta clareza, quanto gosta de companhia feminina!
- Ah, mas eu era muito pobre naquela época. Mulheres são um divertimento caro, e cada dracma que eu ganhava estava sendo investido cuidadosamente em coisas que pudessem me trazer lucro.
- Nem todas as mulheres são interesseiras – ela protestou, sem conseguir se conter. – A maioria fica contente tendo amor e sentindo-se querida.
- Então, diga-me por que as mulheres mais lindas do mundo estão casadas com os homens que têm mais dinheiro? – ele perguntou zombeteiramente. – Caso você não saiba, as mulheres bonitas se vendem mais caro do que as feias, e são, portanto, mais difíceis de serem conseguidas. Como faz parte da natureza do homem cobiçar as coisas que estão mais fora de seu alcance...
- É isso o que o casamento significa para você? – Kagome quis saber. – Não espera nada de uma esposa, a não ser que ela seja suficientemente bonita para ser encarada como um troféu, como um prêmio? E você se considera um... Competidor desclassificado, só porque foi privado desse tipo de amor? O amor que se compra com um talão de cheques?
Kagome imaginava que Sesshoumaru não poderia magoá-la mais do que já tinha magoado, mas as palavras que ele disse mostraram que ela estava errada.
- Não tem sentido competir numa corrida, se a gente não pode ver a fita de chegada. Do mesmo modo, a vontade de se ter uma bela esposa diminui, quando só se pode fazer amor em braile. – Ele fez uma pequena pausa, depois continuou: - Sabe, eu não posso contradizê-la, quando diz que o rosto que os meus dedos acham tão perfeito quanto um camafeu é feioso, mas estou começando a desconfiar que o que lhe falta em beleza é plenamente compensado pela sua inteligência, que foi tão bem desenvolvida pelas escolas que você freqüentou, pelo seu tato, pela sua diplomacia, e por uma qualidade rara, que não pode ser comprada por dinheiro algum: uma pose e um refinamento que só podem ser definidos como classe. Para mim, é uma novidade estar na companhia de uma mulher que não toma nada por garantido, que nunca está aborrecida, que não tem a cabeça completamente vazia, e que não considera uma carteira cheia de dinheiro um passaporte para o paraíso. Ainda não consegui descobrir, "elika", qual o tipo de recompensa que você realmente quer. Já que as coisas materiais não a atraem, diga-me que tipo de presente a deixaria feliz, para que eu possa comprá-lo para você.
- A felicidade não pode ser comprada numa loja – Kagome respondeu com voz abafada, chocada pela profundidade do cinismo do marido, arrasada pelo conhecimento de que, para ele, ela não era mais do que uma voz, um aroma, uma criatura tímida, com um corpo imaturo que ele podia incendiar de paixão com um simples toque; e que, mentalmente, impressionava-o menos do que um ponto na página de um livro escrito em braile. De repente, todo o prazer que ela vinha sentindo foi engolido por uma onda de saudade de casa, uma vontade enorme de se sentir querida e amada, em vez de ser apenas uma intrusa indesejada na ilha onde Taisho e Rhodon tinham se apaixonado.
Como se estivesse consciente do estado de espírito de Kagome, Sesshoumaru tocou com a ponta de um dos dedos o ponteiro de seu relógio braile. Mais que depressa ela aproveitou a deixa e se levantou, empurrando a cadeira para trás com ruído.
- Acho melhor nos apressarmos – disse cerimoniosamente. – Jaken deve estar ansioso para chegar a Kairos antes do anoitecer.
- Jaken é feliz – ele replicou de um modo estranhamente evasivo – pois é mais capaz do que eu de navegar no misterioso desconhecido. Além disso – continuou voltando à arrogância costumeira – ele descobriu logo que o tempo tem muito pouco significado para as pessoas para as pessoas como eu, que vivem numa escuridão total. Este relógio é útil, mas seu grande mal é que nunca se sabe se a hora que ele indica é do dia ou da noite.
Já estavam quase no portão de saída da Cidade Velha quando Sesshoumaru parou e levantou a cabeça, enchendo os pulmões de ar.
- Christos! – ele exclamou, um sorriso vagaroso quebrando o ar solene de sua fisionomia. – Tinha quase me esquecido de sua existência.
Obviamente guiado por seu desenvolvido sentido olfativo, Sesshoumaru girou nos calcanhares e voltou por onde tinham vindo parando em frente à vitrine de uma lojinha e revelando a Kagome o que trouxera até ali: uma mistura de aromas deliciosos! O homem que estava sentado a uma mesinha levantou os olhos quando eles entraram, e suas feições morenas se iluminaram com um sorriso de boas-vindas.
- Sesshoumaru, meu velho e querido amigo! – Ele pulou por cima do balcão, para apertar a mão de Sesshoumaru. – Mas que prazer! Estou contente em ver que largou a vida de monge que estava levando naquela maldita ilha! – Seus olhos alegres caíram sobre Kagome, que se agarrava à figura alta do marido como uma pálida borboleta. – Vejo que voltou rapidamente ao normal. Não vai me apresentar a essa criatura deliciosa, que está dependurada de um modo tão afetuoso ao seu braço?
Se ele ficou surpreso com a descrição, não demonstrou. No entanto, empurrou Kagome para frente e apresentou-a, sorridente:
- Kagome, quero lhe apresentar Christos Koniaris, cuja capacidade em misturar perfumes só é vencida pela habilidade que tem de combinar charme com elogios. Christos – ele se dirigiu ao amigo com mais seriedade – esta é Kagome, minha esposa. Preciso lhe dizer por que a trouxe até aqui?
- Na verdade, não. – O olhar apreciativo de Christos fez Kagome corar intensamente. – Você a trouxe para servir de inspiração para minha próxima obra-prima, para me incentivar a criar um perfume que combine a inocência de dois olhos, tão cinzentos quanto à plumagem do pombo selvagem, com a maturidade de uma boca que já sabe o que é sofrimento; a delicadeza de um rosto que parece desenhado a bico de pena, com um corpo que já dá mostras de que logo vai florescer e dar frutos.
Extremamente confusa; Kagome virou as costas para aqueles olhos que viam demais, que eram capazes de definir coisas nas quais ainda não tivera coragem de pensar e conservava em segredo, até para si mesma.
- Não deixe que ele a embarace, Kagome – Sesshoumaru disse com um sorriso descontraído. – Christos se considera uma mistura de feiticeiro, vidente e guru, só porque um número surpreendente de mulheres virou a cabeça dele, dizendo que seus filtros de amor e seus perfumes têm o poder miraculoso de transformar homens indiferentes em amantes insaciáveis!
- Você me subestima, meu querido amigo! – Christos dobrava-se de rir. No entanto, seus olhos escuros tinham uma expressão sincera quando ele garantiu a Kagome: - As idéias dessas mulheres são mesmo umas tolices, é claro, mas não posso negar que, de todos os meios que vocês dispõem para se auto-expressar, nenhum é tão revelador quanto o perfume. A verdadeira alma de uma mulher e sua atmosfera espiritual pode ser transmitida por uma fragrância que seja pessoal, só dela. Através do perfume, ela pode expressar seus pensamentos, sem usar uma única palavra. Eu posso ser o artista, mas é a mulher que fornece os tons e semitons, os claros e escuros, os relevos e as reentrâncias de seu próprio retrato em perfume.
- Pode ser que seja assim – Sesshoumaru interrompeu com firmeza, - mas eu insisto numa coisa: no perfume de minha mulher, o aroma predominante deve ser o de rosas.
- Concordo plenamente – Christos disse, sacudindo a cabeça com firmeza. – nenhuma outra essência é capaz de agitar mais as emoções de um homem, ou de ter uma influência mais benéfica sobre ele. "A rosa destila uma fragrância que cura capaz de acalmar a dor", hein, Sesshoumaru? A minha nova criação vai ter um nome, composto de uma só palavra: Kagome, o nome dados pelos deuses aos seus ajudantes! – ele concluiu, com os olhos fixos em Kagome.
Muito mais tarde, ainda sem conseguir dominar o tremor que a sacudia internamente, Kagome guiou o marido, em silêncio, para fora da Cidade Velha. Christos havia prometido que mandaria o perfume para Kairos assim que estivesse pronto, e suas palavras não lhe saíam da cabeça. Estava tão entretida com seus pensamentos, que só percebeu a melancolia do marido quando ele a segurou pelos braços, fazendo-a parar, ao mesmo tempo em que indagava com aspereza:
- O que é que está errado agora, Kagome? Você aceitou com relutância as jóias e as roupas que eu lhe ofereci, e recusou definitivamente os casacos de pele que eu quis lhe dar, mas na certa não pode ter se ofendido com o fato de ter sido presenteada com um frasco de perfume. Mesmo antigamente, quando os casos de amor eram cheios de noções românticas de paixão, respeito e amor, e só se namorava debaixo dos olhos severos dos pais, um vidro de perfume não era considerado ofensivo. – De repente, seus dedos enterraram-se nos braços da esposa, e as palavras que ele pronunciou, por entre os dentes cerrados, atingiram-na com a força de uma chicotada: - Eu posso ter ganhado a reputação de ser um homem duro no mundo dos negócios, mas mesmo meu pior inimigo não pode deixar de admitir que, além de dar valor ao dinheiro, nunca me recusei a pagar meus débitos. Você tem sido muito... Amável, "elika", e eu lhe devo muito. Então, por que não deixa que eu diminua o débito que tenho com você?
- Amável? – ela repetiu com voz fraca, lutando contra a sensação maluca de que o chão estava se inclinando. – Se isso é tudo o que tenho sido então um vidro de perfume é um pagamento mais do que suficiente pelos serviços que prestei...
- Oh, Kagome – ele murmurou, abaixando a cabeça até encostar na testa dela – eu a magoei de novo, ou você é mesmo tão fria quanto sua voz me faz pensar? Meu Deus! – explodiu violentamente. – Como eu gostaria de poder enxergar!
Mas naquele momento, gelada e num verdadeiro estado de choque com as lágrimas que mostravam seu sofrimento deslizando silenciosamente pelas faces, Kagome não sentiu nem um pouco de remorso por oferecer uma oração de agradecimento a Deus, pelo pequeno consolo que representava para ela o fato do marido não poder ver.
As coisas estao indo para reta final, só tem mais dois capitulos.
Obrigada sayurichaan, e continue lendo pra saber o final dos tres, bjos.
Até amanha.
