Corria desesperado, os passos soando alto no assoalho de madeira. Abriu a porta do quarto dos pais, encontrando apenas o vazio e se lembrando, assustado, que eles estavam em viagem. Ouviu os passos calmos do homem que vinha atrás de si e voltou a correr, desceu as escadas tropeçando nos próprios pés. Sentiu a dor em suas costas quando rolara escada abaixo, porém já se levantava apressado, a adrenalina percorrendo seu corpo devido ao medo:
- Tou-san... – chamou esperançoso – Kaa-san!
Silêncio. Seria a única coisa presente na casa se não fosse pelos passos que soavam no andar de cima. Um trovão alto causou um arrepio pelo corpo da criança, fazendo-a voltar a correr, procurando pela porta de saída. Ouviu o som de madeira estalando e observou assustado um caibro caindo em chamas no meio da sala de estar, atingido por um relâmpago. Gritou desesperado, o fogo espalhando-se em uma velocidade assustadora:
- Achei-te... – a voz fria zumbiu em seus ouvidos.
Afastou-se num pulo do vulto que se erguia atrás de si, andando de costas tentando aumentar cada vez mais a distância. Tropeçou em um vaso de flores que ali havia e caiu, batendo com as costas doloridas numa coluna. Ouviu um novo trovão e outro raio cortou o céu, o caibro agora atingindo caiu sobre suas pernas, fazendo-o urrar de dor.
O riso demoníaco do homem a sua frente preencheu o silêncio infernal da casa em chamas. Encarou fixamente os olhos vermelhos a sua frente, os cabelos escuros moldurando o rosto de tez pálida. Sim, agora ele reconhecia, reconheceria aquela aparência em qualquer lugar do mundo. Estava diante de um dos maiores Nekomatas, um Uchiha...
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Abriu os olhos devagar, os primeiros raios de sol refletindo nas safiras. Afastou os braços do Uchiha de si e se levantou, o lençol branco escorregando, deixando a vista o corpo nu. As marcas na noite anterior ainda estavam bem visíveis, porém logo desapareciam devido a regeneração dos Kyuubis.
Caminhou até a sacada, as longas caudas balançando atrás de si. Afastou as pesadas cortinas e deixou a luz matinal o banhar, a chuva parara e o céu voltava ao seu azul típico, porém naquele momento ainda era marcado pelo vermelho do nascer do sol:
- Vermelho hm...
Eis uma cor que o perseguia em qualquer lugar há algum tempo. Aquele sonho fora o desfecho para todas as suas lembranças, provavelmente também fora o último sonho. Um suspiro escapou pelos lábios carnudos, as orelhas felpudas se mexendo captando qualquer barulho:
- Kurama...
Olhou a raposa se esfregando em suas pernas, ela estava um tanto maior do que o normal, porém não estava surpreso. Sabia que o treinamento com Jiraya não seria mais necessário, não agora que se lembrava de tudo e mais um pouco. Deixou a brisa matinal bater em seu rosto e fechou os olhos, apreciando aquele momento de paz. Seu corpo pegava fogo, ele sentia, no entanto, era uma sensação boa, reconfortante.
Deitou em cima do guardião, tentando não rir com as cócegas que o longo pelo causava. As chamas vermelhas contornavam o corpo bronzeado, formando um manto ao estilo romano, escondendo a nudez do Kyuubi. Olhou as próprias mãos, curioso com as garras que agora tinha, até que era divertido estar na sua real forma. Kurama também parecia contente, andando pelo quarto, carregando-o nas costas. Não era novidade que ela estava maior que si mesmo e já possuía 4 caudas, embora não fosse ainda a verdadeira forma, tinha que conter o poder dela ou o bloco B se reduziria a entulhos de concreto:
- Naruto?
A voz fraca do Uchiha chamou sua atenção, pressentia certo temor em seu timbre, mas não havia muito que pudesse fazer. Dirigiu o olhar para o moreno, os olhos vermelhos sangue deparando-se com seus próprios olhos vermelhos:
- Ohayo Sasuke! – sorriu, as presas nítidas.
- O que diabos...?
- Eu me lembrei de tudo! – coçou a cabeça nervoso – Inclusive do seu pai tentando me matar...
Pulou de cima da raposa, caminhando até a cama onde a pouco estivera deitado. Viu o Uchiha tremer e riu internamente, no dia anterior era ele quem estava com medo. Deitou se aconchegando ao corpo nu do Nekomata, sabia que o fogo não o queimaria a não ser que quisesse. Permaneceu ali, feito um filhote, enquanto sentia o olhar do outro sobre si, curioso, observando cada detalhe novo que adquirira:
- É sua forma real, então?
- Hai...
- Sabe, você parece... hm... – sentiu os braços firmes o envolverem – Um Deus grego assim...
Sorriu com a comparação, sabendo que, vindo de Sasuke, aquilo era um baita de um elogio. Ficou ali, sentindo o afago do maior em suas orelhas. Não tinham pressa, afinal era domingo, domingo de manhã por sinal:
- Naruto, Kurama quer subir na cama...
- Ehhhh? – olhou assustado a raposa já com uma pata no colchão – Você vai quebrar a cama desse jeito!
Fechou os olhos até a marca em sua mão latejar, era ela quem guardava e mantinha o poder dos Kyuubis em controle. Arrepiou-se com o focinho do guardião em seu pescoço e então o trouxe para o abraço junto do moreno.
Dedilhava a pele bronzeada com os dedos, fazendo um percurso da nuca até a cintura do outro e então voltava. Permanecia com os olhos fechados, apenas aproveitando o momento de paz de um domingo, bom, não que acreditasse que estava tudo em paz fora do quarto. Já haviam tomado banho e trocado as roupas da cama, porém o cansaço falou mais alto e se jogaram novamente no colchão. Nunca que reclamaria, afinal, poderia ficar ali pela eternidade, contanto que fosse com ele.
Sentiu o colchão afundar no seu outro lado e abriu os olhos deparando-se com uma cena desagradável para si. Sakura, de alguma forma desconhecida, entrara no quarto e agora o encarava maliciosamente, a camisa aberta nos primeiros botões, revelando nada mais do que uma ausência de peitos:
- Sasu-kun... – aquela voz manhosa.
- Como você entrou?
Um meneio de cabeça em direção a janela foi o bastante, ótimo, agora teria que a deixar trancada por garantia. Observou a garota subir em cima de si, tentando parecer, o mínimo possível, sedutora. Apenas a ignorou, voltando a brincar com a pele do louro adormecido, era incrível como nem naquelas situações, ele não acordara. Uma mão em locais indevidos o trouxe de volta a realidade, empurrando a Haruno para a beira da cama com raiva:
- Não me toque... – sibilou.
- Ehhh! Por que a Sakura-chan está aqui?
Ambos voltaram-se para Naruto que os olhava confuso, não se dando conta do estado da amiga. Sakura aproximou-se tocando as cicatrizes do rapaz, extasiada pela beleza que o mesmo esbanjava quando acordava:
- Eu vim brincar com vocês, Naruto-kun...
- Brincar?
O Uchiha suspirou indignado pela inocência do companheiro, fechou os olhos tentando se acalmar, todavia, poderia explodir alguém quando os abriu novamente. A aluna se aproveitara de sua distração para roubar os lábios do Uzumaki, prendendo-o contra o colchão. Rebolava sobre a cintura do menor, insinuante, arrancando gemidos de Naruto, mesmo que contraditórios. O mesmo apenas tentava se soltar, preso pela força descomunal que o Clã Iryo possuía, isso é, até que sentiu o corpo da garota sair de cima de si.
Sasuke puxava a Haruno pelos braços, arrastando pelo quarto o corpo que se contorcia, jogando-a janela afora, já que conseguira entrar, com certeza conseguiria chegar viva ao chão. Quando o moreno voltou o olhar, o louro engoliu em seco, era possível ver a aura assassina que rondava o mais velho:
- Naruto... – um sibilo baixo.
- Ehhhh!
O Kyuubi tentou chegar à porta do quarto, mas foi jogado contra a parede antes que tivesse sucesso. Os olhos vermelhos transmitiam raiva quando encararam as safiras, enquanto os dedos finos deslizavam pelo rosto bronzeado. Teve os lábios tomados bruscamente pelo Uchiha, numa nítida demonstração de pose, sentiu o gosto de sangue em sua boca após uma mordida em seu lábio inferior. Aquilo com certeza ficaria roxo:
- Você é meu namorado... – a voz rouca em seu ouvido o arrepiou – Animal de estimação, noivo, propriedade, como preferir se chamar...
- ...
- Que bom que entendes... – outro ósculo, agora calmo.
Afagou os fios negros, intensificando o beijo. Estava feliz apesar de tudo, Sasuke dissera que estavam namorando, sabia que não o ouviria dizer tão cedo novamente. Talvez provocar ciúmes nele não fosse assim ruim:
- Nem pense nisso... – um sussurro ameaçador.
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Jiraya abriu os olhos cansados, sentira mais cedo o poder familiar do pupilo, teria um trabalho a menos com isso. Porém a informação que Itachi o trouxera ontem era preocupante, fora obrigado a avisar os Kyuubis da situação atual e conseguira, com muito custo, evitar que Kushina viesse morar no colégio.
Pensou ter visto uma mancha rosa caindo de uma das janelas do bloco B, mas ignorou, achando que era uma peça de sua mente. Tornou a fechar os olhos, aproveitando a brisa matutina que balançava as folhas, com certeza, adorava ficar em cima de uma árvore:
- Principalmente com a janela do banheiro feminino logo abaixo... – sorriu travesso.
- Espero que não esteja olhando pela janela...
A voz repentina o assustou a ponto de se desequilibrar, pressentia o olhar assassino que a mulher o dedicava e riu nervoso. Quando fora mesmo que ela voltara? Ah sim, no período em que Naruto esteve inconsciente. Observou a loura a sua frente, percebendo o ar de preocupação que transmitia:
- Kushina e Minato?
- Já sabem... – suspirou – Iremos reforçar a segurança do High School Anbu também...
Ofereceu-lhe o braço, um convite para um passeio prontamente aceito. Tsunade mantinha o olhar distante, talvez perdida em pensamentos, enquanto caminhavam pelo campus. Passavam pelos dormitórios quando viram Naruto sair em disparada, seguido da raposa, que tentava morder seus calcanhares, e de Sasuke. Ambos os adultos se surpreenderam ao ver o sorriso sincero que o moreno possuía, talvez o Kyuubi tenha feito alguma lavagem cerebral nele:
- O amor! – riu enquanto observava o Uchiha evitar que o pupilo encontrasse o muro – Quem imaginaria hun...
- Realmente... – a mulher sorriu serena.
Jiraya reparou em uma Sakura emburrada indo ao dormitório, parecia ter vindo dos canteiros que haviam por ali e, num lampejo, lembrou-se da mancha rosa caindo da janela. Balançou a cabeça, até parece que a aluna exemplar se aventuraria no bloco masculino.
O Uzumaki corria rumo à floresta, precisava de um pouco de ar puro depois dos acontecimentos da manhã; atrás dele vinha o Nekomata, que agora carregava a Kurama nos ombros, depois de ela se cansar depois de correr atrás do dono. Encontraram Gaara no meio do caminho, acabando o louro por o arrastar junto, seguido de Sai que havia ido ao refeitório comprar chocolate.
Ambos olharam para Sasuke, indagando o surto de alegria do menor, porém este apenas dera de ombros, sorrindo logo em seguida.
2 semanas após...
Um grupo de alunos corriam afobados para o auditório, juntos carregavam um grande painel onde se via, como pintura, o cenário de um quarto. Atrás deles, dois garotos carregavam uma cama, tirada sabe-se lá de qual dormitório. Todo o alvoroço se devia a semana de abertura do colégio que, por sinal, já era a próxima no calendário. Os últimos ajustes para a peça de teatro, realizada no final do evento, já estavam sendo realizados.
Hinata andava a passos firmes pelo campus, ficara responsável pela organização dos quiosques pelo colégio. Após a notificação de Hiashi sobre o primo, a garota teve que manter sobre as rédeas qualquer infortúnio, isso colaborara para sua posição atual:
- Shino-kun, poderiam montar a barraca um pouco mais para a esquerda? – a voz continuava doce – Estão obstruindo a passagem de pedestres...
Após indicar o local exato aos colegas, a morena voltou a caminhar e teria ido ao auditório se algo não tivesse chamado sua atenção. Observou Neji sentado na sombra de uma árvore, escondido para quem andasse no caminho de concreto, à sua frente estava a Haruno. Eles pareciam, apenas pareciam, estar tramando algo, pois a risada um tanto quanto escandalosa de Sakura foi seguida de um sermão do garoto. A Hyuuga se aproximou devagar, a grama inibindo qualquer som de seus passos, e se deixou encostar no tronco, ouvindo os murmúrios dos mais velhos, atrás de si:
- Você só precisa distrair o Uchiha, não pode ser tão difícil...
- Ele não fica duro nem com uma mulher nua em sua frente... – um suspiro indignado – Talvez você seja melhor distração a ele, Hyuuga...
- Eu acho que Naruto é a distração perfeita... – Hinata se intrometeu.
A garota teve que segurar o riso ao ver ambos pularem de susto e a encararem. Acenou um tchau animado para eles e voltou para seu percurso ao auditório.
Não precisava ser clarividente para saber que algo estava acontecendo entre o Sasuke e o Naruto, embora estivessem agindo normalmente, isso é, se ignorar a possessão excessiva do moreno. E só isso já os entregava, ao menos aos amigos:
- É bom eu dar um toque ao Sasuke sobre aqueles dois... – murmurou – Os Kyuubis parecem exercer alguma obsessão no fim das contas...
Chegou ao auditório a tempo de ver os famosos fantasmas correndo atrás de um Uchiha irritado. Riu com a cena e, aproveitando que estavam vindo em sua direção, puxou o mais velho para si:
- Preciso dar uma palavrinha com ele, meninos... - deu uma piscada para o louro - Depois podem voltar a assombrá-lo!
O Uzumaki observou a amiga se afastando, arrastando atrás de si um moreno indignado. Coçou a cabeça confuso, quando foi que Hinata se tornara tão intimidante? Percebeu que os amigos compartilhavam sua dúvida, pois Kiba estava de boca aberta, coloca aberta nisso, enquanto Gaara apenas mantinha uma sobrancelha erguida. Ouviu a voz de Sasori os chamando de algum lugar e correu para lá, seria o último ensaio antes da apresentação, então precisavam estar 100% prontos:
- Cadê o Sasuke? - indagou o professor.
- Foi sequestrado pela Hyuuga, sensei! - Kiba ainda estava boquiaberto.
- Bom, arrumem-se enquanto eles não voltam...
Quando voltaram da sala de figurinos, o Sabaku transmitia um ar de Morte, envolto pela capa negra, o capuz cobrindo completamente seu rosto. O Fantasma dos Natais Futuros mostrava seu esplendor. Atrás de si vinha o Inuzuka, contente com a atenção que recebia das garotas, o manto verde caindo solto em seu corpo, deixando parte do peito descoberto, a coroa na cabeça e a bainha antiga na cintura apenas aumentavam o ar seduzente ao seu redor. O Fantasma dos Natais Presentes com certeza superava o futuro. Porém foi Naruto quem atraiu todos os olhares quando saiu da sala, a túnica florida moldava seu corpo perfeitamente, a cintura envolta por uma faixa dourada. Carregava, em uma das mãos, um ramo de azevinho e na outra, um chapéu, enquanto na cabeça, um feixe de luz iluminava-o completamente. Pois tudo começa com o Fantasma dos Natais Passados:
- Woow! - Kiba exclamou - Assim não assombra ninguém, Uzumaki!
- Concordo, Kiba-kun... - uma voz feminina.
Os garotos olharam para trás, deparando-se com Hinata, que os observava dos pés a cabeça, avaliando o figurino de todos. O Uchiha mantinha seus olhos presos no louro, pensamentos nada decentes passavam por sua mente com aquela visão divina e, parecendo perceber o olhar desejoso, Naruto ruborizou violentamente:
- Já que estão todos aqui, ao ensaio! - o Akasuna surgira do nada.
Caiu esgotado na grama, o dia havia sido cansativo e a pressão em cima de todos era visível. O entardecer coloria o céu de alaranjado, algumas manchas rosas também eram visíveis enquanto, bem ameno, o azul sépia ainda podia ser observado. Sorriu ao ver um bando de pássaros passar acima de si:
- A última vez que te vi assim, fosse para a enfermaria... - uma voz soou distante.
- A última vez que estive assim, você me roubou um beijo... - riu.
Virou a cabeça, observando o garoto deitado ao seu lado, ele sorria de leve, talvez recordando de algo. Levou sua mão até a do moreno, entrelaçando os dedos. Seu olhar se desviou para seu dedo, o anel de ouro branco, que ganhara há uma semana, brilhava aos últimos raios de sol. Sasuke, definitivamente, não conseguia ser simples:
- Seus pais virão semana que vem? - sua atenção fora chamada.
- Hai!
- Hm...
- Não se preocupe, teme... - deitou no peito do maior - Kaa-san só irá tentar te matar...
Sentiu o peito do namorado se mexer enquanto o mesmo ria, o riso verdadeiro do Uchiha era suave, muito diferente da gargalhada que dava quando estava nervoso ou sendo irônico. Embora, tivesse que admitir que qualquer ação combinava com a personalidade difícil dele.
O afago em seus cabelos o fez fechar os olhos sonolento, o perfume do moreno sempre fora um belo sonífero para si. No entanto, algo em seu peito se comprimiu, a sensação de que algo ruim os esperava era nítida. Acima de ambos, a brisa de fim de tarde soprou as folhas restantes do inverno.
