Próximo à grade, Hyoga começava a sentir-se angustiado com a situação. Ájax explicava-lhe que não havia mais livros de homofalcos que ele pudesse ler para passar o tempo. Sem poder dizer abertamente, quase protestava, 'Não é você que precisa ficar enjaulado o dia todo sem poder fazer nada'.

"Desculpe, mas realmente você já leu todos. Nós não somos um povo muito vasto, como pode ver. Não temos como oferecer a você uma cultura tão vasta quanto Atenas, Hyoga."

"Mas se já é insuportável ficar aqui com os livros, imagine sem eles. Vou morrer de tédio antes que esse cristal fique azul..."

"A culpa foi sua por ter vindo até aqui."

"Eu realmente não entendo. Juro que não quero fazer mal algum... Mas já que é assim, preciso ter algo para passar o tempo."

"Desculpe. Fiz tudo que podia por você."

Observando o último livro homofalco que ia embora nas mãos de Ájax, ocorreu a Hyoga o último passatempo que restara a ele. Apoiou-se na grade, chamando-o de volta.

"Espere, eu tenho uma idéia."

"Quer reler mais algum livro?"

"Já li cada um quatro vezes. Mas já que não posso ter mais literatura, posso produzir literatura?"

"Escrever um livro, você diz?"

"Sim."

Ájax considerou a idéia tranqüilamente. Se Hyoga escrevesse algum material perigoso, bastava queimá-lo e deixar tudo no zero. Sorriu e fitou-o com satisfação.

"Está bem. Vou mandar que tragam um caderno e tinta. Divirta-se."

Partindo com o homofalco que era seu braço direito, Ájax deixou Hyoga na prisão, que já se tornara o mundo do rapaz nos últimos meses. Conhecia cada rachadura e mancha como se olhasse para o próprio rosto. Mesmo tocando no cristal a cada cinco dias, sempre recebia a mesma resposta: um brilho vermelho como o sangue. Mantendo a sua palavra, Hyoga permanecera na prisão comportado, mas começava a perguntar-se se sairia de lá um dia. Até mesmo Charis acostumara-se com sua presença naquele local e cumprimentava-o freqüentemente.

Geralmente Hyoga ficava se exercitando no meio do cômodo ou lendo um livro na cama. Chegara a consertar a mesa da prisão quando um dos pés rachou. Mas nem pensava em fugir. Ocultara o seu cosmos, não só porque queria ocultar o seu título de cavaleiro, como também porque desobedecera a Athena ao invadir o território dos homofalcos e porque outros cavaleiros poderiam vir à sua procura.

Considerava aquela uma provação a superar com paciência e boa vontade. Provar que sua palavra era verdadeira tornara-se uma questão de honra e de caráter para ele. Manter a palavra por um curto espaço de tempo era fácil. Difícil era manter por meses, até anos. Sua persistência seria uma prova a Charis de que também havia homens bons no mundo dos humanos.

Ao receber os cadernos com tinta, sentiu-se livre novamente. Apesar de encontrar-se num espaço fechado de poucos metros quadrados, possuía um mundo ao seu dispor nas páginas do caderno. Escrevia com entusiasmo quando Charis parou à porta, curiosa.

"O que está fazendo?"

Hyoga sorriu e levantou-se, deixando o caderno sobre a cama. A essa altura, o homofalco responsável permitia que ele se aproximasse um pouco da garota, mas não o suficiente para que tivessem contato físico.

"Resolvi contribuir com a literatura homofalca escrevendo um livro."

"Sobre o quê?"

"Ainda não posso falar. Vou deixar que leiam quando terminar."

"Então pode ser que eu espere por muito tempo."

"Talvez... Não sei dizer. Já faz tanto tempo que estou aqui que não agüento mais olhar pro teto. Não que eu queira reclamar. Vocês me tratam bem, dão tudo que preciso, mas... Ficar o dia todo sem fazer nada deixa-me meio doente."

"Então por que não foge?"

"Nem pensar. Preferia morrer. Quebrar uma promessa é muito sério, não é? Não sei por que minha partida pode causar problemas a vocês, mas... Se aquele cristal nunca errou em toda a história dos homofalcos... Não é agora que vai começar a errar."

"Você é estranho."

Entristecida, Charis partiu, deixando-o sozinho. O tempo não só enfraquecia a promessa, como a esperança também. Com a mesma pergunta em mente, Hyoga voltou-se à escrita. Por que o cristal sempre ficava vermelho para ele se não desejava qualquer mal?