Chego à manhã de sexta-feira sem qualquer calamidade maior.

Pelo menos nenhuma de que os Longbottom tomem notícia.

Houve o desastre do risoto de legumes na terça mas graças a Deus consegui um substituto de última hora vindo do bufê de entregas. Houve uma camisola pêssego que, pensando bem, deveria ter sido passada com ferro mais frio. Houve o vaso de Dartington que quebrei enquanto tentava tirar a poeira com o acessório do aspirador de pó.

Mas ninguém parece notar que ele sumiu, por enquanto.

E o novo deve chegar amanhã. Até agora esta semana só me custou duzentas libras, o que é um avanço enorme com relação à outra.

Talvez eu até comece a ter lucro daqui a um tempo.

Estou pendurando as cuecas molhadas de Frank na lavanderia, evitando olhá-las, do melhor modo que posso, quando ouço Alice me chamar.

- Lily! Onde você está? - Não parece satisfeita e sinto um aperto por dentro. O que ela descobriu?

- Não posso permitir que você continue andando por aí assim. - Alice chega à porta da lavanderia balançando a cabeça vigorosamente.

- Perdão? - espio-a.

- Seu cabelo. - Ela faz uma careta.

- Ah, certo. – Toco a parte descolorida, fazendo uma careta. - Pensei em dar um jeito neste fim de semana ...

- Você vai dar um jeito agora - interrompe ela. - Minha super cabeleireira está aqui.

- Agora? - Encaro-a. - Mas ... Preciso passar o aspirador.

- Não vou deixar você andando por aí feito uma bruxa. Pode compensar as horas depois. E vou descontar do seu salário. Venha. Annabel está esperando.

Acho que não tenho escolha.

Jogo o resto das cuecas de Frank na bancada e a acompanho escada acima.

- Bom, eu estava pensando em falar do meu cardigã de caxemira - acrescenta Alice séria quando chegamos ao topo. - O creme, sabe?

Merda. Merda. Ela descobriu que eu o substituí. Claro que descobriu. Eu deveria saber que ela não seria tão idiota...

- Não sei o que você fez com ele. - Alice sopra uma nuvem de fumaça e abre a porta do quarto. – Mas está maravilhoso. Aquela manchinha de tinta na bainha desapareceu completamente! Parece novo!

- Certo. - Dou um sorriso de alívio. - Bem... faz parte do serviço!

Acompanho Alice entrando no quarto, onde uma mulher magra com enorme cabeleira loura, jeans brancos e cinto de corrente dourada está arrumando uma cadeira no meio do cômodo.

- Olá! - Ela ergue os olhos, cigarro na mão, percebo que deve ter uns sessenta anos.

– Lily. Ouvi falar tudo sobre você.

Sua voz é grave, a boca franzida com rugas de tanto tragar cigarro, e a maquiagem parece ter sido soldada na pele. É basicamente Alice, 15 anos depois. Adianta-se, examina meu cabelo e se encolhe.

- O que foi isso? Tentou fazer uma mecha? - Ela dá uma gargalhada rouca da própria piada.

- Foi um ... acidente com água sanitária.

- Acidente! - Ela passa os dedos pelo meu cabelo, estalando a língua. - Bom, não pode ficar desta cor. É melhor fazermos um belo ruivo. Você não se incomoda de ficar ruiva, não é, querida?

Ruiva?

- Nunca fui ruiva - digo alarmada. – Realmente não sei...

Qual é, meu cabelo sempre foi laranja, nunca o considerei realmente como ruivo. É cor de cenoura, sem graça, feio.

- Você tem a cor de pele certa para isso. - Ela está escovando meu cabelo.

- Bem, desde que não seja vermelho demais – disse depressa.

Sento-me na cadeira, enrolo uma toalha nos ombros e tento não me encolher enquanto Annabel coloca uma pasta de cheiro químico na minha cabeça e faz camadas do que parecem ser milhares de pedaços de folha de alumínio. Ruiva. Cabelo vermelho. Chuckies. Ah, meu Deus. O que estou fazendo?

- Acho que foi um erro - digo abruptamente, tentando sair da cadeira. - Acho que não sou uma ruiva natural. Meu cabelo está bom assim.

- Relaxa! -Annabel aperta meus ombros, obrigando-me a voltar ao assento, e põe uma revista na minha mão. Atrás, Alice está abrindo uma garrafa de champanha. - Você vai ficar linda. Uma garota bonita como você deveria fazer alguma coisa com o cabelo. Agora leia nossos signos.

- Signos? - digo perplexa.

- Horóscopo! - Annabel estala a língua. – Não é muito esperta, não é? - acrescenta baixo para Alice.

- É meio burrinha - murmura Alice um tanto discretamente. - Mas é maravilhosa para lavar roupas.

Então isso é que é ser uma mulher com lazer. Ficar sentada com folha de alumínio no cabelo, tomando Buck's Fizz e lendo revistas. Não leio nenhuma revista além de O Advogado desde que tinha uns 13 anos. Normalmente passo o tempo no cabeleireiro digitando e-mails ou lendo contratos. Mas não consigo relaxar e curtir. Estou me sentindo cada vez mais apreensiva enquanto leio "Dez Maneiras de Saber se seu Biquíni é Pequeno Demais". Quando chego aos "Romances da Vida Real" e Annabel está secando meu cabelo, todo o meu corpo está retesado de medo. Não posso ser ruiva. Simplesmente não é quem sou

- Pronto! -Annabel dá um último sopro com o secador e o desliga.

Há um silêncio.

Não consigo abrir os olhos

- Muito melhor! - diz Alice, aprovando.

Abro lentamente um olho.

Depois o outro.

Meu cabelo não está mais tom de cenoura.

É ruivo. Um tom ruivo que eu jamais havia esperado, lindo e único. Enquanto mexo a cabeça ele reluz. Engulo em seco algumas vezes, tentando manter o controle. Quase acho que vou chorar.

- Você não acreditou em mim, não foi? – Annabel levanta as sobrancelhas no espelho, com um sorriso satisfeito nos lábios. - Achou que eu não sabia o que estava fazendo.

Ela é capaz de ler meus pensamentos tão obviamente, que fico abestalhada.

- Está maravilhoso - digo encontrando a voz. -Eu... Muito obrigada.

Estou em transe diante do reflexo. Não consigo afastar os olhos de meu novo eu, reluzente, fogo, ruivo.

Pareço viva. Pareço colorida. Nunca voltarei à aparência de antes. Nunca.

Meu prazer não se desbota. Mesmo quando estou lá embaixo de novo empurrando o aspirador pela sala de estar. Sinto-me totalmente preocupada com o cabelo novo. Quando passo por qualquer superfície brilhante paro para me admirar e balanço o cabelo para ele cascatear numa chuva de fogo.

Aspirador embaixo do tapete.

Clic.

Aspirador embaixo da mesinha de centro.

Clic. Clic.

Nunca me ocorreu tingir o cabelo antes. O que mais andei perdendo?

- Ah, Lily. - Ergo a cabeça e vejo Frank entrando na sala, usando paletó e gravata. - Tenho uma reunião na sala de jantar. Gostaria que você fizesse café e levasse para nós.

- Sim, senhor. - Faço uma reverência. – Quantos são?

- Quatro no total. E uns biscoitos. Tira-gostos. Qualquer coisa.

- Claro.

Ele parece animado e com o rosto vermelho. Imagino o que será esta reunião.

Quando vou para a cozinha olho com curiosidade pela janela da frente e vejo um Mercedes Série 5 estacionado na entrada, perto de um BMW conversível. Hum. Provavelmente não é o vigário local.

Faço um bule de café, ponho numa bandeja, acrescento um prato de biscoitos e alguns bolinhos que comprei para o chá. Depois vou à sala de jantar e bato na porta. - Entre! Empurro a porta e vejo Frank sentado com três homens de terno ao redor da mesa de jantar, com papéis à frente.

- Seu café - murmuro cheia de deferência.

- Obrigado, Lily. - Às bochechas de Frank estão luzindo. - Poderia servir?

Pouso a bandeja no aparador e distribuo as xícaras. Enquanto faço isso não posso deixar de olhar os papéis - e imediatamente reconheço que são contratos.

- Ah ... puro ou com leite? - pergunto ao primeiro homem.

- Puro, por favor. - Ele nem levanta a cabeça. Enquanto sirvo o café, dou outra olhada casual. Parece algum tipo de investimento em propriedades. Será que Eddie está botando dinheiro em alguma coisa?

- Biscoito? - ofereço.

- Já sou doce o bastante. - O sujeito mostra o dentes num riso e eu sorrio de volta, educada.

Que babaca!

- E então, Frank. Você entende esse ponto agora? - Um homem de gravata roxa está falando numa voz macia e preocupada. - É bem claro quando a gente decifra o jargão.

Sinto uma lâmina de reconhecimento quando ele fala. Não que conheça seu rosto, mas conheço pessoas assim. Trabalhei com elas por sete anos. E sei instintivamente que o sujeito não está nem aí se Frank entende.

- Sim! - Frank dá um riso jovial. - É, tenho certeza que sim. - Ele olha o contrato, inseguro, depois pousa-o.

- Estamos tão preocupados com a segurança quanto você - diz o sujeito de gravata roxa, com um sorriso.

- Quando se trata de dinheiro, quem não se preocupa? - completa o primeiro.

Certo. O que, exatamente, está acontecendo aqui?

Enquanto vou ao próximo sujeito e sirvo seu café, o contrato fica claramente visível e passo os olhos por ele com velocidade treinada.

É uma sociedade de incorporação imobiliária. Os dois lados colocando dinheiro... empreendimento imobiliário... até agora tudo no padrão...

Então vejo algo que me faz congelar, chocada.

Está escrito com muito cuidado, numa pequena cláusula de aparência inócua no fim da página. Numa linha ela compromete Frank a cobrir qualquer rombo. Sem reciprocidade, pelo que posso ver. Se as coisas derem errado Frank terá de pagar a conta.

Será que ele sabe? Estou totalmente pasma. Minha ânsia de pegar o contrato e rasgá-lo é quase avassaladora.

Se fosse na Carter Spink esses caras não durariam dois minutos. Não somente eu jogaria o contrato fora como recomendaria ao meu cliente que...

- Lily! - Recuo bruscamente à realidade e vejo Frank franzindo a testa para mim e indicando o prato de biscoito.

Não estou na Carter Spink. Estou com uniforme de empregada doméstica e tenho de servir o café.

- Biscoito de chocolate? - De algum modo me obrigo a um tom educado enquanto ofereço o prato ao cara de cabelos escuros. - Ou um bolinho?

Ele simplesmente pega um sem notar minha presença e vou até Frank, pensando depressa. Preciso alertá-lo de algum modo.

- Então. Chega de conversa. A aventura começa. – O sujeito de gravata roxa está desatarraxando a tampa de uma elegante caneta tinteiro. – Depois de você. – Ele entrega Frank.

Ele vai assinar? Agora?

- Demore o quanto quiser - acrescenta o homem com um sorriso de dentes perfeitos. - Se quiser ler de novo.

Sinto um jorro de fúria súbita contra esses caras, com seus carros elegantes, gravatas roxas e vozes macias. Não vão roubar meu chefe. Não deixarei isso acontecer. Quando a caneta de Frank encosta no papel eu me inclino.

- Sr. Longbottom - digo com urgência. - Posso falar com o senhor um minuto, por favor? Em particular?

Frank levanta a cabeça, chateado.

- Lily! - diz ele com um humor pesado. -Estou no meio de um negócio importante. Importante pelo menos para mim! - Ele olha ao redor da mesa e o três homens riem com ar de puxa-sacos.

- É muito urgente - digo. - Não vai demorar.

- Lily...

- Por favor, Sr. Geiger. Preciso falar com o senhor.

Por fim Frank solta o ar, exasperado, e pousa a caneta.

- Certo. - Ele se levanta, leva-me para fora da sala e pergunta bruscamente: - O que é?

Encaro-o feito uma idiota. Agora que o tirei não faço ideia de como puxar o assunto. O que posso dizer?

Sr. Longbottom, eu recomendaria que olhasse de novo a cláusula 14.

Sr. Longbottom, seus interesses não estão suficientemente protegidos.

É impossível. Não posso dizer nada. Quem vai aceitar conselho jurídico de uma doméstica? A mão dele está na maçaneta. É minha última chance.

- O senhor pegou açúcar? - digo de repente.

- O quê? - Frank me olha boquiaberto.

- Eu não lembrei - murmuro. - E não queria atrair atenção para o seu consumo de açúcar em público.

- Sim, peguei um cubo - diz Frank, irritado. – Só isso?

- Bem ... há outra coisa. Parece que o senhor vai assinar uns papéis lá.

- Isso mesmo. - Ele franze a testa. - Papéis particulares.

- Claro! - Engulo em seco. - Eu estava imaginando se o senhor tinha um advogado. Isso... é... me passou pela mente. Lembro que o senhor me disse para sempre ter muito cuidado com documentos.

Olho nos olhos dele, desejando que a mensagem chegue ao lugar certo.

Consulte um advogado, seu idiota.

Frank dá um riso jovial.

- É muita amabilidade sua, Lily. Mas não precisa se preocupar. Não sou bobo. - Ele abre a porta e volta para dentro. - Onde estávamos, senhores?

Olho consternada enquanto ele pega a caneta de novo. Não posso fazê-lo parar. O idiota vai ser enganado.

Mas não se eu impedir.

- Seu café, Sr. Longbottom... - murmuro entrando rapidamente na sala. Pego o bule, começo a servir e acidentalmente-de-propósito derramo na mesa.

- Aaargh!

- Meu Deus!

Há um tumulto completo enquanto o café se espalha num lago marrom-escuro sobre a mesa, encharcando os papéis e pingando no chão.

- Os contratos! - grita o homem de gravata roxa, irritado. - Sua idiota!

- Sinto muito, realmente - digo na minha voz mais abalada. - Sinto muito, sinto muito. O bule simplesmente... escorregou.

Começo a enxugar o café com uma toalha de papel, certificando-me de que ele se espalhe no resto da papelada.

- Temos cópias? - pergunta um dos homens, e eu congelo.

- Estavam todas na porcaria da mesa - diz o sujeito de cabelo escuro, exasperado. - Temos de mandar imprimir de novo.

- Sabe, já que vocês vão imprimir mais cópias, gostaria que imprimissem uma a mais, se não se importam, - Frank pigarreia. - Acho que vou repassar ao meu advogado para dar uma olhada. Só para garantir.

Todos os homens trocam olhares. Sinto a consternação crescendo.

- Claro - diz o homem de gravata roxa, depois de uma pausa longa. - Sem problema.

Ah! Algo me diz que esse negócio talvez não seja feito, afinal de contas.

- Seu paletó, senhor? - Entrego-o com um sorriso. - E, de novo, sinto muitíssimo.

O bom da formação como advogado é que ela realmente nos ensina a mentir.

Também ensina a aceitar as broncas do patrão. O que é bem prático porque assim que Alice fica sabendo o que fiz sou obrigada a ficar na cozinha por vinte minutos enquanto ela anda de um lado para o outro, arengando.

- O Sr. Longbottom está fazendo um negócio muito importante! - Ela inala furiosamente o cigarro, com o cabelo recém-tingido sacudindo nos ombros. – Essa reunião era crucial!

- Lamento muito, senhora - digo com os olhos baixos.

- Sei que você não entende essas coisas, Lily.- Os olhos dela giram na minha direção. - Mas há muito dinheiro em jogo! Dinheiro do qual você provavelmente nem faz ideia.

Fique calma, Fique humilde.

- Muito dinheiro - repete Alice, com ar impressionante.

Ela está morrendo de vontade de contar mais. Posso ver a ânsia de se mostrar e a ânsia de permanecer discreta lutando em seu rosto.

- Uma quantia de sete dígitos - diz finalmente.

- Minha nossa. - Faço o máximo para parecer espantada.

- Nós temos sido muito bons com você, Lily. Fizemos todos os esforços. - Sua voz lateja de ressentimento. - E esperamos que você faça todos os esforço em troca.

- Sinto muito - digo pela milionésima vez. Alice me lança um olhar insatisfeito.

- Bem, espero muito mais cuidado esta noite.

- Esta noite? - ecôo perplexa.

- No jantar. - Alice levanta os olhos para o céu.

- Mas eu tenho esta noite de folga - digo alarmada. - A senhora disse que estava tudo bem, que eu poderia deixar um jantar frio ...

Alice claramente esqueceu tudo sobre nossa conversa.

- Bem - diz ela com ar de intriga -, isso foi antes de você jogar café nos nossos convidados.

Isso foi antes de passar toda a manhã sentada fazendo o cabelo.

O quê?

Isso é tão injusto que nem consigo achar resposta.

- Francamente, Lily, espero um pouco mais. Você ficará esta noite e servirá o jantar. - Ela me lança um olhar duro, pega uma revista e sai da cozinha.

Olho-a, com uma resignação familiar e pesada se esgueirando sobre mim. Isso aconteceu vezes demais, estou acostumada.

Terei de cancelar meu encontro com James.

Outro encontro ... outro cancelamento ...

E então meus pensamentos param. Não estou mais na Carter Spink. Não preciso aceitar isso. Saio da cozinha e encontro Alice na sala de estar.

- Sra. Longbottom – digo com o máximo de ênfase que posso. – Lamento sobre o café e farei todos os esforços para melhorar. Mas preciso desta noite de folga. Assumi compromissos... e vou cumpri-los. Vou sair às sete conforme planejei.

Meu coração está batendo rápido quando termino. Nunca me impus assim na vida. Se algum dia falasse desse jeito na Carter Spink seria carne morta.

Por um momento Alice fica lívida. Depois, para minha perplexidade, dá um estalo irritado com a língua e vira uma página.

- Certo. Muito bem. Se é tão importante ...

- É. - Engulo em seco. - É importante. Minha vida pessoal é importante.

Enquanto digo as palavras sinto-me animada. Quase quero falar mais uma coisa a Alice. Algo sobre prioridade, sobre equilíbrio ...

Mas Alice já está concentrada no artigo sobre "A Dieta do vinho Tinto- Como Ela Pode Funcionar Para Você". Não sei se ela gostaria de ser perturbada.


Às sete horas daquela noite o humor de Alice se transformou de modo espantoso. Ou talvez não tão espantoso.

Chego ao corredor de baixo e vejo-a saindo da sala de estar com um copo de coquetel, olhos injetados e rosto vermelho.

- Então! - diz benevolente. - Você vai sair com James esta noite.

- Isso mesmo. - Olho-me no espelho. Escolhi uma roupa bem informal. Jeans, uma blusa simples, sandálias. Cabelo novo brilhante. Clic.

- Ele é um rapaz muito atraente. - Alice me olha com ar interrogativo por cima do copo. - Muito musculoso.

- É... é. Acho que sim.

- É isso que você vai usar? - ela passa os olhos pela minha roupa. - Não é muito chamativa, não acha? Deixe-me emprestar alguma coisa.

- Não me incomodo em não ser chamativa - começo, sentindo algum receio, mas Alice já desapareceu escada acima.

Alguns instantes depois reaparece segurando uma caixa de bijuterias.

-Aqui estamos. Você precisa de um pouco de brilho. - Pega um prendedor de cabelo, de strass, em forma de cavalo marinho. - Comprei em Monte Carlo!

- É... lindo! - digo olhando-o horrorizada.

Antes que possa impedir, ela puxa meu cabelo de lado e o prende. E me olha, avaliando.

- Não... acho que você precisa de uma coisa maior. Aqui. - Ela pega um grande besouro cheio de pedras e prende no meu cabelo. – Pronto. Está vendo como a esmeralda ressalta seus olhos?

Olho meu reflexo, sem fala. Não posso sair com um besouro brilhante na cabeça.

- E isso é muito chique! - Agora está pendurando uma corrente dourada na minha cintura. – Deixe me pendurar os pingentes na ...

Pingentes?

- Sra. Longbottom... - começo, aturdida, enquanto Frank sai do escritório. - Acabei de pegar o orçamento para o banheiro- diz ele a Alice.

- Esse elefante cheio de brilho não é lindíssimo? - diz Alice, prendendo-o no cinto dourado. - E o sapo!

- Por favor - digo desesperada. - Não sei se preciso de nenhum elefante ...

- Sete mil - Frank me interrompe. - Parece bem razoável. Mais o imposto de valor agregado.

- Bem, quanto é o imposto? – pergunta Alice, remexendo na caixa. – Onde está aquele macaco?

Estou me sentindo uma árvore de natal. Ela vai colocando cada vez mais penduricalhos no cinto, para não mencionar o besouro. E James chegará a qualquer momento ... e vai me ver...

- Não sei! - retruca Frank impaciente. - Quanto são dezessete e meio por cento de sete mil?

- Mil duzentos e vinte e cinco - respondo distraída

Há um silêncio perplexo.

Merda. Isso foi um erro.

Levanto os olhos e vejo Alice e Frank me espiando arregalados.

- Ah ... sei lá - digo com um riso distraído. – Só tentei adivinhar. Então ... tem mais algum pingente?

Nenhum dos dois me dá a mínima importância. Os olho de Frank estão fixos no papel que ele segura. Muito devagar ergue os olhos com a boca se mexendo estranhamente.

- Ela está certa - diz com voz estrangulada. - Está totalmente certa. É a resposta correta. - Ele bate no papel. - Está aqui!

- Ela está certa? - Trish inala com força. – Mas como ...

- Você viu. - A voz de Frank cresce até um guincho ridículo. - Ela fez de cabeça!

Os dois giram para me olhar de novo.

- Ela é autista? - Alice parece fora de si.

Ah, pelo amor de Deus. Rain Man tem de responder a muita coisa, se você me perguntar.

- Não sou autista! - respondo. - Só... sou boa com números. Não é grande coisa...

Para meu alívio gigantesco a campainha toca e vou atender. James está parado à porta, parecendo um pouco mais elegante do que o usual, com jeans marrons e camisa verde.

- Oi - digo rapidamente. - Vamos.

- Espera! - Frank bloqueia meu caminho. - Mocinha, talvez você seja muito mais inteligente do que imagina.

Ah, não.

- O que está acontecendo? - pergunta James.

- Ela é um gênio da matemática! - diz Alice loucamente. - E nós descobrimos! É simplesmente extraordinário!

Lanço um olhar agonizado para James, do tipo ''ela está falando bobagem".

- Qual é sua formação escolar, Lily? - pergunta Frank. - Além de culinária.

Ah, meu Deus. O que eu disse na entrevista? Honestamente não lembro.

- Eu ... estudei... é... aqui e ali. - Abro as mãos vagamente. - O senhor sabe...

- São as escolas de hoje. - Alice traga o cigarro com força. - Tony Blair deveria levar um tiro.

- Lily - diz Frank, cheio de si. - Vou cuidar da sua educação. E se você estiver preparada para trabalhar duro, veja bem, duro, tenho certeza que podemos lhe conseguir algumas qualificações.

Não. A coisa está piorando.

- Realmente não quero nenhuma qualificação, senhor - murmuro olhando para o chão. - Estou feliz como sou. Mas mesmo assim, obrigada.

- Não aceitarei um não como resposta! – insistiu Frank.

- Seja mais ambiciosa, Lily! - diz Alice com paixão súbita, segurando meu braço. - Dê a si mesma uma chance na vida! Tente alcançar as estrelas!

Enquanto olho de um rosto a outro, não consigo deixar de me sentir tocada. Eles só querem o melhor para mim.

- Ah ... bem ... talvez. - Disfarçadamente me livro de todas as criaturas de bijuteria e coloco de volta na caixa. Depois olho para James, que estava esperando pacientemente à porta. - Vamos?

- Então, o que foi aquilo? - pergunta James enquanto começamos a andar pela rua do povoado. O ar suave e quente, e meu cabelo novo está balançando leve a cada passo vejo os dedos dos pés, pintados com o esmalte rosa de Alice. - Você é um gênio da matemática?

- Não! - Não consigo deixar de rir. – Claro que não!

- Qual é sua formação, então?

- Ah ... você não quer saber. - Dou -lhe um sorriso de descarte. - É muito chato.

- Não acredito nem um minuto. - Seu tom é leve mas insistente. - Você tinha uma carreira? Antes de vir para cá?

Dou alguns passos sem falar nada, os olhos no chão, tentando pensar no que dizer. Sinto os olhos de James em mim, mas giro a cabeça, afastando-me do seu exame. - Não quer falar nisso - diz ele finalmente.

- É... é difícil.

James expira mais forte.

- Você sofreu muito?

Ah, meu Deus, ele ainda acha que sou uma esposa que sofreu abusos.

- Não! Não é isso. - Passo as mãos pelo cabelo. -É só... uma longa história.

James dá de ombros.

- Temos a noite toda.

Quando encontro seu olhar firme sinto um puxão súbito, como se tivesse um anzol no peito. Quero contar a ele. Quero tirar todo esse fardo. Quem eu sou, o que aconteceu, como foi difícil. Dentre todas as pessoas, eu poderia confiar nele. Ele não contaria a ninguém. Entenderia. Manteria o segredo.

- Então. - Ele pára na rua com os polegares nos bolsos. - Vai me contar quem você é?

- Talvez - digo finalmente e me pego sorrindo. James sorri de volta, os olhos se franzindo com uma facilidade lenta, deliciosa.

- Mas agora não. - Olho a rua dourada do povoado ao redor. - É uma noite linda demais para estragar com uma história de desastre e infortúnio. Conto mais tarde.

Vamos andando, passando por um antigo muro de pedras coberto por uma confusão de roseiras. Enquanto respiro o perfume delicioso sinto uma leveza súbita; quase euforia. A rua está pintalgada de suaves luzes noturnas e os últimos raios do sol são quentes nos meus ombros.

- Belo cabelo, por sinal- diz ele.

- Ah, obrigada. - Dou um sorriso despreocupado - Na verdade não é nada.

Clic.

Atravessamos a ponte e paramos para olhar o rio, Galinhas d'água mergulham para pegar algas e o sol parece poças de âmbar na água. Um casal de turistas tira fotos um do outro e sinto um brilho de orgulho. Não estou visitando este lugar lindo, sinto vontade de informar, eu moro aqui.

- Então, aonde vamos? - pergunto quando começamos a andar de novo.

- Ao pub. Tudo bem?

- Perfeito! Enquanto nos aproximamos do Três Vassouras, vejo um pequeno grupo de pessoas do lado de fora, algumas pessoas paradas perto da porta; outras sentadas às mesas de madeira.

- O que eles estão fazendo? - pergunto perplexa.

- Esperando. O proprietário está atrasado.

- Ah. - olho ao redor mas todas as mesas já estão ocupadas. - Bem, não faz mal. Podemos nos sentar aqui.

Empoleiro-me num velho barril – mas James já foi para a porta do pub. E... é esquisito. Todo mundo está se afastando para deixá-lo passar. Olho atônita quando ele enfia a mão no bolso e pega um grande molho de chaves, depois espia ao redor e me vê.

- Venha - chama com um riso. - Hora de abrir.

James é dono de um pub?

- Você é dono de um pub? - pergunto quando a confusão inicial da noite se acalma.

Estive olhando pasma durante 15 minutos enquanto James servia cerveja, conversava com os clientes, dava instruções aos funcionários do bar e se certificava de que todo mundo estivesse feliz. Agora que a confusão inicial passou, ele veio até onde estou empoleirada num banco de bar com um copo de vinho.

- Três pubs - corrige ele. - E não sou só eu. É o negócio da nossa família. O Três Vassouras, o Caldeirão Furado, lá em Bingley, e o Cabeça de Javali.

- Uau. Mas ... é tão movimentado! - Olho o pub ao redor.

Cada cadeira parece ocupada, com pessoas se derramando para fora, no quintal minúsculo e na frente. O ruído de conversas é tremendo. - Como você consegue fazer isso e ser jardineiro?

- Certo, vou entregar o jogo. – James levanta as mãos. - Não costumo servir com frequência. Temos funcionários ótimos. Mas achei que seria divertido esta noite.

- Então você não é realmente um jardineiro!

- Sou realmente um jardineiro. - Ele baixa a cabeça brevemente, ajeitando um descanso de chope. – Isto aqui são... negócios.

Há o mesmo tom de antes em sua voz. Como se estivesse pisado em alguma coisa sensível. Olho para o outro lado - e minha atenção é captada pela foto de um homem de meia-idade na parede. Ele tem o queixo forte e os olhos castanhos esverdeados de James, e as mesmas rugas ao redor dos olhos quando sorri.

- É o seu pai? - pergunto curiosa. - Parece maravilhoso.

- Ele era. - Seus olhos se suavizam. - Todo mundo aqui o amava. - Ele toma um grande gole de cerveja e pousa o copo. - Mas escute. Não precisamos ficar aqui. Se você prefere ir a outro lugar, algum local mais elegante ...

Olho o pub movimentado. A música toca acima do ruído de conversas e risos. Um grupo de fregueses se cumprimenta junto ao balcão com insultos animados. Dois turistas americanos idosos, com camisetas de Stratford, estão sendo orientados sobre cervejas locais por um barman com cabelos cacheados negros e olhos brilhantes. Do outro lado do salão teve início um jogo de dardos. Não me lembro da última vez em que estive numa atmosfera tão tranquila e amigável.

- Vamos ficar. E eu vou ajudar! - Saio da banqueta e vou para trás do balcão.

- Já tirou cerveja antes? - James me acompanha, achando divertido.

- Não - digo pegando um copo e colocando sob uma das torneiras. - Mas posso aprender.

- Certo. - James rodeia o bar. - Incline o copo assim... agora puxe.

Puxo a torneira e um jorro de espuma é cuspido.

- Droga!

- Devagar... - Ele passa os braços em volta de mim, guiando minhas mãos. - Assim está melhor ...

Hum, isso é legal. Ele está me dizendo alguma coisa, mas não ouço uma palavra. Estou numa névoa de felicidade, envolvida por seus braços fortes. Acho que vou fingir que sou lenta em aprender a tirar cerveja. Talvez possamos ficar assim a noite inteira.

- Sabe - começo virando a cabeça para ele. E então paro quando meus olhos focalizam alguma coisa.

Há uma antiga placa de madeira na parede, declarando "Nada de Botas Enlameadas, Por Favor" e "Nada de Roupas de Trabalho".

Embaixo, outro aviso foi pregado. É escrito em papel já amarelado, com tinta de hidrográfica desbotada - e diz:

NADA DE ADVOGADOS.

Olho aquilo, perplexa. Nada de advogados? Estou lendo direito?

- Pronto. - James ergue o copo cheio com um liquido âmbar e brilhante. - Sua primeira cerveja.

- É ... fantástico! - digo. Obrigo-me a fazer uma pausa natural e depois sinalizo casualmente para o aviso.

- O que é isso?

- Não sirvo a advogados - responde ele com um meneio.

- James! Venha aqui! - grita alguém na outra ponta do balcão e ele estala a língua, irritado.

- Só vou demorar um momento. - Em seguida toca a minha mão e se afasta. Imediatamente tomo um gole enorme de vinho.

Ele não serve a advogados. Por que ele não serve a advogados? Certo ... fique calma, ordeno-me com firmeza. É uma piada.

Obviamente é uma piada. Todo mundo odeia advogados, assim como todo mundo odeia corretores de imóveis e cobradores de impostos.

É um fato aceito na vida. Mas nem todos colocam avisos em seus pubs, colocam?

Enquanto estou ali sentada o barman de cabelos cacheados chega perto de onde estou e pega um pouco de gelo no tanque.

- Oi - diz ele estendendo a mão. - Sou Sirius.

- Lily. - Aperto-a sorrindo. - Estou com o James.

- Ele disse. - Os olhos do barman brilham. - Bem-vinda a Lower Ebury.

Enquanto o observo servindo, subitamente percebo que esse cara deve saber alguma coisa sobre o aviso.

- Escute - digo despreocupadamente quando ele volta. - Aquele aviso sobre advogados. É uma piada, não é?

- Na verdade, não - responde Sirius, alegre. - James não suporta advogados.

- Certo! - De algum modo consigo continuar sorrindo. - Ah... desde quando?

- Desde que o pai dele morreu. - Sirius põe no balcão um caixote com caixas de suco de laranja e eu vou até meu banco para vê-lo direito.

- Por quê? O que aconteceu?

- Houve um processo judicial entre ele e o conselho municipal-. Sirius pára de trabalhar. – James disse que o processo não deveria ter começado, mas os advogados convenceram Ben a fazer isso. Ele não estava bem de saúde e ficou cada vez mais estressado com aquilo, não conseguia pensar em mais nada. Então teve um ataque cardíaco.

- Meu Deus, que medonho - digo horrorizada. – e James culpou os advogados?

- Ele acha que o processo nunca deveria ter sido aberto. - Sirius volta a levantar caixotes. - A pior coisa foi que, depois que Ben morreu, eles tiveram de vender um dos pubs. Para pagar as custas do processo.

Estou totalmente perplexa. Olho James do outro lado do balcão, ouvindo um sujeito, com a testa muito franzida.

- O último advogado que entrou neste pub ... – Sirius se inclina num gesto conspiratório por cima do balcão. - James deu um soco nele.

- Deu um soco? - Minha voz sai como um guincho petrificado.

- Foi no dia do enterro do pai. - Sirius baixa a voz. - Um dos advogados do pai dele entrou aqui e James deu um soco nele. Agora a gente provoca ele por causa disso.

O barman se vira para servir alguém e eu tomo outro gole de vinho, com o coração martelando de nervosismo. Não vamos pirar de vez. Então ele não gosta de advogados.

Isso não significa eu. Claro que não. Ainda posso ser honesta com ele. Ainda posso contar sobre meu passado. Ele não vai ficar contra mim. Certamente.

Mas e se ficar? E se me der um soco?

- Desculpe. - De repente James chegou diante de mim, o rosto caloroso e amigável. – Você está bem?

- Ótima! - digo animada demais. -Adorando.

- Ei, James! - diz Sirius, lavando um copo. Ele pisca para mim. - De quê você chama cinco mil advogados no fundo do oceano?

- Um começo! -Às palavras pulam da minha boca antes mesmo que eu possa impedir. - Todos deveriam... apodrecer. Ir embora. Para o inferno.

Há um silêncio surpreso. Posso ver Sirius e James se entreolhando com sobrancelhas erguidas.

Certo.

Mudar de assunto.

Agora.

- Então! É... - Rapidamente me viro para um grupo parado perto do balcão. - Posso servir alguém?

No fim da noite tirei umas quarenta cervejas. Comi um prato de bacalhau com batata frita e meio prato de pegajoso pudim de caramelo - e derrotei James nos dardos, diante de aplausos e gritos de todo mundo que olhava.

- Você disse que nunca tinha jogado! - diz ele incrédulo quando acerto meu duplo oito, da vitória.

- Não tinha - digo inocente. Não preciso mencionar que fiz arco e flecha na escola durante cinco anos.

Por fim James avisa que é o último pedido, com um ressoante toque do sino, e uma boa hora depois os últimos retardatários vão para a porta, cada um parando para se despedir enquanto sai.

- Tchau.

- Saúde, James.

Estive olhando o pessoal sair do pub - e, afora os turistas, todos se despediram de James. Ele deve conhecer absolutamente todo mundo nesta cidade.

- Nós limpamos isso - diz Sirius com firmeza enquanto James começa a pegar copos, cinco de cada vez. - Dê isso aqui. Você vai querer curtir o resto da noite.

- Bem... certo. – James lhe dá um tapa nas costas. - Obrigado, Sirius. - Ele me olha. – Pronta para ir?

Quase com relutância desço da banqueta.

- Foi uma noite incrível- digo a Sirius. – Foi ótimo conhecer você.

- Foi ótimo conhecer você também. - Ele ri. -Mande sua fatura.

Rio de volta, ainda animada com a atmosfera; com minha vitória nos dardos; com a satisfação de ter passado a noite fazendo alguma coisa.

Nunca tinha tido uma noite assim. Ninguém em Londres jamais me levou para um encontro num pub - quanto mais para o outro lado do balcão.

Na minha primeira noite com Jacob ele me levou para ver Les Sylphides no Covent Garden e saiu depois de vinte minutos para atender a um telefonema dos Estados Unidos e não voltou. Disse no dia seguinte que ficou tão enrolado num ponto de lei de contrato comercial que esqueceu que eu estava lá.

E o pior foi que, em vez de dizer "Seu sacana!" e lhe dar um soco eu perguntei qual era o ponto de lei de contrato comercial.

Depois do calor regado a cerveja no pub, a noite de verão está fresca e calma. Enquanto começamos a andar ouço o riso leve dos que saíram do pub, mais à frente, e um carro sendo ligado ao longe.

Não há lâmpadas nas ruas; a única luz vem de uma grande lua cheia e das janelas dos chalés com cortinas.

- Você curtiu? - James parece meio ansioso. - Eu não pretendia que a gente ficasse lá a noite toda ..

- Adorei, adorei realmente - digo entusiasmada. - É um pub fantástico. E nem consigo pensar em como é amigável. O modo como todo mundo conhece você! E o espírito do povoado. Todo mundo se importa com o outros. Dá para ver.

- Como você sabe disso? - James parece achar divertido.

- Pelo modo como todo mundo dá tapinhas nas costas dos outros - explico. - Como, se alguém estivesse com problema, todo mundo iria se juntar em volta, de um modo caloroso. Dá para ver.

Ouço James conter um riso.

- Ano passado ganhamos o prêmio de Cidade mais Calorosa - diz ele.

- Pode rir - retruco. - Mas em Londres ninguém é caloroso. Se você cair morto na rua eles simplesmente o empurram na sarjeta. Depois de esvaziar sua carteira e roubar sua identidade. Isso não aconteceria aqui, não é?

- Bem, não. - James faz uma pausa, pensativo. - Se você morrer aqui, todo o povoado se junta ao redor da cama e canta o lamento do povoado.

Minha boca se retorce num sorriso.

- Eu sabia. Jogando pétalas de flores?

- Naturalmente. - Ele confirma com a cabeça. – e fazendo bonequinhas de milho cerimoniais.

Caminhamos em silêncio por alguns instantes. Um pequeno animal atravessa a rua correndo, pára e nos olha com dois minúsculos faróis amarelos, depois vai rapidamente para a cerca viva.

- Como é o lamento? - pergunto.

- Mais ou menos assim. - James pigarreia e canta em voz monótona, grave e triste. - Ah, não. Ele se foi.

Sinto um riso explosivo por dentro, que, de algum modo consigo conter.

- E se for mulher?

- Bem observado. Então cantamos um lamento diferente. - Ele respira fundo e canta de novo, exatamente o mesmo tom sem melodia: - Ah, não. Ela se foi.

Minha barriga está apertada na tentativa de não rir.

- Bem, não temos lamentos em Londres - digo. - Nós vamos em frente. Somos ótimos em nos mover, os londrinos. Somos ótimos em ficar adiante.

- Eu conheço os londrinos. - James parece esquisito. - Morei em Londres um tempo.

Encaro-o boquiaberta ao luar. James morou em Londres? Tento, e não consigo, visualizá-lo pendurado no suporte do metrô, lendo o jornal.

- Sério? - digo finalmente e ele confirma com a cabeça.

- E odiei. Sério.

- Mas o que... por que...

- Fui garçom no ano antes de ir para a universidade. Meu apartamento ficava na frente de um supermercado vinte e quatro horas. Ficava iluminado a noite inteira com umas tiras fluorescentes muito fortes. E o barulho... - Ele se encolhe. - Em dez meses que morei lá, nunca tive um instante de escuridão total e silêncio total. Nunca ouvi um pássaro. Nunca vi as estrelas.

Instintivamente inclino a cabeça para olhar o límpido céu noturno. Devagar, enquanto os olhos se ajustam a escuridão, as minúsculas cabeças de alfinete começam a aparecer sobre ele, formando redemoinhos e padrões que nem consigo começar a decifrar.

Ele está certo. Também nunca vi as estrelas em Londres.

- E você? - A voz dele me traz de volta à terra.

- Como assim?

- Você ia me contar sua história. Como veio parar aqui.

- Ah. - Sinto um espasmo de nervosismo. – é, certo. Ia mesmo.

Ainda que ele mal consiga me ver no escuro, minha mente trabalha do melhor modo possível depois de três copos de vinho. Preciso dizer alguma coisa. Talvez consiga manter no mínimo. Dizer a verdade sem mencionar a parte de ser advogada.

- Bem - digo finalmente. - Eu estava em Londres. Num ... num ...

- Relacionamento - instiga ele.

- É ... é. - Engulo em seco. – Bem. As coisas deram errado. Entrei num trem ... e vim parar aqui.

Há um silêncio cheio de expectativa.

- É isso - acrescento.

- É isso? - Nathaniel parece incrédulo. - Essa é longa história?

Ah, meu Deus.

- Olha. - Viro-me para olhá-lo ao luar, com o coração martelando. - Eu sei que ia contar mais. Mas detalhes são realmente importantes? Importa o que eu fazia... ou era? O ponto é que estou aqui. E acabo de ter a melhor noite da minha vida. De toda a vida.

Dá para ver que ele quer me questionar; chega a abrir a boca. Então sua expressão cede e ele se vira sem dizer o que era. Sinto um aperto de desespero. Talvez tenha arruinado tudo. Talvez devesse contar a verdade. Ou inventar alguma história tortuosa sobre algum namorado maligno. Voltamos a caminhar pela noite, sem falar.

O ombro de James roça no meu. Então sinto sua mão. Seus dedos roçam nos meus casualmente a princípio, como se por acidente - depois, devagar, se entrelaçam nos meus.

Sinto uma tensão por dentro à medida que todo o corpo reage, mas de algum modo consigo não prender o fôlego. Nenhum de nós diz uma palavra. Não há som, a não ser nossos passos na rua e uma coruja distante piando.

A mão de James está firme em volta da minha. Sinto os calos ásperos de sua pele; o polegar roçando sobre o meu. Ainda assim nenhum de nós falou. Não sei se consigo falar.

Paramos na entrada de veículos dos Longbottom. Ele me olha em silêncio, a expressão quase grave.

Sinto a respiração ficando mais densa; travando-se intermitentemente. Não me importa se é óbvio que eu o quero. De qualquer modo, nunca fui muito boa com regras.

Ele solta minha mão e passa as duas mãos pela minha cintura.

Agora está me puxando lentamente.

Fechos olhos, preparando-me.

- Pelo amor de Deus! - diz uma voz inconfundível. - Você não vai beijá-la?

Pulo e abro os olhos. James está igualmente chocado e dá um passo para longe automaticamente.

Giro e - para meu horror absoluto, Alice está se inclinando para fora de uma janela do andar de cima, segurando um cigarro e olhando direto para nós.

- Não sou puritana, vocês sabem - diz Alice. -Podem se beijar!

Lanço adagas furiosas contra ela. Será que nunca ouviu a palavra "privacidade"?

- Andem! - A brasa de seu cigarro brilha enquanto ela o balança. - Não se incomodem comigo!

Não me incomodar com ela?

Sinto muito, mas não vou fazer isso tendo Alice como espectadora. Olho insegura para James, que parece tão sem graça quanto eu.

- Será que deveríamos... - paro, sem saber o que vou sugerir.

- Não está uma linda noite de verão? – acrescenta Alice, como se batesse papo.

- Linda - grita James de volta, educadamente.

Encaro-o e de súbito sinto um riso incontrolável surgindo por dentro.

Isso é desastroso. O clima se quebrou por completo.

- Ah ... obrigada por uma noite fantástica – digo tentando manter o rosto impávido. - Eu me diverti muito.

- Eu também. - Os olhos dele estão de um tom quase mel nas sombras, sua boca retorcida com divertimento. - Então. Vamos conceder o barato da Sra. Longbottom? Ou deixá-la num insuportável frenesi de frustração?

Os dois olhamos para Alice, ainda inclinada avidamente pela janela. Como se fizéssemos parte de um espetáculo e a qualquer momento eu fosse dançar com James.

- Ah ... Acho que ela provavelmente merece o insuportável frenesi de frustração - digo com um sorriso minúsculo. - Então, vejo você amanhã?

- Estarei na casa da sua mãe às dez horas.

- Vejo você, então.

James estende a mão e mal roçamos as pontas dos dedos antes de ele se virar e ir embora. Olho-o desaparecer no escuro, depois me viro de cabeça baixa e vou até a casa; todo o meu corpo ainda está pulsando. É bom cortar o barato de Alice. Mas e quanto ao meu insuportável frenesi de frustração?


N/A: Oi oi oi... Não matem a Mono, por favor... Sei que deveria ter postado há dias atrás, mas eram meus últimos dias de férias e eu estava fazendo algo inútil por aí. Enfim, minhas aulas começaram hoje e cabo moleza cabo cabo! Gostaram do capítulo? Gostaram do encontro? Gostaram do Sirius (muito meu só meu)? Beijos.