Capítulo 11
O sol já tinha se posto. Na verdade, o céu da cidade de Los Angeles já era uma imensidão de veludo com alguns pontos de luz que conseguiam driblar a poluição e as poucas nuvens.
Edward estava sentado na frente do computador novamente. Ele tinha dito a si mesmo que precisava escrever. Todos os problemas causados por James e pelo dom que Isabella tinha de atrair problemas tinham-no afastado de seu livro. E, por mais que ele não desse a mínima para os prazos impostos pela editora, ele precisava escrever, precisava tirar mais aquela história de dentro de sua cabeça, jogá-la naquela tela de computador e, posteriormente, nas páginas de um livro. Ele simplesmente precisava se livrar dela.
Mas, é claro, não tinha sido como ele planejara. Ultimamente, nada estava saindo como ele planejava. As horas que se passaram após a curta conversa com Alice, que fizera mil e uma perguntas surgirem em sua mente, seguidas por possibilidades nada agradáveis, poderiam ser resumidas em uma única palavra: frustração.
Depois da ligação, Edward sentiu uma necessidade incontrolável de sair daquele apartamento. Ele andou sem rumo e sem se importar com isso por horas. Ele não sentia a hora passar. Quando se é um vampiro, principalmente um tão antigo quanto Edward era, isso acontece com frequência. Para os novos, o tempo é marcado pelo nascer do sol, a necessidade que isso traz de recuperar as forças e pela sede. Com o tempo, todo seu corpo voltava a ser seu de novo, o controle sobre a sede e sobre a vontade de fechar os olhos aos primeiros sinais do amanhecer voltava, e era só uma questão de persistência e coragem até adquirirem resistência aos tão incômodos raios solares.
O caos que as ruas de Los Angeles proporcionavam nunca foi tão bem-vindo. Os barulhos dos carros e das vozes quase ferindo seus ouvidos e os pensamentos alheios praticamente gritando em todos os cantos de sua mente o impediam de pensar. E pensar era a última coisa que Edward queria.
Ele só queria encontrar um confortável lugar no seu tão amado e conhecido vazio. Vazio de perguntas, vazio de ansiedade. Vazio de pensamentos e de sentimentos. Não. Não de sentimentos. Edward sempre permitia que um permanecesse e o dominasse por completo. Desejo. Desejo de sangue. Desejo de ser o vampiro cruel e indiferente que encontrava prazer ao sair para caçar e avistar uma bela humana que aceitaria ir onde quer que ele pedisse sem ao menos precisar compulsão. Desejo de se deliciar com o toque macio da pele quente, ouvindo e sentindo tudo que se passava naquele corpo vivo. Desejo de acabar com tudo isso. Desejo de sentir o sangue se espalhar, correndo por cada veia de seu corpo. Desejo de apreciar a ironia de toda a situação, a ironia de, há poucos minutos, ele ter sido o corpo frio naquela cena, e ter se tornado o corpo cheio de sangue quente.
Depois de horas caminhando sem se dar conta dos rostos que passavam por ele, Edward finalmente conseguiu fazer o que sabia fazer melhor. E não achar uma vítima. Era trancar todos os sentimentos, toda a confusão e trancá-los na sua Caixa de Pandora particular. Assim ele poderia se concentrar na segunda coisa que sabia fazer melhor. Achar uma vítima.
Uma jovem, no auge do entusiasmo dos seus 20 e poucos anos, único período no qual você não se importa em se sentar nas calçadas sujas da cidade e rir mesmo não sentido mais os pés devido ao salto alto. Ela tinha olhos tão pretos que pareciam infinitos e cabelos lisos que desciam até um pouco abaixo dos ombros. Ruivos. Completa e originalmente ruivos.
Edward não precisou se esforçar para atrair a atenção da humana para si e logo ela estava caminhando em sua direção e seguindo-o para onde quer que ele sugerisse.
Mas depois de uma noite aquecida pelo calor do sangue, que só vampiros conhecem, o dia seguinte pareceu uma eterna pausa. Uma eterna espera.
Vampiros sabem esperar. E, como acontece com todo o resto, quanto mais velhos eles são, mais sabem. Então, Edward definitivamente sabia esperar e, em alguns momentos, até gostava. Era uma virtude. Afinal, quantas pessoas tinham a paciência - e o poder - e esperarem acordados após um dia de neve para vê-la derreter com a força do Sol? Ele tinha e era uma das coisas que mais gostava. Era bonito.
Mas ele não aguentava esse tipo de espera. A espera por Alice. Alice e sua má notícia.
Ele dormira por algumas horas durante o dia, presumindo que, se algo ruim estivesse para chegar junto com aquela piccola, era melhor estar descansado. Ao acordar ainda faltando 4 horas para o Sol se por, percebeu que teria que esperar muito e começou a pensar nas inúmeras possibilidades para se distrair, sabendo que poucas delas teriam o efeito desejado. Ele se lembrou que ainda precisava terminar a reconstrução do apartamento de Isabella. Era sempre uma boa distração para sua mente caótica lembrar como Isabella detestava sua ajuda na reforma e suas reações quando ele insistia em fazê-lo. Com um pequeno sorriso curvando as pontas de seus lábios para cima, ele se dirigiu ao computador, para procurar pelo número telefone da loja de tintas.
Assim que o encontrou, pegou o aparelho que ficava ao lado do computador e discou.
Ele explicou ao atendente que queria que amostras de tintas fossem entreguem e passou o endereço de Isabella.
— Mas senhor. - Disse o rapaz, que, pela voz confusa, não deveria ter mais de 20 anos. - Você precisa vir aqui e escolher as cores.
Edward revirou os olhos, sem a mínima vontade de sair do apartamento antes de ver Alice e descobrir o que estava para acontecer.
— Faça o seguinte - ele respondeu - entregue amostras de todos os tons de azul, amarelo e marrom que você tiver.
— Mas senhor, existem vários...
— Eu não quero saber quantos tons existem. Eu só quero uma amostra de cada um deles no endereço que te passei. Você consegue fazer isso?
— Sim senhor - o rapaz respondeu sem o mínimo de convicção.
— Muito bem. Obrigado. E mande alguns pincéis também.
E antes mesmo de ouvir a resposta, Edward desligou.
Agora precisava de outra distração e pensar na expressão de espanto que tomaria o rosto de Isabella quando realizassem a entrega não o ajudaria por muito tempo. Finalmente, ele resolveu se dedicar ao seu livro, antes que Josh começasse a ligar todos os dias, a cada cinco minutos, perguntando quantas linhas ele tinha escrito.
Edward tinha que admitir: nem mesmo ele ficou satisfeito com a quantidade de linhas que havia escrito durante aquelas 4 horas. A todo segundo ele olhava pela imensa janela, mais preocupado com a mínima mudança de posição do Sol do que com as palavras que deveriam estar surgindo na tela daquele velho computador. Ele agarrara uma garrafa de uísque, que agora estava ao lado do monitor, com somente metade do líquido, que com a luz do fim do dia batendo, adquiria uma coloração levemente dourada. É claro que a bebida não fizera aflorar sua criatividade, como acontecia com alguns humanos. Ter bebido metade do uísque foi como metade de uma garrafa de água. Às vezes, ele detestava a dificuldade que um vampiro enfrentava para ficar bêbado.
Quando o ultimo raio de Sol finalmente sumiu no horizonte de prédio de Los Angeles, pintando o céu com um roxo profundo, com fracos pontinhos prateados surgindo lentamente aqui e ali, uma imagem breve fez com que Edward despertasse daquele mundo antigo com estradas feitas de terra e mulheres usando vestidos rodados e enfeitados para o qual ele tentava encontrar palavras boas o suficiente para descrevê-lo, para fazer com que lessem e enxergassem o que ele enxergava.
Foi como um flash, mais rápido que um piscar de olhos, mas o suficiente para ele ver o que precisava, para levantar e, em menos de um segundo, estar parado em frente a porta da sala de estar, girando a maçaneta. E lá estavam eles. Alice, com seu sorriso radiante, sem nem se dar ao trabalho de bater à porta, sabendo que Edward sentiria sua presença, com Jasper ao seu lado, segurando levemente sua mão, ostentando um sorriso também, mas bem mais suave e discreto que o da pequena criatura ao seu lado. Por mais nervoso que estivesse, a visão de seus dois eternos amigos fez Edward sorrir. Mas a felicidade apenas um segundo, pois no seguinte ele se lembrou da razão dos dois estarem ali. Por mais que ele quisesse, se segurou para não começar uma busca na mente dos dois sobre a razão daquela visita.
— Edward! - Alice exclamou, soltando a mão de Jasper e ficando nas pontas dos pés para passar os braços pelo pescoço de Edward, em um breve, mas caloroso abraço. - Essa camisa é muito bonita e eu vou fingir que você não é mal-educado e o fato de nos deixar parados nesse corredor é só por causa da quantidade de uísque barato que você andou ingerindo.
Ela não esperou resposta, nem qualquer outra reação de Edward, forçando caminho pela porta, rebocando Jasper, que só se deu ao trabalho de sorrir para Edward.
— O uísque não é barato. - Disse Edward, fechando a porta e se virando para os dois, que já estavam sentados no imenso sofá de couro, parecendo uma escultura de um casal estupidamente belo.
— Claro que não. - Alice respondeu, passando os olhos pelo apartamento, sem prestara mínima atenção ao que Edward falava. - Você esteve escrevendo! - Não era uma pergunta - Isso é ótimo! Mas eu realmente não entendo qual é sua obsessão por uísque. Não é como se você pudesse ficar bêbado nem nada.
— Alice... - Edward chamou, calmamente.
— Eu gostei desse tapete. É novo?
— Não, não é. Agora...
— É muito bonito, mesmo assim. E eu adoro essa vista - ela continuou falando, e se virou para a janela imensa. - Vista daqui de cima, a cidade é muito bonita. E o céu está bonito hoje, não é? Meio roxo. Eu gosto quando fica assim. Mas eu acho que você precisa de cortinas para esconder essas persianas automáticas horrí...
—Alice – Edward chamou, um pouco mais alto dessa vez, com a voz autoritária que fez a pequena parar de falar e se virar para ele no mesmo instante. – Pare de me enrolar.
— Eu não estou te enrolando. Estou conversando. As pessoas fazem isso, seu selvagem antissocial! Ainda mais depois de algum tempo sem se ver.
Alice percebeu que sua escolha de palavras foi péssima quando um sorriso torto se formou nos lábios de Edward. Ela não precisava ler a mente dele para saber que dera a deixa perfeita para o que ele queria.
— Ótimo. – Edward disse, ainda ostentando o sorriso torto ao se sentar na poltrona de frente para o sofá. – Vamos conversar então. Vamos conversar sobre por que vocês decidiram me fazer uma visita.
Por mais irritada que estivesse consigo mesma por não ter conseguido desviar o assunto, Alice logo se recompôs, armando novamente seu sorriso angelical e respondeu:
— Porque, como eu já disse, ficamos muito tempo nos ver. Além disso, nós ouvimos sobre o vampiro que estava rondando Los Angeles.
— E nem era preciso ser a Alice para saber. Estava em todos os noticiários. – Jasper completou, arrancando um sorriso satisfeito da pequena sentada ao lado dele, que balançou a cabeça afirmativamente.
O sorriso torto de Edward se transformou em um sorriso completo diante da tentativa dupla de fugir do assunto.
— E também não é preciso ser a Alice para saber que eu já cuidei disso.
— Claro que não. – a própria Alice respondeu. – Mas como parecia que você estava demorando para arrancar a cabeça do sujeito, deduzimos que você poderia estar enfrentando algum problema. Agora que está tudo resolvido, você precisa de um ombro amigo para contar como foi difícil. Ou melhor, dois ombros.
Ela sorriu abertamente ao terminar a frase e Edward retribuiu. Era o eterno jogo. Alice sempre via algo ruim e se recusava a contar a Edward até o último minuto, por isso eles ficavam nessas longas conversas, nas quais Alice tentava fingir que não sabia de nada e Edward tentava fazer com que ela caísse em contradição.
— Alice. - Disse Edward calmamente, mas foi impedido de continuar por uma Alice que falava em uma voz tão calma quanto a dele.
— Edward. Pode parar.
— Eu paro quando você disser o que você viu.
Edward podia sentir que a ansiedade transbordava por seus olhos e, por mais que quisesse, ele não podia contê-la. E, obviamente, Alice percebeu. Edward não precisou ler a mente dela para saber disso, pois no mesmo segundo que a resolução tomou conta da mente daquela pequena criatura, seus grandes olhos castanhos perderam a convicção que vinham ostentando desde o começo da conversa e foram obscurecidos por uma ansiedade muito parecida com a de Edward.
— Edward - agora até a calma voz dela continha um fundo de ansiedade. - Você sabe que, se fosse algo importante, eu contaria.
— E sei também que vocês não se dariam ao trabalho de vir até aqui se não fosse. - ele rebateu.
Eles se encararam e a tensão que pairou entre eles era quase palpável. Mas durou apenas um segundo, pois no seguinte era a vez Jasper se manifestar para tentar controlar a situação. Ele armou um sorriso amplo e debochado antes de falar.
— Edward, você a conhece. Ela só queria garantir que você está bem. E devo admitir que eu me preocupo, às vezes.
— Eu posso resolver meus problemas sozinho. Vocês dois sabem disso. Se algo é tão grande que faz vocês se preocuparem...
— Isso é grande o suficiente para nos preocupar. - Jasper interrompeu. - Essa sua mania de isolamento. Não é saudável...nem para você.
Uma pequena sucessão de eventos impediu que Edward respondesse. Primeiro, Alice virou a cabeça em direção ao telefone tão rápido que o movimento teria fugido aos olhos de qualquer humano e, no segundo seguinte, o toque estridente do telefone atraiu a atenção de Edward e Jasper.
Edward encaminhou-se rapidamente até telefone e o atendeu antes mesmo que tocasse pela segunda vez. Ao encostar o fone no ouvido, percebeu que um sorriso brincalhão e satisfeito tomava o rosto de Alice. De início, ele achou que era porque ela acabara de ganhar a discussão que estavam tendo, ou, no mínimo, conseguido uma pequena pausa para criar bons argumentos, mas quando ele disse um "Alô" seco para quem quer que fosse que estava interrompendo, o sorriso de Alice se alargou e Edward percebeu, pelo olhar daquela pequena, que ela simplesmente estava satisfeita com a causa da interrupção e não com a interrupção em si.
—Edward? – a voz suave de Bella soou do outro lado da linha.
Ele levou menos de um segundo para se recuperar do choque causado pela reação de Alice.
— O que aconteceu? – ele perguntou, com o mesmo tom seco de antes.
— Bom – uma irritação que Edward não tinha percebido de início estava presente na voz de Isabella. – Aconteceu que alguém parece ter confundido meu apartamento com um depósito de amostras de tinta e disseram que é culpa sua!
Com irritação, ele se lembrou da entrega que havia agendado.
— Eu não chamaria de culpa. É uma palavra muito pesada quando se trata de meras amostras de tinta, Isabella. Mas, sim, e comprei as tintas.
— Para que? – Bella perguntou, ainda mais irritada.
— Para você começar uma coleção. – Edward disse sarcasticamente e fez uma pausa antes de prosseguir. – Porque precisamos pintar sua sala. Porque mais?
— Mas... – a irritação havia sumido e agora a voz de Isabella parecia fraquejar.
— Mas nada. Eu chego aí em 10 minutos.
Sem esperar resposta, Edward bateu o telefone.
— Eu gosto dela. – Alice disse no mesmo instante, ainda com aquele sorriso iluminando seu rosto.
— O que você viu tem a ver com ela? – Edward retrucou.
Alice revirou os olhos e deixou o sorriso se desfazer antes de responder.
— Já que você está tão interessado nas minhas visões, vou te contar uma. No momento em que esse telefone tocou, eu vi você indo para o apartamento dessa humana. Da mesma forma que eu vi você com ela muitas vezes depois que aquele vampiro começou a atacar a cidade. – Um sorriso voltou a brincar nos lábios de Alice, mas dessa vez era um sorriso de lado, que, por alguma razão sinistra, lembrava muito o do próprio Edward.
Edward soltou uma risada que não tinha o mínimo toque de divertimento e, para reafirmar que se tratava de uma risada sarcástica, parou bruscamente, encarando Alice novamente, sem o nenhum vestígio de que estivera rindo.
— Você é hilária.
— Você também, Ed – ele franziu a testa ao ouvir o apelido que tanto detestava e que Alice fazia questão de usar. – Afinal, se bem me lembro, iscas devem morrer no final da caçada.
— Sim, elas devem. – Jasper apoiou, com um sorriso discreto nos lábios.
Edward olhou furiosamente para os dois e, em seguida, caminhou para a porta, pegando o casaco no meio do caminho. Ao chegar perto da porta, com a mão na maçaneta, ele se virou para os dois que o encaravam ainda com aqueles sorrisos irritantes nos rostos deslumbrantes.
— Bem, eu fico feliz em ver que a memória de vocês está impecável quando se trata de planos de caça. Agora, eu tenho um lugar para ir. – ao ver que Alice tomara fôlego para retrucar, Edward prosseguiu. – Se você acrescentar alguma coisa que não seja o motivo para estarem aqui, eu juro que ateio fogo em vocês dois.
O sorriso torto voltou ao rosto de Alice.
— Até no sofá? – Ela perguntou, com um tom inocente.
Edward lhe lançou um sorriso torto à altura em resposta, virando-se novamente para a porta e finalmente saindo do apartamento.
Bella estava deitada no que sobrou do seu piso de madeira da sala, colocando em dia sua leitura interrompida há tanto tempo. Depois de desligar o telefone, com uma explicação pouco satisfatória de Edward, Bella mal conseguia parar de encarar aquela pequena montanha de latinhas de tinta e o saquinho que continha alguns pincéis, mas decidiu que não poderia ficar lá sentada, apreciando as latas como se elas fossem parte de uma escultura até Edward chegar para dar uma explicação melhor e, se ela tivesse muita sorte, tirar toda aquela bagunça do meio da sua sala destruída.
O celular de Jacob não parou de tocar durante todo o dia. Eram alguns amigos que ele cultivava em Los Angeles procurando-o para marcarem alguma reunião. Depois do quarto convite, ele resolveu aceitar, perguntando à Bella se ela não queria se juntar a eles. Ela recusou, obviamente, levando em conta que alguns jogadores de futebol americano são bem parecidos com atores quando se trata de chamar atenção em festas.
A recusa dela quase fez Jacob desistir, mas ela insistiu que ele fosse e, por fim, ele acabou concordando em deixá-la em casa, na agradável companhia de um livro. Então, ela aproveitou os poucos minutos que tinha antes de Edward chegar para finalmente retomar o livro de seu autor favorito: B. Prince.
Bella simplesmente amava todas aquelas histórias que geralmente tomavam lugar na Idade Média, com todo o luxo dos castelos, das roupas e das joias. Com todo o fervor de um amor impossível e de um casal corajoso que lutava por ele. Nem o fato de que a grande maioria dos livros acabava em tragédia lhe tirava o desejo de ler o próximo; pelo contrário, isso só aumentava a vontade de saber qual seria a próxima aventura, como seria o casal que lutaria por seu romance impossível.
Como sempre acontecia quando ela estava lendo, dez minutos passaram como se fossem dez segundos, e Bella estava sendo tirada daquele mundo fascinante pela forte batida na porta bem antes do que ela gostaria.
Ela se levantou do chão, sem pressa alguma, sem se importar se ele ficaria impaciente por esperar alguns segundos além do estritamente necessário. Quando ela abriu a porta, Edward levantou as sobrancelhas para ela, como um simples reconhecimento de sua presença. Nenhuma saudação, nada de perguntar se ela estava bem.
— Bom, eu estou aqui. – Ele começou a falar, empurrando mais a porta para que pudesse passar – Vamos testar essas tintas logo para que eu possa te deixar em paz.
— Ótimo. – Bella respondeu enquanto ele se encaminhava para as latas empilhadas perto da parede.
— De quais você gostou?
Bella hesitou, olhando dele para a pilha de latas e novamente para ele. Edward deixou o silêncio durar pouco mais de um segundo antes de rolar os olhos e falar com o tom sarcástico que estava ausente até o momento.
— É óbvio que você nem se deu ao trabalho de olhá-las.
— Você só me pediu para esperar. Eu pensei que você já tivesse alguma ideia.
— Bom, minha ideia envolve tons de azul, marrom e amarelo, mas, ao que me parece, a loja tem uma vasta variedade. – Ele fez um gesto com a mão, abrangendo todas as latas. – Eu pensei que, ao perceber isso, você teria o bom senso de descartar algumas opções. Adicionando o fato de se trata da reforma do seu apartamento.
Edward se calou e soltou um longo suspiro antes de ajoelhar-se ao lado da pilha, com o tronco tão ereto que fez Bella querer bater nele, assim que esse pensamento se formou, ela quis bater em si mesma por sempre reparar naquela postura elegante que ele ostentava em qualquer circunstância. Ele começou a pegar as latas que estavam no topo da pilha e, depois de uma análise rápida do adesivo na tampa, que indicava a cor da tinta, ele as separou em outras duas pilhas, sussurrando coisas com "azul demais" ou "eles chamam isso de marrom? ". Depois de ter feito isso com algumas latas, Edward parou, encarando as pilhas.
— Será que seria muito inconveniente para você vir me ajudar a escolher a tinta para pintar o seu apartamento, Isabella?
Quando ela abriu a boca para responder, Edward olhou para cima com uma sobrancelha erguida e aquela visão paralisou Bella por completo. Aqueles olhos verdes pareciam faiscar enquanto a encaravam.
Uma parte dela gritava para que ela mantivesse o mínimo de dignidade ao caminhar até a pilha de latas para ajudá-lo, implorava que ela pelo menos andasse com passos firmes, com o queixo erguido e, o mais importante, sem corar. Mas ela não conseguiu seguir nada disso. Não sob a intensidade esmagadora que aqueles olhos verdes jogam sobre ela. Portanto, ela se sentou com as pernas cruzadas de frente para ele e pegou a primeira lata de tinta, analisando-a como ele estava fazendo e depois colocando na pilha onde todas as latas que receberam comentários negativos tinham sido postas. Era incrivelmente difícil fazer tudo isso com a mão esquerda e, quando se inclinou para pegar a quarta lata, já estava amaldiçoando mentalmente o ser humano que achava necessário criar uma variedade tão grande de tintas.
Ela pôde sentir quando Edward parou de encará-la, pois a mão que parecia estar pressionado seus pulmões, que parecia impedi-la de formular qualquer resposta insolente boa o suficiente, sumiu e a deixou soltar o ar que ela nem sabia que estava prendendo.
Minutos se passaram enquanto o silêncio fazia o ar do loft parecer pesado e os sons repetitivos das latas sendo movidas de uma pilha para outra não atenuavam essa sensação. Pelo contrário, eles a intensificavam, como pequenas pedras que são colocadas em cima de uma rocha que está a ponto de deslizar declive abaixo.
— Já chega. – Edward subitamente, levantando-se antes mesmo que Bella pudesse processar o que ele acabara de dizer.
Quando ela levantou a cabeça para encará-lo, ele já havia pegado o saquinho de pincéis e estava com uma lata de tinta nas mãos, caminhando em direção à parede onde costumava ficar a TV.
Bella presumiu que deveria fazer o mesmo e, enquanto pegava uma lata do topo da pilha, Edward já havia aberto a que levara consigo e mergulhara o pincel nela. Isabella caminhou lentamente observando os movimentos suaves que Edward realizava ao aplicar a tinta na parede. Era um tom de marrom quente, que parecia chocolate derretido. Após algumas pinceladas a cor ficou homogenia, quase igual à amostra que vinha na tampa da lata, e Edward parou, inclinando um pouco a cabeça para o lado e avaliando a cor. A essa altura, Bella já estava ao lado dele. Ela sabia que ele sentira sua aproximação, mesmo que ele não tenha se mexido nenhum centímetro para indicar isso. Ela analisou rapidamente a cor, concluindo que, apesar de achar a cor aconchegante e bonita, não gostava da idéia de vê-la em todas as paredes de sua sala.
— É bonita, mas é.…marrom demais. – ela declarou, voltando a atenção para a lata que tinha trazido consigo, era um azul bebê que beirava o branco.
Bella se abaixou para pegar um pincel no saquinho que Edward deixara no chão e, quando se endireitou, viu que Edward permanecia na mesma posição, nem mover um único músculo, sem dar indícios de que ouvira o que ela acabara de falar. Até sua respiração, Bella notou, tinha diminuído de tal forma que ela precisou observar atentamente para ter certeza de que ele não tinha virado algum tipo de estátua extremamente detalhada e perfeita.
— Edward? Você...?
— Eu gostei dessa. – Ele declarou com firmeza.
— Ok, eu também gostei, mas é...
— Marrom demais. – Ele interrompeu, ainda sem olhar para ela. – Eu escutei, Isabella. Mas eu gostei. Não é marrom demais. É.…o suficiente.
— Certo. Me dê um bom motivo para pintar toda minha sala de marrom-chocolate. – Bella pode ver Edward tomando fôlego para responder, mas, no fim, ele só soltou o ar sem dizer nada, apenas franzindo a testa para aquele pedacinho marrom na parede.
— Viu só? Você nem sabe...
Bella estava pronta para dizer o quanto era inválido ele querer que ela pintasse toda a sala de marrom chocolate sem nem ao menos poder explicar porque gostava tanto da cor, mas o ar parecer fugir de seus pulmões quando ele se virou rapidamente para ela e a olhou profundamente nos olhos.
No momento em que ele se virou, seu semblante estava suave como de costume, mas assim que seu olhar caiu sobre Bella, ele franziu a testa novamente. Eles ficaram se encarando por algum tempo que pareceu uma eternidade. Mas a parte racional de Bella tinha certeza que só se passaram meros segundos antes de Edward quebrar o silêncio sufocante que começava a se instalar na sala.
— É uma boa cor, Isabella. – Então ele se virou novamente para a pilha de latas que tinha selecionado como boas e andou lentamente até ela. – Vamos pintar pelo menos uma parede com ela. Se quiser, escolha um tom mais claro para as outras.
Edward se ajoelhou novamente ao lado da pilha de latas e começou a separar as tintas marrons, ignorando por completo a figura de Isabella que ainda estava paralisada pelo efeito daquele olhar.
Ela mal se lembrava da razão da discussão e se chutou mentalmente por se deixar levar tão facilmente.
Depois de alguns minutos discutindo sobre tons de marrom, eles concordaram que um que lembrava muito cappuccino parecia perfeito. Ou melhor, Edward conseguiu convencê-la disso com um olhar. E, a cada segundo que passava, ela se odiava mais por não ser capaz de sustentar sua opinião.
— Ótimo – exclamou Isabella. – Minha casa vai ficar parecendo uma cafeteria.
Edward soltou um riso abafado antes de retrucar:
— Uma cafeteria com muita classe, você deve admitir.
Ele já estava se levantando para aplicar a tinta escolhida ao lado da outra, para observar o efeito, quando parou por um segundo. Talvez menos de um segundo, e Bella se sentiu feliz por ter notado a pequena reação. Ele encarou a porta com uma expressão fechada antes de prosseguir com o movimento.
— O que...? – Antes que ela pudesse terminar, a porta se abriu e a resposta para a pergunta inacabada entrou na sala.
— Querida, eu voltei! – Era Jacob, que ostentava um sorriso radiante. Isso até reparar que Edward estava pintando a parede.
— Como foi com o pessoal? – Bella perguntou, tentado fingir que Edward não estava lá. E ele estava colaborando melhor do que ela esperava, mantendo-se em silêncio enquanto aplicava pinceladas precisas na parede.
— Foi ótimo. O que ele está fazendo aqui?
Antes que Bella pudesse responder, Edward o fez.
— Não parece óbvio?
— Não é um pouco tarde pra pintar a parede dos outros? – Jake perguntou.
— Ok. – Bella falou alto, quando viu que Edward se preparava para responder. – Já chega.
Para sua surpresa, Edward acatou o pedido, se contentando em lançar um sorriso torto e sarcástico na direção de Jacob. Era incrível como aqueles sorrisos dele eram tão fortes quanto qualquer palavra que ele proferia, Bella pensou. Quando se deu conta do que estava pensando, Bella balançou a cabeça, tentando dissipar essa observação mental idiota e pensando em uma boa forma para botar Edward para fora. Mas não foi necessário, já que, antes que conseguisse formar um bom argumento, Edward se antecipou novamente, largando o pincel e se endireitando naquela postura irritantemente perfeita.
— Isabella, já que você está feliz com a escolha de cores, meu trabalho acabou por hoje.
Tudo que Bella conseguiu fazer foi encará-lo com os olhos arregalados de incredulidade. Ela estava feliz com a escolha das cores? Ela não conseguia definir o que a irritava mais: se era o fato dele simplesmente proferir aquela frase depois do tempo que passaram discutindo por conta das opiniões conflitantes ou a forma convincente com que ele dizia. Ele seria capaz de fazer um ateu acreditar em milagre.
— Bom - ele prosseguiu, ao ver que ninguém diria nada - Eu vou embora. Amanhã os pintores vão aparecer, Isabella, e você terá sua sala de volta logo.
Bella continuava olhando para ele, sem poder acreditar naquela atitude pomposa. Jacob o olhava desafiadoramente, o que o fez abafar o riso. Bom, isso e o fato dos pensamentos dele estarem gritando. Mesmo a mente silenciosa de Bella não conseguia abafar aquilo. Jacob estava morrendo de ciúmes, assim como quando o vira pela primeira vez e isso transparecia na forma como ele pensava que era bom mesmo Edward sair dali. Edward, por sua vez, estava a ponto de perguntar àquela pobre criatura mortal o que faria se ele não saísse. Com certeza seria divertido vê-lo dar uma resposta petulante, que provavelmente envolveria quebrar o nariz de Edward. Ou melhor, tentar quebrar o nariz de Edward. Seria divertido vê-lo tentar. E só Deus sabia como ele precisava de um pouco de diversão perante todo aquele mistério que Alice estava fazendo.
Por algum instinto inexplicável, Bella caminhou a frente de Edward, com a intenção de abrir-lhe a porta. Bom, talvez não tão inexplicável. Talvez fosse só sua inabalável educação em ação, impedindo-a de simplesmente chutar Edward porta afora. É, talvez fosse isso e foi a esse pensamento que Bella se agarrou. Talvez.
Ela podia sentir o olhar de Jacob queimando em sua nuca e não conseguia imaginar como Edward conseguia sustentar aquele sorriso torto com um olhar que parecia maior que a artilharia de um exército em cima de si. Ela mesma mal conseguia levantar os olhos do chão.
Bella abriu a porta, e não tinha intenção nenhuma de despedir-se Edward quando ele passou por ela e saiu do apartamento. Ela sequer tinha a intenção de olhar para ele, mas não pôde evitar quando aquela voz suave e sarcástica atingiu seus ouvidos.
— Seu apartamento vai estar pronto logo. – Ele anunciou num tom de voz bem audível, mas depois diminuiu, inclinando-se para Bella, de modo que somente ela pudesse ouvir o que vinha a seguir. – Afinal, ninguém quer que seu amigo morra de ciúmes.
Foi então que Bella o olhou, tentando decidir o que continha mais sarcasmo: a palavra "amigo" ou todas as outras juntas. Ela podia sentir que seus olhos estavam arregalados pela confusão, mas não podia fazer nada para disfarçar. Nem falar ela conseguia. Só abria e fechava a boca, tentando achar simples palavras para mandá-lo embora.
E depois veio a indignação. Indignação por Edward obviamente ter bisbilhotado a mente de Jacob para saber sobre a época na qual ele sofrera com uma daqueles amores platônicos pela melhor amiga. Eles eram adolescentes e demorou cerca de um ano e meio até Jacob se convencer que aquilo tudo não passava de um amor fraternal somado a hormônios da adolescência. Mas obviamente não havia significado nada. Obviamente Jacob nem pensava mais no assunto e Edward teve que cavar fundo na mente dele para descobrir isso. Mesmo que a expressão divertida de Edward tentasse convencê-la do contrário.
— Você... – ela mal conseguia achar palavras para expressar o que sentia. Por fim, contentou-se com uma simples e inútil exigência – Pare de bisbilhotar a mente das pessoas! – Ela disse, tentando manter o tom de voz baixo.
Foi a vez de Edward arregalar os olhos devido à surpresa. Mas não demorou nem dois segundos para o sorriso torto e sarcástico voltar a tomar conta e iluminar seu rosto daquela forma maravilhosa e irritante ao mesmo tempo.
— Eu nem precisei, Isabella. Os pensamentos dele estão gritando. Eu bem que gostaria, mas é difícil não os ouvir.
Novamente, Bella foi pega de surpresa e não sabia o que dizer. Antes mesmo que ela tivesse tempo de pensar, Edward emendou.
— Bom, vou deixar você cuidar disso.
E se virou, caminhando lenta e graciosamente pelo corredor. Bella permaneceu alguns segundos observando-o se afastar em direção ao elevador, paralisada por tudo que Edward falara antes de sair. Ao perceber que estava encarando aquelas costas por tempo demais, ela balançou a cabeça, tentando recobrar um pouco de dignidade, e bateu a porta.
Assim que ela se voltou para a sala vazia do loft, Jacob disparou:
— Ele é um pouco inconveniente, você não acha?
Bella demorou alguns segundos para localizá-lo, encostado descontraidamente no balcão da cozinha com um copo de suco de laranja na mão. Ela soltou um longo suspiro, encaminhando-se para perto dele, sentando no balcão enquanto ele a observava sem pressa alguma de obter uma resposta.
— Sim, eu acho. Mas eu não tive muita opção.
— Como assim? Você não podia ter arranjado alguém que trabalhe só no horário comercial e não resolva vir pintar a parede na calada da noite?
Bella soltou um riso abafado por conta do exagero de Jake.
— Calada da noite, Jacob? Falando nisso...você voltou cedo.
— É.…eu não estava com humor para passar a noite fora. Você sabe. Mas não fuja do assunto!
— Não estou fugindo. – Ela soltou outro suspiro, tentando arranjar uma explicação para tudo aquilo. Ultimamente, Bella pensou, era o que ela mais fazia. Tentar arranjar uma explicação para todas as confusões que envolviam Edward. – Quer dizer, Edward era a opção mais barata. Você sabe que eu detesto gastar com essas coisas, mas já estava na hora de mudar.
Jacob levantou a sobrancelha a cada palavra que escutava, fazendo com que ela quase sumisse nos fios de cabelo que lhe caiam na testa, o que fez Bella querer dar um soco nele, como sempre acontecia quando ele fazia isso. Desde que eram mais jovens e Jacob tinha descoberto o poder que uma sobrancelha levantada tem, ele o usava com bastante frequência, irritando a amiga, que nunca tinha sido capaz de fazer o mesmo com tal facilidade e eficiência.
— Opção mais barata, Bella? Vestido daquele jeito? Então ele é o quê? Um gangster que brinca de decorador nas horas vagas?
— Talvez. – Bella não pôde deixar de rir tanto do tom que o amigo usava quanto com a possibilidade de Edward ser um gangster. Afinal, se levasse em conta os assassinatos a sangue frio que ele deveria cometer para sustentar sua existência, ele poderia juntar-se a alguma máfia se assim desejasse.
Não demorou muito para que Jacob caísse na gargalhada junto com ela, deixando o assunto morrer e evitando que Bella tivesse que se preocupar em inventar mais explicações.
Assim que bateu a porta do apartamento atrás de si, Edward se deparou com Alice sentada no tapete felpudo, com as pernas cruzadas e um livro nas mãos. Qualquer um que a visse juraria estar diante de uma estátua se não fosse pelo movimento rápido de seus olhos que pareciam devorar as palavras que estavam a sua frente.
Bastou uma rápida olhada para que ele soubesse de que livro se tratava, o que o fez bufar e dizer em uma voz seca e autoritária:
— Largue isso.
Um sorriso de lado brotou nos lábios dela, mas ela não desviou os olhos do livro quando respondeu.
— Eu estou gostando. Você sabe que eu não tinha lido, não é? Odeio quando você não me avisa sobre os livros.
Edward caminhou rapidamente até ela, com a intenção de tirar-lhe o livro das mãos, mas a pequena foi mais rápida que ele, desviando no último segundo e se pondo de pé.
— Alice... - ele começou, mas foi interrompido por um gesto dela.
— É muito bom, Edward. E não é um lado seu que eu não conheça. Agora - ele fechou o livro, sentando-se no sofá e pousando o livro suavemente em seu colo. - Nós precisamos conversar.
Edward levantou a sobrancelha, juntando-se a ela no sofá com um olhar desconfiado.
— Você devia parar com isso. - Ela disse, como se isso botasse fim a alguma conversa pendente.
— Você vai me fazer perguntar com o que eu deveria parar?
— Tratá-la assim.
Dessa vez, ele sabia exatamente de quem ela estava falando. E tinha quase certeza que sabia o que o 'assim' queria dizer, mas preferiu fingir que não.
— Não me olhe com essa cara, Edward! Você sabe o que eu quero dizer. Não é como se ela fosse culpada por ser parte da sua vida, então pare de tratá-la como se ela fosse algo inconveniente.
— Mas ela é inconveniente!
Alice bufou, fechando os olhos por um segundo antes de prosseguir.
— Você não entende.
— O que eu não entendo, Alice? - Edward perguntou em um tom cansado.
— Ela... - Alice fez uma pausa, tentando achar as palavras certas e, quando conseguiu, seus olhos brilharam - Ela é como eu!
— Você está brincando comigo.
— Cale a boca, Edward! Você sabe que é! Eu sou inconveniente e seu primeiro instinto quando nos conhecemos foi arrancar minha cabeça.
— Na verdade, esse foi meu instinto por meses.
— Viu só? E você poderia ter feito isso, você poderia ter se livrado de mim com a mesma facilidade que humanos se livram de uma folha de papel. Mas não o fez. Nem comigo, nem com ela. Por mais que você não assuma isso, você...
— Chega, Alice. - Edward se levantou com um movimento tão rápido que nem Alice conseguiu registrar direito.
Por um segundo, como sempre acontecia quando ele fazia coisas que a lembravam do quanto ele era mais poderoso que ela, ela sentiu uma pontada de medo. Mas foi só por um segundo.
— Mas... - ela disse, se levantando também.
— Mas nada, Alice. Jasper foi caçar?
— Não mude de assunto, Edward!
— Vamos fazer o seguinte, piccolla. Quando você me contar o que você viu, o que te levou a fazer essa longa viagem até aqui, eu deixo você tagarelar sobre o quanto eu sou malvado com a Isabella e sobre sua opinião sobre isso. Enquanto isso, levando em conta que eu prometi não ler sua mente, eu vou mudar de assunto. E você vai me responder. O Jasper foi caçar?
Alice tinha ficado estática logo que ele começara a primeira frase. O tom calmo, ameaçador e autoritário que Edward usava tinha esse efeito e a fez visualizar perfeitamente como ele devia usar esse mesmo tom para dar ordens quando era humano. Essa característica nunca se despenderia dele. Por mais que Edward tentasse sufocar cada pedacinho de sua humanidade, Alice concluiu, a autoridade e a força que ele possuía outrora nunca o abandonariam. Elas emanavam dele em cada gesto e em cada palavra.
Novamente foi preciso somente um segundo para que ela se recuperasse e fosse capaz de responder.
— Foi.
— Ótimo. Você deveria ir também. Vocês dois precisam se alimentar depois da viagem.
Enquanto Edward proferia essa sentença, uma ideia se formava na cabeça de Alice. E foi por causa dessa ideia que ela concordou sorrindo, dirigindo-se até a porta em seguida.
Ao bater a porta atrás de si, ela chegou a pensar que deveria mesmo simplesmente seguir o conselho de Edward e ir caçar e nada mais. Mas logo o pensamento se dissipou e ela se ateve á ideia de que ele gostava demais dela para tentar matá-la pelo que estava prestes a fazer. Bom, isso e o fato de que ela não via sua cabeça sendo separada do corpo em nenhum futuro próximo, mesmo após tendo tomado a decisão.
