De Agora em Diante

Capítulo 11

Squall abriu seus olhos azuis lentamente, ele se sentia tão confortável no calor da cama. O sol gentil da manhã também aquecia a sua pele e ele sentiu sua perna roçando no corpo de Irvine. A cabeça do garoto estava deitada no nível do peito de Squall, sobre o colchão, e embora parecesse estar numa posição desconfortável, ele estava dormindo muito bem.

- Hmmmm. – Irvine tocou a perna de Squall enquanto acordava. – Bom dia. – Ele sorriu daquela maneira cativante.

- Bom dia.

Irvine aranhou de leve o abdômen de Squall, fazendo-o estremecer um pouco. – Por que essa cara?

- Que cara?

- A cara de preocupação.

- Eu só tava pensando.

- Pensando no quê?

- O que eu vou fazer na minha vida.

- Ai, que pensamento profundo para uma manhã.

- Eu queria deixar ele de lado.

- Você pensa demais.

- É, eu sei.

- Então. – Irvine se espreguiçou e se sentou. – No que você pensou?

- A gente vai se formar esse ano.

- Graças a Deus! Existe um Deus afinal de contas, sim!

- Quero dizer, o que a gente vai fazer? Todo mundo vai escolher um caminho.

- Hummm... Eu não pensei nisso. Quer dizer, é, pensei... Mas eu não queria. Eu queria que a gente pudesse ficar junto.

- Mas nós não vamos.

- Bom... pensando sério nisso... Eu não sei. Eu só quero saber de festas. Mas eu preciso de dinheiro para festas.

- O Laguna me convidou para morar com ele.

- É? Legal.

- Em Esthar.

- Hmm. É onde ele mora, né?

- É...

Irvine suspirou. – E você vai? Com ele?

- Eu não sei... Pode ser.

Irvine se deitou de novo e afundou sua cabeça no travesseiro. – Você tá dizendo que agora que a gente tá junto, nós temos que nos separar?

- Eu não disse isso.

- Sim, você disse.

- Irvine...

-...

Squall acariciou o cabelo de Irvine. – Eu não acho que eu consigo deixar você agora... Na verdade, eu tava pensando... Se você vai se matricular na Garden... Eu...

- Você faria isso por mim?

- Bom... não só por você. Talvez eu queira entrar numa academia militar. Eu gosto de ordem. E uma carreira como SeeD parece ser bem promissora.

- Eles são muito bem pagos. E também ficam nos melhores lugares nos trens e restaurantes e hotéis... E eu aposto que eles entram VIP em clubes.

- É, muitas conveniências, mas também... muita responsabilidade.

- Você lida bem com isso.

- E você não.

- Ei, você tá dizendo que eu sou irresponsável?

Squall riu. – Tô.

- Eu sou muito responsável quando é um assunto sério.

- Eu sei, eu só tava brincando.

Irvine sorriu e beijou o pescoço de Squall. – Sabe, eu acho que eu tô me convencendo cada vez mais a entrar com você na Garden. Mas eu quero ser um atirador de elite... E eu acho que só a de Galbadia tem esse curso.

- É, eu acho que o Cid disse alguma coisa assim.

- Mas os primeiros anos de aula são os mesmos para todos. Então a gente podia estudar junto.

- De novo.

- E você ia fazer meu dever de casa.

-...

- Eu sei que você vai fazer... Porque... – Irvine colocou um braço ao redor da cintura de Squall. - Eu vou retribuir de outra forma. – Ele sussurrou.

xxx

Era tão boa a sensação de sentir a água escorrer por sua pele, como se ela o deixasse livre de toda a preocupação da sua mente. Era como se, por um breve momento, ele encontrasse paz. Mas como todos os momentos - os bons e os maus - acabam alguma hora, Squall saiu do chuveiro e terminou seu banho.

Ele enrolou uma toalha ao redor da sua cintura e teve esperança de não encontrar ninguém na curta distância até o seu quarto... Era realmente pedir demais. Seus olhos azuis acinzentados perceberam o olhar de alguém no corredor.

Por um momento eles permaneceram em silêncio, apenas olhando um para o outro. Os olhos castanhos percorreram a pele molhada de Squall, até pararem depois de um tempo. Então ela olhou nos olhos dele.

-... – Squall disse.

Rinoa suspirou. – Ele tem muita sorte, sabia.

- Me desculpa.

- Eu não preciso das suas desculpas. Vamos... esquecer que tudo isso aconteceu. Eu não quero sofrer para sempre por uma causa perdida. Eu mereço mais que isso.

- Você merece mesmo.

E a Rinoa olhou de relance para ele mais uma vez, antes de descer as escadas.

Squall não podia negar seu alívio, era muito incômodo vê-la. Ele entrou no seu quarto o mais rápido possível e se enxugou porém, quase derrubou a toalha no chão quando ouviu a porta se abrir, ficando tenso por um momento, até reconhecer a voz de Irvine. Ele o encarou, aliviado por... Espera... O que era aquilo? Suas pálpebras estavam vermelhas e havia uma marca roxa embaixo dos seus olhos. Seus lábios estavam vermelhos e... aquilo era delineador? Squall ficou boquiaberto pelo susto. Ele não sabia que o Irvine tinha tantas facetas escondidas.

- Não é o que você tá pensando.

Bom, Squall não podia dizer que não gostava de Irvine usando maquiagem, mas ele nunca havia visto...

- Ela me obrigou.

- Selphie?

- Ela me forçou a ser o modelo dela para as experiências macabras com maquiagem.

-...

- Irvyyyyy! Cadê você? Eu não terminei ainda!

- Me salva, homem. – Irvine abraçou Squall com força. – Me protege, meu amor. – Ele beijou o pescoço do moreno, deixando uma marca de batom sobre a pele alva.

- Aí está você!

Irvine tentou se esconder atrás de Squall, mas não ajudava o fato de ele ser mais alto que o moreno.

- Você não aprendeu a bater na porta, Selfy? – Irvine recriminou a garota.

- Eu aprendi, sim! Mas a porta estava aberta... – A garota observou a dupla. – Ah... Eu tô começando a achar que vocês ficam bem juntos.

Irvine abraçou Squall e beijou a sua têmpora, fazendo o garoto ficar vermelho de vergonha.

- Ohh... isso me faz querer passar mais maquiagem em você e no Squall e fazer vocês posarem para mim para a minha câmera.

- Vamos lá, garota!

Squall lançou um olhar frio para Irvine.

- Ahhh... Acho que não, Selphie... Eu ainda gosto mais de sexo... – Irvine falou olhando para Squall.

- Eu não me importo de ver vocês transando na minha frente.

- Eu me importo – Squall respondeu e se desvencilhou dos braços de Irvine. Ele andou até o banheiro novamente, para tentar limpar a marca vermelha no seu pescoço, e se alguém o visse...

- O que é isso no seu pescoço?

Squall teve vontade de bater sua cabeça contra a parede. Ele sentiu uma mão grande levantar a sua cabeça, fazendo-o expor seu pescoço com a marca vermelha de batom.

- Eu não sabia que você gostava de mulher, inacreditável.

Squall afastou a mão e encarou o Seifer com raiva.

- Não, fui eu. – Irvine apareceu no corredor.

Seifer olhou para ele uma vez.

Daí olhou de novo.

- .

- Ei! Para com isso!

- Ahahahahhahahahahhahah... ... Hmm... Ahahahaahahhahahahah.

- Você só tá com inveja porque eu fico melhor de maquiagem que você... e além disso... as mulheres gostam...

-... – Squall disse.

- Mas é você que eu amo, amor... Squall? – Ele viu o moreno virando e entrando no quarto de novo. – Ei, olha o que você fez! – Irvine colocou as mãos na cintura e encarou Seifer com ódio.

- Ahahahahhahahhahahhaha... Você fica tão engraçado com sua cara toda pintada.

- Eu acho que fica lindo.

Os dois garotos olharam para a direção da voz.

Eu disse isso em voz alta?

Zell sentiu seu corpo gelar. Até mesmo Squall parou seus passos para olhar para a fonte do comentário.

- Uhhhh, tá começando a ficar interessante! – Selphie observou os garotos no corredor.

- Que barulho todo é esse? – Quistis abriu a porta do seu quarto.

- O Squall tá com ciúmes do Irvine.

Quê? Eu não tô... Não, eu não estou.

- É tão fofo.

Squall quis morrer...Por que todas as atenções acabavam nele no final das contas? O que ele tinha feito de tão errado nas suas vidas passadas? Por que a sua vida era tão difícil? Por que tudo tinha que ser tão difícil para um adolescente?

xxx

Havia uma porção de inimigos à sua frente. Eles estavam todos de uniformes escuros, mas seus rostos estavam estranhamente pintados de rosa e vermelho. Sem deixar que eles o alcançassem, Zell correu pelas colinas o mais rápido que pôde. A floresta já estava na sua linha de visão e ele olhou para trás para se assegurar de que não havia ninguém o seguindo.

As primeiras árvores foram deixadas para trás e ele se encontrou no meio de um labirinto. Havia várias estátuas de homens com expressões graves nos rostos. Ele andou ao redor e andou por um longo tempo, até encontrar a saída de volta para a floresta. Ele se certificou de que ninguém estava por perto e seguiu o seu caminho.

De repente, um lago apareceu no meio da floresta, com águas púrpuras ondulando gentilmente. Ele se abaixou e tocou a superfície com a ponta dos dedos. Repentinamente, ele foi puxado para baixo da água e sentiu-se engasgar.

Estaria ele morrendo?

Ele pensou que sim. Porém, quando abriu os olhos, viu que estava no quarto que dividia com Seifer. Ele olhou ao redor, tentando achar algum sinal da presença do loiro alto, mas não achou nada. Nem mesmo a outra cama estava ali. Ele se levantou rapidamente. Onde ele estava?

Um mau pressentimento.

Ele saiu do quarto e encontrou um homem parado no corredor. Ele aparentava estar na sua meia idade e sua cabeça balançou para os lados uma porção de vezes. Logo em seguida, ele entrou no quarto.

Zell esperou ali.

E esperou.

Até que outro homem apareceu. Ele era mais novo e suas feições até que eram bonitas. Ele sorriu e ultrapassou o loiro.

Seguindo o homem, Zell se encontrou no porão. O homem pegou uma caixa e tirou um livro de dentro dela. Ele sorriu novamente para Zell e mostrou algumas medalhas em seu peito. Provavelmente ele devia ter servido ao exército.

- Ela estava bem triste.

- Quem? – Zell perguntou

- O homem falou um nome, mas o loirinho não conseguiu ouvir.

- O que você disse?

O homem repetiu o nome e franziu o cenho quando viu que Zell não conseguia entender. Então ele balançou a cabeça. – Ela estava muito triste.

- É... – Zell disse. E então assentiu com a cabeça.

- Não tem fim, sabe. Anos e séculos. É tudo em vão.

- O que é? – De repente, Zell sentiu algo macio se esfregando na sua perna. Ele olhou para baixo e viu um cachorro triste. Ele afagou a cabeça dele gentilmente, antes de olhar para o homem de novo.

- Eu salvei tantos. Eu entrei na guerra para salvar vidas, por mais estranho que pareça. Eu tinha um propósito, mas... eu matei muitos. É uma maldição.

- Eu... – Zell começou. – Eu tô sentindo dor. Me deixa sair.

- Hum... – O homem o encarou.

- Me desculpa.

- Você sabe o que fazer? Com a sua vida?

- Eu vou para a faculdade.

O homem balançou a cabeça. – Eu não posso fazer nada.

Zell percebeu que estava no quarto. Cara, que dor de cabeça, ele tinha bebido demais. No final da tarde, todos eles fizeram preparativos para um churrasco do lado de fora. Os jovens acenderam o fogo e prepararam pequenos pedaços de carne para comer. Eles levaram muitas bebidas também, e, no meio da noite, quase todo mundo estava bêbado. Em dado momento, alguém (Selphie?) teve a brilhante ideia de apostar corrida até o rio e todos acabaram ensopados. Zell deve ter sido carregado até o seu quarto, porque ele não se lembrava de caminhar até lá.

Ele olhou para o outro lado do quarto e viu a cama do Seifer ainda lá.

Decido a procurar o loiro, Zell saiu do quarto. Ele não sabia por quê, mas seus passos o levaram ao porão. Olhando para a porta fechada, ele se lembrou do sonho. Foi um sonho muito estranho e aquilo lhe causava um arrepio. Ele se sentiu tenso de repente. Respirando fundo, Zell abriu a porta lentamente. Estava escuro e ele acendeu as luzes fracas do aposento. Ele caminhou cuidadosamente e procurou pelo lugar em que vira o homem do sonho pegar a caixa. Para a sua frustração, não havia caixa nenhuma como no sonho em lugar algum. Até que então, ele sentiu uma presença por trás...

Seu coração começou a bater mais rápido e ele pensou que desmaiaria.

- O que você tá fazendo aqui?

Zell se sobressaltou de susto. Então viu o loiro alto olhando para ele.

- Eu tô procurando uma coisa.

- O quê?

- Uma caixa.

-? – Seifer arqueou uma sobrancelha.

- Eu vi... Você não vai acreditar em mim...

- O quê, Zell? – Seifer perguntou pacientemente.

- Eu tô procurando uma caixa preta.

- Essa aqui? – Seifer apontou para uma caixa na mesa logo ao lado do outro loiro.

-...- Era o local onde o homem depositou a caixa em seu sonho. – É... – Zell olhou para ela, criando coragem para abri-la.

- Não seja uma galinha medrosa e abre logo a caixa.

Zell respirou fundo e a abriu. Havia um álbum dento. Seus olhos visualizaram as páginas e, de repente, ele sorriu. Havia fotos de família. Fotos alegres. – Olha isso.

Seifer olhou para uma foto de dois meninos correndo atrás de um cachorro. – Hum...

-...- Zell olhou para a foto. – Você tá bem?

- É... É... um bom álbum. – Ele virou as páginas. – Eu acho que se eu tivesse uma família eu estaria em uma fotos dessas, fazendo cara feia como esse muleque. – O jovem apontou para um memino emburrado.

- Ah... mas a Selphie tira bastante foto, eu aposto que ela tem uma com você olhando com raiva.

- É, acho que sim.

- Por que você veio aqui?

- Ah, é, eu tava procurando uma vara de pescar que eu encontrei uns dias atrás.

- Você vai pescar?

- Vou.

- Agora?

- É...

- Por quê?

- Porque eu quero.

- Sozinho?

- É... – Seifer olhou ao redor e achou a vara e outros equipamentos de pesca. – A não ser que você queira vir comigo.

- Parece chato, posso levar o meu...

- Não! Eu não quero você fazendo barulho com seus jogos e assustado os peixes.

- Tá... – Zell pegou o álbum de fotos, decidido a pedir na manhã seguinte para que Laguna o entregasse à antiga dona da casa. Então ele andou em direção à porta. – Até mais tarde. – O jovem tatuado olhou para trás brevemente e deixou o porão.

Seifer suspirou, pegou o equipamento de pesca e desligou as luzes. Andando lentamente, ele continuou pensando em Zell e o comportamento estranho dele na casa... O loiro não podia negar que havia algo de errado com o lugar... Mas ele não podia se deixar ter medo.

Deixando aqueles pensamentos de lado, Seifer se concentrou em sentir o ar frio da noite contra a sua pele. Ele sentiu o aroma das flores e das folhas no solo, aquele cheiro característico da natureza, caminhando em seguida até o rio, aproveitando a solidão da floresta. Às vezes, era bom ficar sozinho. Era por isso que ele gostava de pescar. Ele poderia ficar lá, com todo o tempo para si. Tempo para pensar na sua vida, sobre os seus planos, sobre o seu futuro.

Ao chegar ao rio, Seifer pegou o barco e o soltou das correntes que o prendiam no lugar. No entanto, ele parou, sentindo uma presença.

- Eu prometo que eu não trouxe nenhum jogo.

Seifer apenas encarou Zell por um longo tempo até finalmente dizer:

- Você teve muita coragem para caminhar até aqui de noite.

- Eu queria ficar com você... Quer dizer... Talvez pescar seja interessante.

- Tá. – Seifer indicou para que Zell subisse no barco e então o levou para águas mais profundas.

Logo, os dois estavam um pouco distantes da margem do rio, no meio de água, água e água. Zell estava um pouco preocupado com o barco sacudindo levemente com as pequenas ondas, mas rezou para que ele não virasse.

- Relaxa. – Seifer fixou sua vara após jogar a isca.

- Bom... – Zell sentiu o barco se movendo suavemente com o rio. E a lua estava brilhando tão forte no céu, que os raios estavam criando linhas prateadas na água. Os grilos cantavam e as corujas murmuravam.

É chato.

Zell olhou para Seifer e viu a sua expressão compenetrada. Ele olhou na direção do olhar verde e só encontrou água.

O garoto não conseguia entender por que Seifer gostava tanto daquilo. No entanto, ele parecia em paz. Seu corpo estava relaxado e seu rosto bonito estava bem calmo. Sem comentários cruéis, sem piadas, sem sorrisos de escárnio.

- Vem aqui. – Seifer olhou para Zell.

O loirinho tentou se aproximar o mais ligeiramente possível para não virar o barco. Vitoriosamente, ele encostou sua cabeça no colo de Seifer e sentiu uma das mãos dele acariciar sua face tatuada.

Era bom.

Pescar não era tão ruim assim.

xxx

O corpo de Irvine estava pressionado contra o dele, enquanto Squall caminhava pelos corredores. O rapaz havia bebido e bebido e bebido perto da fogueira; era uma tarefa para o moreno levá-lo de volta ao quarto.

- Você poderia me ajudar aqui.

- Hmm? – Irvine grunhiu.

- Você poderia andar, pelo menos.

Irvine estava segurando firme em Squall para não cair no chão. – Tô tentando...

Squall suspirou e se concentrou na tarefa... Se talvez o outro garoto tivesse desmaiado, poderia ser mais fácil de carregá-lo... Mas, bêbado... ele tornava as coisas mais difíceis, cambaleando de um lado para o outro.

Finalmente o moreno chegou ao quarto e descarregou Irvine sobre a cama. O garoto de cabelos compridos reclamou e agarrou o travesseiro.

Squall observou o rapaz largado sobre a cama. Ele parecia ter adormecido. Também parecia quase inocente e isso fez o coração de Squall se apertar de adoração. Mas embora o moreno gostasse de olhar Irvine dormindo, uma conclusão frustrante tomou conta da sua mente: não haveria sexo para eles naquela noite.

Droga.

Ele fechou a porta gentilmente e perambulou pela casa. Olhando pela janela, ele viu Selphie e Quistis ainda conversando ao redor da fogueira. Nida e Rinoa haviam ido para o quarto.

Aonde ir então?

Seus passos o levaram até o piso principal, e ele decidiu entrar na sala de jogos, olhar para a coleção de arma do seu pai. Depois de entrar no cômodo, ele viu que não estava sozinho ali. Laguna estava olhando fixamente para uma arma em particular. Uma metralhadora. Ele tocou o vidro que a protegia com a ponta dos dedos e pareceu perdido em pensamentos.

- Não consegue dormir? – o homem perguntou sem nem ao menos olhar para o garoto.

- Eu não gosto de dormir. – Squall arqueou uma sobrancelha. – Como você sabia que eu estava aqui?

- De algum jeito, eu sempre fico alerta quando alguém se aproxima. – Laguna se virou. – E eu sabia que era você, porque eu conheço o jeito que você anda: é firme e preciso, mas os passos não têm exagero na força.

- Desculpa por interromper você.

Laguna sorriu. – Você não... Eu só... estava lembrando de algumas coisas.

- Velhos tempos?

- Por favor... Eu não gosto de pensar que eu sou tão velho. – Ele se aproximou do garoto. – Sabe, eu odiava a guerra, mas... havia algo nela que sempre me levava de volta para ela, me fazia pensar nela.

- Laguna... Eu...

-?

- Eu decidi entrar num curso na Garden. Eu quero me tornar um SeeD.

- Ah... Eu não sabia que você estava pensando nisso... Mas eu não posso dizer que isso me surpreende.

- Eu não sei por que eu disse isso, mas... eu achei que eu devia dizer.

- É a decisão final? Você já se decidiu?

- Acho que sim.

Laguna suspirou e andou em direção à porta, então ele parou ao lado do seu filho. – Squall?

- Que é?

- Você quer ir comigo a um lugar?

Por que não?

Logo, eles estavam caminhando pela floresta. Andando e andando por um longo tempo, até Squall começar desconfiar.

- Tá perdido?

- Ah... – Laguna parou. – Não... É só que... o caminho parece mais longo do que eu lembrava.

- Você esqueceu o caminho?

- Acho que não...

Eles voltaram a andar e quando Squall viu a mesma árvore pela terceira vez, ele parou.

- Talvez... Talvez eu tenha esquecido uma parte do caminho – Laguna disse, pensativo.

- Vamos voltar.

- Você está desapontado comigo? – Laguna olhou para baixo.

- Não... é só... que não adianta andar sem saber para onde.

- Eu sei para onde!

- Você só não sabe como.

-...

-...

- Squall... – Laguna olhou para o jovem. – Só...

-...?

- Fica aqui comigo... – ele suspirou. – Pelo menos mais um pouco... Eu não sei quando nós vamos ter tempo para nos encontrarmos de novo depois que a viagem acabar.

- Laguna...

- Eu vou sentir a sua falta.

Squall andou na direção do homem e parou ao lado dele, indeciso no que faria, mas finalmente ele segurou a mão dele. – Vamos indo então.

Laguna sorriu. – Eu acho que é por aqui.

Enquanto eles andavam pela noite, Squall olhava às vezes para o rosto do homem, estudando as feições atraentes iluminadas pelo luar. E ele sentia um misto de doce admiração e culpa. Era o pai dele afinal de contas.

É tão estranho.

Os dois chegaram a uma clareira no meio da floresta; dali, eles podiam ver uma lua cheia, enorme no céu. A terra estava decorada com um gramado alto e flores brancas - com várias pétalas finas, criando uma forma circular sobre os caules altos.

Laguna se deitou no gramado macio e Squall sentiu-se encorajado a deitar ao lado dele. A vegetação sob o seu corpo fazia o local ser confortável para descansar, e apenas ficar lá, olhando as estrelas no horizonte.

- Eu adoro este lugar. Eu encontrei ele quando eu tava andando pela floresta uns anos atrás.

- Quando você tava perdido?

-... – Laguna franziu o cenho. – Mais ou menos isso.

Squall tentou abafar seu riso.

- Ah... você acha engraçado?

- Talvez...

- Eu fico feliz, sabia, que agora você possa rir de mim... que você não está com raiva de mim. – Ele virou-se de lado parar observar Squall deitado. – Quando eu te vi pela primeira vez... Quando eu vi você... Eu queria tanto ser parte da sua vida, compensar pelo tempo perdido... o tempo que a gente podia ter passado juntos... Pelo menos... Nesses dias a gente pôde ficar junto, e isso significou muito para mim.

Squall prendeu a respiração. Mesmo que, lá no fundo, ele gostasse do que Laguna estava contando, ele ainda se sentia meio desconfortável com aqueles tipos de situações... O jovem não lidava tão facilmente com sentimentos. Então ele permaneceu em silêncio.

- Eu te amo, sabia?

Squall fechou os olhos após escutar aquelas palavras, e continuou apenas escutando o que Laguna dizia:

- Você é tão importante pra mim... Eu tenho que confessar que, antes de encontrar você, eu pensava que você era importante pra mim, mas eu estava mentindo pra mim mesmo, eu estava tentando sentir o que eu achava que eu deveria sentir, mas agora... Agora que eu conheço você... pelo menos uma pequena parte de você, agora eu posso sentir o que você significa pra mim... E você me deixou todo confuso, e eu não sei exatamente como esse amor por você funciona, mas eu realmente amo você.

Squall sentiu a brisa da noite acariciar a sua pele e o cheiro das flores brancas. – Eu sei - ele finalmente disse, depois de um breve momento de silêncio.

Laguna se aproximou e olhou para a expressão tranquila no rosto do jovem. – Mesmo que a gente fique distante, eu prometo que eu vou estar aqui quando você precisar... Afinal de contas, eu sou o seu... Eu sou alguém que sempre vai estar aqui... De agora em diante...

- Não... Não prometa nada.

Laguna demonstrou tristeza em sua expressão ao ouvir aquelas palavras, mas acabou concordando. – Ok.

Squall abriu os olhos e o encarou. – Obrigado, Laguna.

O sorriso do homem voltou a brilhar novamente, aquilo significava tanto para ele.

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O sol estava alto no céu e castigava os corpos do grupo com o seu calor. Eles haviam arrumado as malas de manhã e comido o último café-da-manhã na casa. Era hora de dizer adeus ao lugar.

Os jovens haviam caminhado até o local onde a Ragnarok estaria pousada, esperando pela chegada deles. Eles estavam quase prontos para embarcar, só mais algumas malas para levar para dentro.

Squall olhou para trás e viu o caminho que eles haviam tomado e foi repentinamente tomado por uma série de lembranças da viagem. Os momentos tristes, os momentos de frustração, os momentos confusos e então... os bons momentos. Com certeza, eles encheriam sua mente de lembranças maravilhosas. Fora as horas caóticas que eles passaram, os momentos de desespero, a viagem havia valido a pena.

Definitivamente.

- Você tá sorrindo, Leonhart? – O loiro arqueou uma sobrancelha ao ver a expressão inesperada.

-...

- Ah, Seifer, cê tá ficando louco? Você sabe que ele não nasceu com a habilidade de sorrir... – Quistis carregava uma mala pesada para a Ragnarok, até parar repentinamente. – Ei... a gente não esqueceu alguma coisa?

- A câmera tá aqui! – Selphie exclamou. – Ou a gente esqueceu as fantasias?

- Não – Irvine disse. – Você me fez carregar elas... – O garoto estava levando uma porção de caixas.

- E o material do picnic?

-...Aqui... – Zell estava tendo dificuldades em se equilibrar, carregando tantas coisas.

- Ei... – Rinoa interrompeu seus passos.

- O que é? – Nida perguntou.

- Eu pensei...

- Ragnarok está pronta! – Laguna gritou da aeronave. – Vocês vêm? – O homem acenou para o grupo e todos correram naquela direção.

Depois de alguns minutos, tudo estava em seu lugar e os jovens tomaram seus assentos. Foi só depois de Ragnarok estar voando por algumas horas que alguém se lembrou do que eles haviam esquecido.

Trabalho de escola?

Eles teriam de se reunir novamente durante a noite para apressar o dever antes da manhã seguinte...

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Fim

Obrigado a todos que leram até aqui, em especial para a Lyara, que sempre me deu forças para eu continuar esse trabalho. Essa foi uma experiência interessante, trabalhar com alguns casais que eu não tinha trabalhado, foi um desafio para mim. Bom, eu gosto muito do Irvine com o Squall, e acho que não conseguiria separá-los, mas, às vezes eu imagino ele visitando o Laguna em Esthar... Espero que não tenham ficado tão tristes por eles não terminarem juntos. Eu queria que essa relação deles se desenvolvesse de uma forte atração (cheia de culpa e desejo), até a aceitação do Squall em ter o Laguna fazendo parte da vida dele, como alguém importante para ele, independentemente do nome que ele desse a esse papel (pai, amante, amigo), talvez uma definição não fosse tão importante.

Pode ter parecido que eu deixei algo inacabado sobre a casa ser assombrada, mas eu realmente escrevi o que eu planejei. Nunca fora a minha intenção fazer desta uma história de terror séria, eu só sugeri que deveriam haver algumas energias sobrenaturais na casa, como eu acho que pode acontecer na vida real. Algumas pessoas dizem sentir algo estranho sobre certos lugares e que não sabem exatamente o porquê; no entanto, a vida continua.

Desculpem-me se esta não é uma das minhas melhores histórias. Acho que trabalhar com tantos personagens e com tantos casais que eu não tenho o costume dificultaram bastante.

Bom, para quem se interessar, eu tenho um próximo projeto de uma fic do Seifer com o Squall, acho que em algum tempo sai.

Obrigado a todos mais uma vez!