Frozen e seus personagens não me pertencem.
Capítulo 12
Kai, Tammes e o duque de Grimstad já se encontravam na sala de reuniões quando Elsa ali chegou. Enquanto que Tammes andava, agitado e elétrico, de um lado para o outro, o Conselheiro e o General, um homem alto, forte, loiro e bigodudo, estavam sentados à grande mesa, em completo silêncio.
"Bom dia, cavalheiros. Peço desculpas pela demora." A Rainha disse, fechando a porta e caminhando em direção ao trio, seu vestido verde musgo balançando delicadamente de um lado para o outro enquanto seus quadris bamboleavam. O General se levantou na hora e a recebeu com uma reverência séria e curta, dando a volta na mesa e puxando uma cadeira para Elsa se sentar – gesto que ela agradeceu com um sorriso pequeno e sincero. Tammes, por sua vez, apenas estancou próximo à janela, ajeitando os óculos redondos sobre o nariz adunco e apontando um dedo ossudo e comprido para o lado de fora.
"É uma catástrofe, Rainha Elsa!" O Administrador disse, sem cerimônias. A voz dele era áspera e muito rouca, culpa de anos e mais anos fumando cachimbo.
Kai pigarreou, olhando para o Administrador por entre as pestanas. "Senhor Tammes, por que não se senta à mesa e se junta a nós? Tenho certeza que, assim, poderemos conversar melhor."
O homem murmurou alguma coisa incompreensível e correu a mão pela barba grossa. Exalando um suspiro resignado, fez como Kai sugeriu e se sentou à mesa.
A inquietação dele era perceptível. E preocupante.
"Então, por que estamos aqui? Qual o motivo dessa reunião?" Foi o Duque de Grimstad quem perguntou, apoiando os cotovelos na mesa e encarando cada um dos presentes. "Que catástrofe é essa da qual tanto fala, Tammes?"
"É a chuva! Essa chuva maldita que não passa nunca!"
Elsa olhou rápido para a janela, sobrancelhas franzidas e respiração pausada. De repente, um raio rasgou o céu, seguido quase que imediatamente pela trovoada. Um calafrio a percorreu, e ela se sentiu estremecer toda.
"Metade do porto está inundada."
A Rainha arfou. "Como disse?" Perguntou, com olhos arregalados. Kai e o Duque aparentavam estar tão atônitos quanto ela por causa da notícia.
"O mar já tomou metade do porto de Arendelle, alteza. E creio que não demorará muito para tomar a outra metade! O cais está embaixo d'água."
"Tem certeza sobre isso, Administrador?" O General indagou, tenso, encarando Tammes com olhos temerosos.
"Se tenho certeza? Absoluta. Vi com os meus próprios olhos o estrago que a água já fez. O mar está indomável!" Inquieto, Tammes afastou a cadeira e se pôs de pé mais uma vez, voltando a andar de um lado para o outro na sala, estando mais agitado do que nunca. De súbito, parou próximo à janela, seus olhos fixos na chuva chuva torrencial que, há dias, castigava o reino. "Eu já vi muitas tempestades, majestade. Acredite em mim quando digo isso." Pausou, exalando um sopro de ar. "Já vi tempestades demais para saber que esta não acabará tão cedo. E posso dizer uma coisa, se continuar chovendo desse jeito, as partes mais baixas do reino estarão inundadas em menos de dois dias. Eu estou falando sobre-"
"Dezenas de vidas." O General completou, sua voz baixa, porém grave. "Talvez, até mesmo centenas. Muitas famílias moram nas partes mais baixas do reino." Assim como Tammes, o duque de Grimstad também se levantou, mas permaneceu ao lado da mesa. "Não há dúvidas de que devemos iniciar uma evacuação das regiões mais comprometidas, mas onde poderemos abrigar tanta gente?"
"Aqui no castelo." As palavras deixaram os lábios de Elsa numa questão de frações de segundo. Kai pareceu um tanto quanto surpreso ao escutar aquilo, mas logo concordou com a decisão da Rainha. "O castelo fica na parte mais alta do reino, logo, a mais segura, e, mesmo que não tenha quartos suficientes para abrigar a todos, podemos montar um acampamento no pátio. General..." Ela disse com firmeza, encarando o Duque. "...reúna todos os soldados e guardas reais. Quero o exército mobilizado para garantir que todos em Arendelle estejam cientes do perigo de uma possível inundação. Se a chuva persistir até amanhã, todos os moradores das partes mais baixas do reino deverão deixar as suas casas, e isso não é uma opção, é mandatório. Os portões do castelo permanecerão abertos e os desabrigados serão alojados nas dependências da propriedade real."
"Sim, senhora, majestade. Reunirei as tropas e passarei as ordens. Os soldados passarão de casa em casa alertando a população e se encarregarão de realocar os desabrigados."
"Obrigada, General. E Kai..." Ela se virou e encarou o Conselheiro, seus olhos azuis cansados, porém determinados. "Chame Gerda e reúna todos os empregados. Quero os quartos limpos e organizados, e aproveite também e remaneje alguns funcionários para a cozinha. O castelo deve estar pronto para receber quantas pessoas forem necessárias." O Conselheiro respondeu com uma mesura curta, e Elsa se virou para Tammes. "Senhor Administrador, obrigada pelo alerta. O seu aviso salvou muitas vidas e evitou um verdadeiro caos, tenho certeza disso."
O homem corou um pouco e empertigou a coluna. Com um pigarro, disse. "Não fiz mais do que a minha obrigação como Administrador do Porto de Arendelle, minha senhora." Disse com o peito tão estufado que Elsa achou que ele fosse explodir a qualquer momento. "Ah, e quase esqueci! Desde ontem a noite estou tentando passar uma mensagem por telégrafo para os reinos vizinhos e avisá-los sobre a situação do porto de Arendelle, mas, com as condições climáticas adversas do jeito que estão, não sei se a mensagem foi devidamente recebida. De qualquer forma, continuarei tentando." Elsa acenou em concordância e, mais uma vez, agradeceu pelos esforços do Administrador. A Rainha não entendia muito bem como funcionava o telégrafo visual que havia no topo das torres de observação do porto, mas sabia que a comunicação sempre era prejudicada em dias chuvosos ou de nevoeiro.
"Eu agradeço pelos esforços, Senhor Tammes." Ela respondeu. "E, se isso é tudo, cavalheiros, a reunião está encerrada. Temos muito a ser feito, e não podemos perder tempo."
Após as palavras dela, todos começaram a se dispersar para deixar o salão, cada qual com suas ordens. Até que, de repente, um pensamento cruzou a mente do Conselheiro Kai.
"Rainha Elsa, uma palavrinha, por favor." Kai se aproximou de Elsa com rapidez, e logo lançou um olhar ao Duque de Grimstad. "General, pode vir aqui por um momento." O homem fardado estreitou os olhos, mas logo se juntou aos dois.
"O que foi, Kai?" Elsa questionou, intrigada. "Algum problema?"
"Problema? Sim, sim, nós temos um problema. Um problemão, na verdade!" O Conselheiro respondeu, sua voz baixa, mas muito agitada. "Se nós vamos abrigar boa parte da população de Arendelle aqui no castelo, o que fazer com o nosso atual... hóspede? Certamente, ele não pode continuar onde está!"
"O Conselheiro tem razão, senhora Elsa." O General assentiu, pinçando a ponta do seu farto bigode, enrolando-a com os dedos. "Nos próximos dias, teremos dezenas de pessoas transitando pelos corredores, e não podemos ter ninguém questionando por que há constante vigilância em um dos quartos. Sem contar, é claro, que será menos um cômodo para abrigar os desalojados pela inundação, e, também, menos um guarda para ajudar durante a crise."
Verdade seja dita, com todos os problemas que surgiam sem parar, Elsa havia se esquecido completamente de Hans. Seus ombros murcharam, e ela piscou demoradamente, exausta. "Os dois estão corretos. Sei que é um risco tê-lo por aqui, ainda mais com o castelo movimentado. Alguma sugestão?"
O Duque cruzou os braços fortes. "Podemos prendê-lo no calabouço. Dessa forma, teremos o quarto livre, e ninguém desconfiará de nada. E, sinceramente, minha Rainha, acho que ele deveria ter sido trancafiado no calabouço desde o início. Hans já provou ser ardiloso demais. Mas... a decisão final é sua."
Elsa hesitou por um instante e respirou fundo. Tanto Kai quanto o General estavam, agora, em silêncio, aguardando apenas pela resposta dela, ou melhor, pela confirmação de que Hans seria sim transferido para o calabouço. No entanto, achou difícil demais dar aquela ordem. Lembrou-se com uma pontada de tristeza que, há exatamente três anos, ela fora trancafiada no calabouço a mando do próprio Hans. Lembrou-se do medo que sentira, do desespero e da inquietação que ardia em todo o seu corpo. Lembrou-se das paredes frias e pedregosas, da cela apertada, da sensação medonha e claustrofóbica que a deixava tonta e fraca. Elsa aprendera a detestar o calabouço, a temê-lo, a abominá-lo e, para ela, ninguém merecia ser trancado e esquecido lá.
Nem mesmo Hans.
Entretanto, ela sabia que deveria dar aquela ordem. Engolindo em seco, respondeu. "Faça como quiser, General. Vou deixá-lo em suas mãos."
~ Frozen ~
"O que quer dizer com 'não tem nenhum navio para Arendelle'? É claro que tem sim um navio para Arendelle!"
Anna e Kristoff precisaram esperar algumas horas para a nevasca de Olaf voltar ao tamanho normal. Depois de muitos pedidos de desculpas – e de terem de pagar uma quantia extra ao gerente da pousada por causa do estrago que a neve fizera dentro do cômodo – o casal, finalmente, conseguiu se dirigir ao porto de Dreinm, sempre acompanhado por Sven e pelo tagarela boneco de neve. Ao contrário de Arendelle, o dia em Dreinm amanhecera quente e muito ensolarado, por isso mesmo, foi um tremendo choque para todos quando souberam da tempestade que castigava Arendelle. Anna, particularmente, teve um piripaque.
"Princesa Anna, por favor, se acalme!" O Administrador do porto local tentou tranquilizá-la, mas era impossível. Ela estava longe de se tranquilizar.
"Não! Você não está entendendo. Eu preciso voltar a Arendelle! É uma emergência!"
"Sinto muitíssimo, Princesa, mas é impossível."
Anna emitiu um som sofrido e lamurioso, e Kristoff, não aguentando ver a angústia da sua esposa, tomou a frente daquela conversa. "Senhor Administrador, nós precisamos muito retornar a Arendelle. Tem certeza de que não há nada que possa ser feito? Ou, pelo menos, uma previsão de quando o porto deverá voltar ao normal?"
O homem, que era um sujeito baixinho, gordinho e careca, fez um sinal negativo com a cabeça. "Se o problema fosse apenas em Arendelle, vocês poderiam partir no final da tarde para Elvaram, e seguir viagem até Arendelle, no entanto, todas as viagens de navio para o oeste foram canceladas! Não é só o porto de Arendelle que está fechado... são todos os portos da costa oeste! A situação por lá é crítica! Elvaram, Arendelle e Bergenna estão inacessíveis, e não há previsão para voltarem ao normal."
As palavras dele deixaram Anna mais atônita do que ela já estava, e Kristoff não perdeu tempo em puxar uma cadeira para que ela se sentasse. A princesa estava tão pálida que parecia prestes a desmaiar a qualquer momento.
"Isso não pode estar acontecendo..." Ela disse, fracamente. "Quando deixamos o reino tudo estava tão bem... e agora... e agora, tudo está tão... tão péssimo!"
"Não fique assim, Anna!" Olaf falou, soando despreocupado e muito otimista. "Tenho certeza que tudo ficará bem! Você vai ver!"
"Obrigada, Olaf... mas, no momento, não consigo ser tão otimista quanto você. Tudo parece ir de mal a pior." Desanimada, a princesa virou o rosto, deixando de mirar Olaf e voltando o seu olhar para Kristoff, que ainda discutia com o Administrador do porto de Dreinm. E o alpinista loiro parecia tão abatido e sem esperanças quanto ela. "Eu não deveria ter deixado o castelo." Murmurou, com os olhos cheios de lágrimas. "Eu poderia muito bem ter ficado por lá, mas não! Eu tinha que viajar! Tinha que inventar de cruzar o mar e deixar Elsa sozinha! E agora, veja só o que aconteceu!? A minha irmã está doente e eu não posso ajudá-la! Estou presa aqui em Dreinm."
Olaf a fitou com tristeza, sendo imediatamente contagiado pela melancolia dela. "Você tem razão, é uma calamidade! Elsa pode estar morrendo no meio daquela terrível tempestade, e cá estamos nós, aproveitando o sol quente e a brisa fresca!" Anna o olhou, horrorizada e se sentindo mil vezes pior do que antes, e o boneco de neve continuou a tagarelar. "Uma pena que dependemos do navio para chegar em Arendelle... se pudéssemos fazer a viagem por terra, não haveria problema algum em chegar até lá!" As palavras de Olaf fizeram alguma coisa estalar na mente de Anna, e ela encarou a criatura mágica com surpresa. "E sabe de uma coisa, eu nem gostei muito de viajar de navio! Muito vento, e maresia, e toda hora o meu corpo rolava de um lado para o outro e, no final, eu acabava perdendo a minha cabeça!"
"O que disse?" Ela o perguntou, piscando e logo se pondo de pé, seus olhos azuis enormes.
"Era por causa do balançar do navio... meu corpo sempre rolava para um lado e daí se soltava da minha cabeça... e eu tinha que rolar pelo convés para unir as minhas part-"
"Não, não, não, Olaf! O que disse sobre fazer a viagem por terra? Ah, mas é claro! Por que não pensei nisso antes?" Agitando as mãos e estalando os dedos, correu em direção a Kristoff, que ainda discutia fervorosamente com o Administrador do porto local. "Quanto tempo gastaríamos para chegar em Arendelle se viajarmos pelo continente?" Ela perguntou, enganchando o braço no de Kristoff e se firmando ao lado dele.
O Administrador coçou o queixo pequeno. "Humm... uns quatro dias, eu acho... talvez até três, se não pararem muito pelo caminho." Espantado, olhou para o casal. "Vocês estão pensando em ir até lá pelo continente? Não preferem esperar até a situação se normalizar? A viagem dura menos de um dia se forem de navio."
"Não podemos esperar!" Anna rebateu. "E você mesmo disse que não há como prever quando a situação nos portos voltará ao normal! O melhor mesmo é viajar pelo continente."
"Três ou quatro dias é uma viagem e tanto, Anna." Kristoff falou, pausadamente. Virando o rosto para o lado, encontrou os olhos azuis da Princesa e exibiu um sorriso pequeno. "Mas acho que é único jeito." Voltando seu olhar para o Administrador, perguntou. "Então, pode nos ajudar a arrumar algumas provisões para a viagem? Temos um longo caminho a percorrer até Arendelle!"
~ Frozen ~
Hans coçou os olhos e se afastou da janela na hora em que viu um relâmpago cortar o céu. Caminhando devagar até o centro do quarto, sentou-se sobre a cama e descansou os cotovelos nos joelhos. Sua cabeça tombou para frente, e ele fechou os olhos, um suspiro profundo e cansado deixando seus lábios entreabertos enquanto que um trovão estrondeava. Naquela manhã tempestuosa, ele acordara se sentindo muito melhor do que no dia anterior. Claro, seu corpo ainda doía muito, e ele sabia que demoraria mais alguns dias para se recuperar por completo, no entanto, não tinha mais febre e sentia-se mais forte e revigorado a cada minuto. Muitas horas depois de sua acalorada discussão com Elsa, Gerda retornara ao quarto e lhe preparara um banho. Além disso, a governanta também o emprestara algumas roupas limpas e o ajudara a fazer a barba, já que ela não arriscaria pôr uma lâmina de barbear nas mãos dele.
Mulher esperta.
A situação na qual ele se encontrava era humilhante demais, entretanto, vez ou outra, se flagrava sentindo-se estranhamente agradecido pela forma como estava sendo tratado ali em Arendelle. Mesmo depois de tudo o que fizera contra a rainha, ela não o destratara nem um pouco. Pelo contrário. Elsa o ajudara; o salvara da morte certa e colocara uma criada totalmente a sua disposição. E por que ela havia optado por ter tanto trabalho assim com ele? Hans não fazia a menor ideia.
"...depois de cometer um crime após o outro, você ainda me considera a culpada pelo que lhe aconteceu? Eu, a verdadeira herdeira do trono de Arendelle?"
"Vingança...? Por acaso é isso o que busca?"
"...o único culpado pelo seu destino, Hans, é você mesmo."
As palavras dela, de súbito, ressoaram em sua mente formando um turbilhão violento, e Hans esfregou uma mão no rosto, sentindo-se ligeiramente atordoado.
Vingança. Sim, era vingança o que ele tanto queria, e foi justamente o desejo de vingança que o impulsionou e o motivou a fugir e retornar a Arendelle, o reino que o desgraçara por completo. Ou... ou será que não era bem isso?
"...o único culpado pelo seu destino, Hans, é você mesmo."
Ou... ou será que, como Elsa dissera, o único culpado por sua desgraça era ele mesmo?
O rangido alto da porta se abrindo o trouxe de volta à realidade com um susto, e ele nem percebeu quando, num pulo, se pôs de pé e se afastou da cama. Três homens fardados entraram no quarto, e Hans estreitou os olhos, fitando com desconfiança o mais alto deles, um homem sisudo, loiro e bigodudo, que, a julgar pela quantidade de medalhas penduradas na farda dele, deveria ser o militar de maior patente, provavelmente um general ou marechal.
"Bom dia, senhor Hans." O loiro falou, seu vozeirão ecoando forte pelas paredes do cômodo. O tom levemente jocoso dele não passou desapercebido por Hans. "Você está sendo transferido."
"Transferido?" Perguntou, confuso, mas com um mau pressentimento. "Transferido para onde?"
Um sorriso zombeteiro brotou no cantinho dos lábios do militar, e Hans emitiu um curto rugido de protesto quando os outros dois soldados se aproximaram e o imobilizaram, algemando-o e empurrando-o para fora do quarto.
"Estou sendo transferido para onde?" Tornou a perguntar, mas ninguém lhe respondeu coisa alguma. "Eu tenho o direito de saber para onde pretendem me levar!"
"Você tem o dever de ficar quieto, isso sim!" O loiro fardado disse, fitando-o com olhos gélidos.
Hans tentou resistir, mas foi impossível escapar daqueles homens e, depois de muito tentar, finalmente se rendeu e permitiu que eles o guiassem pelo corredor. De repente, viu alguns grupos de soldados correndo pelo corredor e, também, um movimento grande de criados para lá e para cá. Algumas pessoas davam ordens, enquanto outras as cumpriam, e Hans, curioso, ergueu a cabeça, encarando o militar loiro.
"O que está acontecendo aqui?" O homem permaneceu em silêncio, e Hans suspirou fundo. Quando chegaram a um corredor que era mais escondido e mais distante daquele alvoroço todo, viu um dos guardas abrir uma pesada porta de ferro, que dava acesso a uma escadaria gigantesca para baixo. O mau pressentimento de Hans aumentou, e ele engoliu em seco ao se lembrar do que havia ali.
Uma prisão subterrânea.
Uma mão forte o empurrou para baixo e ele tropeçou nas próprias pernas e quase caiu ao descer os primeiros degraus. A mesma mão, depois, o firmou, e Hans encontrou o equilíbrio, passando a descer a escadaria sem mais dificuldades. Contou cerca de quarenta degraus até chegar ao final, e mais uns oito passos quando, finalmente, estancaram de frente para uma pesada porta de madeira com uma pequenina abertura na parte superior.
"Respondendo a sua pergunta, senhor Hans..." O loiro disse, ainda usando aquele mesmo tom jocoso de antes, cheio de presunção de desdém. "...é para cá que está sendo transferido."
O militar abriu a porta e empurrou Hans para dentro da cela, usando de mais força do que era realmente necessário. O rapaz caiu com tudo no chão pedregoso, engolindo um grito de dor ao sentir suas mãos, que ainda estavam algemadas, se arranhando no chão. Ouviu a porta bater com tudo, seguido pelo som da chave rodando na fechadura, e se levantou, correndo até a porta e vendo, através da pequenina abertura, o trio de soldados se afastar aos poucos, risadas escandalosas ecoando pelas paredes da prisão.
E rindo, os militares se afastaram cada vez mais de Hans, deixando-o sozinho no calabouço, nenhum deles sequer notando que, no final do corredor daquela terrível prisão subterrânea, uma pequena trinca na parede permitia a passagem de água, e uma poça já começava a se formar.
