Caleidoscópio
Parte 12 – Despertando Para Uma Nova Vida


—Ele teve convulsão e parada cardíaca! Aquela maldita poção o envenenou! Como o senhor permitiu isso, Prof Dumbledore?! – perguntava com grande exasperação a medibruxa de Hogwarts, Madame Pomfrey.

Alvo Dumbledore olhava com preocupação e tristeza o Mestre de Poções que jazia moribundo sobre sua cama de dossel, recoberto com uma grossa colcha escura.

—O que poderíamos ter feito, Papoula? Severus não é nenhuma criança tola. É um homem muito vivido e experiente. Ele sabia dos riscos...

—Todos nós sabíamos, professor! O que pergunto é por que o apoiou nessa loucura? Eu deveria tê-lo sedado e mantido encarcerado na minha enfermaria!

Alvo aproximou-se de Madame Pomfrey, lhe passando o braço por sobre os ombros, dando-lhe conforto. A mulher estava muito nervosa com a situação e por pouco não se desmanchava em lágrimas.

—Tudo ficará bem, minha querida medibruxa... foi apenas um susto, não se culpe por algo que não poderia controlar. Falando assim, até parece que você não conhece a tenacidade do nosso caro amigo.

—Eu diria que é uma tenacidade que gera belos frutos, Alvo... – McGonagall adentrava o quarto de Snape tentando disfarçar um sorriso, com um pergaminho branco em mãos, alcançando-o ao Diretor.

—Acabamos de receber uma notícia maravilhosa de St Mungus! A nossa Hermione, ela está de volta! A nossa Hermione despertou, Alvo!

Dumbledore pegou a carta das mãos de McGonagall e postou-se a ler com Pomfrey em seu encalço. A cada linha escrita pelo medibruxo Terry Boot que lia, o sorriso na face de ambos se alargava ainda mais. Ao final, o Diretor soltou uma calorosa risada, aproximando-se da cama de Snape.

Deu uma seqüência de tapas no ombro do homem que ali jazia, rindo sem parar.

—Ouviu essa, meu caro? A nossa menina está de volta! A SUA Hermione está VIVA e bem novamente! Você conseguiu, meu rapaz! Você conseguiu!

Pomfrey segurou com força o braço de Dumbledore, afastando-o do leito de Snape, antes que ele matasse de vez o pobre coitado com tantos tapinhas entusiasmados no ombro!

—Controle-se, homem! Snape precisa de tranqüilidade!

—Ele precisa é acordar logo, isso sim! Pomfrey limpe todo o veneno no sangue do nosso rapaz e faça-o ficar em pé o quanto antes! Precisamos comemorar! O ano letivo começará com uma grande festa!

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Sentada sobre o leito e recostada em dois travesseiros, Hermione saboreava o seu desjejum lentamente enquanto lia com muita atenção um grande relatório que lhe foi passado por Terry Boot.

Hermione fechou a pasta com o relatório e colocou-a ao seu lado na cama, fechando os olhos e respirando profundamente. Na capa apenas duas palavras em latim indicavam do que se tratava: Crucius Kedrava.

—Que horror! Como eu sobrevivi a isso?

Abriu os olhos ao perceber que alguém se aproximava de seu leito. Viu a sombra já conhecida pela cortina alva e fina que cobria seu espaço.

—Bom dia, senhorita! Como se sente? – Terry adentrava o espaço do leito, com um belo sorriso no rosto que conseguiu arrancar o esboço de um sorriso de Hermione.

—Bem, eu acho... quer dizer, incrivelmente perfeita para alguém que sofreu a Crucius Kedrava.

Terry inclinou-se sobre a cama de Hermione e pegou a pasta do relatório que ela havia deixado ao seu lado, a olhando com certa reprovação.

—Você não deveria estar lendo isso agora, na hora do café. Veja só, você quase não comeu... – o medibruxo apontava para a bandeja sobre o colo da moça.

—Ah, mas ainda não terminei.. só estava muito entretida com a leitura.

—Você não mudou nada mesmo, Hermione...

—Não sei como você pode se lembrar tão bem assim de mim...

Terry levou a mão à testa de Hermione, afastando alguns fios de cabelo que caiam sobre o rosto. A moça apenas o observava com curiosidade.

—Isso é algo que gostaria muito de conversar contigo, mas fora daqui desse hospital... infelizmente tenho outros internos para atender e todos são muito menos agradáveis que você, mas voltarei mais tarde.

O rapaz fechava a cortina atrás de si, mas antes deixava para Hermione um último sorriso e outra recomendação.

—Você precisa ainda restabelecer suas forças, então tente comer todo o seu desjejum. Assim que acabar é só chamar algum enfermeiro que ele levará a bandeja. E descanse, para conversarmos mais tarde, ok?

—Claro... obrigado.

Após ver que o medibruxo já havia se distanciado de seu leito, Hermione fecha os olhos, dando um longo suspiro de enfado. Ela estava de volta a este mundo, ao mundo que ela abdicou há tantos anos, e isso não a agradava nem um pouco. Quando tomou essa decisão, esperava nunca mais ver um objeto mágico a sua frente, ouvir um feitiço qualquer ou mesmo ver um bruxo de novo... mas ela estava ali, novamente...

Achou por bem esquecer esses pensamentos por ora e voltar ao seu café da manhã, que realmente estava muito saboroso, contrariando o conceito de que comida de hospital é ruim.

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Caminhando pelos corredores do hospital, Terry retirava do bolso de seu jaleco branco um pergaminho que foi endereçado a ele, enviado por Alvo Dumbledore. Na carta era dito o mau que havia acometido o Prof Snape e que este se encontrava em recuperação na própria enfermaria de Hogwarts, sob os cuidados de Madame Pomfrey.

Suspirou profundamente e guardou o pergaminho no bolso, onde antes estava. Com essa carta, suas suspeitas foram confirmadas, de que Snape havia se utilizado de algum meio em magia negra para trazer Hermione de volta à vida. Dois dias já haviam se passado, então.

—Será que irei perdê-la pela segunda vez? Na primeira para Potter e agora... Snape se sacrificou por ela.. eu não tenho argumentos para lutar contra isso.

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Snape caminhava lentamente e apoiado por uma bengala pelo jardim de Hogwarts, indo em direção ao lago. Em sua mão esquerda pendia-se um pedaço de pergaminho branco e em seu rosto um sorriso faceiro.

Ao chegar perto do lago, com um pouco de dificuldade, senta-se sobre o gramado salpicado de minúsculas flores amarelas e algumas pedras que pareciam brotar do chão. Pousando a bengala ao seu lado, torna a reler a carta que tanta alegria lhe trouxe, a ponto de fazê-lo sair daquela cama e daquele quarto escuro e frio nas masmorras.

Há uma semana de recomeçar as aulas em Hogwarts, o dia brindava aqueles que ali aproveitavam ao ar livre com um belo sol quente e céu azul que se desmanchava em degrade com nuvens tão leves como plumas. O Verão começava a se despedir daquele ano e a vegetação já começava a se preparar para receber o Outono.

—E então, filho.. com se sente?

Dumbledore acabava de chegar e parava às costas de Snape que, como sempre, não conseguiu pressentir a aproximação daquele bruxo fabuloso. Olhou para o Diretor por sobre os ombros, mas sequer foi preciso responder com palavras, pois seu raro sorriso já fazia isso por si.

—Vejo que está muito bem, muito bem mesmo... mais alguns dias e estará novinho em folha, não é Severus?

O velho professor ajeitava-se ao lado de Snape, sentando-se ereto e apoiando os braços sobre os joelhos, contemplando o brilho difuso do sol sobre a água do lago. Ao longe, as copas das árvores farfalhavam numa gostosa dança ritmada pelo vento fresco e suave que ali soprava.

—Eu sabia que valeria a pena, professor... sabia que valia arriscar tudo por ela. Hermione está de volta, Alvo! Só não sabia que eu sobreviveria a essa louca experiência.

—Durante todo o processo, você acreditou veemente que morreria, Severus?

—Claro que sim... eu devo ser um vaso muito ruim de péssimo mesmo. Caio e não quebro nunca!

—Então seja sempre esse vaso ruim, meu filho! E fique logo cem por cento para ir visitar a sua querida Hermione.

—É o que pretendo, Alvo...

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Mais três dias se passaram e finalmente Hermione receberia alta daquele hospital onde esteve internada durante duas semanas. Minerva McGonagall se encarregaria de buscá-la em St Mungus, mas haveria de ter outras visitas inesperadas.

Alguns dias antes, McGonagall havia providenciado uma pequena mala com algumas roupas e acessórios para Hermione, para quando ela saísse de St Mungus. Ela terminava de se arrumar no toalete para uso dos pacientes e dava um último retoque em seus belos e volumosos cachos que pendiam acima dos ombros.

Uma última avaliação para ver se estava tudo em ordem. Estava trajando um conjunto social preto básico, de blazer e calça que ia ainda abaixo dos tornozelos, caindo displicentemente sobre os sapatos de salto de bico fino que calçava. Por baixo, ia uma camisa branca de gola em bico longo que caía por cima do blazer, fazendo um belo e elegante contraste.

De certa forma estava feliz por poder sair daquele hospital. Não apenas aquele ambiente todo branco e asséptico lhe davam mal estar, mas principalmente a presença tão palpável da magia.

Havia decidido há muitos anos se abster da magia e não seria por causa de um maldito incidente que a faria voltar atrás... claro, tinha todos aqueles bruxos e bruxas que cuidaram tão bem dela, mas mesmo assim não pretendia se relacionar novamente com a magia e com o mundo mágico.

Também estava muito feliz por saber que havia pessoas que se importavam com ela e, ao menos, não cogitava virar-lhes as costas desta vez. Era adulta e equilibrada o suficiente para não misturar as coisas. Poderia manter algum contato com aquelas pessoas, assim como fez com a Profª Minerva, mas, assim como foi com a sua antiga professora, não toleraria a mistura da amizade com a magia, pelo menos não na sua vida.

O que lhe aconteceu já era mais que suficiente para reforçar o seu ódio pelo mundo mágico. Ser atacada em plena Londres no horário de rush por uma maldição horrenda como aquela era demais da conta. Gostaria que jamais voltasse a ver um bruxo depois disso, mas, pelo jeito, isso não seria possível, ao menos tão para logo. Afinal, antes de serem bruxos, aquelas pessoas que a ajudaram de uma forma ou de outra, eram gente... e eram indivíduos maravilhosos, cada qual a seu jeito.

Estava impecável. Básico e elegante. Guardou seu pente e a nécessaire com maquiagem e perfume na valise que fora trazida por McGonagall. Suspirou fundo e saiu do toalete. Encontraria Minerva na sala de espera e poderia ir embora dali pedindo aos céus para jamais retornar àquele hospital.

Encontrou Terry Boot que a esperava no saguão que dava acesso às demais dependências para uso dos pacientes. O rapaz era muito bonito e simpático e sempre tinha um sorriso convidativo, impossível de não ser retribuído.

—Você está ótima, Hermione! Em todos os sentidos.

—Oh, obrigado... mas espero, sinceramente, não vir a St Mungus nunca mais em minha vida.

—Concordo, já que podemos marcar um encontro em qualquer lugar mais agradável que um hospital...

Hermione apenas sorriu, evitando dar qualquer resposta. Era inteligente o suficiente para já ter percebido as intenções de Terry, que por acaso havia deixado isso bem claro, porém indiretamente. Mas tinha a sua convicção de manter-se afastada do mundo mágico e um romance com um bruxo estava definitivamente descartada. E boca fechada não causa mágoas.

—Como sei sobre a sua aversão ao mundo bruxo, sei também que não poderemos trocar corujas, mas.. gostaria de ter o número do seu telefone... e aí, pode ser?

A moça esboçou um sorriso, arqueando as sobrancelhas em descrença. Tudo bem, daria o número do telefone, mas duvidava muito que o medibruxo a sua frente saberia o que fazer com ele.

Abriu a valise e retirou dela uma caderneta em capa de metal escovado e uma caneta tinteiro. Rabiscou duas seqüências de números e entregou o papel, mas sem conseguir esconder um olhar cético e cínico de sua parte.

Terry recebeu o papel muito sorridente e enquanto decorava os números, Hermione se adiantava em direção à sala de espera. Já havia ficado tempo demais dentro daquele hospital cheirando a magia em todos os cantos.

—Ah, e obrigada por me passar o número de seu celular também, Srta Granger. Caso você tenha por hábito acessar a Internet através de conexão dial-up, seria mais difícil encontrá-la pelo telefone residencial, não é mesmo?

Terry mantinha um sorriso sarcástico, pois percebera que Hermione desdenhou de seus conhecimentos sobre o mundo não-mágico. A moça virou-se surpresa com as palavras do rapaz, corando em seguida e desviando o olhar para um ponto qualquer do chão. Mantinha o sorriso de alguém que cometeu uma gafe.

—É, acho que o subestimei...

—O mundo mágico mudou, Hermione... alguns de nós já não são tão alienados assim em relação à outra porção humana deste planeta.

Passada a surpresa, Hermione firmou o sorriso para Terry, mas desta vez de contentamento. Um sorriso que continha uma pequena dose de admiração. Certamente que o mundo bruxo havia mudado e talvez fosse interessante comprovar "certas" mudanças.


Fim do 12º Capítulo – continua...
By Snake Eyes – 2004


Agradecendo aos Reviews v:

Os reviews que aqui estão já foram respondidos na primeira edição de Caleidoscópio e os novos foram quase todos respondidos pessoalmente, então fica apenas o agradecimentos a todos pelas mensagens e pela paciência de ler isso aqui!

Valeu, Lilibeth!!

Valeu, Maki!!

Valeu, Shadow Maid!!

Valeu, Leonel!!

Valeu, Avoada!!

Valeu, Ainsley Haynes!!

Espero que vcs continuem a apreciar esta fic, embora ainda vá levar mais algum tempo até termos novos episódios.

Vou ficar off por tempo indeterminado. No dia 30/08 meu Ego Titular se mudará para uma nova residência e isso significa ficar sem net por algum tempo... e o que é pior, isso significa férias forçadas para Snake Eye's, uma vez que ele só exite no mundo virtual.... ou quase. Nesse meio tempo, se meu Senhor assim me permitir, irei fazendo o update das 3 fics pendentes e espero voltar logo com novidades.

Até lá vcs podem se distraindo com a minha dolorosa ausência brincando com o meu site novo. É só acessar www.iespana.es/snake-eyes e ver o que preparei para vcs além das fics. Tem até fórum para vcs postarem suas mensagens e idéias

E tb faço parte da comunidade do Multiply e quem quiser se juntar a minha lista de amigos, me adicione ou me envie um email para que eu faça para vc. Meu username no multiply é "snakeeyes".

E por ora é só!

Grande abraços a todos!

Snake Eye's!