Capítulo 07 Só respostas.
Eu lhe estendo a mão com todo o meu coração
Ela trabalhava como nunca.
Fez todo o trabalho pesado no arquivo.
Talvez ficando cansada o suficiente. Parasse de pensar. De sentir.
E podia evitar sua sala. E os outros.
*****
Não o viu durante aquele dia. Ou no próximo.
Não quis saber quem estava evitando quem.
****
Quarta-feira chegou.
Ela foi jantar cedo. Não queria vê-lo. Não que ele tivesse ido nos outros dias.
Então ela o viu. De longe. Vinha pelo corredor do Grande Salão.
'Que ele não fale comigo, Senhor. Eu não quero chorar de novo se ele disser coisas terríveis.'
Ela forçou-se a continuar andando. Tremia. O coração disparado. Hesitou.
Ele sacudiu a cabeça jogando os cabelos para trás. Todo Snape.
Viu-o andar mais rápido. E entrar no corredor à esquerda, antes de passar por ela.
Parou por um segundo. Fechou os olhos. Respirou.
****
Quinta-feira.
Nenhum sinal dele. Ela deu graças.
Estava sendo uma semana calma. Apesar de tudo.
****
Sexta-feira.
Ele olhou os pergaminhos em sua mesa. Levou as mãos juntas até a testa.
'Maldição.'
O que estava acontecendo? Algum tipo de ...? Estreitou os olhos. Não.
Poções. Filtros. Feitiços. Não funcionaria. Não por mãos trouxas.
E não havia tomado ou comido nada que ela tivesse tocado.
Tinha falado com ele como se o conhecesse. Tinha tido o desplante de tentar analisá-lo!
Levantou-se exasperado. Nenhum trouxa podia saber tanto.
Estreitou os olhos. A não ser que um bruxo tivesse contado.
Apoiou-se na mesa. Ela estava certa, não podia usar Veritasserum.
'Inferno Sangrento!'
Mas havia perguntas demais. E ele ia conseguir as respostas!
Lembrou da noite em que...
Praguejou.
Não ia perder mais seu tempo pensando nela.
Tinha que acabar com aquilo. Sentou-se.
Talvez houvesse um jeito. Levantou a cabeça.
'Sim.'
Quase sorriu. Levantou-se cheio de energia. Tinha coisas a fazer.
******
Ela estava indo para seu quarto. Viu a coruja negra.
Desviou-se. A coruja a rodeou piando.
Surpresa, viu o animal se apoiar em seu braço.
Dedos trêmulos e desajeitados. Desamarrou pergaminho da pequena perna.
Fez-lhe um agrado. Ela voou.
" Venha ao meu gabinete. Esta noite. Oito horas. S. Snape. "
O coração disparou.
Ele queria vê-la.
Estava lá. Nenhuma explicação. Nenhum motivo. Só o "Venha... oito horas".
Não quis pensar. Ela se arriscaria.
Correu. Tinha que se preparar.
********
Um banho. Vasculhou os vestidos.
'Não.'
Pegou um deles. Talvez... Improvisou. Tesoura principalmente.
Agora ele tinha um decote. Quase discreto. E a capa.
Soltou os cabelos. Olhou seu reflexo. Suspirou. Sentou-se na cama.
Estava se deixando levar.
Não podia confiar nele. Ele podia estar brincando de gato e rato. Podia se tornar horrível.
Não podia cometer o erro de sonhar novamente.
Melhor se acalmar. Não esperar demais.
Não.
Era melhor não esperar nada.
******
Oito horas. Hesitou. Mão trêmula bateu na porta.
Ele abriu. Castanhos.
Afastou-se dando lugar para que ela entrasse.
- Boa noite. – ele fechou a porta.
Não viu sinal de ironia. Mas havia... algo. Predador. Era isso.
- Boa noite. – murmurou incerta.
Ela andou dois passos. Parecia diferente.
Percebeu. Havia só uma escrivaninha. E uma cadeira.
Seus olhos pousaram nos vidros na estante.
Estremeceu. Ele percebeu.
Ela virou-se.
Eles se olharam.
- Acalme-se. Não vou mordê-la.
- Sei que não. – tentou passar calma.
Mas ela não tinha certeza. E palavras também machucavam. Era melhor acabar com isso.
- Por quê queria me ver?
Ele a encarou.
Admirava coragem. Respeitou decisão.
Aproximou-se devagar. Carvão que brilha.
Podia mentir pra si mesmo. Mas estava antecipando. O que quer que acontecesse.
- Tenho uma proposta a lhe fazer. – não havia motivo para adiar.
Ela esperou.
Ele pareceu querer hipnotizá-la. Chegou mais perto. Cheiro de violetas. Mergulhou.
- Você disse que... não me faria mal. – falava devagar - Muito bem. Se. Eu confiar em sua palavra. E no julgamento de Doumbledore. – ele parou - Posso atender seu ... desejo.
Ela não podia estar ouvindo direito!
- E não lhe... cobraria... – levantou uma sobrancelha - um ano de sua vida.
Seu coração disparou. Franziu a testa.
Estava rindo dela? Viu o vinco entre os olhos. As sobrancelhas grossas. A linha da boca. Ele estava sério.
- Você só terá que me dar... Algumas respostas. – moveu a cabeça para cima.
Ela entendeu.
Afastou-se um passo. Uma armadilha. A respiração difícil.
Mariposa e fogo.
'Não.'
– Não.
Ele se aproximou de novo.
– Estou disposto a ser... razoável. – voz suave, persuasiva - Você responde ao que for... possível. Ou me dá alguma... "informação". – pressionou – Confiarei em você. – parou – Como Doumbledore.
Se ele estava querendo hipnotizá-la. Estava conseguindo.
Tentação.
Ela tremia. Abaixou os olhos.
Ele estava impaciente. Tentou se controlar. Deixá-la pensar. Mas não demais.
'Deus'
Se ela aceitasse... A respiração se acelerou. Estremeceu em antecipação.
Ela precisava de tempo.
'Doumbledore.'
Ele confiava nela.
Suspirou. Olhou-o.
- Eu não posso.
Virou-se para ir embora.
Ele moveu-se rápido. A impediu. Segurando-lhe os braços.
Oportunidade. Puxou-a.
- Posso ser generoso - murmurou – Lhe dar uma... amostra.
Seus lábios se encontraram. Não eram macios. Um beijo forte. Duro.
Fechou os olhos. Abandonou-se.
Gemeu. Os lábios latejando. Segurou a cabeça dele afastando-a.
Olhou-o. O coração disparado. Puxou-o de novo.
Ele tinha imaginado se conseguiria se lembrar de como era beijar. Não para satisfação de corpos.
Só lábios sobre lábios. Como agora... Mas não se recordou de nada assim, tão... suave. Deixou.
Ela sentiu o cheiro dele. Seu gosto.
Escorregou as mãos até a cintura dela. Ela segurou sua nuca. Encostou-se mais nele.
Foi abraçada cada vez mais apertado. Rendeu-se completamente. Ao momento...
E então... tudo mudou. Sentiu o desejo exigente dele. O beijo mais denso. Mais profundo. Gemeu.
Ele levantou a cabeça e a olhou. Os olhos pesados.
Ela sorria suave. Ele não pôde crer no que viu... além do desejo.
O coração aos pulos. Ele a queria! Deixou-se levar.Ofereceu os lábios.
Ele aceitou. O corpo latejando.
Quando percebeu, a estava apertando de encontro à parede. E a ele. Intenso. Necessitado.
Desejava-a. A capa caída. O colo à mostra. Ele procurou seu pescoço. Enterrou uma mão nos cabelos.
'O que estou fazendo?'
Colocou a testa no ombro dela. Buscou controle. Quase assustado. Apoiou uma mão na parede. Tragou ar.
Afastou-se um pouco sem largá-la. Ela o olhou sem entender.
Olhos castanhos... Ele estava se afogando. Tinha de voltar à superfície.
Respirou.
'Lembre-se. Perguntas.'
- Como pode ver – murmurou, tentando se acalmar, ainda perto - Seria ...compensador.
Ela emergiu do tumulto de emoções.
'Compensador?'
Compreensão amanheceu nela. Devagar.
Ele viu um lampejo passar por seus olhos. Observou-a.
Ela não acreditou. Não depois de... Então. Ele tinha planejado aquilo também. Doeu. Muito.
Tinha deixado que ele a magoasse. De novo. Decepção.
Ela começou a respirar rápido. Fechou os olhos. Tentou se controlar.
Quando os abriu. Ele nunca viu tanta dor. Não assim. Tão de perto.
Duas lágrimas vagarosas escorreram pelo seu rosto.
- Compensador para quem? – tudo embaçado - Talvez devesse ter usado a Cruciatus. Teria doído menos.
Um pequeno soluço. Ela se afastou. Não deixou de olhá-lo. Magoada.
Ele quis brincar. Ela lhe daria motivos. Bons. Que ele se mantivesse longe.
Ia colocar tudo para fora.
- Quando eu cheguei, te ofereci minha vida. – falou baixo – Você recusou. Ainda assim. Te aceitei. Com tudo que você tem de bom. E de ruim. Você, seu arrogante! – respirou – Eu tentei ver o homem. Forte. Leal. Eu te admirei! – uma lágrima desceu - Você arrisca sua vida. Um espião. Pensei que eles te julgavam mal. – moveu a cabeça. – Te respeitei. Você era brilhante. – ela riu, olhos nublados – Eu teria feito qualquer coisa por você. Qualquer coisa – doía tanto – Mas tudo o que você quer... são respostas.
Ela não agüentou mais. Desvencilhou-se. Ele não a impediu.
Escutou a porta.
Deixou. Uma sensação estranha.
'O que infernos está acontecendo?'
O coração rápido.
Ela tinha dito... franziu a testa. Que se importava? Que o queria?
Um som debochado.
Ou era uma tola...
'ou está mentindo...'
Ou...
' Eu teria feito qualquer coisa... '
A expressão dela. Os olhos nublados. Os lábios trêmulos.
Havia aquela coisa esquisita, em algum lugar do seu peito...
Seu olhar passeou pelo chão. Viu a capa.
Pegou-a.
Sentiu raiva.
' Tolices!'
Ainda sentia nele o que tinha acontecido. Sabia o que era.
E ainda não tinha as respostas.
' Maldição'.
*****
Ela saiu dali. Incerta. Sentiu o vento frio no rosto. As lágrimas geladas.
Não conseguiu continuar mais. Estendeu a mão. Encostou-se na parede.
Não conseguiu controlar os soluços.
Só queria ficar longe. Esquecer.
Recomeçou a andar. Rápido. Dor que impulsiona. Quase correndo.
****
Não se importou mais. Havia urgência nele.
Não ia enganá-la. Não a queria.
A desejava. Esta noite.
Sem condições. Sem promessas.
Foi até a porta. Saiu.
Se deixasse para amanhã talvez ele a perdesse. Sem tê-la tido.
Porque provavelmente ele não a procuraria mais.
****
Ela parou em frente a sua porta. Não entrou.
'Hermione.'
Foi até a Grifinória.
Era um dos lugares do qual conhecia o caminho.
****
Foi ao seu quarto primeiro. Bateu, mas não esperou.
- Alorromora!
Empurrou a porta. Não havia ninguém. A cama ainda estava arrumada.
Seguiu pelos corredores. Depois de algum tempo encontrou com Filch.
- Boa noite professor Snape.
- Você viu... alguém por aqui? - corrigiu-se a tempo.
Filch olhou-o antes de responder.
- Não, professor. Está frio demais para alguém sair por aí.
Não respondeu. Continuou andando rápido.
Percorreu os diversos corredores. O Corredor principal. O Grande Salão.
Ela podia estar em qualquer lugar. Talvez. Grifinória.
Escadas. Corredor.
****
Encontrou o retrato com a senhora gorda.
Tinha se esquecido. Não tinha a senha.
- Por favor, me deixe entrar.
Alguns retratos se mexeram.
- Mas o quê...
Ela ia reclamar. Mas parou ao ver quem estava à sua frente. Percebeu o estado dela.
- Qual é a senha? – perguntou devagar.
Uma lágrima desceu.
- Eu não sei.
Ela hesitou.
- Sinto muito, querida. – disse com pena.
'Deus não. Não.'
Vários retratos as olhavam agora.
Ela encostou na parede fria. Escorregou para o chão. Cruzou os braços.
Sentiu frio. Solidão. Tristeza. Fechou os olhos. Abaixou a cabeça.
Severus Snape estava no início do corredor do outro lado.
A dona gorda o viu. Olhou o estado da moça no chão. Não podia ser coisa boa.
Olhou para o retrato à sua frente, do outro lado do vão do corredor. Levou o dedo indicador aos lábios.
Ele entendeu. O gesto foi repetido.
Ele olhou para o outro lado. Viu as diversas pinturas. A maioria dormia.
Ela não estava lá.
Desceu as escadas.
Foi em direção às masmorras.
A tinha perdido.
****
Ela resolveu que não adiantaria nada ficar ali. Estava frio demais.
Levantou-se.
Virou-se para a dona gorda. Ela a olhava com doçura.
Limpou o rosto. Tentou sorrir.
- Obrigada.
- De nada, querida. – ela sorriu.
Nina virou-se. Desceu as escadas.
Quando entrou em seu quarto, encontrou sua capa dobrada sobre a cama.
Sentou-se e abraçou-a chorando.
******
- Severus.
- O que foi Barão? – não estava em seu melhor humor.
- Eles estão comentando.
Ele prestou atenção.
- Quem?
- Os retratos. Estão falando sobre... a trouxa. E você.
'Maldição.'
Controlou-se. Olhou o Barão.
- Faça-me um favor, Barão. – fúria contida – Diga-lhes, que algumas poções, removem "fofoqueiros". E que eu ficarei muito feliz em prepará-las.
O Barão ia sorrir. Mas viu o estado do homem à sua frente. Mudou de idéia.
- É claro, Severus.
Ele pairou até a porta.
- Barão!
Ele se voltou.
- Obrigado. – ele estava sério.
O Barão acenou com a cabeça em resposta.
****
