Capítulo 12
"Detalhes tão pequenos de nós dois..."
James abriu a porta do quarto onde Ana-Lucia estava internada e sorriu ao ver que ela estava acordada. Seu rosto estava um pouco abatido mas ela parecia bem.
- Não vai dizer que me trouxe flores?- ela gracejou.
- Melhor!- disse ele mostrando a ela um ornitorrinco de pelúcia.
Ana-Lucia pôs-se a rir.
- Por que um ornitorrinco?
- Porque nada que tenha a ver com você pode ser chamado de convencional.- ele respondeu com um sorriso.
- È uma gracinha!- disse ela pegando o brinquedo das mãos dele e segurando-o. – Muito obrigada.
- Como se sente?- James indagou, acariciando os cabelos dela.
- Bem.- respondeu ela.
- Você me assustou muito ontem, tive que chamar o Jin para me ajudar a despistar a imprensa pra que eu pudesse te trazer ao hospital e pelo jeito conseguimos. Por que não me contou sobre o seu problema?
- O médico te contou?
- Contou sim mas só depois que eu fiz muita pressão; ele me falou até do acordo que fez com o seu empresário sobre não divulgar isso na imprensa. Lu, você devia ter me contado.
- E por que? Crises alérgicas não são nada demais.- disse ela.
- Mas choque anafilático é! Você trabalhou a tarde toda numa parte da locação que é cheia desses insetos, os quais você é alérgica e o médico disse que fazia uma semana que você não aparecia para tomar as injeções de manutenção, isso sem falar que você não deveria ingerir álcool durante o tratamento.
Ana-Lucia fez cara de zangada:
- James por favor, o fato de você ter dormido comigo não te dá o direito de me dar lição de moral.
- Ah claro e ter dormido com você não significou nada pra mim.- ele disse com os olhos tristes.
Ela ficou em silêncio, encarando-o. James tomou a mão dela na sua.
- Eu não sei o que se passa pela sua cabeça, chica, mas saiba que você é especial pra mim, de verdade.- ele fez uma pausa, em seguida continuou. – Eu escrevi naquele bilhete tudo sobre como me sentia ao seu respeito e você não disse nada.
- O que você queria que eu disesse?
- Provavelmente nada.- falou James, resignado.
- James, lá vamos nós outra vez.- Ana disse. – Você pode dizer que gosta de mim o quanto quiser, eu acredito, de verdade. Eu também gosto de você mas isso não muda o fato de que você é casado! O que fizemos foi errado, mesmo que tenha sido tão bom. Eu tenho a minha parcela de culpa nisso tudo e você também, portanto obrigada por cuidar de mim mas seja homem o bastante para assumir que você também errou.
- Eu errei!- admitiu ele. – Errei com a Emily, mas também errei com você e gostaria muito mesmo que você me perdoasse pelas coisas estúpidas que eu disse naquela noite no alojamento...
Ana-Lucia ia dizer alguma coisa sobre isso, mas naquele momento, Arthur Dawson, seu empresário entrou no quarto com ar arrogante e disse a James:
- Já está de saída, Ford? A Ana-Lucia precisa descansar.
- Estou sim.- respondeu ele. – Longe de mim pertubar o restabelecimento da Srta. Cortez.
James beijou a mão dela em um gesto carinhoso de despedida e saiu do quarto, fechando a porta. Arthur ralhou com Ana-Lucia:
- Por que não ligou pra mim quando se sentiu mal? Por que tinha de pedir a ele que a trouxesse ao hospital? Se isso sai na imprensa vai dar o que falar, sabe como são esses paparrazzis.
- Fodam-se os paparazzis!- disse ela, malcriada.
Arthur sentou na cadeira antes ocupada por James.
- Ana-Lucia, o que esse homem tem feito por você que a faz sentir-se tão ligada a ele?
- O que você não faz!- ela resmungou o ornitorrinco de pelúcia.
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No estacionamento do hospital, James encontrou Jin na picape esperando por ele, dormindo com a cara no volante.
- Jin acorda!
Assustado por ser acordado tão repentinamente, Jin soltou alguns palavrões em coreano que fizeram James rir.
- Pelo jeito agora você fala o coreano fluentemente.
- Desculpa cara, é que estou exausto.
- Vamos embora então.
- E a Lulu?
- Ela vai ficar bem.- respondeu James sem dar maiores explicações.
Jin arredou para o banco do carona. James deu a partida no carro. Jin ponderou se dizia ou não a James o que sabia, mas acabou optando por contar a ele:
- James.
- O quê?
- Eu sei sobre você e a Ana-Lucia.
- Sabe o quê?- James parou o carro abruptamente.
- Sei que estão tendo um caso.
- Não estamos tendo um caso.- disse James, balançando a cabeça negativamente. – Nós apenas ficamos juntos uma vez, mas acabou.
- Tem certeza que acabou?
- Yeah! Somos apenas amigos.
- Sei não James, pelo jeito as coisas estão só começando.
- Ah. Não fala besteira!- reclamou James ligando o carro novamente.
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Era noite de exibição do episódio "O que Ella fez" da segunda temporada, e o elenco inteiro estava reunido no alojamento para assistir a mais um dos flashbacks de Ella a personagem de Katherine Austen e dessa vez teriam direito até a uma cena romântica entre Jonas, o personagem de Jack e Ella. Sayid e Michael provocavam Jack a respeito disso:
- Qual é Jack? Ela saiu correndo.- dizia Michael. – O bafo do Jonas devido à falta do uso de uma escova de dentes há mais de um mês na ilha deve ter provocado isso.
- Sei não, acho que o Jonas não soube beijá-la direito, não deixou ela com tesão!- completou Sayid.
Kate morria de rir junto com Charlie, Sun, Jin , Locke, James e Emily.
- O Jonas é um cara sexy não é verdade, Sun?- disse Kate.
- Ah sim, muito sexy.- concordou Sun.
- Tá bom, mas por que a Ella correu?- questionou Locke.
- Porque ela ficou com medo de se envolver, ela é uma fugitiva...
- E blá, blá, blá, blá!- debochou James. – Se a coisa tivesse sido com o Sawyer, a Ella teria corrido era pra cima.
Todos caíram na risada, Emily deu um tapinha no ombro de James, fingindo estar com ciúmes. Libby apareceu na sala nesse momento.
- E então? Já vai começar o episódio, onde estão o Hugo, Eko, Claire e a Lulu?- perguntou Kate.
- O Hugo foi comprar petiscos pra nós- respondeu Michael.
- Tinha que ser.- comentou Jack.
- A Claire tá no banho, o Eko está ao telefone mas já vem e a Lu disse disse que não vai descer.
- Como não vai descer?- reclamou Kate.
- Ela disse que está indisposta.- disse Libby, dando de ombros.
- Eu vou lá falar com ela!- falou Kate.
Hugo chegou na sala, carregado de guloseimas e cerveja.
- Aí dudes, quem quer?
- Eu!- falou Charlie, pegando um saquinho de batatas enquanto Jack e Sayid pegavam cervejas.
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Em seu quarto, Ana-Lucia penteava os cabelos na frente do espelho quando Katherine bateu em sua porta.
- Pode entrar!
- Analulu, por que não vai descer?- indagou Kate quando abriu a porta.
- Desculpa Kate, eu estou um pouco indisposta hoje, tpm, sabe como é!
- Ah, isso não é desculpa pra não assistir meu episódio. Anda, desce, fica um pouco com a gente lá embaixo, por favor.
- O James está aqui?- Ana perguntou.
- O James?- estranhou Kate erguendo a sobrancelha. – Está sim, com a Emily.
- Ok.- respondeuAna-Lucia. – Eu vou descer, me dê só dois minutos.
- Ta legal. Te espero lá embaixo.
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Minutos depois ela desceu, o episódio já estava começando e todos já tinham se acomodado em seus lugares. Ela tomou uma poltrona ao lado de Libby e Claire e pediu uma cerveja a Hugo. James ficou inquieto com a presença dela, mas limitou-se a cumprimentá-la com um sorriso educado.
Ana-Lucia estava mesmo indisposta, mas ao saber que James estava lá no alojamento acompanhado de Emily, escolheu a roupa mais provocante que tinha no guarda-roupa, calça jeans muito justa, uma blusa preta trançada nas costas, cheia de detalhes e botas de cano alto por cima da bainha da calça jeans parte rasgada no joelho direito. Por fim deixou os cabelos soltos.
- Ta arrasando, hein?- Sayid elogiou, Ana-Lucia apenas sorriu.
O episódio começou e todo mundo falava mais do que assistia, cada um encarnando na performance do outro. Na hora da tal cena do beijo, o escracho foi geral e Jack não agüentava mais tanta gozação. Até Charlie foi avacalhado quando começaram a dizer que se o Dwight, personagem dele quisesse beijar a Ella teria de dar heroína pra ela. Ao longo da exibição do episódio, Ana-Lucia tomava uma cerveja atrás da outra. James estava se sentindo extremamente desconfortável ali, ele não queria ter trazido Emily para assistir ao espisódio com seus colegas, mas naquela noite em particular ela fizera questão de acompanhá-lo.
Ana-Lucia estava morrendo de ciúmes de James, sabia que não deveria haver razão para isso, mas não conseguia evitar e estava irritada consigo mesma por causa disso. Num dado momento, quase no fim do episódio, Emily sentou no colo de James e começou a dar salgadinhos na boca dele enquanto o beijava. Aquilo levou o ciúme de Ana-Lucia ao limite e de repente, ela anunciou:
- Gente, vou indo nessa!
- Já vai dormir?- perguntou Kate. – Ainda tá cedo.
- Não, eu vou pra night.- respondeu Ana.
- Pra night?- indagou Claire.- Mas você não disse que estava indisposta?
- Ah, mas a minha indisposição já passou, eu me sinto ótima. Cerveja cura tudo, amiga. Vou sair por aí, tomar todas e ficar com todos.
Sayid começou a rir mas comentou baixinho com Jack:
- A Analulu está um pouco bêbada, passou da conta na cerveja hoje.
- Lu, talvez você devesse ir se deitar um pouco.- sugeriu Kate.
- Deitar? Qual é Katherine? Descansar é pra defunto, eu vou é pra balada! Vamo Libby?
- Vamos sim.- concordou Libby, cochichando em seguida para Eko: – É melhor eu ir com ela, passou um pouco da conta na bebida e pode ser perigoso ela sair por aí dirigindo sozinha.
Eko concordou. James não se pronunciou, mas por dentro estava se sentindo péssimo. Ele também não queria que ela fosse embora assim, mas não podia fazer nada no momento. Não com Emly grudada em seus pescoço o tempo todo. Ele nem entendia o por quê dela estar se portando assim naquela noite quando não era típico dela ser a esposa grudenta.
- Eu já vou, tchau pessoal!- gritou Ana-Lucia, muito bêbada. – Tchau Emily!
Emily acenou pra ela e disse:
- Divirta-se, garota!
Ana-Lucia então olhou para James e disse com os olhos visivelmente tristes, o que deixou Emily um pouco intrigada. – Tchau, James.
Libby a acompanhou para o estacionamento e as duas pegaram seus carros.
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Trilha sonora: Lonely is the night/Air Supply.
A música começou a tocar no rádio do carro e Ana-Lucia colocou o volume no máximo. Era uma antiga canção do Air Supply que falava de solidão. Ela nunca fora do tipo que ligava para relacionamentos passageiros mas naquela noite em especial sentia necessidade de sofrer por amor; não que nunca tivesse passado por isso antes mas era sempre difícil, mais difícil ainda desde que ficara famosa.
Costumava deixar a vida lhe levar, aceitava as coisas como elas aconteciam e nunca se arrependera disso até aquela noite. Com tantos homens interessantes e atraentes no mundo por que ela fora se interessar justo por James Ford, seu colega de trabalho e ainda por cima casado? Não importava o quão gentil e carinhoso ele fosse com ela, jamais deixaria a esposa para embarcar num relacionamento sério com ela.
Deu um murro no volante depois te tal pensamento, reprovando a si mesma. O que estava pensando? Ela não queria que James deixasse a esposa, não queria um relacionamento sério com ele, aquilo seria loucura, era uma mulher livre, famosa e independente, poderia fazer qualquer coisa que quisesse.
Pegou a garrafa de cerveja que trouxera consigo, que estava apoiada na marcha do carro e deu mais uma golada. Havia combinado de encontrar Libby em uma das boates mais badaladas do Havaí. Escolhera porém, o caminho mais longo para chegar até lá, queria dirigir, curtir sua dor de cotovelo.
- "Now I'm so lost, without you (Agora estou tão perdida sem você), Now you're not here, and now I know (Agora você não está aqui e agora eu sei), Lonely is the night when I'm not with you (Solitária é a noite quando não estou com você)...- cantarolou Ana-Lucia, bem alto junto com o rádio. Estava completamente embriagada e lágrimas começavam a escorrer de seus olhos escuros.
Imaginava por que as coisas tinham que ser assim, por que sempre fazia tudo errado? Lembrou-se de quando tinha 17 anos e a mãe a pegou dormindo com um sujeito qualquer em seu quarto, garrafas de cerveja espalhadas pelo chão, cheiro de cigarro impregnando o ar. A mãe gritara com ela, as palavras ditas naquele dia nunca esquecidas:
- Ana-Lucia, por que você sempre faz tudo errado? Por que faz tanto mal a si mesma?
- È Ana-Lucia, por que você faz isso? Bitch!- xingou a si mesma e acelerou o carro, de 100 passou para 120 km.
A música continuava a tocar, atordoando-lhe a mente e o coração.
- "Never thought that I that I would need you (Nunca achei que eu fosse precisar de você) Never thought that I that I'd be missing you (Nunca achei que eu iria sentir sua falta),Gotta get you back (Preciso ter você de volta) I just got to find a way now (Eu só preciso arranjar um jeito)To let you know to let you know to let you know( De fazer você saber)…- ela continuava a cantarolar, aumentando a velocidade do carro cada vez mais. – "That I'm so lost without you..."
Ana-Lucia ia ultrapassando todos os carros que encontrava na pista, tirando fino deles. De repente, o barulho das sirenes de duas motos da polícia se sobrepuseram à melodia do Air Suply. Ana-Lucia olhou pelo espelho retrovisor ao ouvir o barulho alto das sirenes e praguejou: - Oh, fuck!
A polícia fez sinal para que ela parasse. Ana-Lucia encostou com violência o carro no acostamento e parou. Limpou o rosto cheio de lágrimas, baixou o som, abriu o vidro do carro e exibiu seu melhor sorriso para o policial que a abordou, munido com uma caderneta de anotações.
- Boa noite seu guarda! Algum problema?
- Todos, senhorita.- respondeu ele educadamente, mas com a expressão muito séria.
- E quais seriam?- ela indagou se fazendo de desentendida.
- Pois bem.- disse ele, tentando não perder a paciência, tinha percebido que Ana-Lucia estava embriagada só de olhar para ela. – A senhorita ignorou três sinais vermelhos, está correndo há mais de cem quando o limite de velocidade em Oahu é de 80 km por hora. Também desconfio que a senhorita esteja alcoolizada. Posso ver sua identidade e os documentos do carro, por favor?
Ana-Lucia franziu o cenho e disse: - O carro é alugado, estou apenas há algumas semanas no Havaí a trabalho.- ela retirou os documentos do porta-luvas e os entregou a ele.
- Ana-Lucia Cortez.- ele leu sem muito interesse. – Por que toda essa pressa Srta. Cortez? Algum compromisso importante? E por que estava bebendo ao volante?-ele questionou, observando a garrafa de cerveja que ela se esquecera de esconder.
Ana-Lucia não estava com paciência para isso, queria era que o guarda a multasse logo e a deixasse em paz.
- Será que o senhor poderia me dar logo a porra dessa multa e ir se danar!- falou com raiva, sem pensar nas conseqüências.
O guarda se aborreceu.
- Srta. Cortez, desça do carro imediatamente!
- E se eu não quiser? Vai fazer o quê? Atirar em mim?- ela revidou, malcriada.
- Não me faça pedir a terceira vez!
O outro guarda que estava parado esperando pelo parceiro era uma mulher e ao ver que o amigo estava tendo problemas desceu da moto e foi até ele.
- O que está acontecendo, Kenny?
Ana-Lucia olhou para a policial e debochou:
- Por que um homem tão bem afeiçoado quanto você está perdendo tempo me passando multa? Por que não vai dar uma curtida por aí com a sua colega?
Mais do que irritado, o homem tirou a arma do coldre a apontou para Ana-Lucia.
- Desça do carro agora mesmo!
- Acalme-se, Kenny!- pediu a policial.
Diante daquela ameaça, Ana-Lucia desceu do carro, bufando de ódio e falou:
- E agora? O que quer que eu faça? Que eu te mostre os meus seios?
A policial arregalou os olhos e segurou Ana-Lucia pelos braços, imprensando-a contra o carro: - Você está presa por desacato à autoridade.
- Desacato à autoridade, uso de linguagem obscena, por dirigir em alta velocidade e embriagada.- completou o policial.
- Ótimo, vou chamar o meu advogado.- ela gritou quando a policial algemou-a.
- Douglas, mande uma viatura, temos uma mulher embriagada e muito nervosa aqui pra levar pra delegacia.- avisou o policial Kenny pelo rádio.
Continua...
