CAPITULO DEZ

O jantar se prolongou por muito tempo. Sesshomaru manti­nha o olhar fixo em arin. Ela demonstrava vitalidade, honestidade e todas as outras qualidades que constante-mente desafiavam a sua opinião com relação a ela.

Percebendo o seu interesse, Rin olhou para ele ou­tra vez, mantendo uma expressão firme. Sentia-se cada vez mais confiante sob a tutela da mãe dele, a ponto de, durante o jantar, Rin poder ser a princesa e Kagura a impostora. O rei estava visivelmente encantado por ela, assim como a mãe de Sesshomaru, só faltava ele mesmo ser convencido. Ela se comportou com toda a dignidade e moderação, como uma mulher admirável, uma mulher que se conhecia e defenderia o seu lado até o último... Uma mulher que defenderia os seus filhos de todas as formas que pudesse...

Com um gesto impaciente, ele olhou para o outro lado. Se Rin seria ou não uma boa mãe, isso não era da sua conta.

Mas uma coisa era certa: não era para ele. As restri­ções sufocantes da corte o fizeram repensar as razões de colocar Niroli em primeiro lugar. Mas não tinha intenção de deixar a ilha antes de resolver todos os problemas pen­dentes. Só então poderia dar uma resposta final ao rei.

Levantando-se, Sesshomaru primeiro saudou o avô e depois a mãe.

-# Rin... você quer falar comigo?

Um silêncio tomou conta da mesa quando Rin, fa­zendo as devidas reverências, deu a volta na mesa e foi até ele. Ele se sentiu triunfante com a rápida aquiescên­cia, depois da revolta da noite anterior.

-# Fico feliz que tenha entendido a indireta - ele dis­se para Rin, relaxando os ombros quando o emprega­do fechou a porta atrás deles. - Eu não poderia suportar mais um minuto na companhia daquela mulher.

Quando Sesshomaru adequou o seu passo ao dela, Rin per­cebeu o quanto ele estava lindo, ou mais desejável. Já sentia a tensão se formando entre eles, a mesma que no passado sempre levava à paixão. Foi então que percebeu uma cicatriz no canto de sua boca. Como nunca percebe­ra isso antes? O que mais ela não teria notado? A cicatriz aumentava a impressão de um homem forte aprisionado em um mundo repleto de formalismos. Mas por quanto tempo? Será que Sesshomaru pretendia aceitar o trono?

-# Nós vamos direto para a minha suíte - ele disse. Estava certo de que ela o seguiria. As palavras da noite anterior nunca deveriam ter sido pronunciadas. Sesshoamru achava inconcebível que ela tivesse resistido a ele e achava que tudo voltaria ao normal agora. Por que não deveria pensar assim? Ela saiu do banquete prontamente diante do seu sinal e agora podia perceber claramente as suas intenções. Sesshomaru estava impaciente, queria se exer­citar e não era apenas esticar os membros ou a inteligên­cia. Sesshomaru queria sexo. Ela estava ao alcance da mão e disponível e o tempo estava passando...

-# O que há de errado? Por que está voltando?

-# Eu pensei na biblioteca...

-# A biblioteca? - ele franziu o cenho.

-# Eu gostaria de um café... ou chá, se você preferir - ela manteve o olhar firme, mal conseguindo respirar.

-# Eu pensei que você quisesse falar comigo em par­ticular?

Isso era um código entre eles. Sesshomaru relaxou o sorriso de um modo que ela conhecia muito bem.

-# Enquanto todos estão no jantar, a biblioteca deve estar vazia, você não acha? - Ela percebeu a muscu­latura do maxilar dele se contrair, sabia que o havia ir­ritado. Pela expressão dele, estava certa de que ele se viraria e voltaria, afastando-se dela. Mas não, Sesshomaru cur­vou a cabeça e fez um gesto para que ela indicasse o caminho.

Ela estava com o coração disparado quando entraram na biblioteca. Resistir a Sesshomaru não era fácil, mas preci­sava manter-se firme ou, cada vez que fraquejasse, ele assumiria o controle. Ela o amava com todas as suas for­ças, e por mais que sofresse ao admitir isso, era o sexo bom que o atraía para ela.

Ela nunca deixaria de amá-lo, Rin admitiu, quando fecharam a porta da biblioteca, porque o amava pelo o que ele poderia ser, não pelo o que ele era.

O pedido de café foi feito imediatamente. Era assim que a vida de Sesshomaru fluía, Rin refletiu. Todos os seus caprichos eram realizados, até mesmo antecipados e na visão dele ela era apenas mais um membro de sua equipe para providenciar os serviços quando e como desejasse.

Enquanto aguardavam, ele ficou de costas para ela, demonstrando o seu desapontamento com relação à mu­dança de comportamento dela, de submissa a imprevi­sível. Ela permaneceu sentada e não se moveu até que a copeira retornasse com a bandeja. Naquele momento, Sesshomaru informou que não gostariam de ser incomodados.

Rin não esperou ser consultada, serviu o café e ofe­receu uma xícara a Sesshomaru, que recusou.

-# Eu acho que ambos sabemos que não viemos até aqui para tomar café - ele estava preparado para ser lógico.

Ele esperou mais do que o suficiente para que ela dis­sesse o que queria, fez questão de escutar cada palavra com muita atenção. Inclusive manteve a expressão in­diferente quando ela repetiu a mentira, pronunciando as mesmas palavras que desejara ouvir durante toda a sua vida adulta. Ela estava grávida e queria que ele acredi­tasse que era dele.

Sesshomaru se fechou, confiante com o teste que estava prestes a fazer para confirmar que ela era uma mentiro­sa. Sabendo que seria inútil, nunca tinha feito um tes­te de fertilidade, mas havia um marcado agora. Como membro da Família Real, recebeu todas as garantias de que tudo correria sob sigilo e que receberia tratamento prioritário.

O que havia de errado com Sesshomaru? Rin pensava, à medida que se mantinha cada vez mais rígido. Foi a pos­tura dele que a encorajou a escolher esse momento para conversarem, mas agora percebia que julgara mal. Era como se ele soubesse de algo que ela não tinha conheci­mento e era algo desfavorável a ela.

-# No que quer que você escolha acreditar, eu estou grávida e você é o pai do meu filho.

Os médicos foram bem específicos quando lhe dis­seram que ele teve sorte de sobreviver à doença que o acometeu quando jovem. O fato de não poder ter filhos era um preço bem pequeno a ser pago. Ele não espe­rava nada do teste de fertilidade, mas quando Rin o encarou, uma ponta de incerteza o invadiu. Mesmo ad­mitindo a possibilidade de ser pai, isso requeria uma das duas coisas: uma considerável probabilidade ou um teste científico. Ele escolheria a ciência.

O conhecimento de que não poderia ser pai era uma tristeza já estabelecida que sempre estimulou Sesshomaru a se arriscar mais, a voar mais alto, correr mais, pular mais rápido. E quando o seu pai morreu, ele se deu conta de que a vida poderia acabar em um piscar de olhos, o que era tudo o que precisava para continuar desafiando o destino.

Até agora...

Se houvesse uma pequena chance de Rin estar car­regando o seu filho, ela deveria ficar com ele. Não se tinha conhecimento de reversões de diagnósticos e esse era um risco para o qual não estava preparado.

-# Eu deixarei que pense no assunto - ela disse, atraindo a sua atenção.

Ele se conteve quando ela abriu a porta. A conversa estava terminada? Ele não se lembrava de ter chegado a nenhuma conclusão. Ela o desafiava outra vez, talvez para ver até onde poderia ir, mas escolhera o homem errado para tentar essa tática.

-# Durma bem - ele disse, sabendo que ela rolaria na cama sem o aconchego que um dava ao outro.

Ele esperava que Rin se virasse ao chegar à por­ta, que cedesse e corresse de volta para os seus braços, como sempre fazia.

-# Você também, Sesshomaru...

Ele não leu o relatório que recebeu no hospital. Colo­cou o envelope no bolso da calça e não o pegou mais até estar a quilômetros de distância da cidade.

Precisava treinar um garanhão para a corrida Palio anual e o animal pareceu satisfeito em ajudá-lo a por para fora sua angústia. Quando finalmente puxou as ré­deas, saltou do cavalo e livrou-o dos freios, de modo que Fuoco pudesse passear livremente pela fina grama marrom, a única que servia de alimento naquela região das montanhas.

-# Poderá beber água mais tarde, quando estiver mais frio - prometeu para o garanhão, que relinchou e, com o focinho, empurrou o braço de Sesshomaru.

O cavalo tinha sentido o odor da água gelada que des­cia em correntezas, mas não poderia bebê-la até parar de suar. Sesshomaru aproximou o rosto do pêlo aveludado do focinho e respirou junto com o animal. Tinha certeza de que Fuoco e ele venceriam a corrida.

-# Ainda não, Fuoco. Poderá beber água quando for seguro, do mesmo modo que o deixarei em segurança durante a competição.

O nome do cavalo combinava com ele: era um ani­mal de natureza fogosa. E venceria o Palio... se sobrevi­vesse. A corrida durava menos de dois minutos, mas era uma das mais perigosas e violentas do mundo. As pedras arredondadas que pavimentavam as ruas eram terríveis para os cascos.

-# Vamos proteger um ao outro, Fuoco - Sesshomaru mur­murou e, com uma risada confiante, deu um tapinha no pescoço do cavalo e se afastou.

Tirou o envelope do bolso, retirou o relatório e, após examiná-lo, deu-se conta de que o simples pedaço de papel apresentava um bom motivo para ser lido. Apoiou um dos pés sobre uma pedra posicionada à bei­ra de um desfiladeiro e vislumbrou a amplidão à sua frente, sabendo agora que era capaz de mergulhar nas glórias da natureza no caso de tudo o mais sair errado. Naquele momento, sentia como se fogos de artifício estourassem dentro de sua cabeça... fogos de artifício que coloriam uma nova possibilidade... a possibilidade de ser pai.

Preparou-se também para uma eventual frustração. Ao terminar a leitura do relatório, fechou o punho com for­ça até que os nós dos dedos embranquecessem. Concen­trou-se para controlar a respiração. Jamais hesitara em momento algum de sua vida, mas agora era diferente.

Ele podia ser pai. A notícia o invadiu e junto veio uma sensação de urgência que nunca experimentara antes. Se fosse o pai do filho de Rin, queria estar com ela imediatamente. Se o filho de Rin fosse dele, era sua obrigação amá-lo e protegê-lo e não havia motivo para Rin lhe dar um ultimato, ele decidiria o que fariam daqui por diante.

Ficou aliviado ao vê-la e foi preciso muito esforço para retirar o que havia dito a ela antes do almoço. Era óbvio que estava errado e tomou algumas providências antes. Mandou uma mensagem por um dos funcionários, convidando-a para um lanche com vista para o lago. Pen­sou em tudo, queria surpreendê-la, mas acima de tudo, controlaria a situação.

-# Eu fico feliz por você ter aceito o convite - ele disse, quando ela chegou ao terraço. Ela tinha se arru­mado toda, o que Sesshomaru considerou como um bom sinal.

-# Podemos dar um passeio primeiro? - Ele sugeriu.

-# Ou você prefere lanchar logo?

-# Eu gostaria de conversar, Sesshomaru - ela estava com o olhar e a voz firmes.

-# Mas eu gostaria que você visse uma coisa... - Ele se levantou, não estava preparado para aceitar desafios.

A resposta dela foi inclinar a cabeça, o que devia sig­nificar sim, ou não.

-# Eu acho que nos surpreenderemos - ele disse, es­perando impaciente que ela o seguisse.

-# De forma agradável, eu espero - ela rebateu, com um certo tom de humor na voz.

-# Eu espero que seja assim... - ele mesmo percebeu uma ponta de irritação em sua voz e precisava suprimir isso. - Podemos? - Ofereceu o braço. Ela recusou e preferiu caminhar ao seu lado... não tão perto.

Ele a levou para um lento passeio pelo palácio, ima­ginando onde encontrara tanta paciência para tal. Estava tomado pela notícia de que poderia ser pai. Queria levá-la para o quarto, fechar a porta e lhe contar a verdade e pedir que ela fizesse os exames para confirmarem. Mas esse não era o jeito de ganhar a confiança dela, e se quisesse ter uma relação boa com a mulher que deveria estar carregando o seu filho, teria que demonstrar mais sutileza.

Eles viram muitos dos tesouros que não estavam abertos a visitação pública, quando chegaram à escada­ria estreita que levava à torre, Sesshomaru relaxou um pouco. Mas agora estavam na parte do passeio que realmente o preocupava. Ele tinha certeza de que quando visse o que preparara para ela, Rin esqueceria essa determi­nação recém-adquirida para desafiá-lo e voltaria para ele como a ratinha gentil. E poderia sentir todo aquele amor que estava acostumado a ver em seus olhos voltar a brilhar.

Era o lugar mais romântico que Rin já vira... uma saleta no alto da pequena torre com uma iluminação per­feita. Ela já havia achado tudo maravilhoso antes de fa­zer a pergunta a Sesshomaru:

-# É a vista norte?

-# A posição perfeita para o estúdio de um artista - ele confirmou, observando-a de perto.

A animação de Rin desapareceu repentinamente. Sesshomaru fizera uma pesquisa perfeita para agradá-la. Como toda a pesquisa que fizera a seu respeito antes de trazê-la até ali. Ele nunca se preocupou em fazer isso antes. Rin demonstrava desconfiança e tristeza enquanto olhava ao redor. Seria fácil pensar que havia se desinteressa­do por Sesshomaru, mas ela nunca conseguiria. Se pelo menos esse pudesse ter sido um daqueles momentos felizes sem amarras, o tipo de coisa que nunca teve com ele.

Mas agora? Tudo no comportamento dele demonstra­va que havia algo mais por trás de tudo aquilo. Quando Sesshomaru fora tão empenhado, a não ser quando esperava por sexo? Por mais que ela achasse que algo de diferente o estivesse motivando agora.

-#Por favor, não repare na bagunça que o antigo usuá­rio deixou...

Percebendo agora a bagunça de coisas em desuso lar­gadas perto da parede, Rin descobriu que só perce­beu o potencial para um estúdio artístico quando entrou. Sesshomaru estava certo quando disse que a sala era perfeita para isso. A vista era quase infinita, o espaço e uma luz como essa eram tudo com o que sempre sonhara. Ele sabia disso, era seu truque.

Truque para quê? Para torná-la sua amante oficial, talvez? Madame Rin Pompadour de Niroli? Rin tentou rir, mas, assim como Sesshomaru, estava a quilômetros de distância.

Como Sesshomaru continuava de pé observando-a, sabia que ele aguardava algum comentário. O que poderia dizer? Ele era tudo o que sempre quisera, ela não precisava de mais nada. Sua resposta honesta para esse presente es­tranho era a pesada melancolia que sentia no fundo do coração. Isso não era o suficiente, e se fosse, havia che­gado muito tarde.

-# O que você acha? - Ele perguntou.

-# Não sei o que pensar. O que você está me ofere­cendo, Sesshoamru? Um estúdio que eu posso visitar de tempos em tempos? - Rin sacudiu a cabeça com tristeza. - O quê?

Sesshomaru comprimiu os olhos, afrontando, o que a dei­xou derrubada. Ele não estava acostumado a ter os seus presentes rejeitados, além de ter tido pouco tempo para organizar esse "presente", valorizando ao máximo o lugar. Talvez, se tivesse tido mais tempo, poderia ter encontrado um cavalete, paleta de cores e tintas... um grande suborno. Mas suborno para quê? Para realizar o quê? Ele nem registrou o que ela lhe disse sobre o bebê.

-# Eu mandei comprar tintas a óleo para você...

O fato de ele saber tanto sobre os seus desejos só a deixava mais temerosa. Sesshomaru estava sempre um passo a sua frente. Quando retornasse para casa, pretendia alu­gar um pequeno lugar para morar e havia imaginado um lugar como esse, com vista para o norte, onde pudesse pintar com uma grande variedade de cores...

Ela não poderia se permitir perder tempo com uma busca supérflua, Rin percebeu. Abraçando a barri­ga com intuito de protegê-la, olhou mais uma vez ao redor.

O gesto simples o pegou de surpresa. Ela sempre pensava primeiro no bebê, depois em si mesma. Ele se emocionou, era tudo muito novo... Ele sentiu admiração, animação, ternura, tudo isso com uma profunda neces­sidade de passar os últimos meses da gravidez de Rin com ela, para depois poderem criar o filho e mantê-lo sob sua proteção. Ela não poderia privá-lo disso.

-# Isso é para você - declarou impacientemente, quando ela não se virou para ele imediatamente. - Eu fiz isso para você - tornou a dizer, esperando que ela se entusiasmasse. - Eu só quero que seja feliz.

-# Feliz...

-# Você em breve será mãe.

O coração de Rin se encheu de alegria. Então ele finalmente estava aceitando isso.

-# E o filho é meu? - ele perguntou franzindo as sobrancelhas.

-# Você deveria saber que sim... - A confiança dela vacilou ao olhar para ele. - Sesshomaru, você tem algo para me dizer, não é?

-# Talvez - ele admitiu.

-# Então o que é? - Ela tremeu, quando ele ficou em silêncio antes de responder.

-# Depois de todas as doenças que tive quando crian­ça, os médicos me disseram que eu seria estéril.

Rin arregalou os olhos espantada. Era a vez de Sesshomaru falar alto e rápido, mas agora compreendia muita coisa a respeito dele.

-#E agora? -ela perguntou gentilmente.

-#Agora eu sei que não.

-#Como soube? - ela perguntou.

-# Eu fiz um exame.

Ele voltou a ser cauteloso, como se esperasse que Rin achasse um defeito nele agora.

-# Oh, Sesshomaru... — segurando as mãos dele, ela as apro­ximou de seu rosto e fez um carinho.